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05-06-2008
"Revolução do Cinema Novo", que chega nesta sexta às livrarias, integra série de relançamentos do diretor baiano THIAGO STIVALETTI Escrito depois da finalização de "Idade da Terra" (80), seu último longa, o livro se compõe de duas partes distintas. Na primeira, Glauber ordena artigos publicados ao longo dos anos anteriores, transcreve debates e retoma entrevistas. Também não falta o célebre artigo "Eztetyka da Fome", primeira síntese sobre o cinema novo dirigida aos europeus, apresentado na Retrospectiva do Cinema Latino-Americano, em Gênova, em 1965. A segunda parte é uma reunião de reflexões e notas biográficas escritas em 1980, uma "memória afetiva" que se refere diretamente a personagens da vida cultural da época. É, sem dúvida, a parte mais polêmica. Não faltam farpas a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, expoentes do cinema marginal, e a Walter Lima Jr., assistente de direção em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", que se casou com sua irmã, a atriz Anecy Rocha. Com Lima Jr., a questão é pessoal e envolve a morte da irmã: "Até hoje Walter Lima Jr. não explicou como Anecy morreu caindo de um elevador", escreve. "Ele estava indignado e se sentia traído pelos outros cineastas", lembra a filha Paloma Rocha, que tinha 21 anos na época da publicação do livro. "Ainda depois da morte dele, várias pessoas me ligavam e me agrediam por conta das coisas que ele havia escrito." O livro é o segundo a ser reeditado pela coleção Glauberiana -o primeiro foi "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro", série de ensaios sobre o cinema nacional que Glauber publicou em 1963. "Enquanto essa primeira obra continha uma visão crítica agressiva e uma proposta de programa para o cinema novo, "Revolução" tem um tom de balanço feito com a experiência de todas as suas viagens pelo mundo", explica o pesquisador e crítico Ismail Xavier, organizador da coleção. O livro contempla facetas menos conhecidas do diretor. Em 1979 e 80, criou-se um atrito entre Glauber e grande parte da esquerda por conta de elogios à Embrafilme e aos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva. Preocupados com a associação do cinema brasileiro às comédias eróticas, os militares encamparam o projeto do cinema novo. Por sua vez, Glauber acreditava em uma abertura política feita com participação dos próprios militares -o que viria a se concretizar. Além de um prefácio inédito de Glauber, a nova edição inclui um texto do então cinema-novista Cacá Diegues intitulado "O Delírio que Deu Certo". Mas qual a pertinência do relançamento, hoje, de um livro que foi símbolo do ocaso do cinema novo? "Glauber era muito preocupado com as políticas de produção e exibição, e essa é a primeira vez depois da retomada que vivemos uma grande polêmica sobre as relações do cinema com o Estado e com o mercado, com as questões em torno da Ancinav", diz Xavier. A série ainda terá mais três volumes: "O Século do Cinema", coletânea de artigos de Glauber sobre cinema americano, europeu e japonês; "Adamastor", um misto de ficção e autobiografia dos anos 70; e um diário que o cineasta escreveu entre 1971 e 1974, em seus primeiros anos de exílio. REVOLUÇÃO DO CINEMA NOVO. Autor: Glauber Rocha. Editora: Cosac & Naify. Quanto: R$ 69 (520 págs.). (© Folha de S. Paulo) CRÍTICA INÁCIO ARAUJO Diga-se o que quiser de Glauber Rocha, menos que ele veio para explicar. Sua escrita áspera, exuberante, intrincada, barroca dá o tom dos escritos reunidos no livro "Revolução do Cinema Novo". Na verdade, e já que não se trata de explicar demais, nesse volume convivem pelo menos três livros. O primeiro, do início do cinema novo, diz respeito à épica da criação de um cinema nacional de importância mundial em um meio adverso por motivos tanto econômicos como culturais. Um movimento arrancado do nada por um grupo de cinéfilos apaixonados e brilhantes, dispostos a fazer da arte um instrumento de transformação do país. Esse é o momento mais feliz do
livro, por assim dizer. Provavelmente, o mais rico da história do cinema no
Brasil: quando o grupo do cinema novo diagnostica nossa situação a partir da
ruína industrial deixada pela Vera Cruz. É a hora de agregar os ensinamentos
de Eisenstein e John Ford, Humberto Mauro e Rossellini e de tudo isso criar
uma nova estética. É o momento em que o diretor Gustavo Dahl brada que ao
cinema novo importa o homem, não o cinema. Os ventos de 1964 trazem o golpe que leva os militares ao poder, da mesma forma que trazem "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Ou, depois, "O Desafio". Aos poucos, impõe-se a percepção de que a estética não configura, em si, um ato revolucionário. O que fazer para transformar o mundo? -parece essa ser a grande questão, que agita tanto Glauber quanto um Jean-Luc Godard a partir do final dos anos 60. Para Glauber Rocha é o momento de apogeu, quando ganha o prêmio de melhor diretor em Cannes, com "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro". Os textos dão conta do deslocamento. O cinema brasileiro está criado. Consolidá-lo, na virada dos anos 70, é a questão que mais parece interessar a Glauber. É o segundo livro, o que narra o drama da consolidação. É o momento de se explicar, em longas entrevistas a revistas especializadas, tratando a um tempo de Terceiro Mundo, de economia, de estética. É um momento de drama, porque o cinema já não parece mais responder a todas as questões. Ao mesmo tempo, é preciso que exista, ocupe mercado, combata o colonialismo cultural, essas coisas. Por fim, o fim. Os anos que precedem a morte. O mito do cinema como grande arte do século 20 já estava morto. Seus autores estavam mortos como Pasolini, desacreditados como Godard, esquecidos como Miklos Jancso. É então que se impõe o Glauber incompreendido. Atacando os inimigos reais e imaginários do cinema novo, como diz Ismail Xavier no prefácio (bem mais imaginários do que reais, digo eu), defendendo os amigos, insistindo em velhas injustiças (a desqualificação de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, movida por motivos bem pouco cinematográficos), delirando. Por paus e por pedras, com os instrumentos de que dispunha, Glauber continuava procurando compreender o incompreensível: o Brasil, o colonialismo, a revolução que não vinha nem viria nunca. Seu espírito parece não poder descansar, em nenhum desses três movimentos. Às vezes Glauber fala pelos cotovelos, dá a impressão de que não sabe aonde vai. De repente, uma só frase sintetiza tudo, estabelece o juízo inesperado, ilumina o que parecia sem saída. Para em seguida mergulhar na opacidade, nessa obscuridade que é onde também vivemos, em geral mais conformados do que ele. "Revolução do Cinema Novo" não é, afinal, o livro de um santo, mas de um homem. Tem a marca de um dos maiores artistas brasileiros do século 20 e também a sua impureza. Quase uma autobiografia de Glauber Rocha, é um livro-chave, enfim, menos para compreender o "novecento" brasileiro do que para mergulhar em seus sonhos, perplexidades, esperanças e frustrações. (© Folha de S. Paulo)
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