Notícias
Autor à procura de personagens

Sérgio Amaral 12.2.03

Eduardo Coutinho

Rodrigo Fonseca

   Dizer que “O fim e o princípio” deu uma aula de documentário ao público que lotou o Odeon anteontem para ver a estréia hors concours do novo trabalho de Eduardo Coutinho não significa incorrer no lugar-comum que sua legião de fãs, cada vez mais devota, usa para definir seu trabalho. Isso porque, o mais recente longa-metragem daquele que é considerado o papa do clero documental é literalmente um filme sobre a práxis do documentário. O que em claro e bom português significa: a viagem de Coutinho e equipe, sem um tema prévio ou alvo determinado, pelo interior da Paraíba, precisamente a pequena São João do Rio do Peixe, é pretexto para um espontâneo ensaio sobre a arte de documentar, baseado na proposta dita pelo diretor:

   — Queríamos ouvir histórias. Se não encontrasse história alguma, a própria procura seria o filme — explicou Coutinho, num esquema pirandelliano ( Luigi Pirandello, de “Seis personagens à procura de um autor”) às avessas.

Paulo Betti conquistou o público com seu “Cafundó”

   Essa cruzada à cata de depoimentos nos confins de um mundo que parece ter sido rejeitado pelo próprio tempo — substantivo que, em dado momento, vira o assunto central do longa — rendeu a Coutinho seu filme mais experimental — e instigante — desde sua consagração com “Santo forte” (1999). O que joga por terra uma frase bastante usada na época de seu equivocado “Peões”: “Coutinho é sempre Coutinho”, que sugere pouco sobre a obra do diretor e bastante sobre a letargia de seus resenhistas.

   E se há um braço direito responsável pela eficiência de sua empreitada, além do fotógrafo Jacques Cheuíche, que surpreende os coutinianos mais ortodoxos com planos além do enquadramento da câmera à altura do rosto ou da cintura, este mérito cabe à professora Rosilene Batista de Souza, ou, simplesmente Rosa, moradora de São João do Rio do Peixe. Ela é quem serve como uma espécie de Caronte a Coutinho nessa jornada onde cada bate-papo é alinhavado por uma reflexão sobre a finitude, sobre o medo que cada entrevistado sente da morte. E a própria Rosa, que nunca pisara em um cinema, conjuga em primeira pessoa no filme o verbo entrevistar.

   — Nunca vim ao cinema. De repente, caio de pára-quedas no meio de um. É um contexto totalmente diferente do meu — disse Rosa, lembrando da desconfiança do pai quando Coutinho bateu à sua porta. — Quando viu a equipe, meu pai perguntou: “Será que esse povo merece confiança?” Até eu pensei que era uma pesquisa sobre a Pastoral da Criança quando eles chegaram lá.

   E antes de deixar o microfone, a professora revelou que já tem algo a mais para levar na mala quando retornar ao lar:

   — Daqui do Rio, vou levar muitas novidades e coisas engraçadas para contar.

   Na competição brasileira, o ator Paulo Betti pode se considerar de alma lavada após a consagração de “Cafundó”, a biografia do líder religioso João de Camargo, que co-dirigiu com Clóvis Bueno. O público foi carinhoso com o filme, especialmente pela interpretação de Lázaro Ramos.

   — Todo mundo que joga futebol no interior quer jogar no Maracanã. Aqui é o Maracanã — disse Betti, que dedicou a sessão ao humorista Ronald Golias, morto na terça-feira.

   Na ala dos documentários, a quinta foi o dia das experimentações visuais. Representante da mostra Retratos, “Mequinho”, a breve, mas contundente, versão do diretor Felipe Nepomuceno para a história de Henrique Mecking, o maior o jogador de xadrez do país, injeta inovação plástica à narrativa docubiográfica. Já no longa “Aboio”, Marília Rocha compôs uma verdadeira dialética audiovisual ao opor tradição e vanguarda, confrontando um tema clássico com pós-modernices lingüísticas no relato dos vaqueiros que utilizam um cântico ancestral para tanger rebanhos.

(© O Globo)


'A Máquina': uma viagem de sonho

Valéria Vianna

Divulgação

Paulo Autran

 Paulo Autran interpreta o louco que narra no hospício a história do amor de Karina e Antônio

   RIO - O público que assistiu à première do filme nacional ‘A Máquina’, no Cine Odeon, dentro da mostra Brasil do Festival do Rio, saiu da sala escura flutuando, ainda tomado talvez pela atmosfera de sonho do filme, que apresenta um cenário propositadamente distante da realidade, como se estivéssemos suspensos (poderíamos mesmo dizer imersos) em uma outra dimensão.

   O filme conta a história de Karina - interpretada por Mariana Ximenes - que vive numa cidadezinha do interior de Pernambuco, chamada Nordestina. O lugar nem consta no mapa e seus poucos habitantes se dividem nos que desejam partir para tentar a sorte na cidade grande e nos que insistem em ficar.

   Antônio, filho de Dona Nazaré - representado por Gustavo Falcão - é um dos que não querem deixar Nordestina e, loucamente apaixonado por Karina, descobre que ela se prepara para ir embora.

   Karina planeja seguir rumo ao "mundo" e se tornar uma atriz. Antônio então promete trazer o mundo à Nordestina e... pasmem, cumpre a palavra.

   Toda a história é esplendidamente narrada por um personagem, a princípio, sem nome, um louco, na pele de nada menos do que Paulo Autran, como sempre, ótimo. Todo o elenco, aliás, está perfeito. E, o texto, primoroso.

   ‘A Máquina’ é uma adaptação do livro homônimo de Adriana Falcão, que assina o roteiro juntamente com o diretor estreante do filme, João Falcão. A obra deu origem à peça teatral, sucesso de público e crítica, também dirigida por João, que surge agora na tela grande. O espetáculo projetou, na época, os atores Vladmir Brichta, Wagner Moura e Lázaro Ramos, que fazem participações no longa.

   Mariana Ximenes compareceu à premiére e se mostrava bastante satisfeita com o resultado final da produção.

   "Acho que o público gostou", diz.

   De fato, foi muito aplaudido.

   Pergunto-lhe como ela se sente interpretando o outro lado da moeda, ou seja, uma menina que almeja ser uma artista das tantas no Brasil que alimentam esse sonho e até a tem como espelho e referência desse caminho.

   Seu rosto rapidamente se ilumina e ela conta que ficou um tempo numa cidadezinha do interior do Ceará, Nova Olinda, para entrar no clima da personagem. Conta ainda sua experiência na Fundação Casa Grande, que trabalha expressões artísticas com crianças e adultos da localidade.

   "Na fundação tem um grupo que montou uma rádio bem provida de CDs, que vão desde os ritmos regionais até Ella Fitzgerald" - relata - "porque o mundo também chega lá e como chega!" - comenta - "e é legal a gente saber que o mundo pulsa no interior do país, que não se limita a nossa região – conclui.

   E como você se sentiria se o seu amor trouxesse o mundo até você, como o personagem do filme? Indago.

   "Meu Deus... minha nossa...!", exclama com o olhar distante como se não pudesse alcançar tamanho pensamento.

   Na história, quando o mundo é colocado aos pés de Karina, ocorre uma virada subjetiva da personagem, que se vê frente à terrível possibilidade de perder Antônio, seu grande amor. Essa hipótese de perda faz cair por terra a importância que ela dá ao sonho de conhecer o mundo e virar atriz.

   "Sim, porque o sonho de Karina é na verdade um sonho de amor", finaliza Mariana.

   Sim - digo eu - porque ‘A Máquina’ é desses filmes que ficam gravados na retina e embalam nossos sonhos quando vamos dormir.

   Belo filme.

(© JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2005

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia