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Canções de uma exposição

Dorival Caymmi, por Elifas Andreatto

Eduardo Fradkin

   Não é recente o desejo de transpor artes visuais para música. A mais célebre composição desse tipo, “Quadros de uma exposição”, do russo Modest Mussorgsky, data de 1874 e foi inspirada numa retrospectiva de telas de seu amigo Victor Hartmann, morto um ano antes. Pinturas de Botticelli e Böcklin também viraram partituras clássicas pelas mãos de Respighi e Rachmaninov, respectivamente. A transição inversa é menos comum, mas tem no Brasil — onde a riqueza da música popular se sobrepõe à da erudita — um grande exemplo. Em sua sexta edição, o projeto A Imagem do Som, retomado após um hiato de dois anos, homenageia Dorival Caymmi com 80 obras de arte. Elas ficarão expostas a partir de hoje, até 29 de janeiro do próximo ano, no Paço Imperial, com entrada franca. Na inauguração, será lançado um livro, da Editora Globo, com as letras das 80 músicas e fotos das criações visuais que as representam.

   A escolha do repertório foi feita pelo filho Danilo Caymmi e pelo produtor Carlos Alberto Sion, junto com o idealizador do projeto, o designer gráfico Felipe Taborda.

   — As 80 canções selecionadas constituem quase toda a obra do meu pai, que é muito enxuta. Ela se divide em três fases: a das canções sobre o mar; a urbana, dos anos 40 e 50, quando surgiram grandes músicas como ”Marina” e “Nem eu”; e a de sambas com tempero baiano. Todas estão muito bem representadas — opina Danilo. — Gostaria de transformar essa exposição num evento itinerante pelo Brasil.

   Pretensão semelhante é acalentada por Taborda, que já deu os primeiros passos.

   — Há negociações para levar a exposição a Salvador e a Curitiba. Em 2000, consegui levar a exposição A Imagem do Som de Chico Buarque a Buenos Aires — lembra ele.

   O designer também busca apoio de empresas latino-americanas para desenvolver o projeto em países vizinhos, com artistas locais. As conversas se desenrolam há mais de um ano. Foram iniciadas quando o trabalho estava suspenso no Brasil por falta de patrocínio, retomado este ano pela Petrobras. Ele acrescenta que, por intermédio do Ministério da Cultura, poderá ser montada na Alemanha, durante a Copa do Mundo, uma edição especial, com músicas sobre futebol ilustradas por brasileiros.

Próxima edição depende do aval de Roberto Carlos

   Criado em 1998, o projeto A Imagem do Som já teve edições dedicadas a Caetano Veloso, a Chico Buarque, a Gilberto Gil, a Tom Jobim e ao pop rock nacional. Haverá mais quatro, consagradas a Roberto e Erasmo Carlos — a qual ainda depende da aprovação de Roberto — à MPB, à segunda parte do pop rock e ao samba. Toda edição é composta de um livro e de uma exposição, em que cada obra visual fica ao lado da letra da música correspondente e de um aparelho de som com fones de ouvido à disposição do espectador. Ao sair de cartaz, as obras são devolvidas a seus autores. Segundo Taborda, não há lucro, já que a entrada para a exposição é gratuita e a renda do livro é usada para cobrir gastos. Ele supervisiona todo o processo, mas não impõe vontades.

   — Ao selecionar os participantes não fiz restrições. Tem gente de todas as áreas: artes plásticas, cinema, fotografia, design, quadrinhos, entre outras. Todos tiveram liberdade plena de criação. As únicas imposições foram o prazo de conclusão do trabalho, de cinco meses, e um sorteio para distribuir as músicas entre os artistas — diz Taborda, que sempre espera até o fim do ano para inaugurar a exposição por haver mais turistas no Rio nessa época.

   Neste ano, contudo, houve uma exceção à regra do sorteio.

   — Aceitei participar sob a condição de escolher a minha música. Não queria uma regionalista. Escolhi “Anjo da noite”. Fiz três ilustrações com presenças angelicais, mas não sei qual delas será exposta. Já tinha ilustrado poemas, contos de Dostoievski, muita coisa. Mas música foi a primeira vez — revela, de São Paulo, o gravurista e desenhista Marcello Grassmann.

   Menos sorte que ele tiveram os artistas plásticos Guto Lacaz e Luiz Stein.

   — Queria “Maracangalha”, por ser uma canção bem-humorada, mas acabei com a melancólica “Promessa de pescador”, que nem conhecia. Acho que consegui juntar drama e humor com minha escultura, que mostra um pescador espreitado por um peixe enorme, submerso sob seu barco — descreve Lacaz.

   — Peguei “Cala boca menino”, cuja letra é surreal. Foi muito difícil interpretá-la — confessa Stein, que abraçou o surrealismo e parodiou um quadro de Magritte.

   Entre as instalações, promete atrair atenção a da designer e estilista Alessandra Migani, para a música “Eu não tenho onde morar”.

   — Quando escutei a música, imaginei um castelo de areia na praia. Andei muito pela orla do Rio até encontrar um castelo. Achei-o em Copacabana e contratei o artista responsável, Rojean, para erguê-lo no Paço — conta.

(© O Globo)


As 80 canções de Caymmi e seus intérpretes visuais

CAMINHOS DO MAR: Adão Iturrusgarai;

NUNCA MAIS: Afonso Tostes;

EU NÃO TENHO ONDE MORAR: Alessandra Migani;

RUA DESERTA: Alex Cerveny;

TEMPORAL: Alexandre Sant’Anna;

MÃE STELLA: Ana Laet;

ADALGISA: Ana Soter;

DORA: Andrucha Waddington;

365 IGREJAS: Anna Letycia;

CANTO DE NANÃ: Antonio Bernardo;

NOITE DE TEMPORAL: Antonio Henrique Amaral;

MARINA: Antonio Manuel;

VATAPÁ: Arnaldo Antunes;

ITAPUÃ: Arthur Luiz Piza;

A MÃE D’ÁGUA E A MENINA: Axel Sande;

ADEUS DA ESPOSA: Brígida Baltar;

SÃO SALVADOR: Carlito Carvalhosa;

RETIRANTES: Cesar G. Villela;

SAMBA DA MINHA TERRA: Chico Bicalho;

SANTA CLARA CLAREOU: Chico Cunha;

LÁ VEM A BAIANA: Cristina Portella;

A PRETA DO ACARAJÉ: Cristina Salgado;

VOU VER JULIANA: Daniel Klajmic;

O QUE É QUE A BAIANA TEM?: Demóstenes Vargas;

COQUEIRO DE ITAPUÃ: Dora Longo Bahia;

O MAR: Eliane Duarte;

MILAGRE: Elizabeth Tognato;

QUEM VEM PRA BEIRA DO MAR: Enrica Bernardelli;

BALADA DO REI DAS SEREIAS: Ernesto Neto;

NA CANCELA: Franz Manata;

VAMOS FALAR DE TEREZA: Gabriel Zellmeister;

SAUDADE DA BAHIA: Gianguido Bonfanti;

SÓ LOUCO: Gringo Cardia;

FIZ UMA VIAGEM: Guilherme Zamoner;

A JANGADA VOLTOU SÓ: Guita Charifker;

PROMESSA DE PESCADOR: Guto Lacaz;

MODINHA DE GABRIELA: Guto Nóbrega;

HORAS: Iole de Freitas;

ADEUS: Iran do Espírito Santo;

RAINHA DO MAR: J. Borges;

O BEM DO MAR: J.R. Duran;

PESCARIA (CANOEIRO): Jair de Souza;

SAUDADE: João Modé;

CANTO DE OBÁ: Jorge Fonseca;

ORAÇÃO DA MÃE MENININHA: José Resende;

MODINHA PARA TEREZA BATISTA: Lan;

HISTÓRIA PRO SINHOZINHO: Lena Bergstein;

SARGAÇO MAR: Lucia Koch;

ACONTECE QUE EU SOU BAIANO: Luiz Aquila;

MARCHA DOS PESCADORES: Luiz Braga;

EU CHEGUEI LÁ: Luiz Ernesto;

CALA BOCA MENINO: Luiz Stein;

ANJO DA NOITE: Marcello Grassmann;

O VENTO: Marcos Bonisson;

NEM EU: Marcos Cardoso;

SÁBADO EM COPACABANA: Maria Bonomi;

DOIS DE FEVEREIRO: Maria do Carmo Secco;

VOCÊ JÁ FOI À BAHIA?: Mario Bag;

A VIZINHA DO LADO: Mario Cravo Jr;

VELÓRIO: Mauricio Ruiz;

PEGUEI UM ITA NO NORTE: Michel Groisman;

REQUEBRE QUE EU DOU UM DOCE: Nelson Felix;

É DOCE MORRER NO MAR: Paulo Marcos;

CANTIGA DE NOIVA: Rafael Garcia;

VOCÊ NÃO SABE AMAR: Rafael Jacinto;

DORALICE: Rafic Farah;

O DENGO QUE A NEGA TEM: Regina Silveira;

CANÇÃO ANTIGA: Regina Vater;

ROSA MORENA: Renato Alarcão;

ACALANTO: Rodrigo Lopes;

FESTA DE RUA: Ronald Kapaz;

MORENA DO MAR: Rosa Magalhães;

A LENDA DO ABAETÉ: Sergio Liuzzi;

MARACANGALHA: Speto;

TÃO SÓ: Tiago Santana;

JOÃO VALENTÃO: Tuca Reinés;

VESTIDO DE BOLERO: Vânia Mignone;

VALERÁ A PENA?: Walter Carvalho;

DAS ROSAS: Zeca Fonseca;

RODA PIÃO: Ziraldo

(© O Globo)


"A Imagem do Som" reúne 80 trabalhos de Ernesto Neto e Mario Cravo Jr., entre outros, no Paço Imperial, no Rio

Artistas interpretam Caymmi em telas e esculturas

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

   Além de ser bom pintor, Dorival Caymmi tem a capacidade, em suas músicas, de retratar paisagens complexas com poucas pinceladas. "A Imagem do Som de Dorival Caymmi", que abre na sexta no Paço Imperial, no Rio, expõe novos olhares sobre aquilo que o compositor olhou: 80 artistas plásticos interpretam as canções do gênio baiano.

   A mostra é a sexta do gênero, sucedendo às de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Jobim e pop-rock brasileiro. Para Felipe Taborda, idealizador do projeto, o fato de a série ter sido interrompida em 2004 por falta de patrocínio não foi negativo.

   "Os artistas me pareceram até mais estimulados por causa dessa parada. O projeto está mais afinado", acredita ele.

   Ele criou uma regra para selecionar pintores, escultores, fotógrafos, cartunistas, designers e até cineastas: 40 vêm de mostras anteriores e 40 estréiam na série.

   No primeiro time estão Carlito Carvalhosa, Andrucha Waddington, Mario Bag, Walter Carvalho, Eliane Duarte, Guto Lacaz, Brígida Baltar, Daniel Kajmic, Adão Iturrusgarai, Luiz Stein e Luiz Ernesto, entre outros.

   No segundo, estão nomes como Ernesto Neto, Iole de Freitas, Arthur Luiz Piza, Anna Letycia, Luiz Aquila, Maria Bonomi, Nelson Felix, Regina Silveira, Antonio Henrique Amaral, Lan, Ziraldo e José Resende.
"Eu quis recusar um caminho que fosse alegórico ou ilustrativo, não só do Caymmi, mas também da Bahia e do candomblé", diz Resende, 50, que se baseou na música "Oração da Mãe Menininha".

   O escultor criou uma peça em que panos e veludos são mergulhados em dois recipientes de vidro cheios de parafina. O contraste entre os diferentes materiais procura dar conta da riqueza do candomblé, segundo Resende.

   Já o pintor Mario Cravo Jr. usou mesmo as tintas como matéria-prima e não se prendeu ao samba "A Vizinha do Lado" como tema. Amigo e praticamente contemporâneo de Caymmi -ele tem 82; o compositor tem 91-, Cravo foi mais genérico em sua tela.

   "Pintei uma figura inclinada, amante do sol, da praia, que remete a um período esplendoroso, quando eu convivia com Caymmi, Jorge Amado, Carybé, Vinicius de Moraes", diz ele.

   Ao lado de cada tela há a letra da música correspondente e um fone no qual se pode ouvir uma gravação. Para o ano que vem, Taborda sonha com Roberto & Erasmo. Falta o Rei autorizar.

A Imagem do Som de Dorival Caymmi
Quando:
ter. a dom., das 12h às 18h. De 4/11 a 29/1
Onde: Paço Imperial (pça Quinze, 48, RJ, 0/xx/21/2533-4491)
Quanto: entrada franca

(© Folha de S. Paulo)

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