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05-06-2008
Ajustando aqui, dinamizando ali, Spok, que não gosta de ser chamado de
maestro, está mudando a cara do frevo e levando-o além da fronteiras
pernambucanas O frevo sempre foi um gênero que sofreu do mal da pernambucanidade exacerbada, a ponto de não se adaptar em outras terras e não aceitar ingerências externas em seu formato. Esta é possivelmente a razão maior do seu declínio como música popular nas duas últimas décadas. O jovem maestro Spok, 34, músico desde os 14, pretende mudar o frevo, mas sem radicalizar, nem caminhar em sentido contrário àquele pavimentado pelos grandes maestros como Clóvis Pereira ou Duda, para citar apenas dois deles. Aliás, nem de maestro Spok gosta de ser tratado: “O Recife é lugar mais fácil do mundo para a pessoa ser chamado de maestro. Maestro para mim é Duda, Edson Rodrigues, Zé Menezes, eu prefiro ser conhecido como diretor de orquestra”, critica. E diretor de uma orquestra que tem levado o frevo a mares que há muitos anos ele não singrava. A Spok Frevo Orquestra tem participado de eventos tão díspares quanto o Mercado Cultural da Bahia, TIM Festival, Festival de Cascavel, no Paraná, ou mesmo fazendo apresentações em locais badalados, como o Ballroom, no Humaitá, Zona Sul carioca, como se fosse uma big band, ou como prefere Spok: “Fazendo um frevo-de-rua com mais roupagem de palco, que não seja tocado apenas para o folião, mas também para se escutar sentado”. As influências do jazz, garante, ficam só nas variações dos solistas: “A gente pode gostar de Charlie Parker, John Coltrane, até sentir influência desses músicos, mas o importante é que não perdemos a alma, tocamos mesmo é frevo”. A orquestra de Spok tem história recente. Nasceu nos ensaios do bloco Na Pancada do Ganzá, de Antônio Nóbrega, em 1997: “Chegamos a ensaiar com Chico Science e Nóbrega”, conta Spok, que quando não está com a orquestra, toca com cantores da MPB, como Fagner ou Alceu Valença. Apesar de ter trabalhado com diversos músicos, somente este ano gravaram o primeiro CD, intitulado Passo de Anjo (que sai com selo da Via Som). Passo de Anjo é um disco que deve fazer os muito puristas dar cambalhotas em seus respectivos túmulos. Spok ousa quebrar neste trabalho quase todos os axiomas que se consideravam imutáveis no frevo. A morfologia, esta permanece a básica: continuam a introdução, a passagem para a segunda parte, que é repetida antes da volta à introdução. A vestimenta é que mudou de coloração. Cada instrumento pode ser solista e improvisar dentro do tema. Os instrumentos responsáveis pelas variações tanto podem ser o sax do próprio Spok, quanto o violino de Antônio Nóbrega, ou a sanfona de Adelson Viana. “Uma coisa que sempre notei no frevo foi que o músico nunca teve oportunidade de se expressar, limitava-se a seguir o que o compositor escreveu na partitura”, comenta Spok, lembrando-se de Felinho (Felix Lins de Albuquerque 1894-1980), autor das célebres variações de saxofone em Vassourinhas, que foram incorporadas à composição atribuída a Mathias da Rocha e Joana Baptista, mas que na época teve críticos ferinos, como Valdemar de Oliveira, que escreveu no seu Frevo Capoeira e Passo, ao comentar sobre a origem deste hino do Carnaval pernambucano: “Há a lamentar, na execução dessa marcha, hoje em dia, o andamento extremamente rápido e os floreios de saxofone da segunda parte, coisa improvisada por certo virtuose do sax e logo aperfeiçoada por outros”. Sem que cite explicitamente o nome de Felinho, Valdemar de Oliveira considera a intervenção deste “uma desfiguração lamentável, que responde pelo aceleramento incômodo do andamento”. Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, Felinho contou que o ímpeto de improvisar em cima de Vassourinhas aconteceu enquanto tocava com a orquestra de Nelson Ferreira, no Clube Internacional do Recife: “Eu achava a Vassourinha monótona, então disse para Nelson que deixasse a segunda parte para mim, que eu iria criar uns arabescos. Naquele tempo eu tomava uns uísques, fiquei um pouco entusiasmado e mandei brasa. Subi na cadeira e pegou logo da primeira vez”. (© JC Online) |
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