05-06-2008
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O cantor pernambucano
Lenine |
Antonio Carlos Miguel
Lenine sempre foi bom de palco, ali
sintetizando melhor sua música. Algo que ficou patente em 2002, no show de
lançamento de “Falange canibal” — com um grupo coeso, arranjos certeiros, ao
vivo as canções funcionaram bem mais do que no ambicioso álbum. É curioso,
portanto, que só agora, depois de duas décadas de carreira e cinco discos de
estúdio, o cantor e compositor pernambucano lance um registro ao vivo.
Mais curiosidade no fato de “In Cité”
(que inaugura seu selo, Casa Nove, distribuído pela BMG) tratar-se de show
único, idealizado especialmente para as apresentações que fez em 29 e 30 de
abril passado, na Cité de La Musique, em Paris; e também por trazer
bastantes inéditas — sete das 12 faixas do CD, que, na semana que vem,
ganhará versão em DVD com 20 canções.
Ao violão, acompanhado pela baixista
e vocalista cubana Yusa e pelo percussionista Ramiro Musotto (um argentino
radicado há mais de uma década no Brasil), Lenine faz seu pop planetário, no
qual cabem samba, maracatu, repente devidamente turbinados. Entre as
inéditas, um dos bons momentos é o rock-repente “Todas elas juntas num só
ser”, parceria com o letrista Carlos Rennó que homenageia muitas musas da
canção (“Não canto mais Bebete, nem Domingas/Nem Xica nem Tereza, de Ben
Jor;/Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;/Não canto mais Luiza, do maior...”).
Já “Virou areia” estava escondida,
gravada apenas pelo grupo Batacotô e pela americana Dionne Warwick, e é belo
e híbrido samba. Entre as conhecidas que ganharam novo vigor ao vivo,
“Relampiano” fora lançada pelo parceiro Paulinho Moska e depois gravada por
Lenine em “Na pressão” (1999). Alguns bons exemplos de um CD que deve render
ainda mais com as imagens do DVD.
(© O Globo)
A palavra do trovador é apimentada por
suingue e harmonia
Lenine descobriu ser herdeiro dos
velhos trovadores provençais. “Mas um trovador que cruzou os Pirineus,
encontrou os mouros, veio para o Nordeste...”, diz em entrevista ao GLOBO.
Por isso, ao ser convidado pela Cité de la Musique de Paris para fazer o
show que quisesse no projeto “Carte Blanche”, resolveu radicalizar seu lado
trovador, ou seja, o do autor de músicas que “viaja pelo mundo e conta o que
vê”, como define. Assim, ele armou um trio com a novíssima baixista cubana
Yusa e com o percussionista argentino radicado no Brasil Ramiro Musotto,
compôs música sobre letras caudalosas e épicas, como “Ninguém faz idéia” e
“Todas elas juntas num só ser”. O projeto inusitado virou CD e DVD ao vivo.
Hugo Sukman
Por que homenagear a figura do trovador?
LENINE: Porque me reconheço naquela figura que canta o que compõe e
usa isso para viajar e contar às pessoas o que viu e o que vê. O trovador
está no meu DNA. Eu me deparei com isso quando comecei a ouvir músicas do
mundo mais profundamente. E descobri uma turma do sul da França que tem como
base o negócio do trovador e são tão loucos que ainda lutam para que a
língua oficial do sul da França seja o occitane. Eles descobriram nas
melodias modais, nordestinas, um campo vastíssimo para cantar os versos do
século XI que eles tinham registrado. Quando ouço Bob Dylan, acho que está
no DNA dele essa figura. Quando ouço o Chico Buarque, também, vejo esse
cronista.
Por isso o projeto nasceu na França?
LENINE: Curioso tem no mundo todo, o sujeito que vai atrás da
informação nova. Mas na França há uma juventude que se identificou com o meu
trabalho, não me pergunte por quê. O foco desse novo trabalho é a canção, e
a palavra. Que é mais uma característica do trovador, ser dissertativo,
descritivo. Recebi o convite para fazer um show no projeto “Carte blanche”,
na Cité de la Musique, que Caetano fez em 1999 e eu era um dos convidados,
ao lado de Augusto de Campos. A idéia era fazer uma coisa única, específica.
Não quis remanejar minha banda, que toca comigo há um tempão. De imediato
veio o nome da Yusa. Eu havia tocado em 2002 no Festival de Cinema de Havana
com a banda Interactivo, uma reunião dos músicos da ultranovíssima trova
cubana, e a Yusa me impressionou muito. Nesse meio tempo ouvi “Sudaka”, o
disco do Ramiro Musotto. Já o conhecia como produtor da Daniela Mercury, do
Lulu Santos, mas fiquei apaixonado. Resolvi então fazer um trio.
Sendo um trabalho tão pessoal e calcado na palavra, por que você trabalha
com letras de outros, parceiros como Carlos Rennó, Braulio Tavares, Lula
Queiroga?
LENINE: Eu sempre me intrometo nas letras. No caso de “Todas elas
juntas num só ser”, com o Rennó, em que homenageamos as mulheres e musas das
canções, a primeira versão ia ter 20 e poucos minutos, pela quantidade de
estrofes que tinha ali. Então fizemos uma peneira do que era comum a nós
dois. Era um poema do Rennó. Nesse trabalho eu reafirmo mais do que tudo que
sou intérprete porque eu componho. Acho que o Brasil tem grande exemplos de
cantautores , palavra que não existe em português mas existe em
outras línguas latinas. Há coisa mais autoral do que Djavan, do que Guinga?
O trovador provençal não suinga. Qual a diferença do trovador brasileiro?
LENINE: O refinamento. Em que lugar do mundo a música vem associada
ao cinema, de mãos dadas com a literatura, com as artes plásticas, com tudo
que é tipo de arte como vem a gente? Não acho que seja uma coisa comum. É
inusitado esse refinamento que a música brasileira tem. Eu, por exemplo,
acho que sou filho dos mineiros em termos harmônicos. O Clube da Esquina
está no meu DNA, que fica evidente em canções como “Todos os caminhos”, mas
que está no disco todo. O suingue vem por conta da Yusa, do Ramiro e do meu
violão. Normalmente o trovador é só o porta-voz. É quase monocórdio, e o
texto é que é importante. Eu dei uma apimentada nisso aí.
(© O Globo)
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