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05-06-2008
FELIPE CHAIMOVICH O mundo de Cícero Dias começou no Recife e acabou em Paris. Entre o nascimento em 1908 e a morte, em 2003, produziu uma das obras-chave do nosso primeiro modernismo. O Museu de Arte Brasileira da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) reúne agora parte de seus quadros das décadas de 20 e 30, período em que se misturam a antropofagia, o surreal e um lirismo peculiar. Em 1925, ele foi para o Rio de Janeiro estudar arquitetura na Escola Nacional de Belas-Artes. A instituição passava por conflitos reformistas, recentemente avivados pelo acontecimento da Semana de 22. Dias logo abraçou a causa moderna, abandonando a formação de arquiteto para se dedicar ao estudo da pintura. Em 1937, emigraria para a Europa, estabelecendo-se definitivamente em Paris desde 1945. O frescor dos primeiros trabalhos ia de encontro à valorização dos traços primitivos por parte dos modernistas. As obras mais antigas da mostra revelam bustos masculinos de terno, desproporcionalmente grandes e enterrados até a cintura: a "Cabra Cega" (1928), "Os Senhores da Terra" e "Meu Tio". Desde essa fase, ele exibe maestria na aquarela, combinada com o nanquim sobre papel. O traço esguio e as figuras delicadas convivem com campos de cores suaves, como no "Retrato de Manuel Bandeira", dos anos 30. Dessa época data a colaboração com Gilberto Freyre. A primeira edição do clássico "Casa-Grande e Senzala" (1933) ganhou a ilustração do engenho Noruega por Dias, aquarelada individualmente em cada um dos exemplares. Um dos originais do livro está em exposição. O contato com o grupo da antropofagia é evidenciado por um singular desenho art déco em preto-e-branco, retratando Tarsila do Amaral em 1929. A licença poética vai tomando força nas composições surrealistas. Em "Sonho", uma cabeça se desprende do corpo desnudo; em "Mulher Nadando" (1930), mergulha-se no azul profundo. A sexualidade é figurada uma e outra vez, como em "Sonho da Prostituta" (1930). Contudo um lado mais sombrio acompanha o artista. "Noivos" apresenta fusão de um casal, em que a negritude do terno masculino acaba por anular a brancura do vestido nupcial. Em "Morte", um cadáver cinza é devorado por pássaros pretos diante de mulher avermelhada aos prantos. Todavia Cícero Dias perde a facilidade no trato com o óleo. Seu traço fica tosco em contraste com a fluência das aquarelas. Em "Família de Luto" (1929), oito personagens distribuem-se em torno de um sofá, porém o pouco tempo de estudo de pintura se evidencia pela má distribuição das luzes. O famoso painel "Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife" (1926-29) ganhou sala própria. Reencontramos a narrativa aquarelada que se estende por 15 metros, com planos superpostos e perspectiva fragmentada. Exposto no primeiro Salão de Belas-Artes sob comando dos modernistas, em 1931, causou polêmica em seu tempo. Hoje parece ingênuo, envolto na atmosfera antiga de um Brasil que já não é mais. Cícero Dias (© Folha de S. Paulo) Saiba mais sobre Cícero Dias - Especial Estado de S. Paulo
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