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Garimpo de baião, xotes e xaxados

05-06-2008

A cantora Marinês

Seção nordestina de pacote da BMG recupera preciosidades na voz de Marinês e Ary Lobo

Tárik de Souza

   Maria Chiquinha, a maliciosa parceria entre Geysa Bôscoli, tio do bossanovista Ronaldo, e Guilherme Figueiredo, irmão intelectual do último presidente-general da ditadura, João Figueiredo, regravada em 1991 por Sandy & Junior. Um samba gaiato, Pimpolho moderno, que retrata um precoce paquerador de 7 anos, co-assinado pelo Baudelaire do samba, Nelson Cavaquinho. Uma coleção de baiões, xotes e xaxados do maranhense João do Vale, co-autor do clássico Carcará, de bem-humorados temas de duplo sentido e lamentos da seca nordestina - além do apelo (em Voz geral) a certo José que ficou importante para que olhe pelo sertão. Será o Sarney? Essas e outras pepitas obscuras ou manjadas cintilam na ala nordestina do pacote de 40 discos que a BMG despeja no mercado neste natal, produção do titã Charles Gavin. Cinco são títulos da pré-Elba Ramalho, a cantora Marinês, gravados entre 1961 e 1966, e cinco do cantor pós-Jackson do Pandeiro Ary Lobo, lançados entre 1958 e 1965.

   O timbre e a divisão lembram o rei do ritmo paraibano Jackson, mas Ary Lobo - aliás Gabriel Eusébio dos Santos Lobo, morto por problemas cardíacos aos 50 anos, em 1980 - era do Pará, ambientação de várias músicas que assina com parceiros. Seu maior sucesso foi Súplica cearense, de Gordurinha, em 1967, quando já estava fora da RCA (atual BMG). Há outras boas composições de Gordurinha no ótimo disco Forró (1958), como os cocos Paulo Afonso, Faroleiro, Quixeramobim e Pedido a Padim Ciço. Fornecedor de Jackson do Pandeiro em clássicos como Forró em Limoeiro e 1X1, Edgar Ferreira entra com mais cocos: Tempo de menino, O criador e Recife sangrento, de Cheguei na lua (1960). Rosil Cavalcanti, da célebre Sebastiana, assina Mané Cazuza, de outro disco, Poeira de ritmos (1963).

   Também co-autor de cocos, rojões e baiões, como o sucesso Eu vou pra lua e mais É Cosme e Damião, Madame Paraíba e Se o passado voltasse, o próprio Ary Lobo tinha prestígio entre os autores de temas nordestinos. Em seu repertório há fornecedores de Luiz Gonzaga, como o fluminense Miguel Lima (Fruta gostosa, Coco decente) e Severino Ramos (História de um órfão, Patrulha da cidade).

   Curiosas são as intromissões de um sátiro Nelson Cavaquinho (Pimpolho moderno, com Gerson Filho), da zoológica dupla de autores do clássico O pato, da bossa nova, Jaime Silva e Neusa Teixeira (O enterro da leitoa) e até mesmo de um inesperado samba do paulista Adoniram Barbosa, Escada da glória, com Edmundo Cruz.

   Não faltam surpresas também no pacote da pernambucana de São Vicente Maria Inês Caetano de Oliveira, a Marinês, que ganhou o apêndice ''sua gente'', inventado pelo conterrâneo animador Abelardo Chacrinha Barbosa. Além da supracitada Maria Chiquinha (''que cocê foi fazê no mato/ Maria Chiquinha?''), em levada de xote, cujo desfecho ultrapassa o chauvinismo (o inquisidor diz que vai lhe cortar a cabeça por conta da traição, mas ''o resto a gente 'aporveita'''), Marinês singrou uma inusitada aliança do brega Adelino Moreira com o ás do samba Zé da Zilda (e mais Ayrton Amorim) na fatalista Dona Fortuna.

   No mesmo disco (O nordeste e seu ritmo, de 1961) unem-se ainda as assinaturas de Jaime Florence, o Meira, professor de violão de Baden Powell, e do acordeonista Orlando Silveira no hilário Boi de touca. Mas quem dá as cartas para a ''rainha do xaxado'' (ritmo engolido pela generalização do forró), de trinado vocal metálico que influenciaria Elba, são especialistas como o estupendo parceiro de Luiz Gonzaga, Zé Dantas (O bom que o coco tem e Corina, presente em Outra vez, de 1962).

   Onildo Almeida (autor da clássica A feira de Caruaru, gravada por Gonzaga) tem músicas neste mesmo disco (Toada da saudade, Meu beija-flor, Siriri- Sirirá). E divide a maioria de faixas de Siu, siu, siu, de 1964 (Sertanejo retirante, Profecia do Padre Cícero e a do título), e Meu benzim (É amor, é saudade, Minha açucena, Rei do cangaço, Se a polícia chegar), com outro fornecedor de Gonzagão, João Silva, do sucesso Danado de bom. São deste (algumas com parceiros), Pica-pau, Ingazeira da saudade, A volta do baião, Macaco de cheiro, Clareou, Chuvada do norte e Jirimum de gogó. Há ainda outra assinatura notória, a do Antonio Barros do sucesso de Ney Matogrosso Homem com H, em Rainha do xaxado, Nasci no interior e Meu matulão.

   Porém, o grande tesouro da garimpagem é uma face pouco conhecida de João do Vale dominante em sete parcerias (Balancero da usina, Sanharó, Sá dona, Macaco véio, Xote melubico, Deixei minha terra, Quatro fia fême e a do título) em Coisas do norte, de 1963, às vésperas de sua descoberta pela classe média no show Opinião, ao lado de Nara Leão e Zé Ketti, no ano seguinte.

   Há ainda pérolas de João espalhadas por outros discos (Crochê, Xote da pipira, Gavião, Despedida de amargar), atestados de sua ampla visão da paisagem nordestina, que Marinês e Ary Lobo (este gravou dele Quem encosta em Deus não cai) souberam imprimir em suas vozes.

JB Online)

 

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