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O delator de memórias inventadas

05-06-2008

José Nêumanne, à esquerda, cumprimentando o escritor Elias José

CAROL ALMEIDA

   Entre um protagonista já morto e mais seis vozes que falam de seis diferentes perspectivas, está o escritor paraibano José Nêumanne. Jornalista diário, romancista de épocas em épocas e cidadão paulistano em tempo integral, Nêumanne está lançando livro que narra as memórias do falecido personagem em questão. Trata-se de O Silêncio do Delator (Editora Girafa, 544 pgs., R$ 59), ficção em flashback dos movimentados anos 60.

   Em entrevista ao Jornal do Commercio, o escritor e comentarista político fala das inspirações do livro, bem como dos fatos e referências que são parte de sua vivência como jornalista atuante na época da ditadura militar brasileira. Nêumanne antecipa ainda que, em breve, voltará a publicar em versos (é ele o organizador do livro Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século), como fala também do episódio que rendeu um ‘veto’ à sua entrevista no programa matinal de Ana Maria Braga, na Globo.

JORNAL DO COMMERCIO – O argumento de O Silêncio do Delator foi inspirado em algum fato ou personagem que você conheceu ou é um roteiro original?

JOSÉ NÊUMANNE – Em 1984, portanto há 20 anos, cheguei a escrever um romance criando uma espécie de quadrilátero amoroso: um poeta sai de casa, larga a amante e vai viver com a primeira grande paixão de sua adolescência, que também abandona o lar. A relação não dá certo e o protagonista joga o carro embaixo de uma carreta na Via Dutra. Dei os originais, no papel, a Álvaro Mendes, poeta e então meu subordinado no Jornal do Brasil, para ler e ele achou uma porcaria. E era. Logo depois, havia a comemorar os 20 anos do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado em 1967, e resolvi criar a patota em torno do tal quadrilátero. Mas deixei de lado o projeto até que, em fins de 2003, vi o filme As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, e resolvi retomar o projeto, simplificando-o. Não simplifiquei tanto assim, mas acho que está mais simples. Não é um roman-à-clef (ficção inspirada em fatos reais) nem autobiográfico, mas um jorro ficcional se aproveitando de vivências do autor.

JC – A presença do cenário político dos anos antes e durante a ditadura é uma constante do livro. Houve algum tipo de pesquisa sobre a época? E quais são suas recordações pessoais daquele tempo?

JN – Na verdade, saiu tudo da memória, sem pesquisa nenhuma. Exatamente por isso, ou seja para evitar incorrer em muitos erros, recorri a alguns amigos mais velhos e da mesma idade que eu para ler os originais, antes da publicação. Assim, consegui evitar alguns lapsos de memória. De qualquer maneira, o texto final registra, e de maneira intencional, a nebulosidade e a inventividade da memória humana. Como os personagens da patota, este autor teve alguma participação política: fui simpatizante do Partido Comunista, que estava na clandestinidade, e cheguei a pertencer à diretoria de um centro de estudantes secundaristas em Campina Grande, Paraíba, onde vivia, em 1967. Grande parte do período negro da ditadura foi passada por mim nas redações da Folha de S. Paulo e do Jornal do Brasil. Tive oportunidade de quebrar a censura registrando uma correspondência dos presos do DOI Codi de São Paulo, descrevendo instrumentos de tortura no JB. Ou seja, não fui um participante ativo, como alguns personagens do livro, da política no fim do século passado, mas a testemunhei e registrei.

JC – A narrativa é cheia de referências pop, principalmente no que se refere à música. As referências do personagem são também as predileções do autor?

JN – De fato, o livro é todo construído em cima de um poema de Pedro Paulo de Sena Madureira e das canções de dois álbuns, o citado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e Bringing It All Back Home, de Bob Dylan. Sou fanático por Beatles e por Dylan e considero esses dois discos capitais na história do rock. Só que essa não foi uma opção do protagonista, mas deste romancista. E está presente desde a pré-história do livro, há 17, 18 anos. Há também referências a outras artes - literatura, cinema, artes plásticas, teatro, dança e histórias em quadrinhos -, mas elas não refletem necessariamente preferências do autor e sim a relevância do que foi produzido pela geração.

JC – Existe algum projeto na gaveta em poesia?

JN – Sim, existe. Tive de adiar um projeto antigo, Escrituras profanadas, paródias poéticas a citações bíblicas, porque esse texto em prosa chegou como um aluvião, tomou conta de mim e só me abandonou quando eu escrevi a palavra fim.

JC – Você foi recentemente ao programa da Ana Maria Braga divulgar O Silêncio do Delator e a Globo terminou vetando a entrevista, pois você estaria vinculado à emissora concorrente. Qual sua opinião a respeito do fato?

JN – Nem Ana nem a Globo têm nada com isso. A censura resultou apenas da picuinha pessoal de uma profissional, Alice-Maria, que não gosta de mim porque fui um crítico muito feroz de televisão no Estadão e depois no JB. Àquela época, não poupei o comando do jornalismo da Globo, principalmente o criador e protetor dela, Armando Nogueira, e ela se locupletou do fato de ser responsável pelo controle de qualidade dos quadros jornalísticos dos shows da Globo para impedir que a entrevista já gravada fosse ao ar, usando o pretexto absurdo de que sou comentarista político no concorrente SBT. Mas esse é um episódio menor que não teve a menor influência na carreira de meu livro, na minha nem na dela. Não tem a menor importância, a não ser por mostrar quão frágeis são as estruturas de poder mesmo em organizações mastodônticas como a Globo.

JC Online)

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