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Lenine lança sua trova eletrônica em CD e DVD

05-06-2008

Lenine

O disco Lenine in Cité, reúne canções que ele apresentou em Paris, com elogios do Le Monde. Ouça Virou Areia

Beatriz Coelho Silva

   Rio - Lenine in Cité é o título do CD e também do DVD do cantor reunindo canções compostas para sua apresentação na Cité de la Musique, em abril. Foi um sucesso, com casa lotada, derramados elogios no Le Monde.

   "O mote do disco é o trovador, figura surgida no século 11, que integra várias culturas pela música e da qual somos todos descendentes." Lenine é um trovador eletrônico. Mistura a música de seu Pernambuco natal com influências do Sudeste, onde vive há 25 anos. Aqui, demorou dez anos para o grande público entendê-lo (tempo entre "Baque Solto", disco de estréia, e "Olho de Peixe", primeiro a vender muito). Na França, foi paixão imediata e ele vende 30 mil cópias por álbum, número robusto para o mercado de lá. Lenine chega a públicos heterogêneos.

   "Há curiosos em todo lugar, mas os da França são especiais", elogia. "O jazz e a música africana floresceram lá e Pixinguinha, o primeiro brasileiro a fazer turnê no exterior, foi para a França."

   Lenine chega a públicos heterogêneos. Sua poesia torrencial esta em Todas Elas Juntas num Ser só, parceria com Carlos Rennó, citando musas, ou o samba Virou Areia (com Bráulio Tavares)."Lá me consideram rock", conta Lenine. E aqui, o que seria? "É difícil definir, pois o pop nunca foi tão brasileiro e a MPB nunca foi tão pop".

estadao.com.br)


Lenine reluz sob o céu de Paris

Cantor e compositor pernambucano lança em DVD e CD In Cité, novo disco de músicas inéditas, gravado na capital francesa ao vivo, durante dois shows

JOSÉ TELES
Enviado especial

   RIO DE JANEIRO – “É um trabalho sem gols do Fantástico, sem Melhores Momentos”, assim Lenine explica o repertório de inéditas de In Cité (Mameluco/BMG), DVD e CD, que ele lançou quinta, Rio (o DVD, no entanto só chega às lojas na segunda semana de dezembro). Acostumado a burilar canções ad nauseam, ou redefinir repertórios já definidos, na véspera de entrar em estúdio, desta vez ele agiu diferente. Trocou idéias com os parceiros habituais (Lula Queiroga, Bráulio Tavares, Ivan Santos, Carlos Rennó, Dudu Falcão) e assim foram criadas as músicas, especificamente para os dois shows que realizou em abril, no requintado teatro Cité de la Musique (parte do gigantesco complexo cultural de La Vilette) em Paris.

   “O convite foi feito em 2002. Queriam com antecedência que eu formatasse o show para 2004. Só no final do ano passado fui pensar no projeto. O primeiro nome que me veio foi Yusa, que conheci em Cuba, e faz parte da ultranovíssima trova cubana. O segundo foi o argentino Ramiro Musotto, porque já conhecia o trabalho dele com produção, e gostei muito do que fez em seu próprio disco”. Ele fala dos dois músicos que o acompanharam nessa curta temporada francesa, dentro do espírito da série Carte Blanche, ou Carta Branca (antes dele apenas um brasileiro, Caetano Veloso, havia sido convidado a fazê-la).

   Lenine lembra também que esta união de três músicos latino-americanos para ele é particularmente importante para estreitar laços com músicos de países que comungam de tantas afinidades, lingüísticas, culturais, históricas, mas que se ignoram mutuamente: “Na época em que havia muitas ditaduras no Continente, chegou a se ter esta união. Quando veio a democracia, acabou. Houve uma ou outra tentativa, dos Paralamas, de Fito Paez, Charly Garcia, porém nada muito forte”, analisa Lenine, que está entrando aos poucos neste mercado: “Em Cuba, por exemplo, assinei mais de cem discos, e tudo pirata. Como os disco não podem entrar lá, o pessoal só conseguiu conhecer meu trabalho assim. Descobri que há a pirataria do bem”, brinca.

   Além de tocar com outros músicos, Lenine diz que não queria repetir o que vem sendo feito no mercado brasileiro do DVD, qual seja, torná-lo um mero apêndice do CD: “Em geral é assim. O cara grava um CD, azeita as músicas desse CD na estrada, e depois grava isso, repetindo quase o mesmo que tem no CD. Ora, o DVD é um veículo novo, oferece outras possibilidades. O CD, no meu caso, virou subproduto do DVD, que ,além de sete músicas inéditas, não tem essa coisa do ‘prossiga’. Foram só os dois shows em Paris, quem viu, viu”.

   Não que o repertório de In Cité vá permanecer intocável, para todo o sempre. Em março, Lenine começa uma turnê nacional com sua banda (a primeira parada será, como acontece em todos os discos solo que lançou, no Recife): “Será bem diferente, outro processo. Com minha banda é bem mais rock and roll, mais power. Meus discos sempre receberam um upgrade no palco”, diz Lenine, não descartando que desa turnê saia mais um DVD: “Seria uma coisa bacana, nunca lancei nada ao vivo com a minha banda e certamente não será o mesmo ritmo, e nem sequer o mesmo título desde DVD”.

   A gravação de In Cité ocupou gente e recursos inusitados para a atual situação da economia brasileira no geral, e da indústria fonográfica particular. Uma equipe de cerca de 20 pessoas viajaram com Lenine para a França. Para registrar os dois shows foram alugadas as melhores unidades móveis, de áudio e vídeo, da Europa: “A BMG não teria como bancar um projeto desses. Então parti para os patrocínicios. Fui muito feliz em Pernambuco, com a Chesf, o Governo do Estado, a Arcos, e outros que me ajudaram a financiar o projeto. Tem esta coisa de o mecenato ser considerada uma coisa meio pejorativa. Mas você pega Bach, por exemplo. Só se conhece sua obra durante o período em que ele foi bancado por um aristocrata alemão. Será que não existiram outros Bach e ficaram desconhecidos por não ter encontrado um mecenas?”, deixa a pergunta no ar.

   O convite para o Charte Blanche, no caso de Lenine, não surpreende. Ele é hoje um dos artistas brasileiros mais conhecidos no país. Tanto é assim que foi convidado, para fazer o tema do ano da música brasileira na França, que acontece em 2005, encerrando uma série de homenagens à cultura de outros países, iniciada no governo e Miterrand. Lenine canta trechos de Sob o mesmo céu (composta com Lula Qureiroga), o tema da Saison Brésil 2005, e comenta sua ligação com a França: “Não sei explicar como isso se deu. Minha carreira lá fora era pulverizada. Vendia dois mil discos na Inglaterra, três mil na Suiça, e de repente, estava vendendo 30 mil de Na Pressão, na França. Lá não faço música para iniciados. Pertenço ao nicho do rock, tenho um público grande entre jovens, mais ou menos como no Brasil. Mas a França sempre foi uma porta aberta para toda cultura planetária. A primeira turnê de músicos populares do Brasil ao exterior foi para a França, com Pixinguinha e os Oitos Batutas, em 1922, um grande sucesso por lá”.

JC Online)


O trovador de canto imperativo e inspirado

   Antes de viajar para fazer os shows no Cité de la Musique, Lenine fechou o Mistura Fina, no Rio, e fez uma apresentação privê para os amigos, os parceiros. Parte desta reunião aparece no making off do DVD, filmada pelos amigos (entre os quais Lula Queiroga). Ele justifica: “Meu trabalho não é solitário. É feito com esse pessoal. E para eles faço música”, diz. O show quase não sofreu edição, mas o dinamismo nas imagens, a energia dos trio no palco, e as ótimas canções inéditas são um atrativo para que seja visto, escutado (o CD não traz o show completo, tem cerca de 52 minutos de áudio, terminando com os demorados aplausos da platéia no final do show).

   Ele ressalta que o conceito do show foi o de um trovador, onde o importante não é o músico, o cantor, mas o que ele tem a dizer, as suas canções. São canções, em sua maioria, em tempo imperativo. Faça. Do it (com Ivan Santos, um paraibano que vive na Alemanha), aliás, é a música que abre o repertório: “Se sujou cai fora/ Se dá pé, namora/ Tá doendo, chora/ Tá caindo, escora”. Com Carlos Rennó, Lenine fez duas parceria certeiras, Vivo, e Todas elas juntas numa só, espécie de remake refinado de Escultura, clássico kitsch de Nelson Gonçalves, assinado por Adelino Moreira. Aqui não se cita Madame Pompadour, ou Gioconda, e sim as musas da música popular: da doce Michelle de Lennon & McCartney, à miscigenada brasileira, de Herbert Vianna, passando pela metafórica lôra burra de Grabriel O Pensador, até a malemolemente Dora, rainha do frevo e do maracatu de Dorival Caymmi. Ressalte-se no DVD e CD, o inquieto baixo da cubana Yusa, e a percussão do portenho Musotto, que dão um molho especial ao prato refinado consumido inicialmente pelos franceses.

   Entre as canções já conhecidas, Lenine pescou, entre outras, de volta Areia, antes gravada por Batacotô e Dione Warwick, em 1993, Rosebud (O verbo e a verba), de Falange Canibal, Relampiano, de Na Pressão ou Tuareg nagô, de Olho de Peixe. Passado, presente e futuro da canção acondicionados num repertório que vem reafirmar e avalizar o acerto da escalação de Lenine na linha de ataque do primeiro time da seleção brasileira de música popular (J.T.)

JC Online)


Lenine, o trovador

Disco ao vivo em Paris põe o pernambucano na linha de frente dos cantautores nacionais
 

Marcelo Corrêa/ÉPOCA
SEMI-ACÚSTICO
Para o show na França, Lenine optou pela ''ênfase nas canções'', acompanhado por apenas dois músicos

   Até abril deste ano, apenas um brasileiro, Caetano Veloso, havia sido convidado para se apresentar na Cité de la Musique, casa de espetáculos de Paris. Com trabalhos de boa repercussão na Europa, o pernambucano Lenine foi o segundo. Não deitou na fama. Em vez de exibir apenas o melhor de seus - excelentes - cinco discos anteriores, lançou oito canções inéditas e ainda inovou: foi de violão em punho, acompanhado apenas por uma baixista-vocalista cubana, Yusa, e por um percussionista ''argentino-baiano'', Ramiro Musotto. O resultado é uma moderna força pan-americana capaz de pegar qualquer europeu pelo pé e fazer os brasileiros babar de orgulho.

   A linha condutora do trabalho, que também foi registrado num belo DVD a ser lançado no início de dezembro, é a idéia de que o mundo é povoado pelos ''cantautores'' - palavra que não existe na língua portuguesa, mas significa compositores que interpretam as próprias canções e, de certa forma, encarnam os trovadores, figuras originárias do século XI, no sul da França. Para Lenine, no repente nordestino, no rap e no hip-hop, no samba de partido alto, assim como no blues americano, na balalaica russa ou na sanfona francesa, há ''ecos dos trovadores''. Eles ''se apropriam da música de sua região para fazer sua versão, sua crônica dos acontecimentos'' - como define o artista num belo texto do encarte de Lenine in Cité.

   As letras de Lenine são mesmo um arauto de seu tempo. Um de seus maiores sucessos, ''Paciência'', é um hino à correria e à angústia contemporâneas: Enquanto todo mundo espera a cura do mal/E a loucura finge que isso tudo é normal(...)/O mundo vai girando cada vez mais veloz/A vida não pára. Da mesma forma, as inéditas do novo CD são recheadas de citações ao que se pode chamar de espírito do tempo: histórias, referências, descrições. Em ''Rosebud'', um duelo entre ''a verba e o verbo'' (O verbo gastou saliva de tanto falar para o nada/A verba era fria e calada, mas ele sabia, lhe dava valor). Na longuíssima ''Todas Elas Juntas num Só Ser'', Lenine lista à exaustão as musas de dezenas de canções brasileiras, numa declaração de amor à mulher, Anna, com quem está casado há 25 anos. Na forte ''Do It'', o compositor faz um hino contra a inércia: Tá cansada, senta/Se acredita, tenta/Se tá fora, entra/Se pediu, agüenta.

''Minha música leva mensagens de um povo e de um tempo''

   Em 21 anos de carreira, desde que lançou Baque Solto, em 1983, Lenine nunca deixou que o mercado o levasse. Tenta fazer de cada trabalho uma novidade e faz as coisas a sua maneira. Tanto que produz e dirige seus discos e shows por meio de sua produtora, a Mameluco. Lenine in Cité inaugura, inclusive, seu selo próprio, o Casa Nove, embora a distribuição seja da BMG. ''Faço as coisas para agradar a mim e aos meus. Por sorte, o público também está gostando'', diz.

   De tudo que compõe hoje, metade vai para outros intérpretes, como Elba Ramalho ou Maria Bethânia, fãs de carteirinha. Mas é na defesa de suas canções e - por que não? - na quentura das apresentações ao vivo que o artista mostra sua faceta mais original.

   Como o trovador da Idade Média com quem se identifica, na dureza ou na maciez de suas cordas, ele dá seu recado com personalidade que o torna um artista único. É o que faz do CD - e do DVD - Lenine in Cité uma obra essencial.

Lançamento
Lenine in Cité
Artista
Lenine
Gravadora
Casa Nova/BMG
Preço
R$ 30

Revista ÉPOCA)

 

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