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Às vésperas de fazer 60 anos de vida literária, Ariano Suassuna se
debruça sobre aquela que será a maior de todas as obras O homem Ariano Suassuna nasceu na Paraíba há 78 anos. O escritor veio ao mundo em 7 de outubro de 1945, por meio do poema Noturno, publicado pela primeira vez no suplemento literário do Jornal do Commercio. Desde então, Ariano já publicou sete peças, quatro romances e vários poemas. Às vésperas de completar 60 anos de vida literária, o escritor diz que ainda tem a mesma empolgação dos primeiros anos de trabalho, que a literatura lhe renova o espírito e rejuvenesce. Atualmente, ele está às voltas com o projeto mais ousado de sua carreira: reeditar toda a sua obra num só romance em dez volumes, capaz de fundir poesia, teatro e ficção num só trabalho. Depois que fizer isso, quem sabe, Ariano terá realizado a “Grande Obra” sonhada por Quaderna, narrador do seu maior romance até hoje, A Pedra do Reino. Ariano Suassuna é uma figura controversa. Existem aqueles que o idolatram e há o coro dos descontentes. Hoje, cada vez mais, crescem os primeiros. Mérito do escritor, que encontrou os mecanismos para defender seu pensamento em meios de grande alcance sem render-se às armadilhas das adaptações. A primeira vez que quiseram verter o Auto da Compadecida para a televisão foi na década de 1960. Na época, ele não apenas recusou, como teve que se defender de duras críticas. Pois em 1999, ele não apenas concordou com a adaptação, como ainda elogiou muito o trabalho do diretor Guel Arraes, que se manteve fiel aos fundamentos da obra. “Não fui eu que me rendi à televisão. Foi a televisão que se rendeu às minhas peças”, repete satisfeito. A popularidade, entretanto, cobra o seu preço. Nos últimos anos, Ariano não consegue dedicar-se como gostaria ao seu novo romance. Sem falar que esse não é qualquer livro: todas as páginas são manuscritas e desenhadas por ele. Como um artista completo que vai se lapidando, a suavidade da letra de Ariano vai cobrindo páginas e mais páginas. Laudas que, antes da escrita, foram ornadas por ele, receberam molduras e desenhos armoriais, mostrados publicamente pela primeira vez nesta reportagem do Jornal do Commercio. Sempre que pode, o escritor se guarda em seu gabinete, cercado por manuscritos e originais datilografados, livros, obras de arte e até pelo amoroso bilhete de uma das netas, e começa a colocar no papel seu reino mágico e iluminado. Por isso, aos fãs ele pede compreensão. Tempo para que possa realizar o que mais gosta e ofertar o que todos esperam dele: a literatura.
ENTREVISTA ARIANO SUASSUNA
Compreender a obra de Ariano Suassuna é entender o
homem que a forjou. Aos 78 anos, 60 depois de ter iniciado sua vida
literária, ele é um dos escritores mais importantes em atuação no País.
Seu trabalho é um retrato do seu pensamento, da sua defesa da arte
brasi[/ABRE-ENTREV]leira, da sua história de vida, da sua retidão, do seu
humor e, claro, da sua paixão pela escrita. Hoje, com a mesma empolgação
do menino de 18 anos que publicou o primeiro poema, ele fala sobre o
romance que escreve agora. Nessa entrevista, o autor abriu sua casa e o
coração para o Jornal do Commercio. Revelou detalhes do novo livro, falou
da arte como superação da morte, analisou sua obra e mostrou seu ambiente
de trabalho. ARIANO SUASSUNA – Eu me lembro da alegria que eu tive no dia. Eu era estudante do último ano do ensino médio e tinha um professor de geografia que era grande apreciador de literatura chamado Tadeu Rocha. Um dia, ele passou uma prova e, pela maneira de eu escrever, descobriu que eu tinha interesse em literatura. Eu me lembro bem, o assunto era aspectos gerais do relevo brasileiro. E eu então comparei o relevo com o povo brasileiro. Para falar no Planalto Central, eu falei do Aleijadinho e citei de memória um poema de Drummond. Eu tinha então 18 anos, menino enxerido. Quando ele foi entregar a prova, me chamou e perguntou se eu tinha interesse em literatura. Eu disse que tinha. Ele me pediu um poema e eu entreguei a ele. Ele não me disse nada. Saiu de lá e foi entregar a Esmaragdo Marroquim, do Jornal do Commercio. No domingo, eu estava na praia, na casa de um colega, aí ele disse: “Eu vi o seu poema, que saiu no Jornal do Commercio”. Eu saí da água correndo para comprar um exemplar, mas já tinha acabado.
JC – Atualmente, a emoção de ter uma obra publicada é semelhante à primeira vez, ou o impacto é menor? AS – É a mesma coisa. Eu continuo o mesmo menino. Sou uma pessoa apaixonada pela literatura. É uma coisa fundamental. Eu não saberia viver sem a literatura. Tanto que eu tenho 78 anos, mas não me dá a impressão (da idade). Eu sou o homem da esperança. Eu ainda estou sonhando em fazer uma obra literária da melhor que eu possa. Eu não estou dizendo que é uma grande obra, não, mas eu exijo de mim dar o mais que eu posso. E até hoje eu não dei. É por isso que eu estou olhando com tanta responsabilidade esse novo livro.
JC – É a obra de Quaderna? AS – É... De certa maneira, é o livro que Quaderna sonhava.
JC – Você já disse antes que sua atuação na Secretaria de Cultura do último governo de Arraes lhe tirou o tempo de escrever, mas também lhe ajudou, porque trouxe um maior número de pessoas... AS – Me trouxe até a idéia de incluir as aulas-espetáculo no romance, e isso é uma coisa muito importante. Porque eu queria, como quero, e vou fazer, porque já estou fazendo, fundir o meu romance, como o meu teatro e a minha poesia. Então eu imaginei um simpósio que analisa a obra de quatro escritores, como aulas-espetáculo. Eu fiz o seguinte, o livro tem como personagens um poeta, um dramaturgo, um romancista e o narrador, que é um professor que também é encenador. É ele quem organiza o simpósio. As aulas-espetáculo me deram muitas idéias. Eu encarnei num personagem o Ariano poeta, noutro, o romancista, noutro, o dramaturgo, noutro, o ensaísta, este é pai adotivo do encenador.
JC – Falando a respeito de sua obra, a pesquisadora francesa Idelete Muzart diz que não se pode enquadrá-la dentro de nenhum dos campos que normalmente associam aos seus textos, como o regionalismo ou o realismo mágico. Então, ela declarou: “Os brasileiros precisam entender que têm um gênio da literatura vivo e atuante. E um gênio da literatura não se enquadra em movimento nenhum. Ele cria movimentos a partir da obra dele. E o Movimento Armorial é isso”. Você concorda com essa avaliação? AS – (Risos.) Uma das coisas que eu tenho mais raiva do mundo é do chamado intelectual vaidoso.
JC – E como você comentaria essa afirmação? AS – Bom, eu comentaria somente essa parte do Movimento Armorial. Ela está certa neste sentido, porque um dos motivos que me levaram a criar o Armorial foi exatamente a falta de um movimento. Porque, eu devo muito à Escola do Recife, ao Movimento Modernista do Brasil e aos regionalistas, principalmente José Lins do Rêgo, mas não basta. Do mesmo jeito que não me enquadro no realismo mágico.
JC – Muitos pesquisadores da sua obra dizem que ela é uma tentativa de ressaltar a imagem de seu pai, por um lado, e, por outro, de expurgar a perda. Você concorda com isso? AS – Eu não diria a palavra expurgo, usaria o termo catarse. Seria uma espécie de compensação. Nesse caso, eu acho que tudo o que eu escrevo seria um pouco disso. Como eu já disse outras vezes, eu aceitei a Academia Brasileira de Letras pelo fato de Euclides da Cunha ter pertencido à Academia. Eu tenho uma admiração por ele enorme. Se eu pudesse escolher um patrono na literatura brasileira, seria Euclides da Cunha. Agora, além da admiração literária que eu tenho por ele, eu passei a ver, a partir de certa época, que havia alguma coisa a mais na minha identificação. Aí, eu comecei a ver que, primeiro, ele parecia fisicamente com meu pai. Ele era 20 anos mais velho, tendo nascido no mesmo mês com um dia de diferença. Ele era de 20 de janeiro de 1866. Meu pai era de 19 de janeiro de 1886. Meu pai tinha uma admiração por ele enorme, inclusive na maneira de escrever. Ele era discípulo de Euclides da Cunha. Meu pai morreu assassinado aos 44 anos. Ele morreu assassinado aos 43 anos. Agora, isso era uma coisa inconsciente, eu só percebi depois de muito tempo. Tudo que eu escrevo é uma espécie de compensação, eu ofereço a ele. Uma tentativa de superação.
JC – Você acha que já conseguiu? AS – É um processo ainda. Entre outras coisas, eu preciso perdoar os assassinos, que é uma coisa muito difícil. E as minha tentativas literárias são, ainda, uma tentativa.
JC – É curioso você dizer isso porque certa vez, numa palestra, você se declarou veementemente contra a pena de morte. E um dos argumentos que você usou para justificar essa posição era o fato de não querer a pena de morte para os assassinos de seu pai. AS – Eu não quero matar e jamais mataria. Agora, o problema do perdão, é mais difícil. Eu, como católico, sei que tenho obrigação de perdoar. Mas eu sei e o Cristo sabia que não era fácil, tanto que ele mandou perdoar e amar ao próximo como a si mesmo. E eu sou uma pessoa que procura muito não mentir, nem a mim mesmo nem aos outros. E se eu disse isso, seria uma hipocrisia muito grande de minha parte. Então, amar ao próximo como a mim mesmo é uma coisa que eu coloco como um sonho que eu procuro atingir. Da mesma forma é o perdão. Mas eu sempre fui contra a morte dos assassinos e minha mãe foi quem me deu essa primeira lição. Uma das primeiras lembranças mais fortes que eu tenho foi a de um sertanejo que era muito ligado a meu pai. O assassino, sem saber, chegou lá perto (de Taperoá), e esse sertanejo foi pedir a minha mãe para matá-lo. Ele dizia a ela: “Eu não quero que a senhora mande, não, eu só quero que a senhora diga que não vai ficar com raiva de mim”. E a minha mãe não admitiu. Além disso, na última carta que ele deixou para a gente, pedia que ninguém vingasse a morte.
JC – A Pedra do Reino, como toda grande obra literária, permite vários níveis de leitura. A camada mais difícil, seria justamente a da percepção da dimensão religiosa e filófica da obra, que é uma visão que nem todo mundo alcança... AS – Inclusive, é uma coisa que pouca gente percebeu, existe pelo menos um capítulo d’A Pedra do Reino no qual, para a pessoa ter idéia do que está escrito ali, precisa conhecer a obra de dois pensadores alemães, Heidegger e Jaspers. É uma sátira ao pensamento deles. Eu não tenho muita simpatia pelo pensamento alemão, a começar de Kant, que marcou muito esses dois. A exceção é Nietzsche, que eu gosto muito, mas ele tinha horror aos filósofos alemães. Ele era um autor marginal na sua época. Além disso, Nietzsche era um grande escritor. Eu leio um livro dele como quem lê um poema. Eu devo muito a ele. Ainda jovem, a obra de Nietzsche me tocou muito, principalmente Assim falava Zaratustra e A origem da tragédia.
JC – Seria possível você falar um pouco sobre a dimensão filosófica de A Pedra do Reino? AS – Bom, Quaderna tem dois mestres. Um deles foi, em parte, inspirado em Tobias Barreto, que era germanista, escrevia e editava em Escada, na Zona da Mata Sul, um jornal todo feito em alemão. Ele queria lutar contra a excessiva influência da cultura francesa no Brasil, mas não tinha convicção suficiente para fazer isso como brasileiro e apoiava-se nas muletas do pensamento alemão. O outro, Samuel, é um direitista, tem horror à sociologia, é um poeta fidalgo. Eu tentei apresentar essas duas linhas de pensamento que são presentes na vida brasileira. De propósito, coloquei a ação do romance de 1935 a 38. O livro começa com Quaderna preso, repondendo a um inquérito. Com isso, eu queria duas coisas. Primeiro, fazer coincidir o tempo do romance com o centenário dos acontecimentos da Pedra do Reino (história trágica ocorrida em São José do Belmonte, Sertão da Paraíba). Depois, em 1938, o Brasil vivia uma ditadura e a ação d’A Pedra do Reino apresenta um escritor sendo submetido a um inquérito, porque meus amigos escritores estavam sendo interrogados, na época, pela ditadura militar (o livro foi lançado ém 1972). É por isso que eu sempre protestei quando quiseram classificar A Pedra do Reino como um romance rural, porque você tem problemas ali que não dizem respeito à vida rural. Se você prestar a atenção, tem o assassinato de um jovem padre, auxiliar do bispo, que aparece morto com os olhos vazados a faca. Isso é uma alusão à morte do padre Henrique, ocorrido em 1968, e eu fiz passar em 38. Agora, eu procurei fazer o livro de forma que a pessoa não precisasse necessariamente conhecer todas as referências citadas. Procurei fazê-lo divertido.
JC – O que você considera que são os elementos fundadores da sua literatura? Se você tivesse que estabelecer uns três ou quatro elementos que seriam a pedra fundadora da sua literatura, quais seriam? AS – Pergunta difícil... A preocupação com uma literatura que expresse os valores do meu País, meu povo. O problema familiar (em relação ao pai). O espírito religioso. E a visão da morte. Porque ao mesmo tempo que eu tenho uma paixão muito grande pela vida, eu sei que a vida tem um fundamento trágico. Acho que a presença da morte é uma coisa muito importante, porque a literatura é uma das maneiras que eu encontro de afirmar minha paixão pela vida e de me rebelar contra a morte. É a busca de uma precária, mas, ainda assim, poderosa imortalidade. A obra, o homem e o carisma Escritores discutem a dificuldade de separar a literatura de Ariano da hipnose que ele exerce sobre a platéiaSCHNEIDER CARPEGGIANI Cenário: Tenda dos Autores da Festa Literária Internacional de Parati (Flip), julho de 2005. Mesmo antes de proferir qualquer frase da sua aula-espetáculo, Ariano Suassuna é ovacionado pelo público. Um feito único, inédito até, em um evento que a cada ano reúne alguns dos principais autores em atividade no mundo. Segurar as rédeas de uma platéia, que nem precisa ser 100% formada por seguidores fiéis das suas idéias, não é novidade alguma para Ariano. “Ariano Suassuna tem um carisma e uma empatia com o público que nem podemos dizer que é um pathos próprio dos autores do Norte e Nordeste, porque alguns são bastante secos, como foi o caso de João Cabral de Melo Neto. Essa é uma característica dele”, observa o escritor amazonense Milton Hatoum, que estava entre os que aplaudiram de pé Ariano em julho passado. “Pouca gente atravessou as páginas de Cervantes, mas o Quixote a cada dia tem mais representações e ganha o imaginário das pessoas. Ariano escreveu duas obras marcantes, o Auto da compadecida e A Pedra do Reino, e possui um discurso forte e polêmico, muito presente na mídia, alcançando todas as camadas sociais. É impressionante como é conhecido e estimado. Ele uniu o talento de mestre de estética com o de ator de palco. E o resultado é a aula-espetáculo”, explica Ronaldo Correia de Brito, convidado da última Flip. No entanto, tanto carisma acaba por confundir homem e obra. É o que percebe o escritor Marcelino Freire – “Lembro que, quando eu e o Raimundo Carrero estivemos como convidados na Flip de 2004, destacaram em nós esse humor angustiado, atropelado, vivo. Ariano é o nosso pai nesse sentido. Ele é desses artistas raros. Aquele jeitão visceral, aquele humor e ironia impagáveis. Gosto disso. Creio, sempre, que o problema não está no Ariano, mas nos seguidores cegos dele. Que só enxergam o Ariano, entende? Até parece religião. O mesmo acontece com os órfãos do Gilberto Freyre. Uma chateação!” “Ariano é um personagem dele mesmo. Acho que quem quer que se arrisque a entender seu trabalho, terá que entender esse personagem que ele criou”, acredita Micheliny Verunschk, autora do livro Geografia íntima do deserto, finalista do Portugal Telecom ano passado. “Não tenho influência de Suassuna e acho que ele é mais conhecido pelos ecos do Movimento Armorial que mesmo por sua obra. Vejo a literatura brasileira atual formada por uma massa heterogênea de vozes, mas não consigo ver claramente a figura dele nesse universo literário contemporâneo, o que não que dizer que a sua marca também não esteja impressa”, completa. Já o poeta Fabrício Carpinejar, prefere localizar o caráter singular da obra do escritor: “a literatura de Ariano aguça o poder encantatório da poesia como música e cordel, defende a tradição brasileira e o passado como algo vivo. É uma imaginação falada, prodigiosa. Sua narrativa tem um núcleo poético gerador, uma imaginação coletiva musicada. É justamente a explosão da linguagem que diferencia A pedra do reino de qualquer outra experiência na língua portuguesa.” Para Hatoum, Ariano é um narrador do Norte da África que “caiu no Sertão brasileiro, uma visão da força e importância do passado que o destaca ”. Carpinejar reitera a posição do Hatoum: “Ariano ensina aos escritores contemporâneos que para manter atualidade a receita é ser fiel às raízes. Não há maior erudição do que a cultura popular.” Quando o professor “toma” o lugar ocupado pelo escritor Ler a ficção de Ariano Suassuna é uma experiência para ser vivida em diversas camadas. A primeira, e mais óbvia, é aquela que lhe faz percorrer as centenas de páginas de um romance como A Pedra do Reino: a movimentação da trama, o fôlego veloz que o autor lança mão para dar vida ao prazer e às tragédias de seus personagens. Por “baixo” de tantos acontecimentos, Ariano costuma pontuar suas histórias com visões bem pessoais sobre vida e arte. Uma espécie de “aula”, em que o “espetáculo” aparece disfarçado de enredo.Apesar de ter uma larga produção acadêmica pulverizada em revistas (ou mesmo na sua dissertação de livre docência, a inédita A onça castanha), o Ariano teórico só foi reunido no formato de livro em Iniciação à estética. Lançada em 1972, pela Editora Universitária da UFPE, a obra continua como uma das poucas, escritas em português, sobre filosofia da arte. “É um ensaio didático em que eu trato das questões da filosofia da arte. Foi criado na época em que eu era professor. Para facilitar a vida dos meus alunos, comecei a organizar apostilas e delas terminou surgindo um livro, a pedido da Editora Universitária. Agora, saiu pela José Olímpio, teve ótima aceitação, tanto que esgotou”, explicou Ariano, que começou em 1956 a lecionar a cadeira de estética na UFPE. O livro é uma boa mostra da diversidade intelectual do autor de A Pedra do Reino, que nele discute, entre outros, Hegel, Aristóteles, Platão e Kant. Nessa obra, Ariano faz questão de ressaltar que deixou de molho o criador literário para que o professor prevalecesse. “Eu podia ter evitado qualquer citação e feito, assim, um trabalho puramente pessoal: mas seria, isso, um prejuízo para os estudantes, em proveito do escritor”, escreveu na introdução de Iniciação. Nessa mesma introdução, Ariano realçou a importância da dedicação do leitor a, pelo menos, um livro: “um livro, mesmo menor, examinado e reexaminado em todas as suas implicações, aplaudido aqui e ferozmente negado ali, pode ser para o jovem que o leia, o que foi, para mim, o Assim falou Zaratustra, de Nietzsche, na adolescência: a descoberta da ardente e duradoura alegria do conhecimento.” De acordo com Alfredo Bosi, neste livro, Ariano “enfrenta os tópicos centrais da gênese e da diferenciação das artes: escultura, arquitetura, pintura, música, mímica, literatura, teatro (ou mais amplamente as artes do espetáculo)”, com ensaios que explicam o mundo de uma forma que a ficção nem sempre consegue abarcar. Em Iniciação, o leitor irá encontrar um “novo” Ariano, mas com um certo ar de “eu já li isso antes” pairando por suas páginas. (S.C.) Iniciação à estética (Ariano Suassuna): Editora José Olympio, R$ 39,90 Estudos acadêmicos desanuviam preconceito sobre a obra de Ariano Na mesma proporção que cresce a popularidade da obra de Ariano Suassuna entre jovens leitores, na televisão e no cinema brasileiro, cresce também o número de acadêmicos que se dedicam ao pensamento do escritor. Os trabalhos universitários que versam sobre a obra de Ariano têm lançado uma nova luz sobre suas idéias e servem para desanuviar idéias preconcebidas a seu respeito. Uma das acusações geralmente lançadas contra Ariano, por exemplo, é a de que, depois de atacar a televisão por muitos anos, ele rendeu-se aos encantos da telinha. O que está por trás disso quem explica é a professora de antropologia da Universidade Federal de Pernambuco Aparecida Nogueira: “Ariano sempre teve um discurso muito crítico em relação à submissão da arte pela técnica. Para ele, é a técnica que deve servir à cultura. Os suporte técnicos submetem a obra a uma ressignificação, então, Ariano só concordou que suas peças fossem adaptadas depois de ter certeza que essa ressignificação era coerente com o conjunto de sua obra”, comenta Aparecida.Outro ponto pelo qual o autor sempre foi muito cobrado diz respeito ao maior ou menor engajamento de sua obra durante a ditadura militar. “Ariano sempre foi um cidadão politicamente muito consciente e sua obra tem um teor político. Mas ele não faz do seu romance nem do seu teatro um manifesto político. Ele não é panfletário, nem nunca vai ser, porque ele é totalmente contrário ao caráter utilitário da arte. Ele não acredita que a arte deva servir à política. Ele defende a autonomia da expressão artística. Entretanto, como cidadão, ele sempre atuou. Tanto que, por diversos momentos, deixou de se dedicar com excluvidade à literatura para execer cargos públicos em defesa da cultura,” explica a professora francesa de história da arte Idelete Muzart, da Universidade de Paris 10, que há 30 anos estuda o autor. Os críticos de senso comum também gostam de criticar a presença da cultura popular nos textos do escritor, tentando enxergar aí algum caráter folclórico. Não percebem que, como explica o professor de estética e história da arte Carlos Newton Júnior, “a obra de Ariano encontra-se alicerçada em dois pilares fundamentais: o romanceiro popular nordestino e a tradição clássica ocidental.” “Ariano não apenas escreve sobre o universo do Sertão, mas ele se deixa atravessar pelos saberes do lugar. A formação de Ariano inclui a biblioteca de seu pai, a feira de Taperoá, as cantorias de viola, a recitação de versos. Sua obra, como se fosse um menino travesso, transita lá e cá, passa por todos esses universos com propriedade. As pessoas que ficam no nível superficial de sua obra não percebem isso”, destaca Aparecida. Para a pesquisadora, é preciso diferenciar o grau elevado de entrosamento que o escritor alcançou com a cultura popular daqueles autores que apenas se referem ou citam obras populares. “Ariano não faz concessões. Ele não concede à arte popular estar no seu trabalho. A arte popular forma o seu trabalho. Ele tanto não faz concessões, que sabe diferenciar a boa arte popular da ruim. Não é toda produção deste gênero que lhe agrada. Ele é verdadeiramente uma mistura desses saberes, uma mistura de Salu com Nietzsche, de Dostoiévski com João Matias de Athaíde”, resume Aparecida. |
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