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Gullar: Homem de Idéias

Ferreira Gullar

Ferreira Gullar é o Homem de Idéias de 2004. Aos 74 anos, o poeta foi lembrado pela relevância e extensão de sua obra e por sua posição política

Alvaro Costa e Silva e Paulo Celso Pereira

   Aos 74 anos, o maranhense Ferreira Gullar - um dos mais importantes poetas brasileiros, além de crítico de arte combativo, dramaturgo e jornalista - é o Homem de Idéias 2004. Em eleição de que participaram alguns dos escolhidos de anos anteriores - como o crítico literário Antonio Candido, o arquiteto Oscar Niemeyer, o cientista social Luís Eduardo Soares, o filósofo Leandro Konder, o sociólogo Francisco de Oliveira, o historiador José Murilo de Carvalho e o escritor Luiz Fernando Verissimo -, Gullar recebeu a maioria dos votos, superando o economista Carlos Lessa, o escritor Ruy Castro e a professora Alba Zaluar.

   - A poesia é uma invenção, e, por isso, às vezes um poeta é mais ouvido. Pois o que ele escreve corresponde de uma maneira mais ampla ao sentimento das pessoas - afirma ele na entrevista da página B3 desta edição especial do Caderno B - Idéias & Livros.

   Oscar Niemeyer, um velho amigo e militante dos tempos do Partidão (como era conhecido o Partido Comunista Brasileiro), abriu a campanha em favor de Gullar com poucas palavras. Mas palavras de ordem:

   - Ele é um sujeito correto, um homem de esquerda, um grande poeta e um bom camarada.

   Ao longo de 2004, a editora José Olympio deu início ao projeto de relançar toda a obra de Gullar (revista pelo autor e com esmerado projeto gráfico), publicando uma nova edição de Na vertigem do dia e outra de A luta corporal, em comemoração aos 50 anos do livro. E a Global mandou para as livrarias a 7ª edição da antologia Melhores poemas de Ferreira Gullar, organizada pelo crítico literário Alfredo Bosi. É com base nessas reedições que Leandro Konder justificou seu voto:

   - Os poemas dele foram reunidos e tornados acessíveis. E tiveram um eco surpreendente, sobretudo na nova geração, que reagiu bem aos poemas.

   Completando a ala dos votantes em Gullar, Antônio Cândido o escolheu por ser ''um poeta muito significativo'' e José Murilo de Carvalho ressaltou a importância de sua obra poética na moderna literatura brasileira e de seu trabalho como crítico de arte.

   Nascido em 10 de setembro de 1930, em São Luís, no Maranhão, José Ribamar Ferreira (Gullar é o aproveitamento do nome francês, Goulart, de sua mãe) pensou, primeiro, em ser jogador de futebol, até que um sarrafo de um adversário o demoveu da idéia. Aos 13 anos, na escola técnica onde aprendeu a plainar e polir madeira, decidiu ser escritor, depois de receber elogios de uma professora por conta de uma redação sobre o Dia do Trabalho.

   Manteve-se, assim, a tradição do Maranhão em gerar filhos que sabem como poucos manejar a língua. Gullar faz sempre questão de lembrar que a primeira gramática da língua portuguesa editada no Brasil foi escrita por um maranhense. Foi também um maranhense, Odorico Mendes, quem primeiro traduziu os clássicos poetas latinos Horácio e Virgílio. Por essas e outras, desenvolveu-se no Maranhão uma cultura clássica que levou São Luís a ser chamada de Atenas brasileira. Ferreira Gullar é um legítimo representante desse chão.

   Em 1949, foi publicado seu primeiro livro, Um pouco acima do chão, que mas mais tarde excluiria de sua bibliografia. Dois anos depois, começa a assinar críticas de arte quando, já no Rio, torna-se amigo do crítico Mário Pedrosa e de jovens pintores da época. Em 1954, Gullar lança A luta corporal, um de seus mais importantes livros de poemas, que vinha sendo escrito desde 1950. A partir deste livro, passa a ter contato com os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que viriam a criar o concretismo, movimento com o qual Gullar flertou durante um tempo para depois abandonar definitivamente.

   No dia seguinte ao golpe militar de 1964, Ferreira Gullar filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, em mais um ato revelador de sua solidariedade com os amigos e companheiros de luta política. Após um longo período vivendo na clandestinidade, Gullar parte para o exílio em 1971, primeiro em Moscou e depois em Santiago, Lima e Buenos Aires. Enquanto mora fora do país, colabora com o Pasquim e outros jornais alternativos. Em 1976, sai em livro o Poema sujo, escrito em Buenos Aires e que acabou lançado no Rio sem a presença de Gullar. ''Senti que poderia desaparecer a qualquer momento e nessas circunstâncias resolvi escrever o Poema sujo, como se fosse a última coisa da minha vida. É a última coisa, o último grito, e vou dizer tudo que tenho para dizer enquanto é tempo'', contou depois o poeta.

   A relação de Ferreira Gullar com o Jornal do Brasil é antiga. Convidado por Reinaldo Jardim em 1956, ele foi um dos primeiros colaboradores do famoso Suplemento Dominical, caderno literário que marcou época pela qualidade de seus ensaios e pela agitação que causou nos meios artísticos, lançando os movimentos Concreto e Neo-Concreto (cujo manifesto foi escrito por Gullar). O poeta defende a tese segundo a qual o sucesso e o prestígio do SDJB estimularam a condessa Pereira Carneiro a realizar a famosa reforma do JB, no fim dos anos 50.

   - Criávamos muito problema. Os responsáveis pela área econômica do jornal reclamavam do excesso de papel em branco. A gente exagerava: dava metade da página em branco, com apenas dois títulos. Ficava bonito, mas custava uma fortuna - relembra.

JB Online)


Sábios resmungos

Em entrevista no seu apartamento em Copacabana, Gullar falou sobre poesia, artes plásticas e política

Paulo Celso Pereira

   O novo Homem de Idéias vive rodeado de livros e obras de artes plásticas. No amplo apartamento onde mora, em Copacabana, quase não se vê a cor das paredes. Goeldi, Niemeyer, Iberê Camargo, Aloísio Carvão, Volpi, Grassman, Emydio de Barros, Siron Franco. Quantas obras? Nem Gullar sabe. Não bastasse a profusão de quadros e algumas esculturas, há também as centenas, talvez milhares de livros, que dividem o espaço harmonicamente.

   Numa manhã ensolarada, ao lado de seu amável gato, Gullar conversou durante quase uma hora e meia sobre a produção poética e artística no Brasil. Animado com a aparecimento de poetas pelpaís afora, Gullar se mostra cético a respeito das artes plásticas.

   Antigo militante do Partido Comunista - ao contrário de muitos colegas - Gullar não está decepcionado com o governo Lula. Para ele, o PT está fazendo o que a realidade política, econômica e social do país possibilita.

   - Não era possível pôr em prática o discurso anterior do PT. O que afirmava e as posições que adotava no Congresso eram equivocadas.

   Apoiado pelos também comunistas Leandro Konder e Oscar Niemeyer na eleição para Homem de Idéias, Gullar analisou serenamente o fim da utopia. Para ele, mesmo não tendo se realizado o sonho do socialismo em todo o mundo, são inegáveis as mudanças que a sociedade capitalista enfrentou após a valorização do trabalhador.

   Durante este ano, além da reedição de três livros, Gullar passou a ser mais reconhecido nas ruas, fruto de suas aparições na televisão. Na emissora STV Sesc-Senac, era o apresentador-entrevistador do programa Gerações, que agora também está passando na TVE. Além desse, que está terminando, Gullar participou e deverá continuar em 2005 no Cantos Gerais, do Canal Brasil, no qual faz breves inserções falando sobre seu trabalho.

   Há quase dois anos, foi lançado seu site (www.ferreiragullar.com.br). Entre poemas selecionados pelo próprio e uma tradicional bio-bibliografia, se encontra uma seção de idiossincrasias apropriadamente chamada Resmungos. Um pequeno aperitivo, de título Dura lex sed lex?:

   ''A propósito da prisão, pela Polícia Federal, de Duda Mendonça, numa rinha de galos, o senador petista Aloísio Mercadante afirmou que se tratou de uma 'armação' para prejudicar a Marta Suplicy. Vejam bem, o comandante supremo da PF é o ministro da Justiça de Lula, mas já está tão arraigada na mente dos políticos que quem é do governo está acima da lei que, quando ocorre o contrário, só pode ser coisa orquestrada... O sentido implícito na declaração de Mercadante é o seguinte: 'a Polícia Federal não se atreveria, apenas para cumprir a lei, a prender o nosso Duda'''.

- Oscar Niemeyer ressaltou sua importância como militante comunista. Qual é o papel do comunismo hoje?

- Essa utopia, que moveu gerações, cumpriu o seu papel, porque a sociedade mudou. É preciso entender que a experiência socialista foi feita e desfeita, mas o mundo mudou. O mundo é outro depois do que aconteceu. O sonho do socialismo era que o mundo inteiro se transformasse em socialista, e isso não aconteceu, mas tampouco o capitalismo é o mesmo. O valor fundamental da sociedade é a justiça. O homem é injusto e criou a justiça, e isso é uma coisa maravilhosa. Criamos a justiça porque nós queremos ser melhor do que somos. Então, essa sociedade vai mudar, só não sei como. Mas que vai mudar, vai.

- O Brasil tem a tradição de ter um poeta número 1. Depois de Bandeira, Drummond e Cabral, seu nome é o lembrado.

- Bom, não tenho nada a ver com isso. Nunca me disse esse poeta nem nunca alimentei isso. Evidentemente fico contente de que as pessoas espontaneamente tenham adotado esta opinião. Mas, como disse o Drummond, eu não sei que medida foi usada para avaliar isso. Na verdade, essa coisa não existe, porque cada poeta é um poeta e tem características específicas, um modo próprio de ver o mundo e de formular a sua experiência de vida. A poesia é uma invenção, e, por isso, às vezes um poeta é mais ouvido. A verdade é que cada poeta passa um sentimento de vida, que é próprio e que se soma à sociedade.

- Sairia candidato à Academia Brasileira de Letras?

- Na verdade, já fui convidado muitas vezes. Tenho muitos amigos na Academia, pessoas que admiro e que são intelectuais que merecem o respeito de todos nós. Mas eu me formei numa linha de pensamento, com relação à literatura e à arte, que é muito distante da Academia. Os caras que foram os meus ídolos na juventude eram André Breton, Oswald Andrade, pessoas rebeldes, anti-acadêmicas. E os poetas que eu lia eram Artaud, Latreámont, Rimbaud. De certo modo, a poesia que inventei como sendo a verdadeira - e é claro que existem outras - foi formada por essa visão.

- Como está a nova produção poética brasileira?

- É muito difícil ter uma opinião geral sobre isso, porque existem poetas produzindo no Brasil inteiro. Vejo isso com otimismo, porque muitos desses poetas não continuarão poetas, mas serão certamente leitores ou estudiosos da poesia. Eu sei que fazer poesia de qualidade é uma coisa difícil e que não depende só da dedicação. A pessoa nasce poeta, nasce com determinadas qualidades que tornarão possível que ele se torne poeta. Porque, como já disse nosso Noel Rosa, samba não se aprende no colégio. O que não quer dizer que o poeta seja um eleito. As pessoas não são iguais. Elas são iguais em direitos, mas não em qualidades.

- Há certos críticos de arte que vêem com bons olhos a produção artística contemporânea. Qual a sua opinião?

- Ninguém quer ser antiquado ou ultrapassado. Mas, sinceramente, pode até ser que a pintura e a escultura acabem - o Argan mais ou menos admite que isso vai acontecer -, pode até ser, mas a verdade é que uma grande parte das coisas que andaram fazendo aí realmente não são nada. Você não pode a sério achar que seja uma obra de arte o cara pôr um cocô dentro de uma lata e escrever o nome dele. Por mais aberto que você seja, realmente você não pode aceitar. Eu desafio qualquer um a argumentar e justificar isso. Pode até ser expressão, uma expressão lamentável. Ele pode estar se exprimindo, mas no pior nível, no que nós não somos. Como a minha teoria é a de que o homem é cultura, ele não é cocô. Essa idéia de destruir a arte é uma grande bobagem. A arte é uma coisa que o ser humano criou ao longo de milênios e que torna a vida mais rica. Destruir isso, transformar isso em pedaço de pau velho é uma bobagem. É pobreza espiritual e humana. É falta de talento e sobretudo de visão. Porque às vezes o cara é talentoso, mas se envolve numa errada, numa bobagem . Dizer que todo mundo é artista é besteira, é mentira, não é verdade. Eu quero ver fazer a Monalisa, o Guernica! Amarrar três tijolos num arame e pendurar, isso qualquer um faz. Arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. São coisas tão primárias e querer ocultar isso não dá.

- Qual o papel da crítica de arte?

- É questionar, tentar compreender. Eu não nego tudo, não digo que tudo é bobagem. Às vezes se vê certas video-instalações que são muito interessantes. Há coisas que são criativas. O meu ideal é alguém inventar uma nova arte que me deslumbre. Eu não tenho nada a ver com o passado. O passado já passou, eu quero ser o presente, e a verdade é que toda arte é atual. Quando eu olho pequenas figuras feitas por homens pré-históricos brasileiros, como as da mostra do CCBB, acho maravilhoso. São coisas lindas, de uma síntese, de uma expressividade extraordinária. Não é cultuar o passado, você pode até se inspirar naquilo para criar coisas novas, porque a arte é um permanente diálogo com suas origens. Agora, besteira não. Não é só porque dizem que é diferente que vou gostar. A grande arte moderna é o cinema. A fotografia foi a primeira arte tecnológica, e gerou o cinema e o vídeo, e todas as coisas que são derivadas dela. Isso é a grande invenção tecnológica. Não conheço outra como arte. Outras tentativas de usar tecnologia em arte não deram certo.

- Sua poesia foi até o concretismo e depois voltou. Aconteceu um recuo em relação ao experimentalismo?

- Sim. Eu e todas as outras tendências artísticas. O único setor onde a vanguarda continua insistente é nas artes plásticas. Porque no cinema, na poesia, na música, no teatro, em todos houve vanguarda. E essas experiências da vanguarda foram incorporadas, porque a vanguarda deu uma extraordinária contribuição. O rio voltou para o leito, só que mais rico, incorporando a inovação. Basta você ver o cinema moderno, a música e o teatro, eles incorporaram, não rejeitaram. Agora, o que seria impossível era continuar.

- As formas artísticas vão continuar?

- A pintura tem simplesmente uns 20 mil anos. Pra mim é muito difícil achar que vai acabar agora. A vanguarda é pretenciosa. Por exemplo: o Mondrian, que era um grande artista, dizia que toda a história da arte chegou aonde tinha que chegar na pintura dele, naqueles quadrados amarelos e azuis. Imagina, toda aquela pintura das cavernas, toda a arte egípcia, toda a pintura de Creta, de Roma, da Idade Média, da Renascença, tudo para chegar nos quadrados de Mondrian. É um pouco demais! A idéia que arte evolui é equívoco.

- Por que a poesia não morreu?

- Porque o ser humano não mudou tanto quanto pensamos naquilo que ele tem de fundamental. Há milhões de valores, mas sem o outro não dá para viver. Sem a mulher amada, sem o grande amigo, vai viver como? Não existe isso. Vai viver de idéias e de ver vídeo na televisão? Somos essa necessidade de carinho, de amor. Eu estava no exílio e tinha um cara chatérrimo, que só falava de economia comigo naquelas reuniões chatérrimas de exilados. E ele era casado com uma brasileira, morena, linda. Um dia me disseram que a mulher tinha largado o cara. Na reunião seguinte, ele só falou de poesia o tempo inteiro. Porque quando a morena vai embora, não tem o que nos socorra a não ser poesia. O cara abandonou a economia e foi ler os poetas que conhecia e que ele havia esquecido. A poesia serve quando a morena vai embora.

- Para onde vai a obra de arte?

- Um dos grandes problemas foi a eliminação da fantasia na obra de arte. A eliminação da imaginação e da poética em função de um certo realismo. Nós queremos é ilusão, sem ilusão não dá para viver. Porque a verdade é que o cara vai ficar velho, brocha e morrer. Então. a arte está aí justamente para isso. O homem se tornou imaginativo porque ele tem consciência do seu fim. Ele criou Deus - que é a eternidade - para não morrer. Temos que resolver os problemas sociais e acabar com as desigualdades. Mas, enquanto isso, vamos sonhar um pouco, porque o pessoal que está com fome samba e busca a festa. Senão, ninguém agüenta.

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