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Gero Camilo |
Barbara Heliodora
Com sucesso em vários pontos do
Brasil, chegou ao Rio, só por dois dias, como uma das atrações do festival
de teatro riocenacontemporânea, “Aldeotas”. A peça merecia toda uma
temporada, e das longas, pois trata-se de um dos mais encantadores textos
nacionais dos últimos anos. Simplesmente anotar em forma de diálogo
qualquer experiência cotidiana é chato e desanimador; ser fiel a essas
mesmas experiências transformando-as em obra de arte, imaginativa e
comovente, é algo muito diverso, muito difícil, e muito raro. “Aldeotas”,
escrita e interpretada por Gero Camilo (e sua “escada” Marat Descartes), é
um grande momento de visita a um Brasil de há um século ou mais, do tipo
que continua a existir em mais pontos do território nacional do que
geralmente se pensa.
Espetáculo com brilho onírico
A história que a peça conta é a da
volta ao imutável ponto de partida de alguém que teve a curiosidade e a
coragem de querer conhecer o mundo que muda; e cada um dos quadros, ou
episódios, foi escolhido por calar fundo na memória de quem partiu. Dois
amigos crescem juntos, um fica, outro vai. O que torna memorável o texto
de “Aldeotas” é a arte com que é sugerida a espontaneidade das lembranças,
recriadas não só por ações e emoções mas também por um vocabulário volta e
meia inusitado, em grande parte responsável pelo brilho onírico do todo. A
encenação tem o despojamento e a neutralidade necessários para que a
imaginação possa fluir. A cenografia, de Vinicius Simões, é composta
apenas por dois grandes quadrados brancos, um no chão, outro ao alto, com
os quais a luz e a cor brincam a fim de transformar no que é necessário no
momento. Os figurinos falam de pobreza e atemporalidade.
Atuação de Gero Camilo é excepcional e cativante
A direção de Cristiane Paoli Quito
tem seu melhor na sintonia com o texto e seu conteúdo, transforma o
realismo em forma enriquecida pela pura alegria da redescoberta do passado
filtrado pela memória. É claro que todo o seu trabalho foi norteado pelo
aproveitamento da intimidade de Gero Camilo com o material, bem como seu
excepcional domínio corporal, centro de todo o espetáculo. Mas é uma
direção muito presente, que controla e delimita a excessiva facilidade.
Os dois atores que formam o elenco
são cúmplices dedicados a seus personagens, Levi, o que viaja, e Elias, o
que fica, com o segundo (Marat Descartes) perfeitamente à vontade com a
idéia de seu papel ser o de apoio, simplesmente porque, dos dois, Levi foi
sempre o mais imaginativo. De algum modo, o simples tamanho e peso de
Elias parecem prendê-lo à rotina da aldeota, enquanto a leveza do pequeno
Levi o faz voar para a poesia e a distância. A atuação de Gero Camilo é
excepcional, comunicativa e cativante, rica e despojada, emocionada e
marota. É preciso que “Aldeotas” venha fazer carreira no Rio.
(©
O Globo)
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