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DIANA MOURA BARBOSA
Resposta:
Todos os trabalhos que publiquei procuraram associar cultura e
formação das identidades pessoais. Este é o objetivo explícito de nossa
linha de pesquisa no programa de
pós-graduação do Instituto de Medicina Social da UERJ, do qual sou
professor. Portanto, desde a publicação de História da psiquiatria
no Brasil – Um corte ideológico, editado em 1976,
dedico-me ao estudo do tema. Quanto
à segunda parte da pergunta,
acho que não teria condições
intelectuais de fazer um diagnóstico deste porte. Em
O vestígio e a aura procurei
abordar algumas características da cultura contemporânea
diretamente implicadas no surgimento
dos sintomas corporais. Para ser mais preciso, tentei mostrar que
os ideais de felicidade que escolhemos estão relacionados, de modo
complexo e não linear, à explosão na clínica psiquiátrica e psicanalítica
das distorções da imagem do corpo e do abuso na exploração das sensações
corporais.
Resposta:
Não penso assim. Hoje como ontem, pensar sobre a sociedade na qual
vivemos é sempre difícil, pois corremos o risco
de julgar o presente
à luz de hábitos
resistentes à mudança. Diante desta sedução passadista, a
velocidade de transformação dos processos culturais parece-me algo de
importância secundária. Por esse
motivo, fiz questão de dizer que uma coisa é retomar do passado o
que ele teve de melhor e usá-lo
como inspiração ética para a construção do futuro; outra coisa
é querer congelar o passado e torná-lo uma camisola-de-força
das inevitáveis mudanças culturais e, outra coisa ainda, é não se
preocupar com o passado nem com o futuro. O último caso, o da
inconseqüência, é o que julgo mais nocivo, razão pela qual procurei
analisá-lo mais de perto. Mas, insisto, não podemos combater
a cultura da irresponsabilidade, recorrendo a catastrofismos e
“sem-jeitismos” que é a receita preferida dos
conservadores.
Resposta:
Em minha opinião, o que chamamos de falsa moral e de hipocrisia
nada mais é do que a antiga moralidade julgada pelos novos padrões morais.
Mas a mídia, ao que entendo, em nada contribuiu para a revolução
dos costumes que se fez mais visível e estridente
nos anos 60-70. A mídia apenas divulga o que está na moda. A mídia
difundiu, isto sim, o que chamei
de “moral do espetáculo”, ou seja,
a moral da vida como entretenimento e a conversão ao ideal da
felicidade das sensações. A crise
moral de nosso tempo não se deve aos exageros da mídia na defesa da
renovação dos hábitos morais; deve-se ao descompromisso da mídia com a
ética. Isto dito, não gostaria de
que esta opinião fosse entendida como um ataque cego e insensato ao papel
dos órgãos encarregados de fornecer informações ao público. Isto seria uma
estupidez sem tamanho. A mídia é parte integrante da liberdade de
expressão que prezamos; ela é um
dos pilares da vida republicana e democrática. Penso que a mídia deve ser
criticada quando deixa de cumprir este papel, para se preocupar, quase
exclusivamente, em entreter para ganhar os índices de audiência e
assegurar o patrocínio das empresas.
O infeliz resultado desta prática é a corrida para ver quem
consegue vender “sucesso de audiência” com mais eficiência, pouco
importando a qualidade do que é veiculado.
A pretexto de que a “massa” só vê e lê o popularesco e o caricato,
a mídia vem colaborando para o rebaixamento dos
horizontes intelectuais, morais, cívicos, artísticos e espirituais
dos cidadãos. O mais grave, no
entanto, é que, como mostrou um jornalista de um grande diário brasileiro,
em um artigo apropriadamente chamado “O gosto C da classe A”, são as
próprias elites econômicas que
alimentam o mercado do lixo cultural. Interrogadas, elas confessam, sem
nenhum constrangimento, que, por exemplo,
não lêm nem compram livros por preguiça, falta de paciência ou puro
e simples de desinteresse.
Resposta:
Depende de quais críticas. Aqueles que criticam o Iluminismo em
nome de um “pós-modernismo”
líquido ou gasoso, como se prefira,
a meu ver, estão equivocados. Os alicerces do Iluminismo parecem-me
peças indispensáveis à vigência
dos ideais de justiça e decência
na vida pública. Em contrapartida, penso que criticar o Iluminismo em seus
excessos de idealização da Razão, em seus excessos de confiança no
progresso científico, em seus preconceitos culturais eurocêntricos
etc., é uma tarefa
meritória. Aliás, como psicanalista, não poderia pensar de forma
diferente, sem contradizer minhas convicções teóricas e minha prática
clínica. Freud é um representante
emérito da crítica a modernidade iluminista, no que concerne às idéias
sobre a natureza do sujeito e seu desejo.
Resposta: As
experiências político-culturais republicana e democrática são experiências
abertas à reinvenção histórica, e não sistemas fechados, como certas
utopias totalitárias. Os ideais republicanos e democráticos não falharam.
Eles são um dicionário de direitos humanos que deve ser enriquecido com
novos verbetes, sempre que a prática humana exigir . Só podemos dizer que
eles “falham” quando a violência física ou simbólica os revoga pela força;
quando eles não são capazes de resistir ao assalto
dos totalitarismos, das ditaduras ou dos regimes de anomia social , nos
quais grupos privados, de bandidos ou “espertos”, procuram
fazer predominar seus interesses espúrios no vácuo do poder e da
autoridade legítimos. A República e a Democracia no Brasil ainda estão
engatinhando, mas estão de pé, e depende de todos nós tomá-las pela mão e
fazê-las caminhar com as próprias pernas.
Resposta: Certamente. Você tem razão
ao chamar a atenção para o lado criativo da
cultura somática. Por essa razão, fiz questão de dizer
que a chamada cultura do corpo é um fato cultural com uma faceta
voltada para o cuidado irresponsável do corpo e outra para a moral do
governo autônomo de si. No trabalho, procurei evitar, tanto quanto
possível, o clichê acusatório dos
que vêm em qualquer preocupação com o corpo físico um sinal de
“narcisismo”, “hedonismo”, “egoísmo” ou qualquer outro termo aparentado.
Também fiz questão de me afastar intelectualmente dos que “condenam” o
indivíduo atual, em nome de um
moralismo tacanho, em particular, de moralismos sexuais sem razão
de ser. Mostrei como o recente interesse pelo corpo pode ser fonte de
liberdade, de inovação de ideais de felicidade, de curiosidade científica
ou mesmo de aperfeiçoamento
espiritual, como no exemplo das
espiritualidades asiáticas.
Resposta:
No varejo, digamos, cada um deve procurar os próprios meios de
cuidar de si, em função de seus talentos,
possibilidades, condicionamentos biográficos etc. No atacado, o
critério é um só: o que faço por mim impede-me de me preocupar com aqueles
que virão depois de mim? Minha felicidade compromete a felicidade das
novas gerações? Meu interesse corpocêntrico me leva a abandonar o cuidado
com o mundo de todos? Esse é o ideal regulador, o princípio ético de ordem
superior, ao qual todos os outros devem se subordinar. Nenhuma felicidade
é boa, reta ou justa se resulta no alheamento em relação ao mundo de
todos, em particular, repito, ao
mundo que nossos descendentes herdarão.
Resposta:
Minha tentativa foi a de redescrever o fenômeno
do “consumismo”, de modo a distinguir o simples ato de comprar
produtos industriais e a prática de “consumir” o que adquirimos no mercado
de produção e venda. Assim como achei importante diferenciar a corpolatria
irresponsável das asceses corporais eticamente
aceitáveis, também procurei distinguir o “uso de objetos” do “consumo de
objetos”. Os objetos industriais comprados no mercado podem servir ao
propósito de fincar no
mundo, de forma material e visível a todos, as melhores produções
de nossa vida sentimental, intelectual, artística e espiritual. Neste caso
- que exemplifiquei
no tópico da moral sentimental dos objetos – a mercadoria “usada” é
o objeto reflete a dignidade de seu possuidor e
enriquece o patrimônio humano com a história dos que o possuíram
e deixaram-no como
legado aos que lhe sucederam.
O objeto “consumido”, ao contrário,
é o que se cola ao comprador e existe e desaparece com ele,
ou porque se dilui em seu corpo ou porque nenhum outro sujeito se
interessa por ele. Ao falar de
“objeto crachá”, de “objeto
dócil”, e de “objeto refugo” tentei classificar os tipos de objeto que são
consumidos. Dito de outro modo, objetos consumidos são aqueles cuja vida
útil termina com a vida de seus possuidores.
Resposta: A disjunção entre poder social
e autoridade moral parece-me, efetivamente, um
dos maiores dilemas de nossa cultura. Mas este descompasso, como
você bem
aponta, não apenas desmoraliza o papel da política; desmoraliza
igualmente a função dos que são
encarregados de educar, de formar as novas gerações. Isto dito, não acho
que estejamos vivendo em estado
de “anarquia”, no sentido
ordinário do termo. Temos valores; sabemos diferenciar
o justo do injusto, o meritório do fútil,
o cruel do generoso. Não se trata de criar fantasmas na cabeça e,
depois, procurar povoar o mundo
com eles. Nosso país caminha, nossas vidas continuam, e milhões e milhões
de brasileiros acreditam que vale
a pena viver para construir um mundo melhor.
Penso que devemos ser críticos, mas não ressentidos e derrotistas.
Esta, aliás, é a mais nefasta seqüela da moral do espetáculo: fazer-nos
crer que nossas vidas cotidianas, nossas obrigações cotidianas, nossas
aspirações cotidianas, nossas crenças morais cotidianas são irrisórias se
comparadas a tolice colorida do entretenimento. Isto é fatal. Ou
respeitamos nossas escolhas, ou dignificamos nossos esforços, ou
reaprendemos a admirar e a tomar como modelo os que fazem, no dia-a-dia,
esta comunidade e esta nação, ou nos tornamos fantoches supérfluos,
espectadores passivos da
vida-espetáculo. Marcuse, nos anos
60, falava da “Grande Recusa” , para se referir à atitude dos que
deveriam rejeitar em bloco e in limine
o materialismo consumista e desumano da cultura ocidental. Penso em
outra coisa. Penso “nas pequenas
recusas” e nas “pequenas proposições”, nos “ pequenos nãos” e nos
“pequenos sims” que, diariamente, nos ajudariam a acreditar em nossos
julgamento e discernimento e não
nas opiniões levianas dos
personagens do mundo do
espetáculo. Nosso país, desse
modo, viria a ter nossa cara e não
a cara plastificada,
pasteurizada, rasa e
atoleimada dos “heróis e heroínas” da vida como entretenimento.
Resposta: Não gostaria de falar sobre o que não me dediquei a entender melhor. Sei que injustiça e desigualdade existem em todo mundo, embora ache que nossas injustiças econômicas e desigualdades sociais são particularmente escandalosas. Não quis me deter nestes assuntos, por achar que muitos outros especialistas, cidadãos comuns, políticos etc, são mais competentes do que eu para dizer o que é ou não relevante nesta matéria. Insisto em delimitar o assunto que abordei no estudo: quais os elementos culturais implicados na formação das identidades individuais e nos desequilíbrios afetivos presentes nos sintomas corporais. Este ângulo da observação da cultura é um ângulo estreito. Não pretendi nem pretendo estender, de modo indevido, conclusões para outras esferas da vida sociocultural. Isto seria uma responsabilidade humana e intelectual, da qual não quero ser cúmplice. (© JC Online) |
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