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SERGIO SALVIA COELHO Inaugurando um novo espaço cultural no Casarão do Belvedere, "Assombrações do Recife Velho" se insere em um gênero já consagrado no teatro paulistano: o do teatro itinerante, que troca a distância entre palco e platéia por passeios por patrimônios históricos reabilitados, exigindo do ator, ao mesmo tempo, concentração e despojamento. Desde o início recebida pelos "contadores de causos", a platéia enche os ouvidos com o sotaque e com o ritmo recifense e logo sentirá o cheiro do cachimbo do pai-de-santo e o perfume da viúva visitada pelo morto, provará o doce de banana feito em tempo real e pressentirá entidades nas sombras dos candeeiros. Amparado por uma imprescindível Bolsa Vitae, o diretor Newton Moreno se aprofundou, com o apoio da própria Fundação Gilberto Freyre, na história riquíssima da miscigenação brasileira: entes africanos convivem com fantasmas europeus, lobisomens e dibuks assombram as mesmas vielas. Mais que folclóricos, os "causos" do livro homônimo de Freyre revelam a sexualidade e os preconceitos do brasileiro, dando continuidade assim à busca de "Agreste", o texto consagrado de Moreno. Desta vez, porém, não há o árido e transcendente rigor da direção de Márcio Aurélio. Dirigido pelo próprio autor, "Assombrações..." tem o tom das duas outras montagens do seu grupo Os Fofos Encenam ("A Mulher do Trem" e "Deus Sabia de Tudo..."), exibidas no mesmo espaço, em que o humor é o instrumento principal do questionamento. O grande carisma de Paulo de Pontes remete ao de Marco Nanini, recifense como ele, assim como a delicada Luciana Lyra e a sensual Elaine Kauffman. A sensualidade também é garantida por José Roberto Jardim e Eduardo Reyes, mas domina o quase escracho de Marcelo Andrade, o despojamento de Fernando Neves, Carlos Ataíde e Kátia Daher. Salta aos olhos a grande
versatilidade de Alex Gruli, que, ao passar do perplexo pesquisador de fora
para o caquético morador local, mostra uma técnica que lembra o "Café com
Queijo", do grupo Lume. No episódio em que a tortura
política é evocada, ao trocar a delicada integração com o público (que faz
desta montagem uma irmã da antológica "Hysteria", do grupo XIX) pela imagem
arquetípica da santa torturada (estratégia que é marca registrada do Teatro
da Vertigem, de Antônio Araújo), o espetáculo destoa e, ao voltar ao tom
original, acaba parecendo redundante. Porém, mesmo ganhando com um
enxugamento, as duas horas de espetáculo transbordam de sensações
inesquecíveis: Jesus menino brinca com o demônio nas ruas de Recife. Assombrações do Recife Velho Montagem vê "inferno" de Nelson Rodrigues DA REPORTAGEM LOCAL Nelson Rodrigues dizia... Difícil falar do dramaturgo sem sucumbir a uma citação: ele dizia que "a família é o inferno de todos nós". Uma companhia recém-nascida em São Paulo, a Antikatártika Teatral, quer ratificar isso num espetáculo que pinça cenas afins nas 17 peças do autor pernambucano-carioca. "17 x Nelson - O Inferno de Todos Nós" baixa literalmente hoje ao porão do teatro Fábrica São Paulo, na Consolação, para tocar "a raiz de uma tragédia nacional", nas palavras do diretor Nelson Baskerville, 44. "A nós nos intriga como Nelson Rodrigues consegue permanecer atual com seu teatro desagradável, aquele no qual a platéia nunca saiu do mesmo jeito que entrou", diz Baskerville. "Até épico ele conseguiu ser", diz o diretor. Pois é esse gênero de essência
brechtiana que o espetáculo vai contemplar em sua segunda parte, quando o
coro formado pelos oito atores desponta com personagens mais autônomos,
individuais, se comparado ao coro que remete mais às origens da Grécia na
primeira etapa do projeto. As cenas são apresentadas conforme a cronologia em que as peças foram escritas. Assim, será impagável associar aos tempos de hoje a passagem em que a dona Berta é envolvida com o escândalo dos Correios e anda para trás em "Otto Lara Resende ou Bonitinha, Mas Ordinária" (1962). Ou quando os deputados "pisam em imunidades" para freqüentar o bordel de madame Luba na tragédia de costumes "Perdoa-me por me Traíres" (1957). Um placar dará conta da evolução dos anos, não só cumprindo um viés pedagógico, mas, segundo Baskerville, permitindo que o público se dê conta dos estalos criativos de Nelson Rodrigues de acordo com o contexto histórico, da década de 1940 à de 1970. Por exemplo, ele fica sem escrever peças entre 1965 e 1973, em plena ditadura militar. Para corroborar o inferno rodrigueano, a dramaturgia do espetáculo inclui excertos de obras de James Joyce, Italo Calvino e Dante Alighieri. Metade do elenco é recém-formada. A outra parte atuou em importantes montagens de algumas peças que serão agora revisitadas pelo grupo. É o caso de José Ferro ("Nelson
Rodrigues, o Eterno Retorno", com direção de Antunes Filho), Ondina Castilho
("Paraíso Zona Norte", idem), Adilson Azevedo ("Paraíso Zona Norte", idem) e
Luciana Azevedo ("A Mulher sem Pecado", com direção de José Rubens
Siqueira). (VS) |
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