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Diários de Joaquim Nabuco revelam seu apreço pela "amizade" entre senhores e escravos e sua rejeição aos EUA, país que "neutraliza a paixão" LUIZ COSTA LIMA Contam-se nos dedos os que puderam consultar os diários de Joaquim Nabuco [1849-1910]. A raridade agora se desfaz: uma ampla equipe de transcritores, tradutores, encarregados do aparato iconográfico, mais os prefácios e notas explicativas de Evaldo Cabral de Melo dão qualidade aos dois volumes dos "Diários" recém-lançados. Eles abrangem desde os anos de 1873, quando Nabuco empreende sua primeira viagem à Europa (1873-4), até, com interrupções, sua morte, em 1910. Como Evaldo Cabral já anotou, não são todos de mesma qualidade; no primeiro, por exemplo, mesmo quando a anotação se desenvolve, são recortes estésicos da paisagem que assinalam um turista requintado. Parece estranha a quase absoluta ausência de referências ligadas à intimidade. Bem mais rico é o diário de 1877, correspondente a seu período de adido à legação nos Estados Unidos (1876-8). Nabuco mantinha residência em Nova York, sendo contemporâneo de [Joaquim de] Sousândrade [1833-1902], a quem só conheceria no Rio, em 1897. Como o autor do "Inferno em Wall Street" (primeira edição de 1877), Nabuco tem a oportunidade de avaliar o cotidiano norte-americano depois da Guerra Civil (1861-5), quando permanecem visíveis os sinais da luta interna, assim como as especulações e descalabros financeiros.
Destaque-se a apreciação da eleição presidencial de 1876. Embora os votos dêem a vitória ao candidato democrata, como a contagem já era feita em função do tamanho dos colégios eleitorais, a decisão da comissão eleitoral favoreceu o candidato republicano. Diante da parcialidade do juiz: "Nunca se viu em um país uma grande questão política tornar-se em uma chicana de advogados" (vol. 1, pág. 118). Bem mais interessantes que as reflexões íntimas, agora abundantes, as apreciações sociopolíticas pegam seu objeto ao vivo. Não se trata apenas de registrar o
medo de que o Sul, depois de derrotado, pudesse ganhar eleitoralmente o
poder (cf. vol.1, pág. 92), como de acentuar a avaliação depreciativa da
democracia mercantil: "(...) O dólar é o Deus desta plutocracia de 40
milhões de homens" (vol. 1, pág. 127). A exclusividade do interesse
financeiro neutraliza a paixão e lhe faz pensar no papel da mulher e no
significado do casamento. Um e outro interferem no desagrado que o país lhe
causava. Mas a única mulher que será detalhada, no diário de 1877, é uma garota de 19 anos. Embora freqüente sua casa e diga ser a mais bela mulher que conhecera, seu julgamento antes pareceria de um quadro: "O perfil não é perfeito, porque a face é demasiado cavada (...). Os dentes não são iguais no que se poderia chamar a "linha de mastigação", mas a boca é muito bem desenhada, sóbria e firme" (vol. 1, pág. 108). Não estranha que sua "admiração arrebatada" não "a lisonjeie" e tudo termine em ruptura. Se, ante uma moça de família, Nabuco se defendia com a "estética", diante de um tipo diverso, diria que "tem a fascinação do precipício" (vol 1. pág. 128). Para ele, a mulher encarna o perigo: "Quando a mulher entra pela porta, a esperança salta a janela" (vol. 1, pág. 138). Como os sinais dessa reação se concentram no diário de 1877, pode-se supor que sua "misoginia" era influenciada pelo choque com a sociedade norte-americana: "Deus queira que pelo primeiro vapor me venham boas notícias, isto é, licença para deixar este país" (vol. 1, pág. 184). É enquanto tal que o choque faz ainda aflorar as raízes em que seu abolicionismo mergulhava. "Inimigo como sou da escravidão, eu encontro mais dignidade no escravo que nessa espécie de homem livre (...)" (vol. 1, pág. 189). De um lado, a repugnância pelo mercantilismo correspondia ao que entendia por comunismo -"Esses comunistas em toda a parte são os mesmos: antes de distribuírem a propriedade, tratam de destruí-la" (vol. 1, pág. 188). De outro, seu empenho abolicionista ressalta "a dedicação, o interesse e a amizade do escravo pelo senhor" (vol. 1, pág. 189), sem levar em conta que essa afetividade supunha a absoluta assimetria que a alimentava. Seu contraste pois entre o trabalhador livre, "que principia por se libertar dos melhores sentimentos humanos", e o escravo, cheio de afeição, parece representativa da atitude freqüente do intelectual brasileiro, que, contrário à injustiça social, no entanto se comporta como se cresse na necessidade de ser mantida a assimetria que também o privilegia. A vida norte-americana, em suma,
não lhe dá o contentamento que conhecera em Londres. Daí sua satisfação em
ser transferido para a legação em Londres. Devido à morte do pai, sua
permanência será bem curta (outubro de 1877 a abril de 1878). Abre-se o período abolicionista (1879-88), quase inexistente nos diários. Com a Proclamação da República, seu ostracismo político, a tentativa frustrada de sustentar-se como advogado em Londres, depois no Rio, a vida assume a gravidade que havia desconhecido. Desde logo, é na igreja londrina da rua Farm que, em 1891, Nabuco começa sua reconversão. Admirador de Chateaubriand, a sua será uma fé fundada no coração. Desde antes, as questões que Joaquim Nabuco se levantava supunham o papel decisivo dos afetos na crença religiosa. Assim, em 11 de fevereiro de 1877, afirmava: "Os ateus são áridos", e, em 20 de março, se indagava: "Deus mesmo será feliz?". A reconversão lhe oferecerá um centro de equilíbrio. Estando no Rio durante a Revolta da Armada, testemunha as prisões arbitrárias e conclui que, com a república, "o Brasil se sul-americanizou depressa, e com que fúria" (vol 2., pág. 67). Abrandado, porém, o arreganho militarista dos dois primeiros governos republicanos e dadas suas divergências com os monarquistas tradicionais, Nabuco aceita, em 1899, voltar à diplomacia. Encarregado da questão dos limites com a Guiana Inglesa, terá condições de reconhecer que, em matéria de conflito, o direito é sempre do mais forte: seu arrazoado é derrotado porque o rei italiano não queria contrariar os interesses ingleses. Logo depois, será levado a rever sua posição quanto aos Estados Unidos. Nomeado embaixador em Washington, em 1905, convencer-se-á de que só o pan-americanismo evitará a recolonização sul-americana pelas potências européias. Não só mudara sua posição quanto aos Estados Unidos. Em frente privada, também abandonara sua desconfiança ante a mulher. Casa-se e declara haver convertido o amor em mística (cf. vol. 2, pág. 218). No todo, é a sensação de que a vida se esvai, embora ganhe um prestígio que sequer tivera durante a campanha abolicionista. Contra a melancolia depressiva que, desde o diário de 1899-1900, se abate sobre ele, só conta com o trabalho diplomático, sobretudo com a preparação da Conferência Pan-Americana, no Rio, em agosto de 1906. Os últimos anos na embaixada se resumem a seguidas conferências em universidades norte-americanas e às preocupações com a saúde. Em 19 agosto de 1906, escreve: "Cheguei aos 60 anos sem fôlego e exausto da longa ascensão da vida". E seis dias antes de morrer: "Tenho sempre a dor de cabeça e sonolência". Luiz Costa Lima é ensaísta, crítico e professor da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Pontifícia Universidade
Católica (PUC-RJ). É autor de "O Redemoinho do Horror" (ed. Planeta) e
"Intervenções" (Edusp), entre outros. Joaquim Nabuco - Diários (1873-1910) |
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