05-06-2008
João Pimentel
Compositor com mais de 200 músicas gravadas nas vozes de estrelas como
Marisa Monte, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa, Cássia Eller e
Daniela Mercury. Personagem-símbolo do carnaval baiano e criador de
importantes projetos sociais no bairro de Candeal Pequeno, em Salvador. Um
dos artistas mais executados nos últimos anos e fenômeno de vendas
juntamente com Marisa Monte e Arnaldo Antunes com o disco “Tribalistas”. Não
bastasse tudo isso, Carlinhos Brown, travestido de Carlito Marrón, é um novo
fenômeno na Espanha. Mesmo assim, o autor de sucessos de estilos bem
diferentes como “Rapunzel”, ”A namorada”, “Segue o seco”, “Maria de verdade”
e “ECT” (esta, parceria com Marisa Monte e Nando Reis) raramente faz shows
no eixo Rio-São Paulo. Em parte, talvez, por morar em Salvador, em parte por
não estar nem aí para convenções. Cada disco que lança pode trazer
novidades, pode representar uma guinada a mais de sua versatilidade. Por
isso não é de estranhar surgir agora num CD duplo, em parceria com o DJ
russo-argentino Dero, misturando os batuques primitivos de seu Candeal com
os loops e sounds que fervem as pistas européias.
— Agindo assim tenho sempre o prazer do começo. Sou um artista vivo. Meus
amigos que apareceram demais sumiram um ano depois — diz.— Prefiro assim,
que as coisas continuem como estão.
Segundo Brown, desde que começou a surgir no cenário musical brasileiro, lá
pelos anos 80, com a axé music, quiseram rotulá-lo:
— Isso é uma coisa velha. Muita gente entende que eu posso não ter rótulo,
mas ainda há gente que acha que o artista tem que ser só isso, ou só aquilo.
Faço música de carnaval, sou tribalista e o que mais eu quiser fazer. Hit
demais enche o saco! A curiosidade também dá tempero às coisas — explica. —
As pessoas sabem que podem sempre esperar algo de novo de mim. E no momento
estou muito feliz. Que bom que não estou tropicalista! Que bom que não estou
João Gilberto!
O cantor que não se preocupa com o sucesso sabe, no entanto, decifrar o
porquê de o disco “Tribalistas” ter sido um fenômeno mundial:
— Acho que aqui no Brasil ele pegou porque atingiu a família, tanto os
filhos quanto os pais. Às vezes, também, o reforço oral, o boca a boca é
fundamental. Mas acho mais importante frisar que o disco teve uma linguagem
simples que aproximou o Brasil do cenário pop mundial.
Se “Tribalistas” inseriu o pop brasileiro no mundo, o DJ Dero, parceiro dele
em “Candyall beat”, percebeu que Brown tinha tremendo potencial a ser
explorado na Europa, principalmente na Espanha:
— Sergio Mendes gravou um disco com algumas músicas minhas, e o Dero começou
a samplear, principalmente, meu trabalho rítmico. Daí surgiu a expressão
techno-batucada, que virou conceito — diz Brown. — Depois o Ricky Martin
gravou comigo e a coisa decolou. O cenário trance foi por aí.
Há alguns meses, ao reencontrar Dero em Madri, Brown sugeriu que fugissem ao
lugar-comum dos samplers e fizessem algo artesanal.
— Juntei algumas células fundamentais da percussão à modernidade da
eletrônica. Tem uma linguagem que o mundo está vivendo. É o primitivo com
ruídos cyber — filosofa Brown. — Resolvemos fazer o disco e em três
semanas tínhamos tantas coisas que um CD só tornou-se impossível. O primeiro
é realmente a síntese do trabalho, da mistura. Já o segundo disco é bem
moderno mesmo, underground.
Segundo o percussionista, o fato de a percussão brasileira estar seduzindo
os DJs europeus se credita à qualidade e às diversas formas de se tocar um
instrumento em cada região do país.
— A percussão brasileira bebe do primitivo mas se transforma e se mantém
contemporânea, diferentemente, inclusive, da África. O Brasil é
polirrítmico. Até em Cuba, considerada por muito a meca dos ritmos, não se
encontra o que temos por aqui. Lá, todo mundo sabe como fazer uma conga numa
salsa. Agora, pegue o pandeiro e vai tocar samba, choro, maracatu e você vai
ver como é difícil e diferente.
Para o baiano, a percussão sempre foi coadjuvante de tudo que se fez na
música brasileira, mas nunca esteve tão em alta:
— Mesmo a batida da bossa nova é percussiva, apesar de aquele ter sido o
momento em que nossa percussão esteve mais silenciada. Por isso acredito
quando um DJ diz para mim que a nossa batucada era tudo o que a música
eletrônica precisava para se revigorar. Não quer dizer que essa vai ser a
minha linha a partir daqui. Diria que vai ser mais um Carlinhos.
Quem sabe, vem aí Carlinhos Beat...
(© O Globo)
Espanha vira a nova porta para a
MPB
Antonio Carlos Miguel
Se, pela língua, Portugal foi o primeiro porto para cantores brasileiros na
Europa, enquanto a França, a capital da world music, vinha sendo desde os
anos 80 a entrada principal, hoje o mercado espanhol virou opção para muita
gente. Que o digam, entre outros, Carlinhos Brown (cuja carreira solo nunca
se firmou no Brasil, mas, atualmente, é uma estrela por lá), Caetano Veloso
(desde o lançamento de “Fina estampa”, no qual gravou repertório
hispano-americano, e mais popular ainda depois do aval do cineasta Pedro
Almodóvar) e Adriana Calcanhotto.
Estrela do pop espanhol gravam sucessos brasileiros
Para o cantor, compositor e produtor Adrián Sepiurca, um argentino radicado
em Madri, esse aumento do interesse dos espanhóis pela música brasileira
está ligado ao sucesso que Ronaldinhos Fenômeno e Gaúcho e companhia fazem
pelos gramados de lá. Ele esteve por duas semanas no Rio com uma equipe de
TV gravando entrevistas com gente como Djavan, Paulo Jobim, Toquinho,
Carlinhos Brown, Caetano, Milton Nascimento e Bethânia para o DVD que
acompanhará um CD com artistas espanhóis, como Alejandro Sanz e Rosário
Flores, interpretando sucessos da MPB.
— Em muitas características a Espanha está até mais próxima do Brasil do que
Portugal, o espanhol é alegre, comunicativo, a música flamenca é um exemplo
disso. No disco, que será lançado em fevereiro na Espanha, há diferentes
abordagens de clássicos brasileiros, alguns cantam em português, outros,
versões. Musicalmente também houve quem procurou espanholar a canção e quem
preferiu ser fiel — conta Sepiurca, que lembra que, desde a explosão da
bossa nova, no início dos anos 60, a música brasileira entrou na trilha
sonora do mundo.
Estrela desde a adolescência na Espanha, a cantora Tamara, de 20 anos, é
mais uma a beber da MPB, mas em outra praia. Ela esteve no Rio, gravando com
o produtor Max Pierre (diretor da Universal) o CD “Tamara canta Roberto
Carlos”. Sim, o “rei” romântico, desde fins dos anos 60, também tem súditos
por lá.
Já o diretor espanhol Fernando Trueba (Oscar de filme estrangeiro em 1993
com “Sedução”) registrou no início deste ano, em Salvador, “El milagro de
Candeal”, com o pianista cubano Bebo Valdés e Carlinhos Brown. Ele também
acaba de preparar para a BMG espanhola a coletânea “Música para los amigos —
Una selección de Fernando Trueba”. Canções brasileiras preferidas dele, como
“Manhã de carnaval” (Luiz Bonfá e Antonio Maria, com Elizeth Cardoso),
“Minha” (Francis Hime, com o jazzman Bill Evans), “Prá machucar meu
coração” (Ary Barroso, com Rosa Passos) ou “Sonho meu” (Ivone Lara e Délcio
Carvalho, com Maria Bethânia e Gal Costa).
Trueba procurara a BMG para negociar a distribuição do disco “Lágrimas
negras”, de Bebo Valdés com o cantor flamenco Diego El Cigala (e que em seu
repertório inclui “Eu sei que vou te amar”, de Tom e Vinicius), e saiu de lá
também com a encomenda de um documentário sobre Carlinhos Brown, sua música
e seu papel para a revitalização do bairro do Candeal em Salvador. Ele
aceitou o convite e ampliou o conceito, lembrando-se do que ouvira de
Valdés, que vive há quatro décadas na Suécia — pai de outro grande músico,
este ainda radicado na ilha, Chucho Valdés.
— Bebo me dissera que o único lugar que gostaria de ir antes de morrer era a
Bahia. Ao me lembrar disso, deu um clique em minha cabeça e idealizei o
filme — conta. — Bebo Valdés, um músico cubano de 85 anos, que quer ir a
Salvador porque é o lugar onde um cubano pensa que se conservaram de maneira
mais pura, mais até que em Cuba, a música, a cultura e a religião de seus
ancestrais africanos. O filme seria a história desse homem que vai à Bahia e
acaba no Candeal, encontrando-se com o povo dali, vendo o trabalho que se
faz, interagindo com os músicos jovens, as orquestras de crianças, com
Carlinhos, e com Marisa Monte, Caetano ou Gilberto Gil, que aparece no
filme, mas não como ministro da Cultura, e sim como baiano.
Para Trueba, a Bahia é um universo à parte no Brasil:
— Nada tem a ver com a bossa nova, Jobim ou o que entendemos aqui na Europa
por música brasileira. Bahia é África, e está muito mais próxima da música
cubana e de Cuba que do Rio — acredita.
Presidente da Universal Iberia programa campanha
Brasileiro radicado em Madri, onde preside a Universal Iberia (Espanha e
Portugal), Marcelo Castello Branco percebe a nova onda. E vê muita camisa
verde e amarela e sandálias de dedo “surfando pelas ruas”. Para ele, a
música brasileira é a trilha do momento.
— Foi mágica a recente excursão de Caetano, a receptividade do publico à
sutileza de sua proposta musical. No último ano, Caetano vendeu mais de cem
mil discos na Península Ibérica, entre compilações e discos de carreira, e,
para nós, tem a relevância de um artista local — diz Castello Branco. —
Programamos uma macrocampanha de bossa nova para março de 2005 e outra de
música brasileira para julho. Temos como prioridades o disco “Slow motion
bossa nova”, de Celso Fonseca, uma compilação nova de Tom Jobim e todo o
nosso catálogo histórico de bossa.
Como se vê, trilha sonora verde e amarela não vai faltar para comemorar os
gols dos Ronaldinhos.
(© O Globo)
MÚSICA
Apresentações no festival em Cannes, em janeiro, dão o pontapé oficial do
Ano do Brasil na França
Cordel do Fogo Encantado vai
ao Midem
DIEGO ASSIS
DA REPORTAGEM LOCAL
Começou anteontem, com um anúncio no Baretto, em São Paulo, a contagem
regressiva para o chamado Ano do Brasil na França, megaevento promovido
entre os dois países e que levará ao segundo, em 2005, diversas
manifestações da cultura brasileira.
A "avant-première" das batidas tupiniquins naquele país acontecerá em 25 de
janeiro, já batizado de o Dia do Brasil no Midem -sendo o Midem uma das
principais feiras de selos independentes do mundo, que será realizada de 23
a 27/1 em Cannes.
Nessa ocasião, o cantor carioca Seu Jorge, o grupo pernambucano Cordel do
Fogo Encantado e o bandolinista Hamilton de Holanda farão um show para 1.500
pessoas celebrando a abertura oficial da já tradicional "saison culturelle"
francesa, que, com o Brasil, possivelmente será a última.
Pouco antes do show, representantes da Brasil Música e Artes, uma das
instituições por trás da ida dos músicos e selos brasileiros para o Midem,
farão o anúncio definitivo de todas as atrações musicais que se apresentam
em solo francês em 2005.
Já presente em outras edições do festival de música independente, o Brasil
ocupará desta vez um espaço de mais destaque: um estande de 76 m2, com oito
módulos destinados a selos de diferentes Estados brasileiros. Até agora já
estão confirmados Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Distrito Federal, Goiás e Pernambuco.
Além de feira de negócios -um dos principais objetivos dos freqüentadores do
Midem é trocar cartões e sondar o mercado-, os estandes sediarão pocket
shows de artistas nacionais. A expectativa dos organizadores é que uma média
de 9.000 pessoas circule pelo evento diariamente.
Chico Buarque
Um dos artistas brasileiros mais admirados na França, Chico Buarque estará
indiretamente presente no Midem.
Ainda durante o dia brasileiro no festival, o cantor e violonista Zé Luiz
Mazzotti fará a apresentação de lançamento de um CD/agenda bilíngüe
inspirado no compositor de "Construção".
Lançado pelo selo Dabliú Discos, o CD traz regravações de faixas de Chico,
como "Almanaque", "Ela Desatinou" e "Carolina", além da participação do
próprio em "Cadê Você" e na versão em francês de "Eu te Amo (Dis-Moi
Comment)".
Outra de suas composições, "Cotidiano", foi recentemente regravada por Seu
Jorge, que também deverá apresentá-la no show do dia 25. Agora, se Chico vai
à França? Isso só Deus sabe...
(© Folha de S. Paulo) |