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Fábio
Braga/Divulgação
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Nação Zumbi: carreira internacional ajudou a
devolver a credibilidade ao grupo. |
MÚSICA-A banda pernambucana Nação Zumbi
fecha trilogia “pós-Chico Science” com o instigante CD Futura
Omar Godoy
O dicionário Houaiss ensina:
o adjetivo “psicodélico”, em farmacologia, é usado para definir
substâncias que produzem reações alucinógenas. Também dá conta da produção
intelectual elaborada sob o efeito desse tipo de composto, ou que procura
imitá-la. E ainda, por derivação, relaciona-se à determinada forma de
“extensão dos sentidos”.
Seja como for, no campo da música a
palavra serve como rótulo para toda e qualquer proposta mais “viajandona”
– principalmente se o assunto é o som dos anos 60 e 70 influenciado pelo
movimento hippie. “Essa ligação da psicodelia com o chamado flower power
foi explorada demais na época. E continua sendo usada comercialmente até
hoje. Mas a psicodelia é maior do que isso”, afirma Lúcio Maia,
guitarrista do grupo pernambucano Nação Zumbi, cujo novo álbum, Futura,
acaba de chegar às lojas.
Ancorado em uma sonoridade marcada por ruídos e efeitos de estúdio, o CD
é um verdadeiro tratado psicodélico. Mas uma “psicodelia em preto-e-branco”,
como classifica o guitarrista, para contrastar com o colorido da noção
tradicional. “Preto-e-branco porque usamos um aparato de baixa tecnologia
para fazer o disco, como teclados e sintetizadores antigos. Também tem a ver
com o ideal do two tone (“dois tons”), que promove a colaboração entre
negros e brancos”, explica.
Maia vai além. Diz que a psicodelia se confunde com o surrealismo e pode ser
considerada como “tudo aquilo que não se remete ao fator linear”. “São
várias teorias, cada um tem a sua. Mas a psicodelia pode ser usada para o
artista fugir da mesmice, da simplificação. O mais importante é o frescor
que ela pode dar a uma idéia”. E conclui: “A música popular brasileira
sempre teve muita coisa psicodélica, da Tropicália a um ensaio na quadra da
Mangueira”.
Papo cabeça? Talvez. No entanto, quem conhece a Nação Zumbi sabe que sua
música não alimenta apenas a mente – mas também o corpo. Desde seu
surgimento, no início dos anos 90, o grupo se notabilizou pela riqueza
rítmica e percussiva, capaz de fazer dançar até o ouvinte mais travado. Seus
tambores de maracatu se tornaram influência decisiva para a música
brasileira contemporânea, assim como a mistura de rap com repente nordestino
criada pelo saudoso vocalista Chico Science – o nome mais lembrado do mangue
beat, movimento cultural que colocou Recife no mapa do pop mundial.
Aliás, houve quem decretasse o fim prematuro da banda quando Science morreu,
vítima de uma acidente automobilístico, em fevereiro de 1997. Mas o sexteto
remanescente não só seguiu em frente como engrenou uma vitoriosa carreira
internacional. Este ano, por exemplo, a Nação fez uma turnê européia que
passou inclusive por países fora da rota tradicional de shows, como
Macedônia, Eslovênia e Turquia.
“Quando Chico morreu, tivemos de reconquistar nossa credibilidade. E a
carreira no exterior contribuiu muito para isso. Agora, viajamos para ganhar
dinheiro, e não apenas divulgar o trabalho e tocar para brasileiros, como a
maioria faz”, garante Maia.
A próxima excursão européia da Nação Zumbi está programada para o segundo
semestre de 2006, quando as coisas vão esquentar no Brasil por conta da Copa
do Mundo e, principalmente, das eleições. Politicamente de esquerda, Maia e
os membros da Nação se posicionam do lado de quem enxerga um certo exagero
nas denúncias contra o governo Lula.
O músico admite que o PT foi “ganancioso” em sua corrida pelo poder, porém
não descarta a tese de um complô direitista. “Eu já imaginava que a direita
e a imprensa mais conservadora sacudiriam o país no dia em que a esquerda
estivesse no poder. A Veja, por exemplo, só deu pau no PT até agora, não
publicou sequer uma matéria positiva”, reclama. “Mas isso serviu para a
esquerda amadurecer, aprender com os erros”, acrescenta. Em meio a tanta
confusão política, só mesmo uma boa dose de psicodelia para esquecer dos
problemas.
(©
Gazeta do Povo)
ENTREVISTA-Artista
maranhense fala sobre a importância de iniciativas independentes no mercado
fonográfico
Zeca Baleiro, para
todas as idades

Paulo Camargo com a colaboração de Irinêo Netto
Tudo
começou no acústico da Gal Costa, em 1997. A participação foi pequena, mas
suficiente para chamar atenção. No mesmo ano, veio o disco de estréia, Por
Onde Andará Stephen Fry?, em referência ao ator inglês do seriado de tevê A
Bit of Fry and Laurie (1986), exibido no Eurochannel, e do filme Para o
Resto de Nossas Vidas (1992), de Kenneth Branagh. Brincadeira um tanto
obscura para um disco de música popular Brasileira que serviu de amostra das
referências que pontuam suas músicas.
Hoje, o maranhense Zeca Baleiro está
com 39 anos, se tornou pai e acaba de lançar seu quinto álbum, Baladas do
Asfalto & Outros Blues. Simultaneamente, coloca no mercado o seu próprio
selo, Saravá Discos, dedicado a projetos alternativos. Na entrevista abaixo,
ele conta quais são as duas primeiras empreitadas do selo, envolvendo Hilda
Hilst (1930 – 2004) e Sérgio Sampaio (1947 – 1994), fala sobre o fim da
supremacia das grandes gravadoras e diz ter medo do vale-tudo moral que o
atual cenário político brasileiro pode inspirar.
Gazeta do Povo – No seu novo CD, Baladas do Asfalto & Outros
Blues, as letras estão mais concisas e enxutas. Por outro lado, o tratamento
dado aos arranjos está mais pesado, mais próximo do rock. Isso é resultado
do quê?
Zeca Baleiro – Ainda não parei para pensar nesse assunto. O que posso
dizer com certeza é que cada trabalho que você faz, esgota um meio e é
preciso buscar novas formas de expressão. No último disco que eu fiz
(PetShopMundoCão), as participações eram muitas, então a necessidade de
concisão era natural depois disso. Acho que isso explica um pouco o fato de
o disco ser todo muito fechadinho. Artisticamente falando, foi uma coisa
meio casual. É um disco que eu sempre quis fazer, de canções ligeiras, de
fácil digestão, para tocar tranqüilamente na rádio, sem ferir os ouvidos.
Foi só prazer, uma coisa meio rock-and-roll on the road. Nos tempos atuais,
pode até parecer um sentimento meio anacrônico, mas que eu acho interessante
de cultivar.
Muitas canções falam de sentimentos, sensações e experiências mais
pessoais. Como descreve o seu processo de criação, da inspiração para as
letras – por que essa opção de se voltar mais para você mesmo?
Eu acho que a coisa mais imediata que você tem é falar das suas próprias
emoções, da própria experiência de vida. Eu não sou o primeiro a fazer isso.
Quando eu falo de mim, falo de coisas que são comuns – de anseios e
tristezas.
No último show que você fez aqui, em Curitiba, eu estava lá e percebi uma
coisa interessante: você é um artista “transgeracional” (risos). Das pessoas
que curtem sua música, há desde adolescentes até cinqüentões. Isso não é uma
coisa muito comum entre os artistas que apareceram na última década. Você já
teve essa percepção de que a base do seu público é bem diversificada?
Já. Não saberia explicar, mas já me disseram isso há algum tempo. Acho isso
bacana, acho uma conquista. No show de Curitiba, você falou assim “jovens e
pessoas de 50 anos”, mas eu vi uma senhora de 80 anos!, que estava na
primeira fila. Ela é pernambucana e mora em Curitiba há muito tempo. Ela
fingia que cantava muitas das músicas, mas, a maior parte, cantava mesmo.
Ela estava ali com conhecimento de causa.
É possível que essa comunicação tenha a ver com as suas influências.
Poderia citar algumas, brasileiras ou estrangeiras, que tiveram impacto na
sua formação como músico?
A música regional, até pelo fato de eu ter nascido no interior do Maranhão.
Os cantores populares da época, que cantavam na rádio, como o próprio
Fagner, o Alceu (Valença). E os ultrapopulares, Aldair José e Reginaldo
Rossi.
Hoje, na Música Popular Brasileira, você percebe algum tipo de
descentralização da cena musical, existe algum nome que chame a sua atenção
ou alguém com quem gostaria de trabalhar?
Tem, tem sim. A coisa está tão veloz que, se você surgiu há quatro anos, já
pode ser obsoleto. Mas tem uma coisa que se chama Totonho & Os Cabra (sic),
criada pelo Totonho, um paraibano. Ele fez um disco fenomenal para ouvir com
atenção. Eu gosto muito. Acho o cara interessantíssimo. A sonoridade, a
poética, que não sofre influência nenhuma de mídia. Outro cara é o Wado,
acho que é catarinense, radicado em Alagoas, que tem um trabalho muito
interessante. Ele tem uma chama própria. Muita gente é incensada, mas vejo
mais pretensão do que resultado.
Em um fenômeno do mercado de hoje, cada vez mais artistas, mesmo os mais
conhecidos e consagrados, têm optado por criar selos próprios, ou se aliar a
selos independentes. Houve uma mudança na relação do artista com a
indústria?
Como você falou, acho que há uma descentralização nesse sentido.
Antigamente, as gravadoras acumulavam um poder imenso, manipulavam como
queriam. A cena mudou, as gravadoras não têm mais a mesma força, o mesmo
poder de influência, não tem mais a mesma vendagem de antes, um pouco por
conta da pirataria, um pouco por conta do advento da internet, da
democratização dos meios de produção. A cena mudou. Essas iniciativas de
artistas são bem-vindas porque areja um pouco mais a cena. Ninguém faz um
selo ou qualquer outro tipo de coisa para não ganhar dinheiro. Na origem,
existem intenções profissionais e mercadológicas. É óbvio que, quando você
faz o seu selo, sua liberdade é muito maior.
É uma independência tanto do ponto de vista criativo quanto do ponto de
vista financeiro.
É. É uma escolha que as pessoas fazem. Mostra como elas aspiram um lugar ao
sol. Estou fazendo o meu selo também (Saravá Discos), com a intenção de
fazer projetos paralelos. Dois lançamentos que inauguram o selo devem sair
neste mês. O primeiro é um disco que fiz com poemas de Hilda Hilst, com a
participação de dez cantoras, o outro é um álbum póstumo do Sérgio Sampaio
(compositor capixaba, um dos ídolos de Baleiro).
Quais são as dez cantoras que transformaram os poemas de Hilda Hilst em
músicas?
Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Angela Rô
Rô, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Angela
Maria.
E como aconteceu a sua aproximação com a Hilda (escritora brasileira
nascida em 1930 e morta em fevereiro do ano passado)?
Foi algo muito engraçado. Quando eu lancei meu primeiro disco, mandei uma
cópia para algumas pessoas que eu admirava. Sem nenhuma expectativa maior.
Uma semana depois, recebi um telefonema da Hilda. Ela estava assim, meio
doentinha, tinha acabado de sofrer uma isquemia. Ela dizia que ouvia muito
“Heavy Metal do Senhor”, uma de suas canções prediletas do disco. E disse
que queria ser minha parceira. Eu tomei um susto. Conheci a obra da Hilda
através de um amigo meu que era apaixonado por ela e eu fiquei chapado por
sua literatura. Foi uma loucura. Ela disse “estou falando sério, quero ser
sua parceira porque acho que essa história de literatura não dá nada, o
grande lance é ser compositor”. Ali mesmo, no telefone, ela mandou um poema
para mim. Algum tempo depois, a secretária dela mandou um disquete onde
estava toda a obra poética dela. Eu fiquei encantando com o capítulo “Ode
Descontínua e Remota para Flauta e Oboé” do livro Júbilo, Memória, Noviciado
da Paixão. Eu comecei a musicar e mandei para ela.
Então ela chegou a conhecer essas canções?
Sim, todas, mas na minha voz. Só não ouviu as gravações das cantoras. Ela
comentou as canções, fez algumas ressalvas aqui e acolá, sugeriu nomes –
queria muito a Bethânia.
De que maneira a perplexidade das pessoas em relação ao futuro político
do Brasil pode refletir na produção cultural do país e, principalmente, na
sua?
O grande risco disso aí – que se estende a todos os setores da sociedade – é
o de legitimar o comportamento “se todo mundo faz, eu também faço; se todo
mundo pode, eu também posso”. Esse é o grande perigo. O grande bem que pode
vir disso é a gente descer ao fundo do poço moral e emergir com um pouco
mais de maturidade.
E mais autocrítica, talvez.
Mais autocrítica, mais autocobrança. Política, na origem, é nobre. Mas, na
prática – historicamente –, se transformou em uma coisa obscura. Talvez isso
tudo sirva para se chegar a outro momento. Mas sempre existe esse risco
pairando, o de legitimar o vale-tudo moral.
(©
Gazeta do Povo)
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