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A elite picaresca

Ana Paula Arósio e Diogo Vilela: diálogos literários no cinema

 

O Coronel e o Lobisomem traz de volta às telas a figura do malandro brasileiro. Só que, desta vez, ele está ligado à classe dominante

Por José Geraldo Couto

   A melhor definição do coronel Ponciano de Azeredo Furtado, protagonista de O Coronel e o Lobisomem, talvez seja aquela encontrada pelo ator Diogo Vilela: “Ele é um barão de Münchhausen da roça”. De fato, assim como o nobre alemão do século 18, cujas aventuras mirabolantes fizeram a delícia de gerações de jovens leitores em todo o mundo, o anti-herói do romance de José Cândido de Carvalho, inicialmente publicado em 1964, é um mentiroso contumaz, que em suas fantasiosas memórias enfrenta feras e assombrações com destemor e galhardia.

   Mas o coronel Ponciano faz parte também de outra longa linhagem, a dos personagens picarescos, aqueles irresistíveis patifes que se viram na vida à custa de imaginação, fingimento e astúcia. Nascido na literatura burlesca que floresceu na Espanha nos séculos 16 e 17, com a novela anônima Lazarillo de Tormes, o pícaro, por alguma razão, deu-se muito bem no Brasil. Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, é tido como o primeiro romance brasileiro do gênero. O protagonista, sargento Leonardo, é um jovem delinqüente que se vê forçado a integrar a força pública ao deixar a cadeia no Rio de Janeiro da época de dom João 6º. Depois dele, vieram outros malandros, muitos aproveitados pelo cinema.

   A singularidade de Ponciano é a de pertencer, ao contrário do pícaro típico, à classe dominante: ele mesmo se define como um “proprietário de terras e coronel de patente por herança e valentia”. Na novela burlesca clássica, segundo o professor Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira, contam-se as “aventuras de um pobre que vê com desencanto e malícia, isto é, de baixo, as mazelas de uma sociedade em decadência”. A astúcia e a amoralidade do pícaro, nesses casos, são um mecanismo de defesa contra uma ordem social que o exclui.

   O protagonista de O Coronel e o Lobisomem, porém, faz parte da elite brasileira, com tudo de cômico e paródico que a caracteriza. Isso diz muito sobre a especificidade da nossa formação social e cultural, em que florescem, conforme o crítico Roberto Schwartz, as “idéias fora do lugar”. Não é difícil reconhecer traços das atitudes de Ponciano em personagens fictícios como o coronel Odorico Paraguaçu, de Dias Gomes, ou reais, como os políticos Severino Cavalcanti e Roberto Jefferson.

   O desafio de transpor para as telas de cinema o realismo mágico do livro de José Cândido de Carvalho, com Diogo Vilela no papel de Ponciano, foi enfrentado pelo diretor Maurício Farias. Trata-se do primeiro longa-metragem do cineasta, o mais novo representante do “clã” Farias (é filho de Roberto, sobrinho de Reginaldo e irmão de Lui e Mauro, todos ligados ao cinema). Com experiência na direção de minisséries de TV, ele comanda atualmente na Rede Globo o seriado A Grande Família.

   Para realizar a adaptação, o diretor cercou-se dos roteiristas Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão, os mesmos que transformaram o livro em um Caso Especial da Globo em 1994. O diretor de arte é o inglês radicado no Brasil Adrian Cooper e a fotografia ficou a cargo de José Roberto Eliezer, o Zé Bob, que trabalhou em Cafundó, entre outros títulos. A todos, Maurício Farias pediu ajuda para “criar um universo que fosse compatível com o personagem central, um sujeito fantasioso, contador de ‘causos’, que acredita no que inventa”. Segundo o diretor, tudo na arte e no figurino foi feito para descolar o filme do mundo concreto, criando uma ponte entre a realidade e a fantasia. Para isso, a equipe recorreu também a efeitos especiais que dão vida aos seres fantásticos que povoam a fértil imaginação de Ponciano, a exemplo da prima Esmeraldina (Ana Paula Arósio), idealizada como sereia, e — é lógico — do lobisomem do título.

   O roteiro teve como base o trabalho feito para o Caso Especial. “Buscamos dar unidade a um relato que, originalmente, era um romance episódico, uma coleção de aventuras com escassa ligação entre si, algo que no livro funciona muito bem, mas que no cinema não daria certo”, afirma Jorge Furtado. A solução foi narrar a história retrospectivamente, a partir de um julgamento em que Ponciano se defronta no tribunal com Pernambuco Nogueira (Selton Mello), o sujeito que lhe tomou as terras e que ele acusa de ser um lobisomem. “Essa mudança também satisfez minha queda por filmes de tribunal”, brinca Furtado.

Severino Cavalcanti

   Visando à síntese e à comunicação com o público de hoje, o trio de roteiristas tomou inúmeras liberdades frente ao texto do romance, fundindo personagens, inventando episódios, alterando a ordem dos fatos, colocando palavras de um personagem na boca de outro, etc. O resultado, a bem da verdade, é às vezes um pouco confuso, especialmente para quem leu o livro e fica buscando suas referências na tela. Em todo caso, tentou-se preservar ao máximo o sabor da linguagem original de Carvalho, plena de achados e invenções que depois se tornariam correntes (os “emboramente”, as “defeituras”, os “pratrasmente” de tantos coronéis de novelas globais).

   Assim, O Coronel e o Lobisomem se insere num filão de comédias picarescas baseadas em obras literárias que têm obtido considerável êxito de público no Brasil. Os exemplos mais célebres são O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, ambos dirigidos por Guel Arraes. Maurício Farias é o primeiro a reconhecer o parentesco do seu Ponciano com os protagonistas dos dois filmes, João Grilo e Leléu, mas faz questão de ampliar o grupo de pícaros. “Há muitos heróis dessa mesma linhagem na história do cinema brasileiro: Renato Aragão e os Trapalhões, Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi, Zé Trindade e outros grande atores, que fizeram inúmeras comédias picarescas”.

   E o que O Coronel e o Lobisomem tem a dizer ao cidadão brasileiro de hoje? Farias enfatiza o otimismo do protagonista: “Ponciano é um herói gauche, um sujeito sonhador, ingênuo e inábil, que, apesar das voltas que a vida lhe dá, encara o futuro sempre com esperança e não perde a capacidade de sonhar”. Já Jorge Furtado, conhecido por sua militância de esquerda (dirigiu campanhas para o PT), prefere destacar o que o livro e o filme revelam sobre a natureza da “nossa elite capenga”. “Quando ligo a televisão e vejo o Severino Cavalcanti, no plenário da Câmara, dizer: ‘Vossa Excelência recolha-se à sua insignificância’, vejo que é puro coronel Ponciano”, afirma ele.

   Para Diogo Vilela, a atual crise política propicia “muita reflexão sobre a loucura brasileira” e o personagem de Ponciano seria um prato cheio para essa ponderação — juntamente com suas assombrações imaginárias. Parece fantástico demais? Leia o livro, veja o filme e tire a prova.

Serviço: O Coronel e o Lobisomem, de Maurício Farias. Com Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula Arósio, Pedro Paulo Rangel e Tonico Pereira.

(© Bravo! Online)


Na televisão era melhor

Omar Godoy

   "Chega dos mesmos!", dizia o slogan de uma antiga campanha eleitoral que exigia a renovação nos quadros políticos brasileiros. Pois bem: dá vontade de gritar o mesmo lema durante a projeção de O Coronel e o Lobisomem, em cartaz a partir de hoje nos cinemas. O filme leva a grife de Guel Arraes, responsável por formatos televisivos inovadores (Armação Ilimitada, TV Pirata) e longas-metragens de apelo popular (O Auto da Compadecida, Caramuru – A Invenção do Brasil e Lisbela e o Prisioneiro). Aqui, ele cede a cadeira de diretor para o estreante Maurício Farias (do seriado global A Grande Família) e se dedica à produção, ao lado de Paula Lavigne – ex-atriz e ex-mulher de Caetano Veloso.

   Mas os créditos do filme ainda revelam outros nomes constantes nos projetos de Arraes. Além do onipresente Selton Mello, o elenco conta com Diogo Vilela, Andréa Beltrão, Tonico Pereira e Pedro Paulo Rangel (a única novidade é Ana Paula Arósio). O roteiro leva a assinatura do próprio produtor, com co-autoria do pernambucano João Falcão e do gaúcho Jorge Furtado, ambos de Lisbela. E a trilha sonora, como não poderia deixar de ser, fica a cargo do já mencionado Caetano, com Milton Nascimento como parceiro.

   Ninguém duvida que são todos talentosos individualmente. Mas, em grupo, já deram o que tinham de dar. E a prova é o filme em si, arrastado e televisivo demais para a telona. Aliás, a história já havia sido adaptada pela Globo, há seis anos, em um especial estrelado por Marco Nanini, Patrícia Pillar e Paulo Betti.

   Baseado no livro homônimo de José Cândido de Carvalho (1914 – 1989), O Coronel e o Lobisomem se passa no início do século 20, auge do coronelismo brasileiro. Narra a trajetória do coronel Ponciano Azeredo Furtado (Vilela), que luta contra seu irmão de criação, Pernambuco Nogueira (Mello), pelas terras da família e o amor da bela prima Esmeraldina (Arósio). Duelando em um tribunal, Ponciano tenta convencer os jurados de que a hipoteca da propriedade, nas mãos de Nogueira, não tem valor. Isso porque o parente postiço é, na verdade, um lobisomem. Ou seja: não sendo humano, está impedido de ter os mesmo direitos dos mortais. Começa então uma série de flahsbacks, na qual o militar, agora completamente falido, relembra as origens da rixa familiar.

   Como a obra original beira o genial, não há como o filme ser de todo ruim. Até porque o elenco, por mais manjado que seja, sai-se bem nos diálogos cômicos e deliciosamente rebuscados escritos por Cândido de Carvalho nos anos 60. Resta saber se o grande público, alvo preferencial do cinema popular de Guel Arraes, não vai se irritar com as falas longas e extremamente literárias do roteiro. O antigo especial de tevê, mais ágil e curto, era muito melhor. GG

(© Gazeta do Povo)

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