05-06-2008
Fabio Motta/AE

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CD e DVD:
mistura bem contemporânea de instrumentos acústicos e elétricos |
Compositor mesclou o repertório da apresentação a canções que estariam
no CD de samba, interrompido pelo cargo de Ministro da Cultura
JOSÉ TELES
RIO – “A origem foi na Assembléia Geral da ONU, setembro de 2003,
quando fiz aquele show, que tinha um repertório que era sobre a cultura da
paz, o conserto das nações, da concórdia do mundo, a convite do Secretário
Kofi Anan. É basicamente o mesmo repertório com algumas substituições.
Recompus o repertório, mas não recompus o conceito.” O Ministro da Cultura
Gilberto Gil explica de onde veio a idéia para fazer o Eletroacústico
(Warner Music), DVD e CD, que ele lançou, na última sexta, com uma
coletiva na varanda do casarão do estúdio da GG Produções, na Estrada da
Gávea, no Rio, situada numa região bucólica, com vista para o Cristo
Redentor e, paradoxalmente, para a Favela da Rocinha.
O show da ONU (do qual são mostradas cenas nos extras do DVD) não teria
sido gravado não fosse pelo recentemente falecido produtor Tom Capone, que
sugeriu e convenceu Gil a fazê-lo (a ele, Capone, é dedicado a obra). Para
apresentar-se na ONU, Gil diz que tinha que levar poucos músicos, por não
conhecer o auditório da entidade, que supunha austero, frio: “Procurei
fazer uma coisa em que pudesse ficar mais defendido na minha coisa de voz
e violão, e botei dois músicos, um percussionista, e um guitarrista
multicordas. Não tinha baixo, nem bateria. Por outro lado, eu, sendo
Ministro, tendo que cumprir uma agenda, não podia manter uma banda, então
parti para uma solução minimalista.Aproveitei que tinha dado certo e
insisti na dimensão pequena, eletroacústica”.
Foi assim que surgiu a formação instrumental deste show híbrido,
mesclando as batidas eletrônicas de Marcos Suzano, com os tambores afros
de Gustavo de Dalva. Com a prolixidade que lhe é característica, Gilberto
Gil lembra texto de um músico erudito, que, em artigo de jornal, criticou
o fato de ser chamada de eletrônica a música pop que se faz para as
pistas, alegando que o termo só é aplicável à música erudita experimental:
“Gosto de trazer um equilíbrio entre estas coisas. Eu sou da música
desqualificada, então gosto de atribuir qualidade ao que é
convencionalmente desqualificado, daí disse, bom, deixa eu me apropriar da
dimensão eletro eletrônica no contexto da música popular”.
Gil inclui no trabalho algumas músicas pinçadas do repertório do CD de
sambas que ele havia anunciado e que está arquivado, por causa do cargo
público que ocupa. Do projeto veio a versão bossanovista de Imagine,
o utópico hino de John Lennon, e a ligação entre A Rita, de Chico
Buarque, e Mãe solteira, de Wilson Batista: “Uma conta uma briga de
um casal pequeno-burguês, a outra é a história de uma pessoa do morro,
negra, pobre, que se suicida”, comenta o ministro, ressaltando que o
projeto de sambas não está descartado, e que deverá incluir alguns dos
seus primeiros sambas, feitos em 1962.
Ele revela que o ministério o ocupa de tal forma que ainda não
conseguiu compor uma única canção desde que virou Ministro: “Não dá. O
tempo da canção é exigente, tirano. Você tem que dar a uma canção 24
horas, porque pode levantar no meio da noite com a idéia na cabeça, ou na
hora de dormir você está com uma idéia em marcha e não pode ir pra cama. E
tenho que ir pra cama, porque acordo às sete”.
(© JC Online)
CD é conceitual:
traz religião, condições sociais e tecnologia
Com 14 faixas, o CD perde sua importância e impacto se confrontado com o
conteúdo do DVD. Além, obviamente, das imagens do show, captadas em som
digital 5.1 surround, o DVD tem cinco músicas a mais (Imagine está
apenas no CD), traz um trecho de Gil na apresentação na ONU (cantando
Filhos de Gandhi, Não chores mais, e Soy loco por ti América),
e entrevistas com ele e os músicos que o acompanham no show.
Em palco, Gilberto Gil é soberano. Aos 62 anos de idade, ele está até
mais desenvolto do que, por exemplo, em 1978, quando gravou seu primeiro
grande álbum ao vivo, em Montreux.
O repertório também sai do trivial variado. Ou seja, geralmente, o
artista faz show do último disco, com seus sucessos. Aqui não, o
repertório é todo conceitual, lida com situações, condições sociais,
religiosas, tecnológicas: Começa com Refavela, passa pelo reggae
Touche pás à mon pote, o tango Cambalache, Guerra santa,
pelo Maracatu atômico (que tem participação de Jorge Mautner). Une
a Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, aos Three
little birds (três passarinhos) de Bob Marley.
São ao todo 19 canções. Um conceito que não interfere nem entrava o
desenrolar do show, um dos melhores feitos por Gil, nos últimos anos.
Ainda mais pela variedade de estilos, autores e timbres.
(© JC Online)
Para os fãs, aquele abraço
Em meio a crises de seu ministério, Gilberto Gil lança
CD e DVD médios
MARTHA MENDONÇA
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divulgação
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SECA
Atarefado, Gil não compõe mais
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Em setembro, o ministro da
Cultura, Gilberto Gil, deu um intervalo na agenda política e fez três
espetáculos no Canecão. O show, que levou o nome de Eletracústico,
sai agora em CD pela gravadora Warner e também foi registrado em DVD. Não há
canções inéditas. Traz 14 músicas conhecidas - próprias e de outros -, como
''Andar com Fé'', ''Refavela'' e ''Se Eu Quiser Falar com Deus'', com
roupagens diferentes, mas nem sempre brilhantes. ''A Linha e o Linho'',
acompanhada por acordeão, funciona. Já os clássicos ''Aquele Abraço'' e ''A
Rita'', de Chico Buarque, não inovam. A inclusão de ''Imagine'', de John
Lennon, dá um ar de fórmula fácil ao disco.
Gil tem ''inibido os impulsos por
falta de tempo'', como costuma explicar aos amigos e fãs que apreciam sua
genialidade. Não é para menos: desde que assumiu a pasta, há quase dois
anos, o ministro tem se desgastado em questões internas e projetos
polêmicos. Agora enfrenta uma greve de servidores que dura mais de uma
semana.
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Lançamento
Eletracústico
Artista
Gilberto Gil
Gravadora
Warner
Preço
R$ 29,90 |
(© Revista ÉPOCA)
Gil lança primeiro disco depois da vida política
Sai em disco e DVD Eletracústico, uma
seleção das canções do primeiro show de Gilberto Gil como ministro
Ouça
a faixa La lune de Gorée
Jotabê Medeiros
São Paulo -
Eletracústico foi antes um espetáculo que
Gilberto Gil estreou na noite de sexta-feira 13 de agosto, no Directv Music
Hall, no primeiro show depois de ocupar o cargo de ministro da Cultura. O
espetáculo definido por Gil como uma mistura bem contemporânea de
instrumentos acústicos e elétricos, não só convenceu naquela noite e nas
seguintes, em São Paulo e no Rio, como gerou um disco e um DVD do
ministro-cantor, lançado agora pela Warner Music.
Fundado em novos arranjos para velhos sucessos e sustentado pelo pandeiro
eletrificado de Marcos Suzano, Gilberto Gil selecionou 14 daquelas 22
canções do show. Como carro-chefe de Eletracústico, a velha canção
Maracatu Atômico de Jorge Mautner, pontuada pelo diálogo entre dois
tipos de percussão em andamentos diferentes, com fundamentos de repetição
eletrônica e improviso humano.
Nessa ensolarada sexta-feira carioca, na Estrada da Gávea, vestido
convenientemente todo de branco, Gil explicou algumas escolhas (o show tinha
22 canções, o DVD tem 19, o disco só tem 14). "Preferi La Lune de Gorée,
por exemplo, a Touche pas a Mon Pote, porque La Lune era uma opção
mais curiosa, uma música menos conhecida, e eu a tinha cantado no show da
ONU, ela se reacendeu naquele show", lembra.
O DVD também traz alguns extras com imagens daquela apresentação, menos o
momento em que o secretário-geral da ONU, Kofi Anan, tocou percussão com o
ministro (isso exigira uma negociação de direitos de imagem, que ele
preferiu evitar). Dali, saiu sua versão sincopada de Imagine, de John
Lennon, poderoso cartão de visitas de um militante do pacifismo.
Fez 14 shows na Europa, com Mautner como convidado. Dali, vieram as novas
versões para o tango Cambalache (de Enrique Santos Discépolo, de
1934), e o resgate de Chuck Berry Fields Forever (1976). E não faltam
as canções de baião, forró e reggae dos últimos anos, como Asa Branca
(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e Three Little Birds (Bob Marley).
Nota-se que o ministro-cantor, embora tenha retomado sua atividade
criativa de artista após dois anos de embate ministerial, sente-se cada vez
mais à vontade no território da política.
(©
estadao.com.br)
A música dos pequenos choques da
política
Hugo Sukman
Não estivesse ministro — e ele frisa por duas vezes a expressão “estou
ministro” de Eduardo Portella, ministro da Educação e Cultura de Figueiredo
— talvez Gilberto Gil não fizesse um CD e um DVD tão sutilmente políticos.
Mas ele está, e “Eletracústico” (Warner), primeiro disco desde que assumiu o
Ministério da Cultura, reflete essa vivência.
— Shows, historicamente, para artistas como eu, são sempre momentos de
manifestação, de manifestar como no momento o mundo é visto — diz Gil,
referindo-se ao show “Eletracústico” que, gravado no Canecão em setembro
gerou o CD e o DVD ao vivo que lança esta semana. — Acho natural que o fato
de eu estar ministro hoje influa na minha leitura artística das coisas.
“Eletracústico” é político na forma e no conteúdo. É composto por pequenos
choques entre idéias e canções, a começar pelo título.
— São choques de eletrônico com acústico, de tradição com modernidade — diz.
— Os pedaços do mundo se chocando uns contra os outros, isso é político. Os
sobrevôos amplos sobre a cidade dos homens para ver o que acontece nela,
isso é a política. Mas é uma leitura difícil. São descobertas através da
audição focada, atenta. Se não, é um recital.
A “leitura focada” revela a versão de “Refavela”, reafirmação da música que,
em 1977, previa caminhos da cultura brasileira — “A refavela/Revela o
passo/Com que caminha a geração/Do black jovem/Do black-Rio/Da nova dança no
salão” — adivinhando o funk.
— O papel do artista às vezes é o da antecipação — afirma.
Há, entre os “pequenos choques”, o cinismo do tango “Cambalache” (“Que el
mundo fue y será una porqueria ya lo sé...”) e o manifesto inocente de John
Lennon “Imagine” (em forma de bossa nova); há a presença de um samba-canção
tradicionalíssimo de Gil como “A linha e o linho” (cantada com “sotaque” de
cantor antigo e conduzido por um plangente bandolim) com um “Maracatu
atômico” e eletrônico; o choque dos sambistas de classes diferentes, Chico
Buarque e Wilson Batista, cantando histórias de mulheres diferentes, “A
Rita” e “Mãe solteira”.
— Há “Guerra Santa” e o “Soy loco por ti America”, colocadas lado a lado,
discutindo a questão da liberdade de expressão, da democracia, dos sistemas
políticos — diz.
O projeto nasceu político, a partir do show de Gil na ONU, a convite de Kofi
Annan. Daí o grupo pequeno — Gil (violão e voz), Sérgio Chiavazzoli (cordas
dedilhadas) e Gustavo di Dalva (percussões), depois acrescido de Marcos
Suzano (percussão) e Cícero Assis (acordeom e teclados) — o formato meio
acústico, meio eletrônico e as canções de caráter humanístico.
— Poderia ter feito um show de sucessos. Mas como tenho sempre uma
inquietude, acabo mexendo sempre no sentido do não convencional — diz.
Em termos da política mais comezinha, Gil não se preocupa com os boatos de
que sairia do governo na reforma ministerial:
— Não faço idéia do que se passa na cabeça do presidente. Os indícios dele,
do governo e da sociedade são de que o ministério vai bem na nossa gestão.
Enquanto eu tiver o mandato concedido pelo presidente, estarei lá. Se não,
não.
(© O Globo)
Gilberto Gil lança CD e DVD de
'Eletracústico', no qual se afirma como 'ministrartista'
Leonardo Lichote
Globo Online
RIO - Na entrevista coletiva de lançamento do CD e do DVD ''Eletracústico''
(Warner), realizada nesta sexta-feira, Gilberto Gil confirmou em cada fala
que a obra, como anunciado já no nome, marca encontros de universos
diferentes. E não apenas o diálogo entre eletro e acústico, o conceito
central do show gravado em setembro no Canecão. O projeto põe a utopia - nas
propostas de ''Imagine'' - frente a frente com a realidade profundamente
crua - da personagem suicida de ''Mulher solteira'' (esta só no DVD). E,
sobretudo, marca o encontro do ministro com o artista. Não por acaso, ele se
refere ao disco como ''um programa de governo planetário''. Juntamente com o
''eletracústico'', Gil mergulha em outro conceito: o ''ministrartista''.
- O projeto nasceu do show que fiz na Onu em 2003, convidado pelo secretário
Kofi Annan . A idéia de pensar a cultura da paz, o conceito de nações
unidas, a bomba atômica, o terrorismo, moveu o "Eletracústico" - conceitua.
- Penso nas várias relações entre os sistemas econômicos e no papel da
cultura no meio disso tudo, é uma espécie de agenda pós-tropicalista.
Como "eletracústico", o conceito de "ministrartista" não é tão direto assim:
- Se ser ministro me influencia como artista? Sim, e já me influenciava
antes de eu ser ministro - respondeu com esperta ambigüidade à pergunta da
repórter.
Se de certa forma Gil sempre procurou ser um ''ministrartista'', a idéia de
desenvolver uma sonoridade que misturasse instrumentos eletrônicos e
acústicos é mais recente. As primeiras mostras mais concretas disso estão no
CD ''Quanta gente veio ver'', de 1998, que trazia um CD-bônus de remixes.
Mas o próprio Gil relativiza o conceito criado por ele.
- Tudo é eletracústico, de alguma maneira. Até João Gilberto. Nos teatros em
que ele toca, há quase sempre um sistema de amplificação, com o qual ele
costuma lutar para soar acústico. No meu disco, o timbau e o bandolim são
acústicos? Sim, mas não só, pois estão ligados em microfones, eletrificados.
A novidade que existe hoje é o uso da máquina de ritmos, dos instrumentos
eletrônicos.
O projeto é dedicado ao produtor Tom Capone, morto num acidente
automobilístico em Los Angeles no início de setembro último. Ele é, segundo
Gil, o grande responsável pelo CD e DVD.
- Estou lançando-os porque Tom Capone me pediu. Ele era reticente com
relação ao projeto, mas na primeira vez em que assistiu o show, disse:
"Entendi, professor".
A escolha do repertório foi guiada pela idéia de pensar a relação entre as
nações, o tal "programa de governo planetário". Às vezes, isso fica óbvio,
como em "Imagine" e "Soy loco por ti America". Em outros, é menos direta,
apesar de igualmente pertinente. É o caso de "A Rita" (Chico Buarque) e "Mãe
solteira" (Wilson Batista e Jorge de Castro).
(Leia aqui a crítica do show e saiba mais sobre o repertório do disco) .
- Na escolha de um repertório deve-se fazer a contraposição, as exceções que
fogem do eixo central do disco. "A Rita" a princípio não tem nada a ver com
isso. Está ali porque é um samba da safra inicial de um dos maiores
compositores do Brasil, feito depois da bossa nova e que dialoga com a
tradição que veio antes dela. E quando canto "Mãe solteira" contraponho o
negro, pobre, falando da tragédia de uma mulher que se suicida, com "A
Rita", que é um pequeno burguês branco falando de uma mulher idílica,
provavelmente também pequeno burguesa. No fim, são questões que interessam
indiretamente às reflexões principais do disco.
(© O Globo)
O que pensa o 'ministrartista'
Leonardo Lichote
Globo Online
Tecnologia: Quando fiz "Lunik 9" havia a falta de informação, aliado a um
ceticismo, um saudosismo evocativo de uma quimera pastoril. Acreditávamos
que a máquina devia ficar restrita a um lugar bem definido, não podia
invadir espaços do humano. Como quando escrevi "Cérebro eletrônico" . A
realidade histórica tornou essa posição insustentável. "Pela internet" é uma
rendição ao trator da tecnologia. E quando você se rende, você perde, mas
também ganha ao passar para o lado vencedor.
Pirataria: Eu tenho que ter dupla visão sobre isso. Como autor, que vende
discos, tenho que ver como quem defende sua obra. Mas tem o outro lado, o da
marcha inexorável da cultura, que passa pelo plágio. Foi nessa marcha que
Walt Disney plagiou Buster Keaton para fazer sua primeira animação, é assim
que a cultura anda.
Família: Minha família não é uma família clássica. Isso em todos os meus
quatro casamentos. Hoje, com minha mulher, muitas vezes temos valores
invertidos, com ela assumindo o papel de mãe e eu de pai.
Morte: Eu cobiço a boa morte, essa dificuldade que se põe a todos os homens.
O que é a boa morte? A coincidência entre o fato real e a idealização que
você cria dele. A minha é bem velho, o mais possível, e sadio.
Ministério: Estou gostando de ser ministro, reprocessar meus atos, acordar
cedo, vestir gravata... Tive que entrar num diálogo com a opinião pública em
outra sintonia. Mas gostaria que meu serviço terminasse ao fim do primeiro
mandato de Lula.
Avaliação de seu trabalho no governo Lula: Uma das idéias básicas do
presidente quando me chamou foi trazer um homem público com visibilidade e
certa reputação positiva. O ministério hoje é mais visível na discussão
política, é mais presente na vida das pessoas. Não se andou muito em termos
de recursos, que ainda estão escassos. O funcionamento maquinal está melhor.
Tínhamos 0,2% do orçamento, passamos para 0,4%, mas venho gritando pelo 1%
recomendado pela Unesco. Conseguimos um aumento de renúncia fiscal pela Lei
Rouanet, aumentamos em 35% ou mais com relação à media dos últimos anos.
(© O Globo)
Originalmente publicado no dia 13 de setembro de 2004
Gilberto Gil grava seu novo CD, 'Eletracústico', no
Canecão
Leonardo Lichote
Globo Online
RIO - No último fim de semana (dias 10, 11 e 12 de setembro), Gilberto Gil
gravou no Canecão o espetáculo que virá a ser o CD "Eletracústico" - o
quarto "ao vivo" desde seu "Quanta gente veio ver", de 1998. Quer dizer que
teremos mais do ministro botando o povo pra cantar junto, em versões
empolgantes dos mesmos sucessos e das canções que acabaram de ser lançadas?
Não desta vez. Diferentemente dos recentes "ao vivo" do ministro, o disco
não é apenas a "versão palco" de um lançamento anterior. Como um projeto de
estúdio, "Eletracústico" tem conceito fechado e independente, resumido no
nome e na imagem que abre o show no telão ao fundo do palco: um violão que,
no lugar das cordas, traz fios plugados.
O ministro então teria embarcado na onda de salpicar eletrônica em qualquer
canto para posar de moderno? Também não. Gil se aproxima da eletrônica sem
deslumbramento e faz uma mistura que não fica com cara de mistura. A
percussão dos pads fala a mesma língua dos tambores, o acordeão dolente se
entrelaça ao bandolim distorcido por efeitos. Não há novidade, no sentido
deslumbrado do termo, no novo disco de Gil. O músico prefere manter-se novo,
como tem sido da levada capoeirística da guitarra de "Domingo no parque" ao
reggae sertanejo de "Three little birds". Como na citada imagem do violão
com plugues, eletrônica e acústica estão juntas e indissociáveis.
Eletracústico.
- Esse nome deveria denominar todas as manifestações musicais do nosso tempo
- disse no início do show, na noite de estréia.
Mais tarde, ele brincaria novamente com o conceito ao afinar o violão.
- A afinação também é eletrônica. Antigamente era no ouvido, agora é no
olho.
Projeto foi idéia de Tom Capone
O disco "Eletracústico" era um projeto do produtor Tom Capone, morto num
acidente automobilístico em Los Angeles no início de setembro. Com a morte
de Capone, Gil resolveu gravar no palco o CD, que originalmente seria de
estúdio. Liminha foi chamado para fazer a produção.
- Tom Capone já tinha arranjado tudo. Agora, estamos fazendo em sua memória,
em sua homenagem, pela saudade dele.
Sobre o repertório: sim, os fãs de Gil que comprarem o CD terão novas
versões de "Aquele abraço", "Drão", "Soy loco por ti America" e "Não chores
mais". Mas Gil também recria muitas canções de outros compositores, como o
tango "Cambalache" (E.S. Discépolo), já gravado por Caetano Veloso e que
agora ganha uma versão de causar inveja ao Gotan Project; "Imagine" (John
Lennon); "A Rita" (Chico Buarque); "Mãe solteira" (Wilson Batista e Jorge de
Castro); "Maracatu atômico" (Nelson Jacobina e Jorge Mautner), com
participação de Mautner e seu violino; "Three little birds" (Bob Marley),
que ganha cores drum'n bass; e "Asa branca" (Luiz Gonzaga).
De sua lavra, Gil toca também "Refavela"; "Andar com fé"; "Chuckberry fields
forever", rock gravado originalmente no LP "Doces Bárbaros" e que volta
agora com levada reggae; "A linha e o linho"; "Se eu quiser falar com Deus";
"Nos barracos da cidade"; "La lune de Gorée" e "Guerra santa", ambas do CD
"Quanta".
Projeções acompanham o conceito musical do show
Das canções freqüentes nos shows (e discos ao vivo) de Gil, até as mais
raras e inéditas, todas soam igualmente novas nas mãos do cantor e de sua
banda em "Eletracústico". Gustavo Di Dalva une ritmos ancestrais às batidas
contemporâneas do carnaval baiano, em alguns momentos extraindo timbres
metálicos que parecem eletrônicos. Em "Maracatu atômico", munido de seu
berimbau atômico, ele duela com o violino de Mautner. Já Marcos Suzano, à
frente de uma minimalista coleção de pads, consegue grooves e graves
improváveis com seus tambores sintéticos, além de provar mais uma vez que
reinventou o pandeiro, trazendo para ele a lógica das bpm eletrônicas. Com
guitarra, violão, banjo, cavaquinho ou bandolim, acústicos ou
eletronicamente modificados, Sérgio Chiavazzoli dá nova cor às canções com
seus timbres. O acordeão de Cícero Assis pontua o show alternando a alegria
e a melancolia nordestinas.
As projeções dos VJs Jodele e Spetto acompanham a lógica eletracústica do
show. Em "Refavela", "Andar com fé" e "Mãe solteira", antigas imagens como
lavadeiras, oferendas na água, barracos e desfiles do Filhos de Gandhi são
remixadas e ganham a cara do tempo fragmentado do século 21. "Aquele abraço"
mostra velhos clichês de carioquice - Pão de Acúcar, Cristo Redentor,
Maracanã, escudo do Flamengo - reagrupados de forma original.
Em "Eletracústico", é exatamente o que Gil faz: repensa e reescreve velhos
conceitos. Em "Imagine", ele vende um pacifismo ao mesmo tempo ingênuo (como
nos anos 60) e consciente de sua ingenuidade (como deve ser no século 21),
mostra novas cores do Rio em "Aquele abraço" e outros sentidos de "Guerra
santa" em tempos de Bush. E musicalmente, Gil parece crer que "eletrônico" e
"acústico" são como os deuses de que fala na canção: apenas sons diferentes
para sonhos iguais.
(© O Globo)
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