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Saldão tropicalista

05-06-2008

Caetano Veloso em 1965, no Rio de Janeiro

Caetano, Gal, Gil, Bethânia e Rita Lee apresentam seus produtos para as festas de 2004

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Já é dezembro, o comércio se agita para o Natal. Seguindo a tradição, os heróis da geração tropicalista encherão as lojas de som e imagem com nova fornada produtiva -em 2004, no entanto, ela tem jeito e forma de saldão.

   Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia (sempre não-tropicalista, mas sempre contígua à tropicália) e Rita Lee apresentam, todos, CDs e/ou DVDs de caráter rememorativo.

   Gil, 62, atual ministro da Cultura do Brasil, banca o que chama de "atividade residual" em música, lançando o DVD e CD ao vivo "Eletracústico". Seis anos após seu "Acústico MTV", a tropicalista caçula Rita Lee, 56, dobra a dose e vai de "MTV ao Vivo", em CD, DVD e show gravado para a rede musical de TV.

   Caetano, 62, diversifica e age como diretor musical na trilha sonora do filme "Meu Tio Matou um Cara", na qual também atua como compositor e intérprete das releituras de "(Nothing But) Flowers", do grupo norte-americano Talking Heads, e "Pra te Lembrar", do gaúcho Nei Lisboa.

   Caetano e Gil se duplicam ainda no DVD "Outros (Doces) Bárbaros", dirigido por Andrucha Waddington, que documenta a breve reunião, em 2002, de quarteto formado em 1976 e apelidado Doces Bárbaros -aí entram Gal Costa, 59, e Maria Bethânia, 58.

   Fazendo par descontínuo com o documentário original "Doces Bárbaros", que reestreou neste ano nos cinemas, "Outros (Doces) Bárbaros" forma o material nobre dentro desta entressafra de produção musical inédita dos ícones de 1968.

   Traz apenas duas canções inéditas, "Máquina de Ritmo" e a nostálgica "Outros Bárbaros", compostas por um Gil à véspera de ser designado ministro de Lula -segundo conta, ele recebeu o convite por telefone, nos bastidores do show do parque Ibirapuera, em São Paulo.

   Os melhores momentos estão, porém, na extensa parte documental do DVD, que acompanha ensaios e bastidores. Dali saem flagras reveladores, como nas cenas de rusgas miúdas entre Bethânia e Gil, entre Gil e Caetano.

   Bethânia, quase o tempo todo muda e carrancuda, protagoniza dois instantes divertidos. Primeiro, ela e Gal tomam chá de cadeira dos outros dois na sala de ensaio, o que faz Bethânia comentar, em referência indireta ao fogo mercadológico da tropicália: "Devem estar com os jornalistas. Eles não podem ver um jornalista".
Já ao fim do DVD, sua relativa mudez é quebrada num vôo São Paulo-Rio.

   Enfileirados, os quatro comentam o primeiro show, antes da apresentação na praia de Copacabana. Copo de cerveja à mão, Bethânia descontrai e dá show ao comentar seus erros na apresentação. Imagens dos Doces Bárbaros de quase 30 anos atrás encerram a jornada em tom comparativo, nostálgico, amistoso.

   Com humor comparável ao de Bethânia, Rita Lee protagoniza em "MTV ao Vivo" o lado mais explicitamente ferino da tropicália. Ao cantar "Tudo Vira Bosta", de Moacir Franco, arremeda Chacrinha e faz o chiste, entre irônica e verdadeira, entre divertida e constrangida: "Eu estou aqui pelo dinheiro. A arte está morta".

   Em entrevista à Folha por e-mail, Rita prefere o chiste a comentar se a arte está viva ou morta: "Um dia mostrei uns quadros de Picasso para minha empregada, e ela achou uma merda. Quando contei quanto custavam, achou mais merda ainda.

   Prefere gastar seu dinheirinho com os CDs artísticos da bispa Sonia. Para ela, além da arte, Deus também não está morto. Falando mais na chincha, se os críticos de música pagassem minhas contas, juro que eu lançaria um disco cabeça de 20 em 20 anos".

   O ministro Gil, por telefone, entra na questão, ao comentar o brinquedo sério de Rita: "É uma metáfora redutora e reducionista, mas tem sentido, sim. Acabou a virtude, a arte, o amor, essas coisas todas que fizeram parte de nossa constituição. É reducionista, não é só isso. Mas também é".

   Em seu tom, talvez more embutido o confronto entre tempos em que a arte se jogava no consumo de massa -a pop art, a tropicália, o apogeu dos LPs de vinil- e tempos em que o conceito é uma caixa de DVD. Então é Natal.

OUTROS (DOCES) BÁRBAROS. Lançamento: Biscoito Fino. Quanto: R$ 40, em média.

Folha de S. Paulo)


O hiperativo pára diante dos Doces Bárbaros

Hugo Sukman

   Enquanto falava ao GLOBO sobre o processo de realização de “Outros (doces) Bárbaros”, o documentário que dirigiu sobre o reencontro em 2002 de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia, lançado apenas em DVD, Andrucha Waddington fazia as seguintes coisas simultâneas: editava o seu novo longa-metragem, “Casa de areia”, que filmou com a mulher, Fernanda Torres, e a sogra, Fernanda Montenegro, nos Lençóis Maranhenses e que lança nos cinemas no ano que vem; marcava reuniões de produção para o curta-metragem relâmpago, ainda sem título mas sobre o tema “Originalidade”, que filma esta semana para passar na TV logo depois do Natal; acertava detalhes do roteiro de “Os penetras”, filme que roda ano que vem com Rodrigo Santoro e Selton Mello nos papéis principais; recebia um telefonema de Washington Olivetto para falar do comercial que fizeram para a turnê nacional de “A casa dos budas ditosos”, com Fernanda Torres, que brinca com o erotismo contido na peça; finalizava dois comerciais internacionais de bebidas, superproduções que terminou de rodar na semana passada... Hiperativo?

Filme de Godard sobre Rolling Stones foi inspiração

   — Não, eu me divirto assim — diz Andrucha, que justifica tanto afã por fazer coisas à “depressão pós-parto” que o acometeu depois do lançamento de “Eu tu eles”, seu último longa-metragem de ficção. — Quando acabou o “Eu tu eles” e me vi sem projeto, bateu uma depressão... Demorei quatro anos para fazer outro filme. Agora não começo um sem ter outro já na cabeça. O meu ideal é fazer um longa-metragem e oito comerciais por ano e um documentário a cada dois anos.

   Andrucha não cita Ricardo Reis, o heterônimo de Fernando Pessoa que escreveu o verso “Sê todo em cada coisa”, mas bem que poderia ao explicar como, diante de tanta atividade, uma não atrapalha a outra.

   — Em cada uma dessas coisas, o que faço é contar a história que precisa ser contada da melhor maneira possível — diz. — Tento ser inteiro em cada trabalho. A ficção é quando você pensa que sabe tudo sobre uma história e no meio do caminho descobre que não sabe nada. O documentário é quando você não sabe nada e aprende.

   No caso de “Outros bárbaros”, o que ele queria saber e não sabia era como, internamente, funcionava esse grupo de artistas independentes, amigos desde o ovo e que de tempos em tempos se reúnem sob um grupo informal apelidado de Os Doces Bárbaros.

   A idéia partiu de Kati Almeida Braga, da Biscoito Fino, que convidou Andrucha para registrar os dois shows que o grupo faria no Rio (Praia de Copacabana) e em São Paulo (Ibirapuera) em dezembro de 2002, para um futuro DVD. Assim Andrucha o fez, mas imaginou, antes, um documentário sobre os ensaios. A inspiração não veio de “Os Doces Bárbaros”, documentário de Jom Tob Azulay que, em 1976, registrou em forma de road documentary a turnê brasileira, embora se utilize de algumas imagens dele. Veio de Jean-Luc Godard e seu “Simpathy for the devil”, um registro dos Rolling Stones no estúdio gravando a famosa canção em 1968.

   — Quem são aquelas pessoas? Como elas são quando estão entre elas, criando? Achava que era isso que as pessoas queriam saber — diz Andrucha, que já trabalhara com Gil, autor da trilha de “Eu tu eles”, nos documentários “Tempo rei” (sobre Gil, que dirigiu com Lula Buarque) e “Viva São João” (sobre as festas juninas no Nordeste), e produzido o especial de TV sobre Caetano dirigido por Walter Salles.

   Como Godard, que não sai do estúdio nem do processo de criação da canção, Andrucha também queria uma “caixa hermética” para o seu filme. E ela foi o estúdio no Rio onde, em sete sessões, Caetano, Gal, Gil, Bethânia e os músicos se encontraram para ensaiar.

   Com uma câmera leve de 16mm, em forma de “cinema direto” (sem interferir no que está filmando), Andrucha ficou no estúdio o tempo todo, captando os ensaios e as conversas dos quatro. Momentos como o de Gil chegar no estúdio e tocar a música que fizera pela manhã, “Máquina de ritmo”, em forma de samba-de-roda baiano à João Gilberto, como suas primeiras composições. “Esse é daquele tipo de samba que você fazia quando o conheci”, percebe Caetano. Ou o de Bethânia reclamando do arranjo careta — “Parece um convento” — de “Outros bárbaros”, outra nova canção de Gil questionando o papel dos quatro 25 anos depois do primeiro show dos Doces Bárbaros. As discussões mostram um grupo maduro o suficiente para discordar frontalmente um do outro.

Diretor ainda roda curta-metragem esta semana

   “Eu não brigo com os meus amigos”, diz Caetano em uma das duas agitadas entrevistas coletivas que o filme flagra, nas quais revela que o nome “bárbaros” do grupo foi em desagravo a comentários publicados no jornal “Pasquim” de que o Rio estaria sendo tomado por bárbaros, os baianos da música popular. Uma sessão de perguntas feitas pelo antropólogo Hermano Vianna complementa o documentário, que traz números musicais do show que retomam o repertório do disco de 1976, coisas como “Os mais doces bárbaros”, “Um índio”, “Gênesis” e “Fé cega, faca amolada”.

   E a conversa pula de repente para o curta que ele acaba de filmar amanhã no Rio, dentro de uma série para TV feita com vários cineastas. Ele vai contar uma história que lhe foi contada por Daniela Thomas e que aconteceu com ela: a de um taxista que leva passageiros para a casa e mostra seus álbuns de família. No filme será a história de alguém que leva as pessoas para assistir aos filmes que faz.

   — Essa idéia do cineasta que rapta os espectadores é muito original — brinca o diretor, que também pretende fazer um outro documentário mas o espaço está acabando e...

O Globo)


Renato Velasco  
"Acho que o mundo melhorou do ponto de vista da liberdade e dos direitos. Quanto à música, não posso dar opinião porque não acompanho mais"
Guilherme Araújo, produtor cultural
 
Perfil
Doce bárbaro
Guilherme Araújo prepara livro sobre os baianos e uma
“festa erótica” de 69 anos
Eliane Lobato

   Como um presente de fim de ano, chegam ao mercado dois DVDs sobre um dos grupos-ícone da cultura brasileira, formado pelos baianos Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. O diretor Jom Tob Azulay, que assina a reedição do filme Doces bárbaros, de 1978, lança o DVD da histórica turnê de 1976. Andrucha Waddington coloca no mercado Os outros bárbaros, sobre o reencontro do quarteto em 2002. No próximo ano, o tributo se completa com o lançamento de um livro do empresário e produtor cultural carioca Guilherme Araújo, que descobriu os baianos tropicalistas. Em sua casa de dois andares em Ipanema, zona sul do Rio, Araújo remexe gavetas cheias de fotos e outros registros destes artistas que barbarizaram o país em décadas passadas. Seu precioso arquivo vai virar o livro Fotos. “Vou escrever pouco, ser bastante objetivo. As imagens falam por si.” Muitas cenas reproduzem momentos de confraternização, como almoços ou reuniões informais, regadas a violão e intenções de mudar o mundo.

   Araújo acha que boa parte dos objetivos daqueles jovens cabeludos e talentosos
foi alcançada. “O mundo melhorou do ponto de vista da liberdade, dos direitos. Quanto à música, não posso dar opinião porque não acompanho mais.”
Diabético e com a saúde geral debilitada, ele diz que não ouve música. “Não tenho paciência nem vontade”, explica. Também não tem celular, computador ou rádio. Apenas dois projetos ocupam seu tempo e interesse. Depois de oficializar a doação de sua casa ao governo do Estado para sediar um futuro centro cultural, ele estabelece as diretrizes. “Quero que seja um gabinete de leitura, espero organizar um acervo literário. Todos os móveis e peças ficarão como estão para serem usados pelo público”, conta.

   O outro projeto é a “festa erótica” de aniversário, em setembro do ano que
vem, quando completará 69 anos. “Estou procurando quem faça os dois
bolos; um em forma de caralho e o outro, de xoxota”, explica, de forma quase pueril. Para ele, que mantém sobre os móveis da casa objetos decorativos no formato do aparelho genital masculino – de louça, argila, madeira –, tudo parece, de fato, muito normal. Quem conhece Guilherme Araújo – festeiro-mor do Rio de Janeiro, organizador de grandes bailes de réveillon e de Carnaval em épocas passadas – não vai estranhar esses bolos. Homossexual assumido, ele diz que “gays são alegres, se divertem muito e gostam de festas”. Araújo é um carioca feliz. Mesmo adoentado, passeia pelas ruas de Ipanema elegantemente vestido, sempre com uma bengala chique e um chapéu – de preferência, exótico, em estampa de oncinha ou cores berrantes. Um bárbaro doce.

Revista ISTO É)

 

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