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Uma alma a se restaurar

05-06-2008

Sávio Rolim, em cena de O Menino de Engenho

Documentário e livro mostram a triste realidade de Sávio Rolim, ator-mirim de 'O menino de engenho', clássico do Cinema Novo

Rodrigo Fonseca

   Houve um fotograma de O menino de engenho (1965), longa-metragem de estréia do diretor Walter Lima Jr., restaurado em 2003 pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, que não conseguiu se salvar. Talvez por ser feito de carne e osso. Sávio Rolim, ator nascido em Cajazeiras, Paraíba, foi descoberto em 1965, entre dezenas de candidatos, para viver Carlinhos, alter ego de José Lins do Rêgo (1901-1957), autor do romance homônimo no qual o filme se baseou. Aos 54 anos, Sávio, que é alcoólatra, hoje vive na absoluta miséria, em cortiço no Centro Histórico de João Pessoa. Conta com doações de desconhecidos para sobreviver e tem o aluguel (de R$ 50) pago por familiares.

   Longe dos holofotes, a imagem do que sobrou de Sávio foi registrada recentemente pelo cineasta e professor de jornalismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Lúcio Vilar, no documentário em média-metragem O menino e a bagaceira. Em 30 minutos, Vilar relembra a trajetória do Sávio adulto, que atuou em poucos filmes – como Bonitinha mas ordinária, de Braz Chediak (1981), e Memórias do cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos – até não conseguir abandonar mais a bebida. Faz ainda uma das raras entrevistas com o ator, que já o recebe com uma garrafa de cachaça na mão.

   – O Sávio de hoje é a cara de um Brasil marcado pela amnésia, pelo esquecimento. Apesar de sua importância, já que o filme ficou associado a ele, Sávio foi deletado da história – diz Vilar, que ouviu Walter Lima sobre o destino do astro-mirim. Walter diz que não encontra Sávio desde o fim da década de 70, mas lamenta seu estado:

   – Sávio é vítima de um desencontro. Ele se desencontrou de si mesmo.

   Para o aclamado diretor, o ator passou por um trauma:

   – Fiz teste com muitos garotos até que vi o Sávio rondando o local das provas e enxerguei nele a cara melancólica que Zé Lins descrevia. Ele poderia ter construído carreira, mas o cinema embotou sua tentativa e sua trajetória foi abortada. Quando isso acontece com crianças de uma cidade pequena, as cicatrizes são profundas.

   Buscando recursos para verter a produção (captada em câmera digital) para película, Vilar exibiu a fita a uma pequena platéia de jornalistas e cineastas no último Festival de Brasília, encerrado terça-feira. Na mesma ocasião, lançou o livro Menino de engenho – 40 anos depois (Ed. UFPB), organizado por ele e pelo jornalista Antônio Vicente Filho, que reúne, além de críticas e ensaios sobre o longa assinados por especialistas na obra de Walter Lima Jr. (como a antropóloga Ariana Timbó e o jornalista Carlos Alberto Mattos, seu biógrafo), uma série de fotos e depoimentos do ator.

   – A família de Sávio não é miserável. E sua mãe, Dona Marilda, ainda está viva, embora já tenha cerca de 90 anos. Mas, por todos os problemas que seu alcoolismo causou, ele acabou jogado na vida – diz Vilar.

   O diretor frisa sempre que Sávio não é rancoroso, ainda que tenha mostrado no documentário que, já adulto, o ator procurou Walter Lima para cobrar direitos autorais sobre o filme, um sucesso de público na época. O menino e a bagaceira mostra também um comovente depoimento de Sávio sobre o cineasta que lhe deu a primeira chance de brilhar: “Menino de engenho é um poema que Walter fez para o povo brasileiro...”

   Maria Lucia Dahl, que atuou com Sávio em Menino de engenho, chocou-se com as notícias do colega, que só costuma receber visitas da filha Nadja, de 23 anos, mãe de sua neta, Ketsia, uma desconhecida para ele segundo Lúcio:

   – A última vez que o vi foi há mais 20 anos. Lembro que vendia bugigangas como um camelô. É triste ouvir que ele, que era um menino doce, está assim.

   Autor de Walter Lima Jr. – Viver cinema, Carlos Alberto Mattos vê a situação como seqüela da obsessão pela ribalta:

   – É arriscado generalizar o caso como se fosse fruto de uma situação do cinema nacional. Ele reflete um tipo de síndrome de celebridade. É alguém sem estrutura psicológica para perceber que a vida não deve ser pautada pela ilusão.

   Vilar prefere não apontar causas para a desgraça do ator. Para ele, O menino e a bagaceira não é um filme denúncia, mas um pedido de socorro:

   – O papel do filme é chamar a atenção de pessoas que possam olhar por ele, ajudá-lo, mas exigindo em troca que ele faça algo pela sociedade. Algo que possa fazê-lo sentir-se útil.

JB Online)


Exorcizando um Brasil de Pixotes

   Uma tragédia traumatizou o cinema brasileiro no dia 25 de agosto de 1987. Foi nessa data que o ator Fernando Ramos da Silva enfrentou na vida real o mesmo destino de seu personagem em Pixote - A lei do mais fraco, de Hector Babenco. Aos 19 anos, Fernando - revelado ainda menino por Babenco naquele que por anos foi o filme brasileiro mais consagrado no exterior - foi morto pela polícia na região de Diadema, São Paulo, após cometer um furto e ser perseguido até a favela onde morava.

   A trajetória de Fernando foi contada pelo diretor José Joffily em Quem matou Pixote? (1996), com Cassiano Carneiro no papel central. O filme mostra como o ator conquistou o direito de protagonizar a adaptação de Babenco para o romance A infância dos mortos, de José Louzeiro, e como conviveu (ainda que por um breve período) com a notoriedade. Depois de Pixote, Fernando chegou a fazer participações em novelas da TV. Mas, sem emplacar, retornou à marginalidade.

   Mas não só casos trágicos marcaram a participação de atores-mirins nas telas nacionais. O melhor exemplo é Vinícius de Oliveira, o pequeno Josué de Central do Brasil (1998). Engraxate descoberto por Walter Salles, ele acompanhou toda a consagração do longa, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, no exterior, inclusive sua participação no Oscar. Paralelamente, estrelou na Globo a novela Suave veneno (1999), de Aguinaldo Silva, ao lado de Glória Pires. No teatro, fez Jovem Drummond, encarnando uma versão mirim do poeta de Itabira. Recentemente, foi visto no curta Bala perdida, de Victor Lopes. Especula-se que em 2005 ele estará no elenco de Linha de passe, novo longa de Walter.

   Outro caso exemplar envolve o elenco principal de Cidade de Deus. Depois de participar da minissérie Cidade dos homens, na Globo, Darlan Cunha, por exemplo, que viveu Filé com Fritas, vai estrelar Meu tio matou um cara, de Jorge Furtado.

JB Online)

 

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