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Torquato Neto, em
diferentes momentos de sua vida (acima, à direita, com Gilberto Gil) |
Hugo Sukman
Não foram poucas as vezes nos últimos
anos que amigos, personagens de época, estudiosos ou curiosos chegaram para
o jornalista Paulo Roberto Pires com “uma inédita do Torquato”. E ele as
acolheu.
É que preparava os dois volumes da
“Torquatália” — “Do lado de dentro” (com a obra, digamos, “artística”:
poética, musical ou em prosa), e “Geléia geral” (com a produção
“jornalística”). Tratava-se de reunir, da forma mais completa possível, a
obra de Torquato Neto, o poeta, letrista, jornalista, cineasta, ator,
agitador, polemista, tudo isso e nada disso, apenas alguém que quando nasceu
(no Piauí), recebeu a visita de um pós-drummoniano “anjo louco muito louco”,
“com asas de avião”, que leu a sua mão e vaticinou: “vai bicho desafinar/O
coro dos contentes”. Conselho que Torquato seguiu à risca até se matar no
Rio em 1972, aos 28 anos, um ano e pouco a mais de vida que Noel Rosa.
Agora, que os dois volumes da
“Torquatália” são publicadas pela editora Rocco, o organizador Paulo Roberto
Pires confessa na apresentação do primeiro volume, à guisa de se desculpar
pelo título “organizador”: “Continua sendo muito fácil se perder na
‘Torquatália’. E, mais do que fácil, desejável”.
Em 1967, Torquato sai em defesa de Chico Buarque
Explica-se a recomendação de Pires. É
bom deixar-se docemente se perder, apesar da cuidadosa organização temática
e cronológica da edição, na grande quantidade e diversidade do material
inédito dos dois volumes. Mas há duas leituras possíveis: esta, a de se
perder gozosamente nos escritos de Torquato; e uma mais rigorosa, proposta
pelo organizador.
No volume “jornalístico” esta
proposta consiste na publicação pela primeira vez em livro, ao lado da já
conhecida coluna “Geléia geral” de 1971 e 1972 na “Última hora”, da íntegra
da coluna “Música popular”, publicada diariamente no “Jornal dos Sports” e
depois no suplemento deste “O sol” (citado por Caetano no verso “O sol nas
bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça...”), no decisivo ano de
1967. Nela, do lado de dentro das questões da música popular por sua dupla
condição de jornalista e compositor, Torquato descreve passo a passo o
processo de cisão na música popular que a dividiria em MPB e tropicalismo.
Tropicalista militante, Torquato
comprova em seus escritos de época que seu tropicalismo é no entanto
diferente do de Caetano, Gil, Tom Zé, etc. Enquanto estes, por exemplo, de
uma forma ou outra aceitavam a idéia do “passadismo” dos sambas de Chico
Buarque, Torquanto escrevia em 22 de julho de 1967. “Não conheço tolice
maior do que dizer a respeito de Chico (elogiando-o!) que sua música é pura
e simplesmente o renascimento do samba tradicional. Tendo como fonte básica
as mais antigas tradições do samba (...) ele, a meu ver, como que o
reinventou”.
No auge da briga, quando alguns
emepebistas (como Elis) tentaram algo como uma Frente Única do samba contra
o iê-iê-iê de Roberto Carlos, Torquato evidentemente foi contra. Mas,
enquanto os colegas tropicalistas resolveram incorporar elementos da música
pop ao seu trabalho, Torquato tinha uma opinião sutilmente diferente:
“Frente Única do samba, se houvesse, não seria brigar com o iê-iê-iê, mas
tentar uma união de artistas interessados na sobrevivência de nossa música e
dispostos a tomar parte num processo eficaz de massificação...”.
No volume da obra “artística”, Pires
dá outra chave interessante, na comparação que faz entre Torquato e o
pensador alemão Walter Benjamin, e não apenas por se tratar de dois suicidas
e autores de obra variada, intensa e dispersiva. Mas por Torquato encarnar
em sua obra “o caráter destrutivo” que Benjamin propôs décadas antes para
enfrentar “o mundo aveludado” da comodidade. “O caráter destrutivo não vê
nada de duradouro. Mas por isso mesmo, vê caminhos por toda parte”, disse
Benjamin.
A edição de “Torquatália” dá conta
dos caminhos seguidos por Torquato. Mais do que uma ampliação, é uma
homenagem às duas edições de “Os últimos dias de Paupéria”, ambas
organizadas pela mulher de Torquato, Ana Maria Duarte, e por seu grande
amigo dos últimos anos, o poeta Waly Salomão. A primeira, de 1973, teve só
116 páginas feitas sob a dor da perda e a urgência de preservar a obra
dispersa. A segunda, de 1982, da editora Max Limonad, lindamente caótica —
ou em “ziguezague”, com dizia Waly, citado por Pires — teve suas 500 páginas
avidamente destrinchadas por uma nova geração que não leu, na época, a
coluna “Geléia Geral”, inestimável crônica da cultura brasileira no
pós-tropicalismo, nem viu parceiros como Edu Lobo (“Pra dizer adeus”,
“Veleiro”) Gilberto Gil (“Geléia geral”, “Domingou”, “Marginália II”,
“Louvação”, etc.) e Caetano Veloso (“Mamãe coragem”, “Deus voz salve esta
casa santa”), Jards Macalé (“Let’s play that”) lançarem as definitivas
canções de Torquato.
Agora a obra está sensivelmente
maior, graças às pesquisas do organizador. No primeiro volume, “Do lado de
dentro” (nome sugerido pelo próprio Torquato como do livro de poesia que
faria), em vez de 16 músicas, o cancioneiro traz 40. Inclusive totalmente
desconhecidas parcerias com Caetano (“Capitão Lampião”, o poeta rebelde
identificando-se com o cangaceiro, “Nunca bato em retirada/Finco o pé,
declaro guerra... Não fico pedindo esmola/Tomo o que é meu vou-me embora/Que
o mundo não me consola”) e Gil (“Rancho da boa vinda”, típica do
melancolicamente esperançoso jovem Torquato, “Se você vem pra passar/E traz
tristezas também/Melhor seguir seu caminho/Que de triste nesse mundo/Já me
basta a mim sozinho”).
De inéditos há: poemas de juventude
que revelam obsessões do Torquato maduro, como a poesia de Drummond em
“Tema”, “José do Carlos Drummond:/Tu és um ladrão./Roubaste a minha
poesia.”; parcerias musicais pouco conhecidas como a com Roberto Menescal (a
cinematográfica “Tudo muito azul”, da trilha da novela “Minha doce
namorada”, 1971) ou Toquinho; a correspondência completa entre Torquato e
Hélio Oiticica, uma análise sem meias palavras, virulenta e íntima da
cultura brasileira e de seus personagens; poemas da maturidade inéditos; e
textos sobre cinema.
Tudo complexo mas cristalino como a
cajuína de Teresina que um dia Caetano bebeu em memória de Torquato.
(© O Globo)
Em nome do pai
Thiago Araújo sobrevoa memórias e fala do
pai que, praticamente, não conheceu. O menino tinha apenas dois anos de
idade quando Torquato Neto partiu. Por telefone, ele conversou com o Vida &
Arte
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Thiago Araújo, filho
único de Torquato Neto (no alto, à direita): semelhanças
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[09
Novembro 2004]
Thiago Araújo é filho único de
Torquato Neto. Herdou do pai a semelhança física, um certo jeito de olhar, a
inquietação ao falar, a dificuldade para dormir. E foi ser piloto. Voa há 16
anos.
De poesia, não gosta e diz que nem
entende. ''Hereditário é doença não é talento'', costuma responder. Mas
gosta de saber do poeta Torquato, ler seus escritos, ouvir amigos contando
histórias. Formas de transpôr a distância do tempo.
Hoje, Thiago mora um pouco em
Fortaleza, um pouco no Rio de Janeiro. Esta semana, ele estava lá e a
conversa teve que ser por telefone. (Sílvia Bessa)
O POVO - Você tem alguma lembrança do seu pai?
Thiago Araújo - Bom, lembrança eu não tenho porque quando ele morreu eu
tinha dois anos. Mas tem uma cena só que eu não sei se lembrei do tanto que
me disseram ou se me lembro mesmo... A lembrança que tenho construí depois
dos 16 anos de idade, foi quando fui entender um pouco como é que ele era.
Uma professora do colégio, numa aula de literatura, falou do meu pai, contou
várias histórias e eu falei: sou filho dele. Ela achou genial, sentou comigo
depois da aula e falou horas. Depois disso fui me interessando e construindo
a imagem que tenho hoje dele. Até hoje leio muito.
OP - Havia muita cobrança das pessoas que conheciam teu pai? O filho do
Torquato ter que ser inquieto, poeta, cineasta, artista.
TA - Isso tem até hoje. Outro dia mesmo, um amigo que trabalha comigo falou
''Pô cara, você é filho do Torquato? Que legal! Você não escreve poesia?'
Como eu sempre digo, hereditário é doença não é talento! Não vou me meter no
que não sei. A herança foi só física, eu acho.
OP - As pessoas reconhecem que você é filho do Torquato pela semelhança
física?
TA - Aconteceu várias vezes, em bar, no meio da rua... Há pouco tempo Jards
Macalé falou comigo porque lembrou meu pai. ''Você é filho do Torquato? É
muito parecido com ele!'. ''De fato sou''. Acontece muito. Ainda mais depois
que saiu essa coletânea (Todo dia é dia D). Tem uma foto interna que nem eu
conhecia, dá pra ver que somos muito parecidos.
OP - Como é que foi em casa. Vocês falavam em casa sobre o Torquato?
TA - Acho que pelo fim trágico que houve, minha mãe evitou falar assim até
uma certa idade, sabe? Era uma forma de proteção. Ela só veio a falar depois
de um certo tempo e ainda assim porque procurei saber. Também vim a saber
dele através dos amigos que continuaram freqüentando a minha casa, da minha
mãe (Ana Maria Duarte), depois que ele morreu. Era um bando de maluco, umas
figuras bem loucas.
OP - Quem, por exemplo?
TA - Tipo Damião Experiença, um oficial da Marinha que caiu uma vez de cima
de um mastro com a testa no convés do navio, se aposentou e virou artista.
Era muito amigo do meu pai. Ele grava uns CDs por uma gravadora chamada
Planeta Lama, que ele sozinho vende nas calçadas. Meu pai tinha uma
característica interessante que minha mãe contou: tinha uns amigos que só
ele conseguia aturar, só ele gostava, ninguém conseguia suportar as pessoas
e ele era muito amigo. Então, eu me lembro muito dessas figuras que eram
muito diferentes dos pais dos meus amigos de colégio. Final de semana eu ia
pra casa de um amigo meu e achava tudo meio careta, mesmo sem saber direito
o que era ser careta ou não.
OP - Teu pai nasceu no Piauí, morou um bom tempo na Bahia, e depois foi pro
Rio de Janeiro. Você nasceu no Rio mas tem alguma identificação com o
Nordeste?
TA - Claro que tenho. Minha mãe é baiana, meu pai piauiense e eu morei aí,
ainda moro um pouco.
OP - Você visitava Fortaleza quando era criança. Vinha para casa de amigos
da sua mãe. Em que momento decidiu vir morar aqui?
TA - Eu sempre fui a Fortaleza desde pequenininho. Até pela proximidade com
Teresina, quando eu ia passar férias lá, passava por aí.
OP - Você tinha esse contato próximo com seus avós? Passava as férias em
Teresina?
TA - Quando eu era pequeno, não sei se por exigência dos meus avós, era
obrigado (risos), mas como eu não conseguia ficar um mês em Teresina dava um
jeito de fugir para Fortaleza. Hoje, eu moro meio aí, meio aqui. Mas eu
sempre fui a Teresina.
OP - Seu pai passou por Fortaleza?
TA - Acho que não. Eu não tenho certeza mas nunca vi nenhuma referência
sobre isso. Nas várias matérias que venho juntando há muito tempo nunca
citaram que ele tenha estado em Fortaleza. Ele ia muito a Salvador. Tinha
uma relação forte com a Bahia e com o Rio, que era pra onde a turma vinha
naquela época porque era aqui que as coisas aconteciam naquele tempo. Hoje,
nem tanto mais.
OP - Mas ele sempre voltava pra Teresina.
TA - Quando ele ficava inquieto, a primeira coisa que fazia era voltar pra
Teresina. Um lugar onde ele se acalmava. Talvez pelo ambiente de casa, não
sei exatamente o porquê. Mas nas crises era a primeira coisa que ele fazia.
OP - Você se acha parecido com ele?
TA - Outro dia a minha mãe falou: ''Impressionante essa coisa que você tem
do seu pai''. Tenho uns amigos que todos acham insuportáveis, mas eu adoro,
acho eles maravilhosos. Meu pai era a mesma coisa. E também sou inquieto o
tempo todo, tenho dificuldade pra dormir.
OP - Seu pai tinha momentos de muito recolhimento, de entrar no mundo dele
pra procurar um equilíbrio.
TA - É isso eu não tenho não. Mas sabe uma coisa: embora ele tivesse essas
coisas de loucura que tinha, todo mundo sempre fala que ele era uma pessoa
extremamente amável, carinhoso. Acho que isso eu não sou muito, sou mais
frio, distante. Mas várias pessoas citam que ele gostava de abraçar os
outros. Meu avô também é assim.
OP - O Doutor Heli?
TA - É. Se passa criança na rua, ele levanta pra dar um beijo sem nem saber
quem é, coloca no chão e continua andando.
OP - Teu pai foi um dos pensadores da Tropicália. E foi um excelente
letrista. Isso influenciou de alguma forma teu gosto musical?
TA - Desde adolescente, eu sempre gostei de Caetano Veloso mas porque era o
que eu escutava em casa. Era só o que tinha em casa. Meus amigos escutavam
muita coisa de rádio FM naquele tempo e eu achava chatíssimo, gostava de
escutar Transa, do Caetano. Escutava Jimi Hendrix muito antes da idade em
que todo mundo começa a escutar. E coisas de literatura... literatura de
vanguarda, revista Pólen, umas coisas de poesia que tinha lá em casa que eu
ficava folheando quando era pequeno sem saber o que era direito. Tinha uma
foto lá em casa do meu pai vestido de vampiro em Copacabana no meio da rua e
o Wally Salomão vestindo um barril com duas alças. Tinha isso na sala! Se eu
não me engano era um pôster que vinha nas páginas centrais de uma revista.
Cresci achando essas coisas normais.
OP - Tinha outras coisas do teu pai espalhadas pela casa?
TA - Minha mãe tinha muito jornal, as colunas dele, as coisas que ele
produzia. E na casa dos meus avós em Teresina tinha muita foto dele. Como
ele era filho único, era foto pela casa inteira. Coisa de mãe, né? Parecia
que lá eu ficava convivendo com ele. Minha mãe guardava mais essa parte do
trabalho. Era como se os dois lados se complementassem.
OP - Em relação à literatura, você se interessa pelo trabalho do seu pai?
TA - Desde cedo eu tive contato com poesia de vanguarda e não entendia nada,
achava sem pé nem cabeça. Aí eu cresci e continuei sem me interessar muito.
OP - Você é piloto há quanto tempo?
TA - Espera aí. (Faz um pouco de silêncio) Caramba! É isso mesmo. Tive que
contar de novo porque pensei que estava errado. Mas são 16 anos. Comecei com
16. Comecei curso de pilotagem aos 15 e comecei a voar com 16 e estou
trabalhando na Varig há 12 anos.
OP - O que você mais gosta na profissão?
TA - Eu sempre gostei de aviação, embora não goste muito de viajar. Ao
contrário da maioria que escolhe a profissão pelo fato de estar sempre em um
outro lugar, eu não gosto muito disso. Tanto que a melhor época da minha
vida foi quando eu trabalhei na ponte aérea Rio-São Paulo e dormia todo dia
em casa. Essa história de estar dormindo em hotel, arrumando e desarrumando
mala não faz muito a minha, não. O meu sonho é morar em Fortaleza, fazendo a
ponte aérea Fortaleza-Jijoca-Fortaleza (risos). Nunca consegui me
identificar com uma profissão tradicional. Pra desespero da minha avó por
parte de pai que queria que eu fosse - acho que por causa do filho que foi a
primeira decepção dela - engenheiro, doutor ou advogado.
OP - Você está ajudando de alguma forma o Toninho Vaz, que está fazendo a
biografia do seu pai?
TA - Estou. Ele fez a biografia do Paulo Leminski que ficou muito legal: O
Bandido que sabia latim. Excelente. Não sei em que parte ele está mas sei
que está em andamento. A vontade dele é compreender como uma pessoa que
morreu tão nova, como meu pai, pode até hoje ser tão falada. Como uma
pessoas viveu tão pouco e produziu tanto. (...) Eu estava aqui procurando o
livro Os Últimos Dias de Paupéria que eu tenho e acabei de descobrir que ele
se encontra aí em Fortaleza. Às vezes tem disso, eu quero pegar um negócio e
está aí em Fortaleza. Eu queria encontrar para ler umas passagens que acho
fantásticas. São textos que ele escreveu quando fazia os auto-exílios em
Teresina, no Meduna. Era um hospício onde ele se auto-internava.
TRECHOS
''10/10
(...)
Pela primeira vez estou sentindo de fato o que pode ser uma prisão. Aqui, as
portas que dão para as duas únicas saídas existentes, estão permanentemente
trancadas - e há uma pequena grade em cada uma delas, de onde se pode ver os
corredores que dão para as outras galerias. Depois delas, uma espécie de
liberdade. Não se fica trancado em celas aqui dentro: é permitido passear
até rachar por um corredor de aproximadamente 100 metros por 2,5 de largura.
Somos 36 homens aqui dentro, 36 malucos, 36 marginais - de qualquer maneira
esperamos a ''cura'' no sanatório como a sociedade espera que os bandidões
das cadeias se ''regenerem'' etc, etc. Aqui, o carcereiro é chamado de
plantonista - e são aqueles homens de branco sobre os quais Rogério se
referiu um dia, há pouco tempo. Aqui, nesta vida comunitária, a barra é
pesada, como eu gosto. Minha enfermaria tem 12 camas ocupadas por doentes
mentais de nível que poderia muito bem ser classificado pelo IBOPE como
pertencentes às classes C, D, Z. Estamos aí! Em cana. O chato é a comida,
que é péssima''
''13/10
Eu: pronome pessoal e intransferível. Viver: verbo transitório e transitivo,
transável, conforme for. A prisão é um refúgio: é perigoso acostumar-se a
ela. E o dr. Oswaldo? Não exclui a responsabilidade de optar, ou seja:?''
Trechos de Os Últimos Dias de Paupéria, de Torquato Neto.
(© NoOlhar.com.br)
''Pra mim chega!'', uma
biografia
O
encontro foi rápido, no mesmo ano da morte de Torquato. Eles, na verdade,
nem chegaram a ser apresentados. Antes de começar a sessão no teatro Teresa
Raquel, no Rio de Janeiro, alguém disse: ''Aquele ali é Torquato Neto''. O
poeta havia chegado de Teresina há pouco tempo, estava muito magro e usava
cabelo bem curto. ''Se naquela época eu soubesse que iria escrever sobre ele
teria ido lá, abordá-lo'', brinca o jornalista Toninho Vaz.
Amigo do poeta Wally Salomão, ele
ouvia muito sobre a inquietação de Torquato, acompanhava no jornal sua
coluna ''Geléia Geral'', estava atento ao cenário cultural.
Agora, Toninho escreve a história do
poeta piauiense, depois de ter escrito a biografia de Paulo Leminski O
bandido que sabia latim. O livro se chamará Pra mim chega!,
uma referência ao bilhete de despedida de Torquato, e deve ser lançado no
próximo ano.
''Torquato foi um atormentado mas
muito corajoso. Lutava não apenas contra as forças reacionárias da ditadura,
fazia críticas contundentes por exemplo ao Cinema Novo que de uma forma
cínica atacava o governo e realizava filmes com o dinheiro da Embrafilme,
uma empresa estatal. Ele denunciava esta e outras contradições. Esse tipo de
atitude sempre chamou a minha atenção'', afirma Toninho.
Três capítulos já estão
prontos, além do prefácio. Para escrever o primeiro que conta a infância de
Torquato, Toninho passou 12 dias em Teresina, ou Tristeresina, como
intitulava o poeta.
''A cidade tem uma relação peculiar
com o filho. Enquanto ele era vivo, não era bem aceito. Depois da morte, foi
endeusado. Há até um suplemento cultural que se chama Torquato Neto!',
comenta.
O segundo capítulo concluído narra a
passagem do poeta por Salvador e o terceiro conta sua chegada ao Rio de
Janeiro, em 1962, antes do sucesso da Tropicália.
O livro trará textos e poesias
inéditos garimpados por Toninho. Entre esse material, estão onze cartas e
oito cartões postais que Torquato escreveu para Hélio Silva (irmão de Ana
Maria, sua mulher) quando estava no auto-exílio em Londres. (SB)
(©
NoOlhar.com.br)
Geléia Geral
Ana Maria Duarte prefere
não falar muito. Nassif Elias conta as travessuras de infância. Chacal fala
de brilho. Lembranças do poeta Torquato Neto que completaria hoje 58 anos.
Morreu no mesmo dia de seu aniversário, há 30 anos. Foi a inquietação em
pessoa
Sílvia Bessa
da Redação
''Quando eu nasci, um anjo morto, louco solto louco, torto pouco
morto, veio ler a minha mão.
Não era um anjo barroco: era um anjo muito pouco.
Louco, louco, louco. Com asas de avião.
E eis que o anjo me disse, apertando a minha mão,
entre um sorriso de dentes:
vai bicho, desafinar o coro dos contentes''
Foi. Torquato Pereira de Araújo Neto
foi poeta, jornalista, cineasta, roteirista, ator e produtor cultural. Um
dos melhores letristas do Movimento Tropicália. Crítico do Cinema Novo,
incentivador do Cinema Experimental. Produziu ele mesmo alguns filmes em
super 8mm e planejava fazer mais. Foi um inquieto.
No dia 9 de novembro de 1972,
comemorou seu aniversário de 28 anos em algumas boates do Rio de Janeiro ao
lado de sua mulher, Ana Maria Duarte, e amigos. De volta pra casa,
trancou-se no banheiro e abriu o gás do aquecedor. Ainda rabiscou um
bilhete. ''Pra mim chega!', escreveu.
Hoje 30 anos depois, Ana conta que se
emocionou quando viu a coletânea organizada por Ronaldo Bastos com músicas
de Torquato. Pra ela, a imagem do menino com sorriso amarelo em frente ao
Teatro 4 de Setembro, lá em Teresina, escolhida para estar na capa do CD
fala muito do homem que conheceu. ''As pessoas sempre lembram do Torquato
como um vampiro, o Nosferato do filme do Ivan Cardoso. Confundem o
personagem com a pessoa. Ele era na verdade uma pessoa meiga, gentil'',
afirma.
Nada de sugar energia alheia, Ana
lembra que Torquato era extremamente generoso, usava sua coluna ''Geléia
Geral'' para apoiar os novos artistas da música, cinema, literatura. ''Foi
sempre assim. Um cara muito atento, sempre cuidando da produção dos outros,
preocupado em dividir o espaço que tinha. Ele entendia que no momento em que
vivíamos, plena ditadura, era importante manter viva a produção cultural'',
avalia.
Hoje, Ana evita falar, dar
entrevistas. Diz que fica acanhada e, além disso, detesta a imagem da viúva
segurando a alça do caixão. Prefere que outros falem de Torquato. ''Você
pode falar com o Nassif Elias, amigo dele desde a infância''.
Pois é ele quem conta
que Torquato foi menino matreiro pelas ruas da pequena Teresina. Nassif, que
hoje é presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, relembra
algumas histórias. Como quando os meninos da vizinhança fundaram uma espécie
de clube do bolinha e tiveram a idéia de construir uma quadra de volei no
terreno da casa de Torquato. Além do espaço disponível, ainda ficavam perto
dos refrescos servidos por Dona Salomé (mãe do poeta).
O único problema era a falta de
dinheiro para comprar material. Foi quando se lembraram de uma interminável
obra bem em frente a casa de Torquato. ''Nós dois começamos a roubar
devagarinho os tijolos. Levantávamos antes do sol nascer. O que não sabíamos
era que o proprietário estava acompanhando tudo em silêncio e depois de
vários dias mandou a conta pros nossos pais'', conta.
Quando Torquato foi estudar na Bahia.
Os encontros aconteciam no período de férias. ''Lembro que uma vez ele
trouxe o livro Socialismo é Humanismo, o primeiro de conteúdo
político que a gente leu''. E a amizade continuou mais tarde no Rio de
Janeiro.
''Sempre tive muita admiração por
ele. Era uma pessoa muito viva, muito inteligente. Estava à frente de nós
todos. Acho que foi por influência sua que escolhi minha profissão'',
confessa.
O último encontro
foi na véspera do último aniversário. Esbarraram, por acaso ou por destino,
no Largo da Carioca. O poeta convidou o amigo para comemorar a data. ''Mas
eu estava cansado, trabalhava no dia seguinte, acabei não indo. De manhã,
uma amiga nossa, Alzira Cohen, ligou pra dar a notícia. Torquato estava
morto. Ele sempre foi um desesperado. Acho que isso é comum à nossa geração.
A nossa angústia é permanente''.
''Pessoas como o Torquato são
meteoros flamejantes e iluminados que atravessam o planeta, deixam aquele
brilho e partem rapidamente. Graças a Deus essas pessoas viveram e nos
presentearam'', diz Chacal, um dos poetas marginais que encontraram espaço
na Geléia Geral.
(© NoOlhar.com.br)
Obra completa será relançada
''Louvando o que
bem merece'', como ensinou Torquato, alguns projetos mantém vivo o trabalho
do poeta. Em março de 2003, sua obra completa, organizada pelo jornalista
Roberto Pires, deverá ser lançada em dois volumes.
Um dos livros, Do Lado de
Dentro, reunirá os poemas editados no livro Os Últimos Dias de
Paupéria e mais as 40 letras de música deixadas por Torquato, sendo
algumas inéditas. Paupéria teve duas edições, ambas organizadas por Ana
Duarte e Wally Salomão, em 1973 e 1982.
O outro volume será Geléia
Geral, reunindo textos que Torquato publicou em jornais, além de
colaborações esporádicas para outras publicações e correspondência ativa e
passiva com o artista plástico Hélio Oiticica. Os dois volumes somarão 700
páginas.
Em relação ao trabalho de Torquato na
música, esse ano foi lançada coletânea Todo Dia É Dia D,
preparada por Leonel Pareda e Ronaldo Bastos. Ao todo são 14 faixas trazendo
clássicos tropicalistas e preciosidades pouco conhecidas. Entre elas estão
''A Rua'', com Gilberto Gil, ''Veleiro'', com Elis Regina, ''Três da
Madrugada'', com Gal Costa. (SB)
SERVIÇO:
Todo Dia é Dia D - Torquato Neto. 14 faixas com clássicos
tropicalistas. Organização de Leonel Pareda e Ronaldo Bastos. Dubas música.
Preço: R$ 25,90
(© NoOlhar.com.br) |