Notícias
Nação Zumbi sabe para onde o vento sopra em Futura

Nação Zumbi

Antena parabólica continua captando sons que serão ouvidos como novidade no futuro no novo disco dos malungos

JOSÉ TELES

   “Futura é um neologismo, do verbo futurar, são idéias futuras, comportamento futuro. A gente pretende que nossa música, daqui a 30 anos, continue fresca, atualizada.” A explicação do guitarrista Lúcio Maia versa sobre o título do novo CD do Nação Zumbi, Futura (com lançamento nacional pela Trama). Um trabalho que foi maturado em vários meses, em ensaios e entre as turnês que a banda vem empreendendo constantemente, no Brasil e no exterior. O disco foi gravado em apenas dez dias de estúdio. “O método de trabalho do grupo vem sendo assim. As músicas surgem de jam sessions, um groove, uma linha de baixo, que podem virar uma música. A gente costuma mostrar para outros músicos, mas nada de nome badalado, os amigos nossos, eles dão pitacos, que podem influir para mudarmos o que foi feito”, continua o guitarrista.

   Quando se começa a escutar a faixa de abertura, Hoje amanhã e depois, a impressão que se tem é a de que a Nação Zumbi resolveu insistir no elogiado resultado sonoro de Nação Zumbi, o álbum anterior. A impressão é reforçada na segunda faixa, Na hora de ir, mas começa a desfazer-se a partir da terceira, Memorando, com um groove de guitarra cujo DNA vem do Jorge Ben anos antes de acrescentar o “Jor” ao nome. “Partimos para fazer o disco tentando uma renovação, buscando um novo caminho ainda não trilhado pela banda. No anterior há muito dub, reverb. Neste procuramos soar mais limpos, destacar mais os timbres das guitarras”, explica Lúcio Maia, que continua extraindo os mais variados timbres do instrumento, desta vez com ênfase para a surf guitar, de nomes como Dick Dale, como acontece em Respirando, cerzida por um riff que lembra vagamente o de Satisfaction.

   Eles voltaram a trabalhar com o americano Scott Hard, responsável pela mixagem do disco anterior. “Desta vez ele veio para fazer a co-produção. Antes não conhecia a banda, agora o cara já conhece bem música brasileira e como o Nação Zumbi funciona. Scott colaborou desta vez mais dando opiniões técnicas.” Além de opiniões, Scott Hard cumpriu o papel de um músico a mais num disco de poucos convidados, pilotando um moog aqui, um rhodes acolá. Os únicos convidados são Kassin e o ubíquo Fernando Catatau (da Cidadão Instigado). Kassin está na música mais pop/rock do disco, O expresso da elétrica avenida, que abre com um daqueles riffs com os quais o guitarrista costuma marcar as canções do Nação Zumbi. Kassim tira som de um game boy beat, que não é o único instrumento pouco comum no disco, no qual se escuta desde uma esquecida escaleta a uma queixada de burro(apresentada a MPB por Airto Moreira, num festival em 1966).

   A maioria das canções do disco é da nova safra da banda. Paradoxalmente, a mais antiga é a que dá título ao álbum, Futura, que encerra o disco, e deveria entrar no CD anterior com o nome de Revolucion, com samplers da voz de Che Guevara. “Só que não conseguimos de forma alguma a liberação. Resolvemos refazer a música, com outra letra e outro título”, explica Lúcio Maia.

   DISCO – Lúcio Maia diz que a escolha de Hoje amanhã e depois para música de trabalho e para abrir o disco foi proposital. “A gente não queria que o pessoal ficasse surpreso com a diferença de som de um disco para o outro”, fala. Até a terceira faixa, a benjoriana Memorando, a Nação Zumbi soa como se esse fosse uma extensão do último disco. A partir de A ilha, um groove suingado de guitarra mostra que a parada é outra. A voz de Jorge du Peixe está mais nítida, sem efeitos. Na seguinte, Respirando, com o riff stoneniano, já se tem certeza de que a banda continua com a parabólica antenada à procura de barulhinhos bons. As guitarras passam a ser proeminentes: Voyager é o que Lúcio Maia chama de psicodelismo em preto-e-branco, sem os excessos viajantes do congênere gringo. Esse psicodelismo em P&B periga tornar-se uma tendência no novo pop brasileiro, hoje totalmente voltado para as bandas indies anglo-americanas, isto se os músicos prestarem atenção em Expresso da elétrica avenida, a melhor faixa do disco, permeada pelo tilitante som do game beat de Kassin. O Nação Zumbi continua reinventando o rock brasileiro, sem precisar de metereologista para saber para que lado o vento está apontando.

(© JC Online)


Cordel leva sua energia ao DVD

Lirinha cede aos apelos da própria banda, que faz performance instigada na série MTV Apresenta

JOSÉ TELES

   Lirinha relutou muito em aceitar que o Cordel do Fogo Encantado gravasse um DVD. Não tinha uma razão plausível para isto. Simplesmente não gostava que o show não ficasse apenas na cabeça das pessoas, mas também na tela dos seus aparelhos e TV. Já o percussionista Emerson sempre teve vontade de ver uma performance a banda como um simples espectador. Com o lançamento esta semana do DVD MTV apresenta Cordel do Fogo Encantado, ele pode satisfazer seu desejo. Enquanto Lirinha mudou de opinião e até apreciou que o vídeo mostre uma apresentação da banda na Casa das Caldeiras, em São Paulo, porque lhe lembra fogo, elemento constante nas letras que escreve para o grupo.

   Água, ar, fogo e terra, a alquimia dos quatro elementos está onipresente na música da banda. Uma das novas canções do DVD tem o título de Tambores de fogo. Que Lirinha afirma que o atrai pela eterna mutação, pelo bruxulear das chamas, pelo seu mistério.

   Tempestade, trovões, chuva, poeira, o Cordel não traz apenas uma das mais inusitadas temáticas de qualquer grupo atual da MPB, com também um dos sons mais originais, e irrotuláveis: “O ritmo do Cordel fica até difícil para as pessoas dançarem” concorda Lirinha. Clayton Barbosa, responsável pelo violão turbinado, verdadeira usina sonora do grupo, acrescenta que a formação instrumental do Cordel não teve nada premeditado: “Fizemos a coisa com o que tínhamos em mãos, e acabamos criando o som da banda”.

   As harmonias de Clayton no violão têm como contraponto, a percussão não menos inusitada da cozinha rítmica, de Rafa Almeida, Nego Henrique e Emerson Calado, e sua bateria de 16 toneladas: “Eu trouxe este peso do numetal. Gosto muito de Slipknot”, diz.

   Coco, com candomblé, toré, MPB e poesia sertaneja. Liqüidifique-se estes ingredientes e tem-se o som do Cordel do Fogo Encantado, como é visto neste DVD. Uma das críticas endereçadas ao grupo é a de que ele funciona melhor ao vivo do que em disco. Tira-se a prova neste vídeo, em cristalino som dolby 5.1, que flui ininterrupto, enquanto as imagens o complementam. Lirinha, fora do palco, pequeno, franzino, agiganta-se, na sua coreografia tão original quanto o som da banda. Tem a ver com pássaro, com índio, com o jeito desajeitado do sertanejo. Inegável é o carisma, e o fervor que desperta no distinto público paulistano.

   Em dado momento, o sacerdote da religião dos quatro elementos, leva os fiéis a recitarem de cor um poema do hoje esquecido poeta matuto paraibano Zé da Luz (Ai se sesse). Ele próprio, Lirinha, declama, carregando nos erres, estendendo a duração sílabas, dramático, o belo Dos três mal amados – Palavras de Joaquim, de João Cabral de Melo Neto: “No começo o show do Cordel tinha 40 minutos de poesia, agora tem uns doze. Mesmo assim me emociona ver o público recitando um poema de Cancão (repentista de São José do Egito, no Sertão do Pajeú), diz Lirinha, que conviveu com emboladores, poetas matutos e repentistas desde criança, e que só depois de adulto é que passou a conhecer, e a gostar, de rock, jazz e blues (está atualmente numa fase Robert Johnson).

   REPERTÓRIO – A chegada de Zé do Né na Lagoa de Dentro, do primeiro CD do grupo, abre o show, que segue com canções dos seus dois álbuns, intercaladas por quatro inéditas. E impressiona como a platéia é cativada, como corresponde ao Cordel até mesmo nas inéditas. Se bem que, como Lirinha ressalta, na entrevista que vem como bônus, que o grupo tem trabalhando mais a canção do que nos primeiros discos. Tambores de fogo, por exemplo, é daquelas que caem logo no gosto do público, enquanto Morte e vida Stanley, vem sendo burilada há uns três anos, tanto que, a rigor, nem pode ser mais considerada inédita. É claro que o lado teatral continua forte, sobretudo na performance do elétrico Lira Paes. O Cordel conseguiu nese DVD quase que passar a mesma energia que transmite no palco, o que não é pouco para qum já viu o grupo ao vivo.

Preço médio: R$ 53

(© JC Online)


Dupla Caju & Castanha consagra nova formação


Caju e Castanha, na antiga e na nova formação

Primeiro DVD dos emboladores traz show ao vivo em São Paulo, documentário e curta-metragem

MARCOS TOLEDO

   A morte do embolador José Albertino da Silva (Caju), em 2001, por pouco não decretou o fim da dupla Caju & Castanha, um trabalho de quase 30 anos. O irmão mais novo, José Roberto da Silva (Castanha) pensou em seguir carreira solo, mas encontrou uma nova parceria no sobrinho Ricardo Alves da Silva, que assumiu o nome do tio. Quatro anos e quatro álbuns depois, os cantadores comprovam o sucesso juntos com o lançamento do DVD Caju & Castanha ao vivo no Centro de Tradições Nordestinas – São Paulo (Trama, preço sugerido: R$ 24).

   O vídeo, o primeiro na história da dupla, traz, além do espetáculo no CTN/SP – que revela as concessões que os músicos fizeram para continuar na ativa – dois ótimos materiais extras: o curta Uma pequena mensagem do Brasil (ou a saga de Castanha e Caju contra o encouraçado Titanic), de Walter Salles & Daniela Thomas, no qual pode-se observar nitidamente o virtuosismo dos artistas com a voz e o pandeiro, e um documentário, da mesma produção do show, que resume em rápidos 21 minutos a trajetória dos dois irmãos e do sobrinho.

   Todo o material em conjunto reafirma uma fórmula que os artistas originais aprenderam ainda com dez e oito anos de idade para conquistar o público. O forró é o ritmo predominante, agora, com bailarinos e músicos em excesso no palco. Aos poucos, porém, vão colocando as emboladas, aquilo que fazem melhor.

   Sobre esse novo modelo de show, Castanha afirma: “É uma melhorada. A gente tem que sobreviver, precisa fazer shows.” Por se tratar de artistas tão populares, o formato tinha tudo para receber tratamento vulgar, como acontece com as bandas de forró que se proliferam Nordeste afora. Sob o comando da gravadora Trama, entretanto, ganha (por merecimento) ares de cult, apesar dos excessos.

   Ao todo, o DVD apresenta 14 canções divididas em 11 faixas (três são pout-pourris). No quesito irreverência, Caju & Castanha não deixa nada a desejar, e revive bons momentos de sua discografia em músicas como O japonês Toshico, Mulher de amigo meu e A mulher do corno rico e do corno pobre. Em Futebol no inferno, O pobre e o rico e O ladrão besta e o sabido deixa claro que sua especialidade é mesmo a embolada, apesar de, em alguns momentos – como na Truva de Corinthians x São Paulo – consiga fazer uma boa mistura de forró com repente.

   E, por falar nessa união, que foi uma das atrações pernambucanas no Ano do Brasil na França, Caju & Castanha – que já gravou com a banda Faces do Subúrbio e com o rapper Rappin’ Hood – mostram que é algo comum em seu trabalho, como exemplificam em No rep ou no repente e Embola rep. “Os franceses gostam mais do pandeiro. A França é mais cultural”, diz Castanha. A dupla também esteve na Inglaterra, na Holanda e em Portugal.

   A fidelidade do público no Brasil está bem caracterizada no DVD: da apresentação no CTN/SP lotado, passando pelo reconhecimento nas ruas, desde crianças, até o interesse de cineastas como Walter Salles e Daniela Thomas. No fim do ano, a dupla grava um disco de forró exclusivo para o mercado francês, no qual arrisca versos na língua daquele país.

(© JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2005

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia