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05-06-2008
Quando Luzilá Gonçalves Ferreira contraiu sarampo, aos 10 anos, sua vida tomou um rumo diferente. Isolada do resto da família na biblioteca, descobriu uma nova paixão: os livros. “Foi quando conheci Goethe, Selma Lagerlof, Katherine Mansfield e, pouco depois, Dostoiévski, o Jean-Christophe, de Romain Rolland, o Sparkenbroke, de Charles Morgan, as Cartas a um jovem poeta, de Rilke”, lembra. “De repente, eu me sentia ouvindo esses seres extraordinários e aprendia a ver o mundo com eles. Decidi que um dia também escreveria coisas belas.” E foi justamente o que aconteceu. Da primeira comédia, que ela escreveu e montou aos 14 anos no jardim de sua casa, resta apenas a recordação de seu papel de doméstica, com o rosto pintado de fuligem, e o pessoal rindo muito. Seguiram-se alguns artigos publicados no jornalzinho do colégio e os primeiros reconhecimentos: menção honrosa no prêmio Peregrino Jr. e um prêmio da Prefeitura do Recife. “A partir daí, me animei e mergulhei na profissão”, conta. “Fui escrevendo, rasgando, guardando na gaveta. Um dia decidi enviar um conto para a revista Nova, outro para os cadernos Encontros com a Civilização Brasileira, e ambos foram publicados. Eu nem acreditava... O que me encorajou definitivamente foi o Prêmio Nestlé de Romance, em 1988, com o livro Muito além do corpo, assim como o Prêmio Joaquim Nabuco da Academia Brasileira de Letras, com o romance Os rios turvos, entre outros que se seguiram.” Depois de assumir a literatura como opção de vida, nada mais deteve essa pernambucana arretada, que diz buscar inspiração no cotidiano, sempre inesperado e mágico, e no passado, que tanto a intriga e fascina: “A cultura regional está latente em tudo o que sou, em experiências vividas ou lidas. Alimento-me muito com o que nos deixaram os pernambucanos do passado, sobretudo as mulheres. Nós, pernambucanos, somos orgulhosos, vaidosos até, com aquela ‘insubserviência de quem já foi mais’, para usar a expressão de João Cabral de Mello Neto.” Pesquisando esse passado, a escritora desvendou a atuação das nordestinas do século XIX na imprensa, na abolição da escravatura, na poesia. “Escrever sobre o que elas fizeram”, conforme enfatiza, “é recuperar sua fala, que durante anos foi silenciada, esquecida, apagada”. O resultado são livros lindíssimos, como o romance No tempo frágil das horas, sobre personagens femininas da decadente aristocracia canavieira. E também Humana, demasiado humana, biografia da extraordinária Lou Andréas Salomé, uma das primeiras mulheres psicanalistas, que apaixonou Nietzsche e Rilke. Outras obras suas de grande destaque são Voltar a Palermo, uma história de amor passada na Argentina dos tempos da repressão, A garça mal-ferida, sobre Anna Paes no Brasil holandês, Um discurso feminino possível, sobre a mulher pernambucana na imprensa no século XIX e Suaves amazonas, mulheres e abolição no Nordeste. Hoje, Luzilá divide seu tempo entre escrever, dar aulas na Universidade Federal de Pernambuco e a dirigir o Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano – é a primeira mulher a ocupar esse cargo, o que considera “uma honra, um desafio e muita responsabilidade”. Ela acaba de lançar sua primeira obra para o público juvenil – Diário de uma adolescente – e vem desenvolvendo a História da literatura em Pernambuco, com a colaboração de vários professores e alunos da Universidade Federal de Pernambuco. Além disso, está escrevendo uma biografia romanceada sobre a ousada feminista francesa George Sand e um romance histórico sobre o revolucionário pernambucano Nunes Machado. Entre seus planos para o futuro, destaca: “Ter tempo para me dedicar só à pesquisa e à escrita de romances. Acordar todos os dias diante do mar. E continuar indo de vez em quando a Paris, para ver meus filhos e ficar flanando na mais bela cidade do mundo.” Natural de Garanhuns, terra natal do presidente Lula, Luzilá estudou Letras e fez doutorado em Estudos Literários na Universidade Paris VII. Morou dez anos na França, quatro na Argentina e o resto do tempo no Recife, “minha cidade de eleição e de coração”, como costuma afirmar. No dia-a-dia, é uma mulher ocupada com as aulas, os livros, sua coluna no Diário de Pernambuco, com as coisas de casa e com o jardim. É uma pessoa que procura tornar felizes os que a cercam, que adora rir e quem a faça rir, que se diverte preparando comidas gostosas. Ela acredita em Deus e diz conversar com Ele de vez em quando, “perplexa, curiosa, agradecida”. As razões para as coisas terem dado certo em sua vida? “Uma capacidade de trabalho que espanta até a mim mesma, um otimismo incorrigível, a mania de ter fé na vida”. A relação da escritora com a literatura é obsessiva. “Morro de pena de quem não gosta de ler”, enfatiza. “Leio muito, sobretudo ficção, poesia e livros sobre História. Meus autores preferidos são Rainer Maria Rilke, Katherine Mansfield, Tchecov, o dinamarquês Jens Peter Jacobsen, a canadense Gabrielle Roy e, no Brasil, Drummond, minha amiga Rachel de Queiróz e Mario de Andrade.” Poder contar com uma Livraria Cultura em sua cidade representa mais uma oportunidade de convívio prazeroso com os livros que tanto ama: “Vibrei com a abertura da Livraria Cultura no Recife, que já foi uma cidade de muitas livrarias no século XIX”, ressalta. “Escolheram um lugar lindo, na cidade antiga, o acervo é extraordinário, variado, tudo apresentado com muito bom gosto e com uma acolhida eficiente e cordial. Os vendedores entendem das coisas e são sempre solícitos, não parecem trabalhar por obrigação, mas por prazer.” (© Cultura News)
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