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Rodrigo Fonseca
Dizer que “O fim e o princípio”
deu uma aula de documentário ao público que lotou o Odeon anteontem para
ver a estréia hors concours do novo trabalho de Eduardo
Coutinho não significa incorrer no lugar-comum que sua legião de fãs,
cada vez mais devota, usa para definir seu trabalho. Isso porque, o mais
recente longa-metragem daquele que é considerado o papa do clero
documental é literalmente um filme sobre a práxis do
documentário. O que em claro e bom português significa: a viagem de
Coutinho e equipe, sem um tema prévio ou alvo determinado, pelo interior
da Paraíba, precisamente a pequena São João do Rio do Peixe, é pretexto
para um espontâneo ensaio sobre a arte de documentar, baseado na
proposta dita pelo diretor: 'A Máquina': uma viagem de sonho
O filme conta a história de Karina - interpretada por Mariana Ximenes - que vive numa cidadezinha do interior de Pernambuco, chamada Nordestina. O lugar nem consta no mapa e seus poucos habitantes se dividem nos que desejam partir para tentar a sorte na cidade grande e nos que insistem em ficar. Antônio, filho de Dona Nazaré - representado por Gustavo Falcão - é um dos que não querem deixar Nordestina e, loucamente apaixonado por Karina, descobre que ela se prepara para ir embora. Karina planeja seguir rumo ao "mundo" e se tornar uma atriz. Antônio então promete trazer o mundo à Nordestina e... pasmem, cumpre a palavra. Toda a história é esplendidamente narrada por um personagem, a princípio, sem nome, um louco, na pele de nada menos do que Paulo Autran, como sempre, ótimo. Todo o elenco, aliás, está perfeito. E, o texto, primoroso. ‘A Máquina’ é uma adaptação do livro homônimo de Adriana Falcão, que assina o roteiro juntamente com o diretor estreante do filme, João Falcão. A obra deu origem à peça teatral, sucesso de público e crítica, também dirigida por João, que surge agora na tela grande. O espetáculo projetou, na época, os atores Vladmir Brichta, Wagner Moura e Lázaro Ramos, que fazem participações no longa. Mariana Ximenes compareceu à premiére e se mostrava bastante satisfeita com o resultado final da produção. "Acho que o público gostou", diz. De fato, foi muito aplaudido. Pergunto-lhe como ela se sente interpretando o outro lado da moeda, ou seja, uma menina que almeja ser uma artista das tantas no Brasil que alimentam esse sonho e até a tem como espelho e referência desse caminho. Seu rosto rapidamente se ilumina e ela conta que ficou um tempo numa cidadezinha do interior do Ceará, Nova Olinda, para entrar no clima da personagem. Conta ainda sua experiência na Fundação Casa Grande, que trabalha expressões artísticas com crianças e adultos da localidade. "Na fundação tem um grupo que montou uma rádio bem provida de CDs, que vão desde os ritmos regionais até Ella Fitzgerald" - relata - "porque o mundo também chega lá e como chega!" - comenta - "e é legal a gente saber que o mundo pulsa no interior do país, que não se limita a nossa região – conclui. E como você se sentiria se o seu amor trouxesse o mundo até você, como o personagem do filme? Indago. "Meu Deus... minha nossa...!", exclama com o olhar distante como se não pudesse alcançar tamanho pensamento. Na história, quando o mundo é colocado aos pés de Karina, ocorre uma virada subjetiva da personagem, que se vê frente à terrível possibilidade de perder Antônio, seu grande amor. Essa hipótese de perda faz cair por terra a importância que ela dá ao sonho de conhecer o mundo e virar atriz. "Sim, porque o sonho de Karina é na verdade um sonho de amor", finaliza Mariana. Sim - digo eu - porque ‘A Máquina’ é desses filmes que ficam gravados na retina e embalam nossos sonhos quando vamos dormir. Belo filme. |
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