|
|
Tasso Marcelo/AE
 |
|
Fagner: "Fiquei louco com aqueles artistas posando de
anjinhos ao lado do SIM. Eles tinham de pôr a cara na TV para cobrar
o Lula" |
Independente, rebelde e briguento,
o cantor Fagner diz que os artistas
brasileiros se dobraram à ditadura
do "politicamente correto"
Juliana Linhares
Em Fortaleza,
onde voltou a morar no ano passado, ele é "dom Fagner". Dono de pontos de
vista polêmicos e de uma carreira que já dura mais de trinta anos, o cantor
Raimundo Fagner, de 56 anos, vive com a casa cheia. "É um entra-e-sai
danado. É gente precisando de dinheiro, querendo ajuda, pedindo conselho,
uma loucura." O último item, sobretudo, ele distribui generosamente. Dá
palpites na vida da senadora Patrícia Gomes, do governador de Minas Gerais,
Aécio Neves, do ministro Ciro Gomes e do senador e ex-governador Tasso
Jereissati – todos seus amigos há décadas.
Assim como sua
voz, que no início da carreira um crítico disse ser de "taquara rachada", as
opiniões de Fagner nem sempre soam doces aos ouvidos do meio artístico.
Nesta entrevista, o cantor – cujo mais recente CD, Donos do Brasil,
foi indicado ao Grammy Latino – acusa os colegas de se omitirem diante da
crise do governo que ajudaram a eleger, critica a obsessão dos artistas
pelas opiniões "politicamente corretas" e diz que Lula só não sofreu
impeachment até agora por incompetência da oposição.
Veja – Recentemente, em entrevista ao
jornal Folha de S.Paulo, o senhor criticou os artistas que apóiam
publicamente o desarmamento dizendo que são todos "maria-vai-com-as-outras".
O que quis dizer com isso?
Fagner – Quis dizer que artistas costumam agir em bando, só
seguindo a manada. Querem sempre ser "bonzinhos", "de esquerda", "do bem" –
e, muitas vezes, nem refletem sobre o que estão dizendo. Esse referendo
sobre o desarmamento – que eu acho, antes de tudo, inoportuno – é um
exemplo. Tenho certeza de que muitos atores e cantores são contra o
desarmamento. Mas você acha que eles têm coragem de ir à TV dizer isso? Têm
medo de parecer politicamente incorretos. Fiquei louco quando vi aquele
monte de artistas posando de anjinhos ao lado do SIM. Eles deveriam era
botar a cara na televisão para exigir explicações do presidente. Afinal,
foram eles que colocaram o Lula lá. Só que, agora, não têm coragem de vir a
público dizer que estão decepcionados com ele.
Veja – E por que não teriam essa coragem?
Fagner – Porque artista é vaidoso demais para dizer que errou. O
resultado é este: fica o presidente de um lado, dizendo que não sabia de
nada, e os artistas, que o elegeram, de outro, sem acreditar nessa balela,
mas sem peito para botar a boca no trombone.
Veja – De quem o senhor está falando?
Fagner – De Gilberto Gil, que está lá, junto de Lula. De Caetano
Veloso, que está calado. De Chico Buarque, que só declarou que está triste.
O que se passa na cabeça de uma Fernanda Montenegro, que não diz nada numa
hora dessas? A vida toda eu apoiei, no Ceará, o (hoje ministro) Ciro
Gomes e o (hoje senador) Tasso Jereissati. Se um dia aparecer alguma
ladroagem de um dos dois, eu vou ser o primeiro a falar.
Veja – De que forma esses artistas deveriam
se manifestar, na sua opinião?
Fagner – Você já imaginou o impacto que poderia ter uma carta
pública de Chico Buarque para o presidente Lula? E já imaginou se o Zezé Di
Camargo falasse alguma coisa? Mas ele não fala. Está sem tempo e também tem
umas dívidas para receber do PT. No lugar deles, vem essa filósofa, Marilena
Chaui, defender o indefensável. Assisti a uma entrevista dela outro dia.
Durante duas horas ela ficou nesse negócio de "filosoficamente falando".
Parecia que no dicionário dela não existia a palavra "corrupção". E fica um
bando de abestados achando ótimo o que ela diz.
Veja – O senhor disse que admira Caetano
Veloso, mas já teve diversas brigas com ele que se tornaram públicas. Qual a
razão desses desentendimentos?
Fagner – Tem uma história que diz que baiano não "nasce", baiano
"estréia". E Caetano tem um problema de ego: quer sempre aparecer. Quando
não tem assunto, vai à mídia e diz que é melhor que o Chico Buarque e o
Milton Nascimento juntos.
Veja – E por que vocês brigam?
Fagner – A primeira briga que tive com Caetano foi logo quando
cheguei do Ceará. Ele convidou a mim e a outros artistas para irmos a sua
casa, no Rio de Janeiro. Eu era um novato na turma, nem tinha gravado nada
ainda, acho que era no comecinho dos anos 70. Começaram a pedir que ele
cantasse. Ele não quis, disse que estava cansado. Eu, então, peguei meu
violão e cantei. Todo mundo adorou, menos Caetano, que fechou a cara. Tempos
depois, eu estava conversando com Nara Leão quando ele chegou e se pôs de
costas para mim. Nunca mais pisei na casa dele.
Veja – Não foi a única briga de vocês...
Fagner – Teve outra. Eu morava no Rio e era começo dos anos 80.
Estávamos eu, Roberto Carlos e ele preparando uma canção para o "Nordeste
já". Foi uma mobilização de artistas para angariar fundos para o Nordeste,
que havia passado por uma seca enorme. O Roberto, com aquele jeito
apaziguador, começou a falar como era legal o fato de eu e Caetano estarmos
juntos, depois de brigarmos tanto. Daí, o Caetano foi se lembrando das
brigas e se zangando. Eu sabia que ele estava com fome e fui para a cozinha
fazer alguma coisa para ele comer. Mas na minha geladeira só tinha um ovo.
Fiz o ovo e vinha vindo com ele para dar a Caetano, mas ele continuou
falando, falando, querendo confusão. Bom, terminei entrando no pau e jogando
o ovo de Caetano no chão. Ele sabe que, comigo, é no tapa. Mas digo: sou
doido por Caetano.
Veja – Durante um certo tempo, o senhor foi
criticado por não ter se engajado na luta contra o regime militar, ao
contrário de artistas como Caetano.
Fagner – Eu era um alienado mesmo. Gostava de ouvir Nelson Gonçalves,
Orlando Silva, Altemar Dutra. Nunca tive embasamento intelectual para fazer
música de protesto e não estava interessado em política. Em 1967, quando
morreu (o ex-presidente) Castello Branco, que era de Fortaleza, o
Ceará ficou de luto. Mas eu e meus amigos nem tínhamos tomado conhecimento
da morte dele. Na noite do acidente, fomos fazer uma serenata na porta de um
colega que havia passado no vestibular. No meio da cantoria, passou um
camburão do Exército e os soldados começaram a atirar. Quando viram que
éramos uns imbecis, que não tínhamos a menor idéia do que estava se
passando, foram embora e nos deixaram em paz. Eu estava em outro mundo.
Veja – Hoje, como o senhor avalia o governo
Lula e a crise pela qual ele está passando?
Fagner – Lula está muito prepotente. Parece que está vendo outro
filme e se lixando para a opinião das pessoas. O país está agonizando e ele
se nega a assumir a sua responsabilidade. Quem é que manda no Delúbio
Soares? No Silvio Pereira? No José Dirceu? É o Lula! Ele só não sofreu
impeachment até agora porque a direita brasileira ainda não sabe ser
oposição. Sempre tive uma relação especial com o Lula, porque ele era muito
ligado ao meu pai e porque, assim como milhões de brasileiros, eu respeitava
e respeito a história de vida dele. Mas isso não me impede de falar que ele
tem satisfações a dar.
Veja – Como seu pai conheceu o presidente
Lula?
Fagner – No fim dos anos 70, eu vim fazer um show em São Paulo e
meu pai veio junto. Lula foi ao show e pediu para me conhecer. Ele e meu pai
conversaram muito nesse dia. Fiquei em São Paulo por mais uma semana e Lula
e meu pai não se desgrudaram. Ele levou meu pai para conhecer as fábricas,
mostrava para todo mundo quem era o "pai do Fagner", apresentou-lhe os seus
amigos do sindicalismo... Durante uma semana, Lula chegava ao hotel onde
estávamos hospedados e ia direto para o nosso quarto tomar café conosco. Não
sei por que eles se identificaram tanto. Só sei que até hoje, quando
encontro Lula, ele fala de meu pai.
Veja – O seu pai era libanês. Como ele
chegou ao Ceará?
Fagner – Foi nos anos 40, fugindo de guerras no Oriente Médio.
Ele deve ter sofrido muito porque vivia tendo pesadelos com o Líbano. A
minha infância inteira foi marcada pelos pesadelos de meu pai: ele acordava
gritando, sonhando com guerra. Era uma confusão em casa, todos correndo para
acudi-lo, para dar-lhe água. Muitos libaneses vieram para o Nordeste naquela
época. Sem falar uma palavra em português, meu pai comprou um cavalo e
passou não sei quantos dias viajando por cidadezinhas do interior do estado
vendendo tecidos que ele havia trazido do Líbano. Teve seis filhos com a
minha mãe, que também tem uma voz linda. Na minha casa, sempre foi uma
cantoria só. Todo mundo na cozinha, tocando violão e fazendo música. A minha
mãe, que está com 94 anos, até hoje não tem um fio de cabelo branco.
Veja – O senhor, aos 56 anos, também não
tem. E está magro e em forma. Cuida-se muito?
Fagner – O cabelo eu pinto. Sou magro porque como pouco, fumo
muito e jogo futebol feito um doido. Faço parte de times de futebol em todo
canto aonde eu vou. Quando eu era moleque, adorava futebol, mas era
desnutrido, raquítico e não tinha força para jogar. Quando cheguei ao Rio de
Janeiro, na década de 70, fui morar com o Afonsinho, um excelente jogador.
Comecei a comer, a tomar ares e a conviver com grandes jogadores, como Pelé
e Rivellino. A paixão pelo futebol, então, explodiu. Montamos até um time,
que se chamava Trem da Alegria. Faziam parte dele Paulinho da Viola,
Rivellino e Gonzaguinha. O time acabou quando viemos jogar contra um time da
USP. Tínhamos tomado um porre tão grande de cerveja e cachaça que ninguém
conseguia correr. A gente ficava se trombando e caindo pelo campo, uma
vergonha.
Veja – Em que posição o senhor joga?
Fagner – Centroavante e ponta-esquerda. Meu negócio é finalizar.
Tenho dois campos de futebol no Ceará, mas gosto mesmo é de jogar no campo
do Zico, no Rio. O problema é que o Zico é muito bravo. Há trinta anos que
eu jogo com ele e tomo bronca e tapa na cara em toda partida. Mas ele tem é
inveja de mim, porque eu sempre sou o artilheiro.
Veja – O senhor também já brigou muito com
a Rede Globo. Quais foram os motivos?
Fagner – Eu tive duas grandes brigas com diretores da Globo na
década de 80. Uma delas foi porque eles fizeram um especial sobre o Luiz
Gonzaga e não queriam botar artistas nordestinos para cantar. Quando soube
que era um dos únicos nordestinos escalados, fiquei furioso, briguei com
todo mundo. Em outro episódio, eles estavam gravando uma novela no Ceará,
Final Feliz, e, em vez de colocar uma trilha sonora nordestina, enfiaram
uma música caribenha. Esperneei, briguei, virei o cão lá dentro. Por causa
disso, eles me deram um gelo de vários anos. Fiquei um tempão sem ter música
em novela. Mas isso já passou. Recentemente, emendei três músicas em novelas
deles e já vou normalmente aos programas. Só não sou convidado para o
Criança Esperança porque cuido de crianças cearenses, e essas não são
lembradas pelo programa. Criança Esperança aqui no Ceará quem faz é a
minha fundação, Raimundo Fagner, que atende 300 crianças carentes em
Fortaleza e em Orós.
Veja – O que o senhor acha de a gravadora
da filha de Elis Regina ter dado iPods para os jornalistas escutarem o novo
disco dela?
Fagner – O que aconteceu ali foi que o disco da Maria Rita
precisava ser um sucesso a qualquer preço. E, pelo que eu sei, ele não é
bom. Daí, para sustentar o furacão de vendas que foi o primeiro disco dela,
a gravadora fez esse investimento arriscado. O problema da Maria Rita é que
o maior apelo dela é a mãe. A cara é da mãe, a voz é da mãe, os gestos são
da mãe. Ela quer negar isso, e não dá. Mas é uma gracinha de menina.
Veja – Entre os filhos de artistas que
seguiram o mesmo caminho dos pais, quais o senhor admira?
Fagner – A Luciana Mello, filha do Jair Rodrigues, é fantástica.
Ela canta muito bem e é linda. A qualidade vocal da Sandy também é inegável.
Ela não é uma Elis, mas é boa. A Sandy está agora numa faixa etária
decisiva. Saiu da infância e ainda não sabe para que lado vai, se vai para o
romântico, para o pop. Precisa se decidir.
Veja – Sua voz não é clássica. É um pouco
rouca e até fanhosa. Tem também um forte sotaque cearense. No começo, ela
foi bastante criticada.
Fagner – É. Acho que foi o Maurício Kubrusly, no Jornal da
Tarde, que disse que eu tinha voz de taquara rachada. Mas eu não levei
como uma ofensa. Foi em 1973, eu havia acabado de gravar o meu primeiro
disco, o Manera, Fru Fru, Manera. As pessoas ainda não entendiam a
minha voz. Mas isso foi há muito tempo. A Nara Leão dizia que eu tinha
empatia com o público. Para ela, meu carisma só se comparava ao do Chico
Buarque.
Veja – O senhor não se casou até hoje. Por
que optou pela solidão se faz tantas músicas sobre o amor?
Fagner – Eu já tive muitos amores platônicos. E levei fora de
três pessoas. Hoje, prefiro ter meu espaço, a cama vazia, minha
independência. Mas namoro muito. Se puder, tem namoro todo dia lá em casa.
(©
Revista Veja)
|