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Maior violoncelista brasileiro, Antonio Meneses lança dois CDs
e reabre teatro no centro de SP O Brasil nunca teve um instrumentista de arcos como Meneses. Nosso primeiro músico a ter seu talento reconhecido fora de nossas fronteiras foi o compositor Carlos Gomes (1836-96), regendo suas óperas na Itália, no século 19. Depois, tivemos o também compositor Villa-Lobos (1887-1959); a cantora Bidu Sayão (1902-99); e os pianistas Guiomar Novaes (1894-1979), Magdalena Tagliaferro (1894-1986) e Nelson Freire, entre outros. Nas cordas, contudo, o primeiro -e, até agora, único- grande êxito internacional veio com o pernambucano radicado na Suíça Antonio Meneses, 47, que, em 1982, causou furor ao vencer o Concurso Tchaikovski de Moscou. Na mesma década, gravou para a poderosa Deutsche Grammophon dois discos com a melhor orquestra do planeta, a Filarmônica de Berlim, que era dirigida, à época, pelo mais poderoso regente do mundo, o germânico Herbert von Karajan (1908-89). Meneses, que se apresenta amanhã em São Paulo, na reabertura do centenário Teatro São Bento, teve um novo alento em sua carreira a partir de 1998, quando passou a fazer parte de uma das mais tradicionais formações de câmera do planeta: o Beaux Arts Trio, fundado em 1954 pelo mítico Menahem Pressler, pianista nascido na Alemanha em 1923, que está em plena atividade e tem autoridade suficiente para continuar carregando o nome do grupo, mesmo já tendo trocado várias vezes de parceiros de cordas. Meneses falou por telefone à Folha de Nova York, no meio de uma série de recitais com Pressler e seu outro parceiro de trio, o violinista britânico Daniel Hope. Nos EUA, eles estão apresentando não apenas todos os trios, mas também a integral dos duos de violino e piano e violoncelo e piano de Beethoven. O grupo trocou de gravadora, saindo da Philips para a Warner Classics, que lançou um álbum comemorativo dos 50 anos do Beaux Arts -o primeiro disco de Meneses na nova formação, com o "Trio nº 1", de Mendelssohn, e o "Trio Dumky", de Dvorák. Ano que vem, devem ser registrados os trios de Schubert. Além disso, na etiqueta britânica Avie Records (com distribuição no Brasil do recém-criado selo Clássicos), Meneses acaba de lançar sua versão da Bíblia dos violoncelistas: as seis suítes para seu instrumento, sem acompanhamento, escritas por Johann Sebastian Bach. "Eu toco as suítes desde criança", conta o instrumentista. "No meu primeiro recital, ainda garoto, com 12 anos de idade, eu já toquei uma delas. Elas fazem parte da vida de todo violoncelista, como as sonatas de Beethoven são para todo pianista. Só que, como o violoncelo tem um repertório muito reduzido em comparação ao piano, isso aumenta a importância das suítes de Bach." A primeira gravação de Meneses dessas obras ocorreu há dez anos, no Japão, com o violoncelo que pertenceu a Pablo Casals. Contudo, a distribuição do álbum ficou restrita ao Oriente. "O músico em si não muda, e a música também não. Mas dez anos fazem diferença na vida de qualquer pessoa", diz. "O simples fato de estar tocando há seis anos com um grande músico como Menahem Pressler já faz uma diferença. Eu acredito que, nessa gravação, Bach fala mais alto do que Meneses. Eu diria que eu estou numa espécie de meio-campo entre o que se faz na música antiga e o que o instrumento, da maneira como ele é feito hoje em dia, oferece de possibilidades." Ele conta que a vantagem de gravar por uma firma pequena como a Avie é poder ser dono do fonograma. "Isso é que me possibilitou lançar o disco no Brasil. Antigamente, você simplesmente
cedia todos os direitos do seu trabalho", afirma. Em abril, Meneses mostra a integral das suítes de Bach na abertura da temporada 2005 da Sociedade de Cultura Artística. Para a ocasião, ele encomendou meia dúzia de peças curtas para seis distintos compositores brasileiros (Almeida Prado, Edino Krieger, Marlos Nobre, Marisa Rezende, Ronaldo Miranda e Marco Padilha), cada uma servindo como introdução para uma suíte diferente do autor alemão. A iniciativa parece marcar uma nova fase de compromisso do instrumentista com a criação contemporânea. Na sétima edição do festival Virtuosi, em Recife, que o homenageou na semana passada, Meneses tocou uma peça nova de Clóvis Pereira; estreou, em julho, no Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, uma sonata de Almeida Prado; e encomendou concertos a Edino Krieger e Marco Padilha. "Até pouco tempo atrás eu ainda estava muito fascinado com os grandes compositores do passado. De repente, vi que a gente tem que viver no presente também, e que existem compositores que precisam da gente. O compositor não pode viver sem o intérprete." "Ouvindo uma obra do Marco Padilha, o concerto que ele escreveu para viola, eu me conscientizei disso. Um compositor como este está praticamente desconhecido, mesmo no Brasil, mas é um ótimo músico, e precisa que os intérpretes vão a ele", preconiza. "Se não fosse um músico como o Rostropovich, o violoncelo não teria o repertório atual, com obras de Chostakovitch, Lutoslawski, Prokofiev, Dutilleux -todo esse pessoal escreveu para ele." Em sua apresentação de amanhã, Meneses é acompanhado pelo pianista holandês Frédéric Meinders. O programa traz "Phantasiestücke" de Schumann; "Elegie", de Fauré; e as sonatas de Debussy e Rachmaninov. (© Folha de S. Paulo)
"BACH" E "DVORÁK/MENDELSSOHN" FREE-LANCE PARA A FOLHA Com o mercado fonográfico de clássicos em uma crise que já parece ser estrutural, de tão longa, é um luxo para um mesmo artista ter lançados dois CDs simultaneamente. A gravação do "Trio nº 1", de Mendelssohn, e do "Trio Dumky", de Dvorák, é a primeira que Antonio Meneses faz com o Beaux Arts Trio, grupo de câmera que ele integra desde 1998. O calcanhar de Aquiles do trio era o violinista coreano Young Uck Kim, agora substituído pelo britânico Daniel Hope, estrela ascendente do violino. Por detrás de Hope e Meneses, está o octogenário Menahem Pressler, único remanescente da formação original. Um dos maiores pianistas de câmera de todos os tempos, Pressler mostra, no disco, uma fluência inacreditável, e comanda do teclado a alternância entre efusões líricas e momentos de introspecção de seus parceiros de cordas, em um disco empolgante. Já no que tange às suítes para violoncelo solo de Bach, vemos em Meneses um intérprete que, embora toque um violoncelo "moderno" (um Jean-Baptiste Vuillaume de 1840), não ignora as pesquisas feitas pela corrente de interpretação barroca. Assim é que um recurso como o
vibrato (oscilação de altura em uma única nota, obtida vibrando-se o dedo
que comprime a corda), por exemplo, que ele emprega com volúpia no disco do
Beaux Arts Trio, aqui é utilizado com extrema parcimônia. Se a sexta suíte,
escrita para um instrumento barroco de cinco cordas, é executada em um
violoncelo moderno de quatro, por outro lado, na quinta suíte Meneses
obedece a "scordatura" (mudança de afinação) pedida pelo compositor. Bach: As Seis Suítes para Violoncelo (© Folha de S. Paulo) Gênio brasileiro O violoncelista pernambucano Antonio Meneses se supera ao regravar as seis suítes de Bach JOÃO MARCOS COELHO
Doze anos atrás, o violoncelista pernambucano Antonio Meneses gravou em Tóquio o ciclo de obras-solo que é um Himalaia para os violoncelistas: as seis suítes de Johann Sebastian Bach (1685-1750). O álbum duplo ficou restrito ao mercado japonês - e virou raridade. Agora ele repete a façanha, desta vez em gravação realizada numa igreja perto de Londres. O álbum está saindo aqui pelo estreante selo paulista Clássicos (www.concerto.com.br) e, no mercado internacional, pelo inglês Avie (www.avierecords.com). Se o registro de 1992 já era passível de comparação com outras notáveis versões a cargo de músicos tão iluminados quanto Casals, Fournier, Rostropovich e Bylsma, este o coloca em definitivo como um dos grandes intérpretes de Bach neste início de século XXI. Tímido e de fala mansa, nosso Prêmio Tchaikovski - Meneses foi o primeiro brasileiro a vencer o concurso em Moscou, 22 anos atrás - é músico de primeira linha no cenário internacional. Aos 46 anos e há mais de 20 morando em Basel, na Suíça, faz média anual de 90 concertos nos circuitos europeu, asiático e americano, e integra o célebre Beaux Arts Trio. O que propicia o salto da condição de músico local para virtuose internacionalmente consolidado? ''A diferença é que no início você não sabe que é preciso ser chato para garantir o melhor resultado final'', receita, em entrevista a ÉPOCA. ''Aprendi isso graças ao convívio com o pianista Menahem Pressler no Beaux Arts Trio.'' Seu ego não anda inflado demais. Ao contrário. Basta escutar as duas gravações para conferir o que ele mesmo diz: ''Na primeira, Meneses é a estrela; agora, é a música de Bach que soa através de mim''. Ou seja, o músico precisa ''descobrir seu lugar dentro da obra, deixá-la fluir naturalmente''. Receita simples, porém difícil de ser conquistada. Receita, aliás, próxima do espírito que norteou a criação das suítes: Bach as compôs para dois celistas da orquestra de Cothen. E sua estrutura é praticamente pós-modernista como atitude, em sua absorção de estilos e danças alemãs, francesas e italianas em seus seis movimentos, em que se destacam o prelúdio inicial e a solene e dramática sarabanda, coração de cada suíte. Pares de danças mais leves, como as correntes, gigas, gavotas, alemandas e os minuetos, as complementam. Uma proposta tão inovadora que as fez sobreviver só como material de estudo. Reconquistaram o status atual de obra-prima absoluta quando Pablo Casals, aos 13 anos, em 1889, encontrou por acaso uma cópia das suítes num sebo de Barcelona e, em 1902, as levou para a sala de concertos. Passados mais de cem anos, os brasileiros já podem curtir o prazer de saborear uma gravação estupenda como esta. E também ouvir Meneses ao vivo em recitais com as suítes em abril de 2005, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo.
(© Revista ÉPOCA) Antonio Meneses
toca inéditos de Clóvis Pereira PAULO SÉRGIO SCARPA O 7º Virtuosi, o festival de música de câmara de Pernambuco, no Teatro Santa Isabel, terá hoje, às 21h, a sua mais importante noite. O violoncelista Antonio Meneses, nascido no Recife e radicado na Europa, será o solista, na primeira audição mundial, da obra Concertino em sol maior para violoncelo e orquestra, do maestro e compositor pernambucano Clóvis Pereira (1932). Dedicada ao violoncelista e composta a seu pedido, o Concertino retoma o tema do aboio, já desenvolvido por Clóvis Pereira em outras composições, e explora todas as possibilidade técnicas do artista. A obra nasceu após uma conversa, por telefone, entre o músico e o maestro. Considerado pela crítica mundial como um dos cinco maiores violoncelistas em atividade no planeta, Antonio Meneses também participará da primeira audição de outra obra de Clóvis Pereira, o Mourão, Opus 4, em arranjo especialmente feito para o 7º Virtuosi para cinco violoncelos. O pernambucano tocará ao lado de Suren Bagratuni (armênio ), Molly Read (canadense), Kirill Bogatyrev (russo) e Leonardo Altino (pernambucano). O Mourão, em sua quarta versão, foi criado originalmente pelo compositor César Guerra-Peixe e teve versão definitiva no arranja de Clóvis Pereira, para a Orquestra Armorial, criada por Ariano Suassuna e Cussy de Almeida, no Recife. Meneses ainda executa com a Orquestra Virtuosi o concerto para violoncelo de Joseph Haydn (1732-1809), sob a regência do diretor artístido do evento, Rafael Garcia. A última noite do 7º Virtuosi terá ainda obras de Edward Grieg (1843-1907) e Piotr Ilitch Taichovsky (1840-1893), com Leonardo Altino (celo). De Giovanni Bottesini (1821-1889), com Jonathan Crow (violino) e Catalin Rotaru (contrabaixo). O festival de música de câmara apresentou este ano o maestro e pianista João Carlos Martins, o oboísta Joel Gisiger, o percussionista Marcos Suzano, o violinista Gilles Apap e o saxofonista Christian Hougaard, entre 30 artistas. (© JC Online) |
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