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Ivete Sangalo |
Antonio Carlos Miguel
No carnaval deste ano em Salvador,
lá estavam as duas, juntas, comemorando os 20 anos do axé. Elas também
estão entre as cantoras convidadas do último disco da Banda Eva — que
festeja seus 25 anos de carreira — e volta e meia andam dividindo o mesmo
palco. Encontros de Daniela Mercury e Ivete Sangalo, portanto, são
habituais, e podem confirmar o que ambas sustentam: não existe disputa
alguma pelo título de rainha do axé, um gênero que teria sido inaugurado
em 1985, pelo compositor baiano Luiz Caldas, andou meio por baixo nos
últimos anos, mas agora dá sinais de resistência.
Se o discurso é afinado, seus novos
discos, que chegam quase ao mesmo tempo ao mercado — o de Ivete foi
lançado há duas semanas, o de Daniela vai para as lojas amanhã — apontam
para caminhos opostos, estética e comercialmente. “As super novas”, da
foto da capa à sonoridade, é assumido flerte de Ivete com a música
descartável. Já “Balé mulato”, da capa (com fotos do prestigiado Mario
Cravo Neto) ao conteúdo, é pretensioso projeto conceitual de Daniela.
Comercialmente, a Universal,
gravadora de Ivete, já comemora a venda antecipada de 500 mil cópias do CD
— 350 mil delas encomendadas pela marca de cosméticos Avon, que já teria
repassado aos seus clientes esta cota e pedido mais 250 mil.
— Meu irmão (também seu
empresário, Jesus Sangalo) é muito bom para negócios e com essa
parceria driblamos a pirataria — acredita Ivete. — Mas o que mais me dá
dinheiro é show, disco é para a gravadora.
Enquanto isso, a EMI, que fez um
contrato de licenciamento de “Balé mulato” — produção independente de
Daniela, depois negociada com a multinacional — trabalha com números mais
modestos.
— Estamos saindo com 50 mil cópias.
Esse disco é fantástico, já deu certo — diz Marcos Maynard, presidente da
EMI.
— Não sou mais contratada de
nenhuma gravadora, seja no Brasil ou fora. Hoje sou dona de todo o meu
catálogo no mundo, desde o disco “Canto da cidade” — explica Daniela, por
telefone, de Orlando, na semana passada, terminando uma turnê que passou
por dez cidades americanas e também por Montreal, no Canadá. — Ainda tinha
três CDs para fazer com a BMG, mas, depois da fusão com a Sony, preferi
fazer um distrato e eles me deram os direitos dos discos.
Sucesso da lambada fecha disco de Ivete
Negócios à parte, mais diferenças
no campo estético. No fim do CD como bônus, a gravação ao vivo de
“Chorando se foi” (a versão de “Llorando se fue”, sucesso da lambada nos
anos 80 com o grupo Kaoma) sintetiza a sonoridade de “As super novas”:
sonoridade internacional, ou “pop-panamericana”, com sua salada de
merengue, salsa, axé, samba-reggae e o diabo a quatro. Outra faixa que não
fora concebida originalmente para o disco, a regravação de “Soy loco por
ti América”, tema de abertura da recém-encerrada novela “América”,
contribui também para esse conceito — o arranjo do violonista Gerson Silva
despiu o clássico de Gilberto Gil e Capinam de seu tom tropicalista para
vesti-lo com o mesmo sotaque internacional indefinido. Seria este o
conceito de Ivete?
— Não me ligo nesse negócio de
conceito, sou mais visceral que analítica — responde, sem rodeios. — O
disco se constrói a partir do meu momento, vou selecionando as canções e
só depois de pronto vejo o que fiz. Não quis fazer algo internacional,
mas, se é entendido assim, por um lado é bom.
Daniela, depois de em seus últimos
discos fundir MPB e axé com a música eletrônica das pistas de dança, acena
agora com uma volta às raízes. Ela fala em opção estética, sem admitir o
insucesso, musical e comercial, de tais experiências “techno-axé”:
— Esse é um disco mais orgânico,
menos eletrônico, quis voltar à minha síntese. Os meus discos principais
de carreira firmaram algumas características, então estou retomando a
minha identidade.
Para o executivo da EMI, não
importa o atual formato musical da cantora.
— Eu me interesso por uma artista
que se chama Daniela Mercury, independentemente do estilo. Acredito nela,
seja na chuva, no sol, na casa ou na fazenda (risos) — diz
Maynard.
Antes dessa volta, Daniela fora
mais fundo no passado no CD e DVD “Clássica” — outro projeto independente,
este negociado com a Som Livre e editado há dois meses — registro de show
em 2004 no qual, com instrumental bossa-novista, voltou ao repertório de
seu início de carreira, pré-axé, quando cantava MPB em bares de Salvador.
Agora, em “Balé mulato”, em meio às novas canções de autores de axé
(Pierre Onassis, Edilson, Gigi, Tonho Matéria...), ela recorre até à
rodada “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso).
— É das nossas canções mais
emblemáticas, cantada por várias gerações em diversos momentos do Brasil.
As versões de Elis e Gal foram as que mais me marcaram, e quis fazer um
registro para a minha geração — justifica Daniela, que reafirmou sua
ligação com sua terra em outro clássico da MPB, “Meu pai Oxalá”, de
Vinicius e Toquinho.
E em “As super novas”, tem Bahia?
— A Bahia entra na liberdade com
que nos apropriamos de outros ritmos. Mas tenho uma influência fortíssima
do funk nesse trabalho — conta Ivete. — “Abalou” (faixa de abertura,
parceria da cantora com dois músicos de sua banda, Gigi e Radamés) ,
por exemplo, é um afoxé funkeado. O funk-Bahia é um segmento que começou a
tomar corpo na época de “Festa” (de seu CD anterior) , e agora me
inspirei muito no som dos anos 70 e dos 80, de Earth, Wind & Fire, George
Clinton, Banda Black Rio, Frenéticas e Roupa Nova. Isso é o que procuro,
eu e minha banda fizemos juntos os arranjos, cuidamos do repertório, da
produção, e sou assumidamente popular. Tenho controle total de minha
carreira, erros e acertos são meus.
Rivais que preferem a rasgação de seda
Nesse jogo de semelhanças e
diferenças, independência artística também tem sido uma característica na
carreira de Daniela. A partir do sucesso de “Canto da cidade” (1992),
disco que lhe garantiu o título de rainha do axé, ela fez tentativas
estéticas que ameaçaram esse reinado no Brasil, mas tem aberto novos
mercados para sua música. Há sete anos lota teatros e ginásios em Portugal
e começa a ampliar seu público na Europa. Para ser mais internacional
ainda, agora ela reforça sua brasilidade. Mas como será que Daniela encara
o clima de disputa com que parte da mídia trata sua relação com Ivete?
— Não há certo ou errado em música.
Essa brincadeira de tronos e rainhas é o lúdico na vida de gente, é como o
público vê. Ganhei o título por ter sido uma precursora desse gênero no
Brasil. E é bom que sejamos diferentes, eu sempre busquei novidades.
Ivete, sem saber da resposta da
antecessora, faz o contraponto:
— Pode haver essa competição no
mercado, na mídia, mas a minha relação é de amizade e admiração. A gente
está junto e até faço parte do fã-clube de Daniela, eu me cadastrei no
fã-clube oficial dela na internet.
(©
O Globo)
DOCUMENTÁRIO

Bethânia na visão de um francês
Rudney Flores
A música brasileira voltou a ser
foco de documentários este ano, com filmes sobre a bossa nova, Vinicius de
Moraes e Maria Bethânia. O movimento que marcou o país a partir dos anos 50
ganhou as telas no mês passado, com o lançamento de Coisa Mais Linda, de
Paulo Thiago. Já as produções sobre o “poetinha” e a cantora baiana foram
destaques da programação da 29.ª Mostra Internacional de São Paulo,
encerrada quinta-feira passada, devendo chegar em breve aos cinemas.
Desses títulos, Maria Bethânia –
Música É Perfume chama a atenção por ter sido realizado por um
estrangeiro e fugir do tradicional formato de contar a trajetória de vida do
personagem focado. Dirigido pelo francês, radicado na Suíça, Georges Gachot,
o documentário aborda principalmente a música cantada por uma das maiores
intérpretes brasileiras.
Em entrevistas ao Caderno G durante o evento de cinema paulista, Gachot
contou que não conhecia nada de Bethânia ou a música brasileira até 1998,
quando acompanhou um show da cantora no conhecido Festival de Montreaux,
realizado em seu país. “Eu fiquei muito impressionado com sua presença, seu
cabelo, a estrutura da melodia da música brasileira, não havia escutado nada
igual antes, gostei muito”, lembra.
Até então, o cineasta era apenas ligado à música erudita, foi base para seus
primeiros filmes. Antes de realizar o documentário no Brasil, Gachot lançou
em 2003 Martha Argerich, Conversation Nocturne, sobre a musicista argentina
grande amiga do pianista Nelson Freire (como é destacado no documentário
homônimo sobre o brasileiro feito por João Moreira Salles). “Conversei com
Bethânia, que aceitou fazer o filme. Ela me abriu o estúdio, pude estar no
backstage, no palco, foi muito espontânea”, revela o diretor que nunca havia
vindo ao Brasil antes das filmagens.
Imagens do país – principalmente de Santo Amaro da Purificação (cidade natal
da família Veloso) do Rio de Janeiro (onde Bethânia mora) são parte
importante do filme, sempre acompanhadas de uma canção interpretada pela
cantora brasileira. “Faço filmes sobre música, que é minha vida, é ela que
interessa no documentário. No filme da Bethânia não falo de datas, sobre
quando ela nasceu. Acho necessário falar da arte e do artista, sobre a sua
energia para cantar, sua inspiração, não fico nos detalhes”, comenta Gachot,
que colheu depoimentos de algumas personalidades como Caetano Veloso, Chico
Buarque e Gilberto Gil. “Caetano é uma ótima conversa, fala muitas coisas,
por horas, mas para mim isso não era o importante. Claro que as informações
que ele passava eram interessantes, mas lembro de quando ele parou de falar
e por um instante ficou pensando na irmã. Esse momento para mim é o que
vale, não precisa dizer nada, só sentir aquilo, aquela emoção”, continua.
Maria Bethânia – Música É Perfume será distribuído no Brasil pela
Imovision e deverá ser lançado até o Natal. “Será meu presente para o
Brasil”, diz Gachot, que pretende desenvolver outros projetos sobre músicos
do país. “Quero me transformar em um embaixador da música brasileira”,
afirma.
(©
Gazeta do Povo)
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