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Chico César celebra dez anos de carreira fonográfica com o CD De Uns Tempos pra Cá Omar Godoy Para o
grande público, Chico César é sinônimo de uma figura exótica, que apareceu
e desapareceu ao som de “Mama África”. Nada disso. Artista multifacetado e
pensador independente, o paraibano de 41 anos conseguiu, entre outros
feitos, a façanha de cavar seu próprio espaço no meio musical. A passagem
pelos holofotes da mídia, em meados da década de 90, foi apenas mais um
passo de sua trajetória fonográfica, que em 2005 completa dez anos. Acerto de contas Chico César diz que faz provocação ao lançar disco intimista e delicado João Bernardo Caldeira De uns tempos pra cá não é um disco que se espera de Chico César. Intimista, delicado e detalhista, o sexto trabalho do cantor paraibano enfatiza o seu violão e as cordas do Quinteto da Paraíba (leia crítica abaixo). Tem tudo a ver com o catálogo da Biscoito Fino, que pela primeira vez lança um CD de Chico. O resultado surpreende os ouvintes e representa para ele uma libertação: - Hoje, aos 41 anos, depois de conseguir uma certa popularidade, é mais tranqüilo fazer um disco como esse, que na minha opinião é provocador. Ele rompe com a necessidade do groove e das coisas terem de ser ditas em alto volume. Essa opção por tirar essas amarras funciona como uma provocação a nossa época e a estilos musicais dos quais gosto e até cheguei a encampar - explica o cantor, por telefone, de São Luís, no Maranhão, onde fez shows no final de semana. Na verdade, a quietude já estava presente em discos anteriores, mas de forma discreta. - Nos meus quatro últimos CDs, entre as 12 faixas sempre havia duas ou três mais densas e lentas. Desta vez, essa proporção se inverte. Para mim o disco começa à meia-noite, no escuro, e depois dessa longa madrugada vai clareando - diz o cantor, cujo último álbum de carreira, Respeitem meus cabelos, brancos, foi lançado em 2002. No texto de apresentação, Chico explica que alguns aspectos de sua obra se tornaram mais conhecidos, enquanto outros foram ignorados. De uns tempos pra cá procura corrigir a irregularidade: - Fiquei mais conhecido como o cantor de Mama África, que tematiza questões raciais, como o compositor de canções românticas, como À primeira vista ou Onde estará o meu amor. Esse disco não despreza esses aspectos, mas privilegia outros. Chico não chega a considerar que escondia suas origens nos trabalhos anteriores, mas admite que desta vez a idéia era exacerbar o contato com o passado: - O disco lança luz sobre a relação com as minhas raízes e por isso chamei para participar figuras da Paraíba, como o poeta Pedro Osmar, a cantora Elba Ramalho, o percussionista Escurinho, além do Quinteto da Paraíba. Também procuro chamar atenção para a minha ligação com a música de Elomar, Villa-Lobos e Marlos Nobre. As 12 faixas de De uns tempos pra cá foram feitas em períodos diversos da vida do compositor, de 1983 a 2005. Ainda assim, ele diz que não foi complicado dar unidade ao disco: - Não foi difícil, porque essas canções dialogam entre si com bastante clareza. Seja pela pujança instrumental ou pela tematização das letras, que tratam de uma certa melancolia e de um desprendimento a coisas que não são necessárias. Datas de shows no Rio estão sendo agendados para dezembro, possivelmente no Teatro Rival. Músico há mais de duas décadas, Chico César reafirma em De uns tempos pra cá traços autorais não apenas de sua personalidade, mas de toda uma geração: - Nos anos 80, houve a afirmação do rock'n roll, que confirmou a existência no Brasil de uma juventude branca e urbana, e isso foi bacana. Mas silenciou nossa geração. Gente como eu, Lenine, Pedro Luís, Moska e Zeca Baleiro só pôde aparecer em meados dos anos 90, e ainda fomos bastante contestados. Se existe Caetano, para que Chico César? Se tem Zé Ramalho, para que Zeca Baleiro? Isso mudou. Um dos melhores discos do compositor Tárik de Souza Repescando composições próprias de 1983 (Por causa de um ingresso de festival matou roqueira de 15 anos), 1998 (Alcaçuz), 2000 (Orangotanga), 2003 (Moer cana) e alheias conhecidas como Cálice (Gilberto Gil/ Chico Buarque) e A nível de (João Bosco/ Aldir Blanc), o novo CD de Chico César, De uns tempos pra cá (Biscoito Fino), tinha tudo para soar requentado. Ou desigual. No entanto, é um de seus melhores e mais coesos discos. Até porque a parceria com as cordas camerísticas do Quinteto da Paraíba (que mereciam mais destaque na embalagem) embaralham o modelo Mpop do B pós-tropicália que de alguma forma carimbou o autor de Mama África, espécie de hit da retomada, de 1995. Chico exibe sua face intimista tisnada pela melancolia e pelo tenso apuro melódico. Junto com as letras, no encarte, imprime uma espécie de roteiro cinematográfico em flashbacks, que transformam as faixas numa trilha sonora pessoal do autor. Rebobinada de uns tempos para cá: 20 anos de sua saída de Catolé do Rocha, na Paraíba, para o Sudeste e dez de seu disco inaugural, Aos vivos. O inventário surpreende pelo frescor e pela atemporalidade. Como a farpada Utopia, que Chico situa em princípio dos anos 80, ''do meu tempo da faculdade de jornalismo na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, época de greves e passeatas''. Despe a letra, cantada, pé ante pé, entre violinos enevoados: ''Todo mundo que se veste com a roupa da utopia/ sofre tanto, sofre muito/ eu estava nu e não sabia''. Já o amarcord de Moer cana, num pulso rítmico de marcha-rancho entre pizicattos, cita José Lins do Rêgo (Fogo morto) num lamento retirante. Alcaçuz (''todo o ouro que um rei tiver/ não é como as estrelas que terei'') lembra Elomar, o erudito da caatinga baiana. O derramamento dramático de Por que você não vem morar comigo? viaja de Peninha à modinha ancestral. Súbito, invade o roteiro o surrado standard Autumn leaves (Joseph Kosma/ Jacques Prevert/ Johnny Mercer) na versão Outono aqui, do próprio CC. Detalhe: o arranjo com cordas, flautas e percussão contra-ritmada praticamente instala uma outra música antes da entrada do tema cantado. As remodelações de Cálice (aberta por coral de igreja e levada numa seqüência bachiana) e A nível de (cevada pelo dedilhado do solista e ágil naipe de sopros, arranjados por Nailor Proveta) não são menos provocantes. Nada, porém, que suplante o estranhamento de Orangotanga, que abre como Eleanor Rigby e desliza para um techno marchado, com citação da Marselhesa, no arranjo de Ruriá Duprat. Intervenção de Elba Ramalho e texto narrado por Pedro Osmar entrecortam o xaxado encordoado Por causa de um ingresso do festival matou uma roqueira de 15 anos, que arremata De uns tempos pra cá sem saudosismos. É possível revirar o baú e não se perder na máquina do tempo. |
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