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Nação Zumbi respira psicodelia em P&B

Fábio Braga/Divulgação

A banda Nação Zumbi, que lança seu sexto disco, "Futura"

Símbolo do mangue beat, grupo lança disco com maracatu, guitarras e toques eletrônicos

THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

   Da lama psicodélica ao caos electrofunk. Sim, estamos falando da Nação Zumbi, de volta com o sexto álbum, "Futura", que serve de mote para uma nova conversa.

   Jorge du Peixe descreve o disco: "É como uma psicodelia em preto-e-branco, porque não remete à psicodelia colorida dos anos 70; é psicodélico olhando para a frente", diz o vocalista de 38 anos. "É como "futurar" em cima de toda essa palidez. Estamos aqui até hoje, e é um tempo de celebração."
Esse "até hoje" significa desde 1990, quando o grupo, então Chico Science e Nação Zumbi, ajudou a formatar o mangue beat (ou mangue bit), o último grande respiro revigorante do rock brasileiro.

   Desde "Da Lama ao Caos" (1994) e "Afrociberdelia" (1996), a Nação Zumbi "olhava para a frente".

   Naquela época, recebiam críticas de gente como Ariano Suassuna, então secretário da Cultura de Pernambuco, por misturar o maracatu com o rock e a eletrônica; Chico Science, morto em acidente automobilístico em fevereiro de 1997, costumava se apresentar como DJ, tocando os até então robustos trance e drum'n'bass.

   Agora, com "Futura", a banda -além de Jorge, a Nação Zumbi é Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Gilmar Bola 8 (tambor), Pupillo (bateria), Gira (tambor) e os percussionistas Toca Ogam e Marquinhos- parece ir ainda mais fundo, desconstruindo o maracatu em meio a efeitos de guitarras e toques eletrônicos.

   "Exploramos outras idéias, a psicodelia. Neste disco quisemos abusar mais", afirma Maia. "Pesquisamos timbragens, sons de guitarras, queríamos que fossem diferentes. Mas não ficamos alisando muito, gravamos em pouco tempo." O disco foi co-produzido pelo canadense Scott Hard, que já trabalhou com o Morcheeba.

   A banda, hoje dividida entre Recife e São Paulo, levou pouco mais de dois meses para gravar no estúdio. Foram utilizados equipamentos como sintetizadores, bateria eletrônica, órgãos e softwares. O resultado são faixas que dão a sensação de camadas sobrepostas, quase como colagens.

   "Atualmente, com o sampler, é complicado dizer o que é algo, quem pegou o quê, onde. Penso numa idéia de sampler em que ninguém consiga identificar de onde tenha vindo. O universo da cultura mixer hoje possibilita isso. É o caso do Danger Mouse [DJ norte-americano que ficou mundialmente conhecido ao lançar um disco em que misturava bases do álbum branco dos Beatles com vocais do "álbum preto" de Jay-Z]. Ninguém sabe como ficará a propriedade intelectual daqui para frente", diz Jorge du Peixe.

   A canção mais antiga de "Futura" é a faixa-título, que era para ter saído no disco anterior, de 2002. Chamava "Revolución" e continha sampler de Che Guevara. "Ela entrou neste disco, mas sem o sampler.

   Modificamos um pouco o arranjo", conta o vocalista. "Já fomos sampleados, não tenho nada contra. Baixo coisas da internet, e o que me interessa compro, faço questão de ter o disco. A internet possibilita isso, por que virar as costas? A música é elástica."

   Para completar "Futura", Nação Zumbi teve a ajuda de Catatau (Cidadão Instigado), Mauricio Takara (Hurtmold), Kassin, que tocou com Gameboy em uma das faixas, e Alexandre Basa. O grupo pernambucano gravou trilha para "Amarelo Manga", de Cláudio Assis, tocou em desfile da São Paulo Fashion Week, realizou excursão européia...

   "Tudo isso deu a direção para o que veio a ser o disco. Não existe uma fórmula, não foi nada pensado, programado. As bases foram fluindo e nunca estivemos presos a gêneros. Um disco pode soar mais hip hop, outro mais reggae, ou mais rock", diz Jorge. "Não acho que este seja o mais eletrônico. O processo de composição é sempre iniciado organicamente."

   Sobre as referências, diz que elas não apareceram de só um foco. "É difícil apontar o que nos influencia diretamente. Com o tempo, você vai vendo outras coisas, lendo outros livros, outros filmes. É legal quando as pessoas abrem mais os olhos para artistas da América Latina, quando tentam transpor a barreira dos EUA."

   Para o vocalista, o que fazem é universal. "Não existe world music. Existe música no mundo. Esses estereótipos estão se quebrando, muito por culpa da internet: o mundo se conhece muito mais rápido do que antes. Temos que olhar para Bollywood, para os filmes latinos, Julio Cortázar, José Saramago. E há muitas coisas novas e interessantes no Brasil."

(© Folha de S. Paulo)


Manifesto de 92 tirou da lama a cena de Recife

DA REPORTAGEM LOCAL

   Termo formulado para descrever a cena cultural recifense no final dos anos 80 e no começo dos 90, o mangue beat é visto hoje por muita gente como movimento. Mas alguns de seus próprios personagens principais se encarregam de dissipar essa pesada aura.

   A começar do manifesto intitulado "Caranguejos com Cérebro", escrito por Fred Zero Quatro em 1992, líder do Mundo Livre S/A, tido como o principal alicerce do mangue beat.

   "Aquilo na verdade era um release enviado aos jornais", explica o jornalista e DJ Renato L., 42, na época chamado por Fred e Chico Science de "ministro da informação" do mangue beat. "Não queríamos chamar de manifesto para não dar a impressão de algo ligado a movimento, algo pretensioso. Mas depois não teve jeito e desencanamos. O texto era de Fred, mas refletia as idéias de um coletivo que havia ao lado."

   Esse coletivo era formado por músicos, artistas plásticos e gente inconformada com a praticamente inexistente vida cultural recifense. "A idéia era criar essa cena. Não havia nada, Recife havia passado batida pelos anos 80. De 1982 a 1989, só houve uma festa que prestou. A sensação era a de que não acontecia nada. Queríamos uma cena cultural que fosse tão rica quanto o ecossistema do mangue, que tem uma biodiversidade enorme", diz Renato.

   "Hoje os moleques se sentem motivados a fazer algo, a montar uma banda, e isso é fruto das idéias do mangue. Era uma coisa meio utópica, não era um movimento, pois não havia uma definição estética. No mangue beat não existia uma única linha de raciocínio, a idéia era a movimentação", completa Lúcio Maia.

   Os caranguejos e a antena parabólica eram as metáforas do mangue beat. "É a idéia do satélite de baixa tecnologia, mas de longo alcance. Da fluidez de pensamentos, de não ir a um lugar só", diz Jorge du Peixe.

   Paradoxo, o mangue beat, que traz implicitamente o conceito de diversidade, hoje é acusado por algumas bandas roqueiras recifenses de promover uma "ditadura do tambor". "Isso é bobagem. Há várias bandas fortes na cidade, como o Devotos, que não usam tambores", afirma Renato. (TN)

(© Folha de S. Paulo)


CRÍTICA

Grupo trilha caminhos estranhos e foge da padronização do rock

DA REPORTAGEM LOCAL

   O ápice, no rock and roll, chega prematuramente. É no seu começo, ainda jovens, que as bandas atingem o máximo criativo. São o primeiro, o segundo, no máximo o terceiro discos que importam; depois, a curva muda. Alguns grupos, como Primal Scream, Radiohead e a Nação Zumbi são as exceções que confirmam a regra.

   Passados mais de dez anos, o combo recifense ainda é bastante vinculado a Chico Science. Mais do que qualquer outro, ele era a cara do mangue beat e das idéias de diversidade e integração. "Da Lama ao Caos" e "Afrociberdelia", os dois álbuns lançados antes de sua morte, em 1997, foram recebidos com euforia e assimilados rapidamente até pela própria MPB catatônica da época.

   Sem Chico Science, a banda viu-se livre daquele oba-oba sufocante; chegaram até a gravar um disco, "Rádio S.Amb.A" (2000), de forma toda independente, sem nenhum figurão batendo na porta, pedindo por uma participação.

   Para Jorge du Peixe, "Futura" é "psicodelia em preto-e-branco"; é algo longe do clima flower power, do paz e amor; tem mais a ver com a jamaicana Kingston do que com a hipponga San Francisco.

   É o rock e o dub que carregam "Futura". Os primeiros acordes do disco são um pegajoso riff de guitarra, que permeia toda a faixa "Hoje, Amanhã e Depois".

   Não há nenhuma canção muito imediata ou muito alegre. Os tambores estão, em todo o disco, um pouco mais discretos.

   "Na Hora de Ir" embarca numa climática densa, como se fosse um trip hop orgânico, não-eletrônico.
"Respirando" e "Voyager" são lentas, carregadas de peso dub, viajantes, com barulhos de guitarras, os vocais indo e vindo. Outra nessa linha, "Nebulosa" é o que o próprio nome diz: uma névoa carregada de efeitos dub.

   O trunfo de "Futura" e da Nação Zumbi é que, antes de abrasileirar -e, por conseqüência, descaracterizar- o que vem de fora, eles universalizam as próprias referências -as canções ganham corpo, personalidade.

   Isso fica claro no uso dos tambores em "A Ilha" e no cruzamento da guitarra com os beats em "Expresso da Elétrica Avenida".

   "Futura" não é um disco fácil, pop, mas leva a Nação Zumbi por caminhos estranhos ao padronizado rock nacional. (TN)

Futura
    
Artista: Nação Zumbi
Lançamento: Trama
Quanto: R$ 25,50 (preço sugerido pela gravadora)

(© Folha de S. Paulo)

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