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Ainda abalada com a morte do marido Jorge Amado, Zélia Gattai lança livro em que rememora os últimos três anos do companheiro, revê suas histórias e diz que até hoje namora o escritor quando a saudade aperta Norma Couri SALVADOR - Jorge Amado viu Zélia Gattai pela primeira vez há 60 anos e contava para todo mundo o que sentiu: ''Arriei bandeira e pedi paz''. Ele tinha 33 anos e saía de um casamento de 15 anos com Matilde, que depois de atirar um cinzeiro de cristal em sua cabeça, foi internada com sinais de esquizofrenia e nunca mais saiu do hospital. A filha dos dois, Lila, morreu de leucemia aos 15 anos. Zélia tinha 29 e também saía de um tumultuado casamento com o ex-seminarista que virou ateu e tesoureiro do Partido Comunista Aldo Veiga e perdia a guarda do filho Luis Carlos, que o ex-marido lhe tomara. - Tudo tinha sido tão ruim antes, que naquela hora só poderia dar certo - explica Zélia sobre o casamento com o escritor baiano, que morreu em 2001. A cerimônia só pôde ser realizada 33 anos depois, embora a vida em comum tenha durado 56 anos. - Os nossos ex não queriam dar o divórcio. Quando o sanguíneo Jorge enfartou, teve câncer de pele, emudeceu, perdeu a visão e a graça de viver nos anos 90, Zélia desesperou. Mas não se deprimiu. Sem acreditar em Deus nem no diabo, mas também sem admitir que não existem, lançou-se na aventura do seu 16º livro, Vacina de sapo, que está sendo lançado pela Record, recolando a memória e filtrando só o lado alegre que sempre foi o combustível dos dois. Por exemplo, as bruxarias a que recorreu para salvar Jorge. O livro não tem amarguras. São flashes dos três últimos anos do escritor, flagrados pelo mundo, uma agonia que, transformada em livro, fez Zélia rir e chorar ao mesmo tempo. -Jorge era de um materialismo grosseiro que, segundo ele, o protegia de tudo. Não acreditava em nada, não tinha medo de coisa alguma, nem da morte. Só de avião. E não é que eu me vi às voltas com a vacina do bicho que ele mais gostava, o sapo? A baba do sapo kampu, que se alimentava de formigas tucandeiras, era retirada por um índio, mas não tive coragem de aplicar em Jorge sem testar em mim primeiro. Fui a provadora do rei aplicando a baba na perna e desmaiando muitas vezes. Se eu ao menos conseguisse dormir melhor teria sido bom. Mas ''a cura de todos os males'' não serviu para Jorge. De qualquer forma, as cinzas do autor de Dona Flor e seus dois maridos, Gabriela, cravo e canela, Capitães de areia, entre outros tantos, estão rodeadas de sapos artesanais e, sobre a urna, por baixo de um banco de pedra que era o cantinho preferido dos dois, pousa um sapo grande de cerâmica com outro sapinho nas costas. É um mimo que ele roubou do amigo Carybé, o artista plástico argentino que morou a vida toda na Bahia. Carybé nunca se deu conta da brincadeira. Os dois viviam contando vantagem um para o outro e dando gargalhadas. Quando Jorge, com remorso, contou a história do sapo, Carybé o queria de volta, mas Jorge o amansou presenteando-o com um álbum francês sobre o órgão genital feminino. Carybé morreu três anos antes do amigo, e Zélia acha que Jorge começou a morrer ali. Para salvar Jorge da apatia que consumiu seus últimos anos, outro índio, Raoni, de botoque e tudo, sugeriu retirar seu coração. - Era o marca-passo que Raoni detectou, e chateou tanto o Jorge que ele saiu do seu mutismo e pediu: ''Zélia, tira esse índio daqui''. Anos antes, o pai-de-santo Luis Muriçoca, protegido pelo Exu dos Sete Pinotes, tentou fazer um trabalho para Jorge, que já tinha sido presenteado com um Exu, de chifre e rabinho, pelo artesão Manu. O Exu ficou em lugar de destaque no quintal da casa da Rua Alagoinhas, e está até hoje. - Embora não admitisse que se tratasse do diabo, mas do Orixá mais poderoso do candomblé, a mãe-de-santo Mãe Senhora nos deu a maior bronca, dizendo que não se brinca com ''nosso cumpadre''. Mandou emissários de seu terreiro com galos, galinhas, charutos, dendê. Fizeram uma valeta em torno do nosso Exu, orações e uma bela macumba. Jorge achou graça. Disse: ''Pelo menos aqui não entra ladrão'' - relembra Zélia. Quando Jorge morreu, em 6 de agsto de 2001, quatro dias antes de completar 89 anos, Zélia deixou a lendária casa da Rua Alagoinhas, 33, comprada, como dizia Jorge, com US$ 100 mil arrancados dos gringos americanos pelos direitos de Gabriela. A casa vai virar uma espécie de Museu Jorge Amado, onde o escritor James Amado, o irmão que é a cara de Jorge, às vezes recebe grupos de portugueses. Ao se depararem com a figura que os visitantes julgam ser assombração, alguns desmaiam gritando: ''Jesuuuus!!!'' A acadêmica Zélia Gattai foi morar no mesmo prédio dos dois filhos, Paloma e João Jorge, onde recebeu o Jornal do Brasil com água de coco e beiju de tapioca, apesar da recente operação de catarata. Optou por viver de uma saudade boa aos 89 anos, iluminada por uma nostalgia que não a derruba. Pelo contrário, a mantém inteira, bem humorada, construtora. O que Zélia constrói é a memória de uma vida que é também a do Brasil. Como ela diz, nasceu numa São Paulo sem luz elétrica nem arranha-céus, no meio da Primeira Guerra, no tempo da febre espanhola, filha de pai anarquista fundador da Colônia Cecília - comunidade anarquista criada por genoveses em São Paulo entre 1890 e 1897 -, e de mãe contratada como mão-de-obra na extração do café. - Era uma família pobre, sem religião, politizada e contadora de histórias para os cinco filhos, dos quais só eu estou viva. Não vi nada de mais em virar, eu também, uma contadora de histórias, datilografando com os dez dedos, e não só com os dois indicadores como Jorge. Dúvidas cruéis Agora Zélia escreve sozinha. Antes, era cada um numa ponta da mesa, geralmente no apartamento de Paris que Jorge comprou com os US$ 250 mil de adiantamento dado também pelos americanos por Seara vermelha - apartamento, agora, vendido. - Nunca mais poderia entrar lá, nem sair a pé pela nossa Rue St. Paul, caminhar até a Rue St. Antoine para encontrar o Chico Buarque no restaurante italiano Enotec. Assim mesmo, ela trouxe peças da Rua Alagoinhas e do apartamento de Paris, que revivem Jorge. - Simone de Beauvoir foi minha amiga a vida toda, dedica páginas para mim no livro La force des choses, e o casal me ensinou francês, com cadernos, ditados e tudo, quando morávamos no Rio e viajávamos juntos - conta. Na parede há uma flor de ferro, vermelha, que é uma pomba, esculpida por Oscar Niemeyer para ser colocada sobre as cinzas do amigo com a placa: ''Jorge, desenhei esta flor para você. Grande escritor. Patriota e amigo que lutou a vida inteira contra as misérias da vida''. Também um belo óleo de Di Cavalcanti trocado por um filhote do cão chinês da raça Pug, Fadul, que não larga Zélia. Há fotos de Jorge com o gato Nacib e Marcelo Mastroianni, que representou o personagem no filme Gabriela, de Bruno Barreto. Várias representações de Dona Flor por José de Dome e Floriano Batista, gravuras do amigo Picasso, um porta guarda-chuva que é um gato de Aldemir Martins, fotos de Pablo Neruda, Chagall, os afilhados de casamento João Gilberto e Astrud, de Tom, Vinicius, Sofia Loren, Glauber Rocha, Yves Montand, Cora Coralina, Pitanguy, Gilberto Freyre. Há Diego Rivera, que deixou de fazer o retrato de Zélia porque Frida Kahlo adoeceu e ele teve de partir da casa de Neruda, em Isla Negra, no Chile, onde estavam hospedados. Jorge Amado provando o fardão da Academia Brasileira de Letras, com sandálias havaianas. Zélia, empunhando sua máquina russa, era a fotógrafa oficial e motorista do casal, exatamente como Simone de Beauvoir, que definia as duas como ''mulheres de homens inúteis''. Difícil acreditar que Zélia ocuparia, eleita quase por unanimidade, a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, que pertenceu, antes de Jorge, a José de Alencar. Nem Zélia nem Jorge davam palpite nos livros de um e de outro, mas ela conseguiu convencê-lo a mudar o lugar do dente de ouro da personagem Teresa Batista (de Teresa Batista cansada de guerra). Uns anos antes de morrer, ele confessou que se arrependia muito, que ''queria o dente de ouro na frente''. Foi ela também que escolheu o nome da personagem Gabriela em seu livro mais famoso. - Por acaso, contei para Jorge que nasceu a filha de uma amiga, ele perguntou como se chamaria, eu disse Gabriela, ele fez um estalo: ''Achei o nome que estava procurando''. Não sei de onde tirei Gabriela, a menina que nasceu chamava-se Alice ou coisa parecida. Zélia conta que afugentou muitas meninas assanhadas, abrindo as pernas propositalmente em frente ao escritor ou passando a mão nas suas ''partes polêmicas''. - Não tinha dúvidas. Quando eu via, dava logo um beliscão na moça - conta, rindo. Lidando com lembranças, Zélia tem dúvidas do que deve ser publicado e do que deve permanecer na sombra. Escritora tardia, ela escreveu seu primeiro livro, Anarquistas graças a Deus, aos 63 anos. - Cheguei a contar em Vacina de sapo que dona Lalu, mãe de Jorge, fez troça do presente que minha mãe, dona Angelina, teceu para ela, um xale de lã. Lalu adorava mamãe, mas nas costas dela dizia: ''Ela vem de São Paulo e pensa que na Bahia faz frio''. Mas não tive coragem de dizer que Lalu vendeu o xale para uma amiga portuguesa que nos visitava, dizendo: ''Leve, fica muito bem com seu porte, a senhora me paga qualquer hora''. Eu e Jorge só descobrimos depois. Se a dúvida ou a saudade batem forte, Zélia entra no seu escritório e se coloca bem em frente à foto imensa que pendurou daquele que ela chama de ''Meu companheiro, meu mestre, meu amor'' e por quem não teve pudor de escrever em Vacina de sapo - depois de consultar os filhos - que ''sentia tesão''. - Olho para o Jorge, ele pisca para mim, acabam-se as dúvidas. |
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