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Texto Carlos Moraes fotos Orlando Azevedo
Uma grande exposição
agita – ou assombra? – este verão de Curitiba. São 263 obras do escultor
pernambucano Francisco Brennand, que há 33 anos constrói, perto de Recife,
um fantástico santuário pessoal.
No magnífico conto de Jorge Luis Borges As Ruínas
Circulares, um velho sacerdote se refugia num templo perdido para, noite
após noite, sonhar e modelar um ser humano de tal forma que, no fim, ele
se torne real. A 12 quilômetros de Recife, num antigo engenho de açúcar,
há 33 anos o escultor e pintor Francisco Brennand, dia após dia, constrói
um templo para sonhar e reconstituir a humanidade.
De tradicional família de empresários, seu destino talvez fosse o de ser apenas um ceramista que aproveitasse a experiência e os fornos da antiga fábrica de vidro e telhas do pai.
E bem que tentou.
Mas um dia dos pisos e azulejos foram surgindo, em terracota, as grandes
figuras de bichos, frutas e mitos que hoje compõem o seu vasto santuário
pessoal.
As peças já passam
de 2 mil. Seres imaginários, pelicanos míticos, animais submersos, deuses
gregos, ícones cristãos, rostos humanos gritam para os céus enquanto da
abóbada azul de um templo pende um ovo de argila. Todo um mundo.
Neste dezembro parte desse acervo partirá, em mítica
revoada, para uma grande mostra no Museu Oscar Niemeyer de Curitiba, e
terá um curador à altura na pessoa do escultor, colecionador e criador do
Museu AfroBrasil, Emanoel de Araújo.
Para Emanoel, um dos grandes pontos a observar na mostra é o que ele chama de “natureza prestes a atacar”, um conceito expresso em obras de inspiração indígena com aqueles grandes bichos de boca aberta. Mas é complicado tentar atrelar Brennand a uma determinada visão de mundo ou escola de arte. Francisco Brennand é, acima de tudo, um demiurgo. Nas antigas cosmogonias, ou teorias de explicação do nascimento do universo, o demiurgo é o artesão divino que modela a matéria caótica e dela faz nascer o mundo. As peças já passam de 2 mil. Seres imaginários, pelicanos míticos, animais submersos, deuses gregos, ícones cristãos, rostos humanos gritam para os céus enquanto da abóbada azul de um templo pende um ovo de argila. Todo um mundo. Por extensão, é todo artista que do nada ou do pouco ergue uma obra grandiosa. É o que Brennand faz, de barro, há 33 anos, “todos os dias, peça por peça, laboriosamente”, como ele mesmo diz. Emanoel ressalta ainda na exposição os grandes frutos que viram objetos escultóricos, os corpos metamorfoseadas até a abstração, a presença de grandes vítimas da história da humanidade e 36 rostos varados por um grito que será reverberado por uma música especial.
Laboriosamente pesquisa
barros, óxidos, pigmentos e modela e leva ao forno suas figuras. Nas altas
temperaturas dos fornos aprendeu a controlar a quase-não-cor das suas
peças, um amarelo-ocre aqui, uma suposição de azul ali, de repente uma
insinuação de vermelho.
Sua visão de mundo também não é simples de definir. Em seu santuário se
erguem figuras bíblicas, gregas, guerreiros de todas as causas,
especialmente das perdidas. A Francisco Brennand só importa a humanidade e
seus grandes símbolos.
Seu grande e único
tema, ele confessa, é a condição humana degredada neste vale de lágrimas,
onde só pela fé e pela arte se pode chegar a alguma transcendência.
Ele se considera
basicamente católico, mas um católico brasileiro, sensível às forças
únicas da sua natureza. Não se deixa esgotar nessa ou naquela visão
religiosa ou política das coisas. Ama a mitologia grega pelo seus
transbordantes excessos e, numa das peças, viu em Montezuma o símbolo de
toda uma cultura assassinada.
Por isso é inútil
perguntar donde suas obras brotam. Elas vêm de um rio mais remoto e mais
fundo do que o Capiberibe, que margeia seu santuário. Elas vêm do Egito,
da França, dos Andes, do seu vasto e livre inconsciente de artista. Elas
vêm do barro e têm a idade da Terra.
A MOSTRA
Francisco Brennand – Esculturas estará em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer, rua Marechal Hermes, 999; tel.: (41) 350-4400. Agendamento prévio para escolas: agendamento@mon.org.br (© Revista ÍCARO Brasil) |
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