Notícias
O escritor se revela até nas vírgulas

Raimundo Carrero

   "Ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever.” Ao falar de suas atividades, Raimundo Carrero deixa claro que a literatura, mais do que a profissão que escolheu, é o centro de sua vida. Nascido em Salgueiro, no sertão de Pernambuco, e morador do Recife, o jornalista e escritor dedica às palavras a maior parte de seu tempo. Ele acaba, inclusive, de se tornar um imortal – é o mais novo integrante da Academia Pernambucana de Letras. Atualmente, além de dar prosseguimento à sua obra, que abrange cerca de 15 livros, atua como assessor da Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura do Recife e continua à frente de sua Oficina de Criação Literária, ensinando, para iniciantes, um pouco da arte que tanto ama.

   A intensa produção literária desse prestigiado autor já rendeu bons frutos. Somos pedras que se consomem (1995) ganhou os prêmios Machado de Assis (da Biblioteca Nacional) e APCA (da Associação Paulista de Críticos de Arte) e As sombrias ruínas da alma (1999), o Jabuti. Um reconhecimento que ele aceita com alegria, mas encara com extrema simplicidade: “As honrarias ajudam a suportar a existência. E tornam o autor mais conhecido. Apenas isso.”

   Falar de seu primeiro romance, A história de Bernarda Soledade – publicado em 1975, com prefácio de Ariano Suassuna –, ainda hoje o emociona. “Foi escrito em cinco dias, num imenso calor de criação”, lembra, comentando também que Maçã agreste marca o início de sua maturidade; Somos pedras que se consomem "tem a força de um escritor disposto a enfrentar a violência de seu país”; e As sombrias ruínas da alma atesta sua inquietação interior. Depois de seu mais recente romance publicado, Ao redor do escorpião... uma tarântula?, de 2003, ele informa que há outros a caminho: O amor não tem bons sentimentos e A didática da criação, sobre técnicas de ficção.

   Ao contrário do que se possa imaginar, a obra de Raimundo Carrero não se encaixa na definição regionalista, como acontece com muitos de seus conterrâneos. “A paisagem é nordestina, mas a temática é universal”, ressalta. Fascinado pelo mistério da natureza humana, Carrero acredita que o caráter do escritor sempre transparece no decorrer de sua obra, até nas vírgulas. “Minha presença é forte em todos os meus livros e, mais, em todos os meus personagens. É inevitável.”

   Inspiração pura e simples, para o romancista e contista pernambucano, é algo que não existe. O que conta mesmo, a seu ver, é esforço e determinação: “É preciso trabalhar muito e constantemente. Todos os dias. Tenha ou não tenha o que escrever. A técnica resolve a falta de assunto. De tema. De qualquer coisa semelhante.” Este, aliás, é um dos sábios conselhos que o professor não cansa de dar aos alunos – ler e escrever todos os dias, a todo instante, como ele próprio faz. “Não se pode parar nunca”, reforça. O incentivo do mestre ultrapassou as aulas e resultou na publicação de Contos de oficina, volume que contém uma série de contos de seus pupilos. Para aqueles que não moram no Recife (e, portanto, não têm como participar de seu curso), a dica é o livro Os segredos da ficção – A arte de escrever, que ele lançou este ano, com preciosos ensinamentos.

   Sua famosa oficina, já tradicional no Recife, teve início em 1989. “Sempre achei interessante discutir minhas descobertas no campo literário. Escrever é uma busca permanente. Foi isso que me estimulou a reunir pessoas para debater o assunto”, conta. “Comecei lentamente, com uma turma pequena, muito boa, e a idéia foi adiante. Hoje tenho cinco grupos, dou aulas todos os dias, sou convidado para oficinas em universidades e centros culturais, inclusive em outros estados. Estou feliz!”

   Sobre os bastidores de sua vida, ele revela que, antes de optar de vez pela palavra escrita, deu alguns passos na música, tocando saxofone tenor. “Toquei em banda e cheguei a me profissionalizar, porém a vocação para as letras falou mais alto. Escolhi a literatura e posso dizer que a leitura foi fundamental nessa decisão. Comecei a ler muito cedo, na solidão da loja do meu pai no interior, e isso deve ter influenciado. Poderia fazer um discurso intelectual sobre a minha escolha, mas acho que escrevo mesmo por paixão atávica. E também pelo impulso de tentar compreender a natureza humana.”

   Entre os autores prediletos de Carrero, estão Dostoiévski (“principalmente”), Gustave Flaubert (“pela técnica”), Tolstói, Ariano Suassuna, José Lins do Rego, Clarice Lispector, Osman Lins. E por aí vai... Para seus discípulos, valem as mesmas indicações. “No ano passado, estudamos, em sala de aula, Abril despedaçado, de Ismail Kadaré, e Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Excelentes”, enfatiza.

   Para investigar e descobrir seus livros preferidos, o escritor costuma ir à Livraria Cultura no centro histórico do Recife. “Gosto de freqüentar a loja, porque lá sempre encontro as obras de que preciso e ainda aproveito para ver os amigos... Além de me abastecer com boa literatura, a Livraria Cultura me permite acompanhar os acontecimentos artísticos do Recife. Isso é maravilhoso.”

(© Cultura News)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2005

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia