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Lázaro Ramos e Wagner Moura |
Bianca Kleinpaul*
Lázaro Ramos está acostumado a
ser confundido como um dos atores de “Cidade de Deus”. Wagner Moura já
precisou de paciência diante de um jornalista que o perguntou como foi
fazer “Amarelo manga”.
— “Amarelo”... sou nordestino...
“Cidade de Deus”... eu era bandido em “Carandiru”... Deve ser isso, mas
não sei o que dá na cabeça das pessoas — brinca Moura.
— Quando a mulher começou a me
elogiar no avião achei que fosse por causa de “Madame Satã”. Mas na hora
de se despedir gritou: “Tchau, Zé Pequeno!” — diverte-se Ramos.
Quem manda serem presenças
freqüentes no cinema brasileiro? Não à toa, estão juntos em três filmes
do Festival do Rio: nos longas “A máquina”, de João Falcão, e “Cidade
Baixa”, de Sérgio Machado, e o curta “Desejo”, de Anne Pinheiro
Guimarães. Ramos ainda estrela “Cafundó”, de Paulo Betti.
— Nossas histórias estão sempre
tão emboladas que não foi surpresa — diz Moura.
“A máquina” foi o grande pontapé para o cinema
Os caminhos dos dois começaram a
se “embolar” em Salvador, onde nasceram. Um assistia à peça do outro até
que um dia Moura foi ao camarim de Ramos. “ Pô , velho, seu
trabalho é genial. Vamos ser amigos”, lembra o primeiro.
Depois de muitos outros
desencontros veio a peça “A máquina”, que os projetou para o resto do
Brasil.
— Foi o grande pontapé para o
cinema — admite Ramos. — Paulo Betti contou que me convidou para fazer
“Cafundó” por causa da peça.
Em “A máquina”, o filme, as
participações são apenas afetivas. Já em “Cidade Baixa”, fundamentais,
assim como a amizade entre eles. Sérgio Machado só deu o papel a Moura
(a princípio o longa só teria negros) quando conheceu o relacionamento
deles. Era fundamental para a construção de dois personagens baianos,
amigos de infância que se apaixonam pela mesma mulher (Alice Braga) e
têm a amizade colocada em xeque. Mas como levar para a ficção um
sentimento que nunca ousariam ter um pelo outro? Aí entrou em cena a
preparadora de atores Fátima Toledo. A pedido deles.
— Começamos com um exercício de
falar o que a gente não gostava do outro. Era cabeção para lá, feio para
cá e algumas verdades como “você acorda de mau humor insuportável”. Mas
nada que abalasse nossa amizade — diz Moura.
— Eu tenho consciência dos
defeitos dele e tenho certeza que ele tem dos meus — completa Ramos.
Partiram para exercícios mais
subjetivos até que em um exaustivo e violento ensaio “o canal foi
aberto”.
— Derrubei Lazinho no chão e ele
me deu um chute, que me deixou sem ar. Deu uma parafusada na minha
cabeça e quase dei um soco nele.
— Pensei: ele alcançou a fúria
mas não está fazendo o personagem! Esquivei-me do soco e, quando ele deu
o outro, reconheceu o que estava fazendo. Ajoelhou-se e começou a
chorar. Eu batia nas costas dele e gritava: “Isso aqui é um filme, um
filme!!!!” — conta Ramos.
A mesma amizade capaz de passar
por cima de um conflito como esse é aquela que faz dos dois os melhores
conselheiros e críticos um do outro. E afirmam: só aceitam um trabalho
depois de ouvir a opinião do amigo.
— A gente pensa muito parecido.
Só faço o papel que Lázaro faria.
— O que ele quer dizer é que se
me chamassem para ser JK eu iria — ironiza Ramos.
E o que eles admiram no trabalho
um do outro?
— Wagner é um ator inteligente,
sempre preocupado em se inventar.
— Acho Lazinho doido. Tem que ter
técnica, mas não pode perder o delírio. O trabalho em “Satã” é a prova.
Ali vi porque o achei incrível lá atrás.
(©
O
Globo)
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