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“É preciso resgatar o iluminismo”

O psicanalista Jurandir Freire Costa, na foto com o médio Dráuzio Varela, em Paraty (RJ)
 

DIANA MOURA BARBOSA

   Com uma dupla preocupação, evidenciar os descaminhos que percorre a sociedade contemporânea e apontar possíveis saídas, o psicanalista pernambucano radicado no Rio de Janeiro Jurandir Freire Costa escreveu O Vestígio e a Aura. O trabalho chama a atenção para o modo como a ética tem sido negligenciada e afirma que se deve resgatar valores do iluminismo para a construção de uma sociedade saudável. Veja a entrevista a seguir.

Entrevista J. Comércio – o vestígio e a aura.
Perguntas para entrevista por ocasião do lançamento do livro O Vestígio e a Aura no Recife.

1 - Há quanto tempo o senhor tem se voltado, dentro do viés psicanalítico, para o estudo dos fenômenos sociais contemporâneos e, neste sentido, quais as principais características da nossa sociedade?

Resposta:  Todos os trabalhos que publiquei procuraram associar cultura e formação das identidades pessoais. Este é o objetivo explícito de nossa linha de pesquisa  no programa de pós-graduação do Instituto de Medicina Social da UERJ, do qual sou professor. Portanto, desde a publicação de História da psiquiatria  no Brasil – Um corte ideológico, editado em 1976, dedico-me ao estudo do tema.   Quanto à segunda parte da pergunta,   acho que não teria condições  intelectuais de fazer um diagnóstico deste porte. Em  O vestígio e a aura procurei  abordar algumas características da cultura contemporânea  diretamente implicadas no surgimento   dos sintomas corporais. Para ser mais preciso, tentei mostrar que  os ideais de felicidade que escolhemos estão relacionados, de modo complexo e não linear, à explosão na clínica psiquiátrica e psicanalítica das distorções da imagem do corpo e do abuso na exploração das sensações corporais.

2 - Ainda dentro deste mesmo contexto, é possível realmente afirmar que a velocidade com que a sociedade atual tem mudado, e alterado aspectos
subjetivos do sujeito, tem dificultado a vida dos pensadores que se debruçam sobre estes estudos?

Resposta:  Não penso assim. Hoje como ontem, pensar sobre a sociedade na qual vivemos é sempre difícil, pois corremos o risco  de  julgar o presente  à luz de  hábitos  resistentes à mudança. Diante desta sedução passadista, a velocidade de transformação dos processos culturais parece-me algo de importância secundária.  Por esse  motivo, fiz questão de dizer que uma coisa é retomar do passado o que ele teve de melhor e usá-lo  como inspiração ética para a construção do futuro; outra coisa   é querer congelar o passado e torná-lo uma camisola-de-força   das inevitáveis mudanças culturais e, outra coisa ainda, é não se preocupar com o passado nem com o futuro. O último caso, o da inconseqüência, é o que julgo mais nocivo, razão pela qual procurei analisá-lo mais de perto. Mas, insisto, não podemos combater  a cultura da irresponsabilidade, recorrendo a catastrofismos e “sem-jeitismos” que é a receita preferida dos  conservadores.  

3 - Em O Vestígio e a Aura, o senhor procura confrontar o comportamento social atual com conceitos como ética e moral. Boa parte do que as artes e a mídia produziram no século 20 foi uma tentativa de derrubar o falso moralismo e a hipocrisia. O senhor acredita que a crise da moral que se anuncia neste século 21 é conseqüência de um exagero desta tentativa?

Resposta:  Em minha opinião, o que chamamos de falsa moral e de hipocrisia nada mais é do que a antiga moralidade julgada pelos novos padrões morais. Mas a mídia, ao que entendo, em nada contribuiu para a revolução dos costumes que se fez mais visível e estridente  nos anos 60-70. A mídia apenas divulga o que está na moda. A mídia difundiu,  isto sim, o que chamei de “moral do espetáculo”, ou seja,  a moral da vida como entretenimento e a conversão ao ideal da felicidade das sensações.  A crise moral de nosso tempo não se deve aos exageros da mídia na defesa da renovação dos hábitos morais; deve-se ao descompromisso da mídia com a ética.  Isto dito, não gostaria de que esta opinião fosse entendida como um ataque cego e insensato ao papel dos órgãos encarregados de fornecer informações ao público. Isto seria uma estupidez sem tamanho. A mídia é parte integrante da liberdade de expressão que prezamos; ela  é um dos pilares da vida republicana e democrática. Penso que a mídia deve ser criticada quando deixa de cumprir este papel, para se preocupar, quase exclusivamente, em entreter para ganhar os índices de audiência e assegurar o patrocínio das empresas.  O infeliz resultado desta prática é a corrida para ver quem consegue vender “sucesso de audiência” com mais eficiência, pouco importando a qualidade do que é veiculado.   A pretexto de que a “massa” só vê e lê o popularesco e o caricato,  a mídia vem colaborando para o rebaixamento dos  horizontes intelectuais, morais, cívicos, artísticos e espirituais dos cidadãos.  O mais grave, no entanto, é que, como mostrou um jornalista de um grande diário brasileiro, em um artigo apropriadamente chamado “O gosto C da classe A”, são as próprias elites econômicas  que alimentam o mercado do lixo cultural. Interrogadas, elas confessam, sem nenhum constrangimento, que, por exemplo,  não lêm nem compram livros por preguiça, falta de paciência ou puro e simples de desinteresse.   

4 - Muitos pensadores do século 20 também dedicaram-se à crítica do iluminismo, sob diversos aspectos. O senhor acredita que essas críticas estavam equivocadas?

Resposta:  Depende de quais críticas. Aqueles que criticam o Iluminismo em nome de um  “pós-modernismo” líquido ou gasoso, como se prefira,   a meu ver, estão equivocados. Os alicerces do Iluminismo parecem-me peças  indispensáveis à vigência dos ideais de justiça e decência  na vida pública. Em contrapartida, penso que criticar o Iluminismo em seus excessos de idealização da Razão, em seus excessos de confiança no progresso científico, em seus preconceitos culturais eurocêntricos  etc., é uma tarefa meritória. Aliás, como psicanalista, não poderia pensar de forma diferente, sem contradizer minhas convicções teóricas e minha prática clínica. Freud é um  representante emérito da crítica a modernidade iluminista, no que concerne às idéias sobre a natureza do sujeito e seu desejo.               

5 - O senhor também se refere a existência de uma engrenagem alucinada que tripudia sobre séculos de ideais democráticos e humanitários, só porque alguns decidiram fazer de seus prazeres o umbigo do mundo. Mas esses ideais democráticos não teriam falhado em algum momento, possibilitando o surgimento dessa engrenagem?

Resposta: As experiências político-culturais republicana e democrática são experiências abertas à reinvenção histórica, e não sistemas fechados, como certas utopias totalitárias. Os ideais republicanos e democráticos não falharam. Eles são um dicionário de direitos humanos que deve ser enriquecido com novos verbetes, sempre que a prática humana exigir . Só podemos dizer que eles “falham” quando a violência física ou simbólica os revoga pela força;  quando eles não são capazes de resistir ao assalto dos totalitarismos, das ditaduras ou dos regimes de anomia social , nos quais grupos privados, de bandidos ou “espertos”, procuram  fazer predominar seus interesses espúrios no vácuo do poder e da autoridade legítimos. A República e a Democracia no Brasil ainda estão engatinhando, mas estão de pé, e depende de todos nós tomá-las pela mão e fazê-las caminhar com as próprias pernas.

7 - No seu trabalho, o senhor aponta o exagero da presença do corpo mediando as relações entre os seres no mundo contemporâneo, ocorrendo uma
superexposição do corpo (tanto no sentido estético, como no consumo de drogas e em vários outros aspectos). Mas por outro lado, o mundo atual
também não estaria mais aberto à experimentação e à sensibilização, traços que foram abafados durante muito tempo, chegando a causar traumas em
algumas pessoas?

Resposta: Certamente. Você tem razão  ao chamar a atenção para o lado criativo da  cultura somática. Por essa razão, fiz questão de dizer  que a chamada cultura do corpo é um fato cultural com uma faceta voltada para o cuidado irresponsável do corpo e outra para a moral do governo autônomo de si. No trabalho, procurei evitar, tanto quanto possível, o clichê acusatório  dos que vêm em qualquer preocupação com o corpo físico um sinal de “narcisismo”, “hedonismo”, “egoísmo” ou qualquer outro termo aparentado. Também fiz questão de me afastar intelectualmente dos que “condenam” o indivíduo atual,  em nome de um  moralismo tacanho, em particular, de moralismos sexuais sem razão de ser. Mostrei como o recente interesse pelo corpo pode ser fonte de liberdade, de inovação de ideais de felicidade, de curiosidade científica ou mesmo  de aperfeiçoamento espiritual, como no exemplo das  espiritualidades asiáticas.

8 - Como se pode encontrar um limite entre a exposição saudável do corpo ao mundo e o respeito por esse mesmo corpo, pelo outro, pela sociedade?

Resposta:   No varejo, digamos, cada um deve procurar os próprios meios de cuidar de si, em função de seus talentos,  possibilidades, condicionamentos biográficos etc. No atacado, o critério é um só: o que faço por mim impede-me de me preocupar com aqueles que virão depois de mim? Minha felicidade compromete a felicidade das novas gerações? Meu interesse corpocêntrico me leva a abandonar o cuidado com o mundo de todos? Esse é o ideal regulador, o princípio ético de ordem superior, ao qual todos os outros devem se subordinar. Nenhuma felicidade é boa, reta ou justa se resulta no alheamento em relação ao mundo de todos, em particular,  repito, ao mundo que nossos descendentes herdarão.

9 - Qual o papel que o consumo ocupa hoje na nossa sociedade e quais os problemas que ele traz? O senhor acredita que o consumo é usado para mascarar outros componentes do comportamento humano?

Resposta:  Minha tentativa foi a de redescrever o fenômeno  do “consumismo”, de modo a distinguir o simples ato de comprar produtos industriais e a prática de “consumir” o que adquirimos no mercado de produção e venda. Assim como achei importante diferenciar a corpolatria irresponsável das asceses corporais eticamente aceitáveis, também procurei distinguir o “uso de objetos” do “consumo de objetos”. Os objetos industriais comprados no mercado podem servir ao propósito de  fincar no  mundo, de forma material e visível a todos, as melhores produções de nossa vida sentimental, intelectual, artística e espiritual. Neste caso -  que exemplifiquei  no tópico da moral sentimental dos objetos – a mercadoria “usada” é o objeto reflete a dignidade de seu possuidor e  enriquece o patrimônio humano com a história dos que o possuíram  e deixaram-no  como  legado aos que lhe sucederam.  O objeto “consumido”, ao contrário,  é o que se cola ao comprador e existe e desaparece com ele,  ou porque se dilui em seu corpo ou porque nenhum outro sujeito se interessa por ele.  Ao falar de “objeto crachá”, de  “objeto dócil”, e de “objeto refugo” tentei classificar os tipos de objeto que são consumidos. Dito de outro modo, objetos consumidos são aqueles cuja vida útil termina com a vida de seus possuidores. 

10 - No seu livro, o senhor relaciona o descompasso entre poder e autoridade como um dos problemas mais graves para a constituição de uma sociedade saudável, sem violência e com respeito ao próximo. Esse
descompasso não anularia o papel da política em nossa sociedade?
Estaríamos vivendo enfim numa anarquia, no sentido pejorativo do termo?

Resposta: A disjunção entre poder social e autoridade moral parece-me, efetivamente, um  dos maiores dilemas de nossa cultura. Mas este descompasso, como você  bem   aponta, não apenas desmoraliza o papel da política; desmoraliza igualmente   a função dos que são encarregados de educar, de formar as novas gerações. Isto dito, não acho que estejamos vivendo  em estado de “anarquia”, no sentido  ordinário do termo. Temos valores; sabemos diferenciar  o justo do injusto, o meritório do fútil,   o cruel do generoso. Não se trata de criar fantasmas na cabeça e, depois, procurar   povoar o mundo com eles. Nosso país caminha, nossas vidas continuam, e milhões e milhões de brasileiros acreditam  que vale a pena viver para construir um mundo melhor.  Penso que devemos ser críticos, mas não ressentidos e derrotistas. Esta, aliás, é a mais nefasta seqüela da moral do espetáculo: fazer-nos crer que nossas vidas cotidianas, nossas obrigações cotidianas, nossas aspirações cotidianas, nossas crenças morais cotidianas são irrisórias se comparadas a tolice colorida do entretenimento. Isto é fatal. Ou respeitamos nossas escolhas, ou dignificamos nossos esforços, ou reaprendemos a admirar e a tomar como modelo os que fazem, no dia-a-dia, esta comunidade e esta nação, ou nos tornamos fantoches supérfluos, espectadores passivos   da vida-espetáculo. Marcuse, nos anos  60, falava da “Grande Recusa” , para se referir à atitude dos que   deveriam rejeitar em bloco e in limine  o materialismo consumista e desumano da cultura ocidental. Penso em outra coisa. Penso  “nas pequenas recusas” e nas “pequenas proposições”, nos “ pequenos nãos” e nos “pequenos sims” que, diariamente, nos ajudariam a acreditar em nossos julgamento e discernimento e não   nas opiniões  levianas dos personagens do  mundo do espetáculo. Nosso país, desse   modo, viria a ter nossa cara e não  a cara  plastificada, pasteurizada,  rasa e  atoleimada dos “heróis e heroínas” da vida como entretenimento.          

13 - O senhor aponta a desigualdade social como um dos itens que mais afetam a construção de uma sociedade mais justa, menos violenta e mais
'confortável' para todos, entretanto, muitos dos problemas que o senhor cita não afetam também países ricos? Quais as variáveis que atuam nas sociedades abastadas?

Resposta:  Não gostaria de falar sobre o que não me dediquei a entender melhor. Sei que injustiça e desigualdade existem em todo mundo, embora ache que nossas injustiças econômicas e desigualdades sociais são particularmente escandalosas. Não quis me deter nestes assuntos, por achar  que muitos outros especialistas, cidadãos comuns, políticos etc, são mais competentes do que eu  para dizer o que é ou não relevante nesta matéria.   Insisto em delimitar o assunto que abordei   no estudo: quais os elementos culturais implicados   na formação das identidades individuais  e nos desequilíbrios afetivos presentes nos sintomas corporais. Este ângulo da observação da cultura é um ângulo estreito. Não pretendi nem  pretendo estender, de modo indevido, conclusões para outras esferas da vida sociocultural. Isto seria uma responsabilidade humana e intelectual, da qual não quero ser cúmplice.

JC Online)

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