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Como brilhar para além do que há na escuridão

João Miguel, em cena de "Cinema, aspirinas e urubus"

Rodrigo Fonseca

   Breu. Imersa nele, graças à falta de iluminação elétrica, a Itaparica que João Miguel conheceu garoto ainda — ao deixar a casa dos pais na Salvador onde nasceu, e partir para uma temporada sob as asas de seus padrinhos — era pura escuridão. Tingida por um negrume que nenhuma das salas de exibição em que seu trabalho à frente de “Cinemas, aspirinas e urubus” vem sendo apresentado, desde sexta-feira, jamais conheceu. Veio dali sua curiosidade. Pelos segredos da noite e pelas pessoas que nela transitam.

   — A escuridão me aproximou da natureza e me ensinou o respeito ao próximo. Ela me ensinou o valor de observar — analisa Miguel, com a sobriedade adulta dos 35 anos.

   À noite, ele (e muitos outros de sua idade) sentava-se à beira da praia para apreciar a única telona que a bucólica ilha baiana lhe oferecia: água do mar chocando-se ao litoral. Pronto! Era o que bastava para que o filho de um publicitário e de uma artista plástica virasse ator. Aliás, um dos mais promissores, pelo que julgou a quase totalidade das críticas (nacionais e internacionais) ao longa-metragem dirigido pelo (estreante) pernambucano Marcelo Gomes.

   — “Cinema, aspirinas e urubus” foi uma experiência sensorial com o fio da memória. Uma memória nordestina, que não é simbólica, mas viva — diz ele, que faturou o prêmio de melhor ator no Festival do Rio com o filme.

Experiência como palhaço trouxe consciência social


Marcelo Gomes, diretor de Cinema, aspirinas e urubus

   Escolhido por Gomes depois de ter sido descoberto pelo cineasta no monólogo “Bispo”, com o qual rodou o país, Miguel assumiu em “Cinema, aspirinas e urubus” o papel do retirante Ranulpho, inspirado no tio-avô do diretor. Na década de 40, o Ranulpho Gomes original ao trocar a Paraíba pelo Recife, em busca de melhores condições de vida, cruzou o caminho de um mascate alemão. As recordações (as históricas e as afetivas) desse encontro estão contadas na telona.

   — Quando eu falava do projeto para os outros, perguntavam-me se eu iria fazer o alemão — diz Miguel, que se encontra em Minas Gerais, onde se prepara para participar de “Miguilim”, novo filme de Sandra Kogut (de “O passaporte húngaro”), baseado no conto de João Guimarães Rosa.

   Na verdade, o vendedor de aspirinas Johann, o gringo da fita de Gomes, é um germânico puro-sangue. Bom, hoje, pelo coração de Peter Ketnath, de 31 anos, já fluem hemácias verde-amarelas. Pelo menos desde que ele conheceu a cozinheira baiana Ana em Berlim e fez dela sua esposa. Mas, apesar de toda a sua paixão pela cultura brasileira, Ketnath diz ter sentido sua ortodoxia européia se espantar ao dividir o set de “Cinema, aspirinas e urubus” com Miguel.

   — Para alguém que nunca havia filmado nada em português, João foi um grande apoio, principalmente no que diz respeito à língua. Isso porque ele é um ator muito concentrado. Na verdade, essa experiência aconteceu porque fomos muito bem preparados — diz Ketnath, ressaltando a liberdade que a direção de Marcelo Gomes garantiu a ele e ao colega brasileiro.

   Foi no convívio com ele pelas regiões paraibanas de Picote, Cabaceiras, Pocinhos e Campina Grande que Ketnath percebeu o tipo de investigação antropológica do colega.

   — Eu fui palhaço. Fui o clown Magal (referência ao próprio nome e ao da mãe, Magali) . E como palhaço me apresentei em hospitais, circos, feiras. Isso me aproximou do social e me impregnou de realidade — diz o ator que poderá ser visto no próximo 28, pelo público do Festival de Brasília, no longa “Eu me lembro”, de Edgard Navarro. — O interesse pelo real fazia com que eu saísse pelas ruas vestido de Ranulpho e me apresentasse como tal para ver as reações.

   Presente também em “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado, Miguel impressionou muito o mais badalado fotógrafo do cinema brasileiro da atualidade, Walter Carvalho, que clicou seu rosto nas filmagens de “Rifa-me”, de Karim Aïnouz, que estréia em 2006.

   — Gosto do João sobretudo porque ele nunca vai ser o bonitinho da “Malhação”. A cara dele é brasileira demais para isso — elogia Carvalho, que no dia 10 de janeiro se manda para Nazaré da Mata, a 70 km de Recife, para começar as filmagens de “O baixio das bestas”, novo longa de Cláudio Assis. — João tem aquilo de que um ator mais precisa: concentração.

   Consagrado também na TV, em que viveu um criminoso apaixonado por um travesti em dois episódios capitaneados por Hector Babenco em “Carandiru e outras histórias”, Miguel quer evitar que sua carreira venha a se limitar a novos Ranulphos.

   — Quero fazer filmes universais. Universais como o cinema brasileiro. Se eu tenho a cara do Brasil? Não. Tenho a cara de um filme como “Cinema, aspirinas e urubus”, que é feito no Brasil e fala dele.

(© O Globo)


Quando 90 mil oraram pela cartilha lúcida de um Bispo

   Aclamado em Cannes, de onde saiu com o Prêmio de Educação concedido na mostra Un Certain Regard, “Cinema, aspirinas e urubus” conquistou láureas de encher o peito de qualquer realizador estreante, como Marcelo Gomes, de autoconfiança. Ser a única produção brasileira eleita como melhor filme na história da Mostra de Cinema de São Paulo só veio confirmar seu prestígio. Mas a grande vitória da carreira de João Miguel foi ter posto, ao longo de quatro anos, mais de 90 mil pessoas para comungar da homilia artística de Arthur Bispo do Rosário no espetáculo teatral “Bispo”.

   — Rodei o Brasil. Não é um texto biográfico, mas um diálogo com a história de um homem que passou 50 anos num hospício e dizia que as maravilhas que produzia não eram arte — diz ele, que após dois anos devotado ao cinema retornará aos palcos em 2006 com este monólogo que co-dirigiu com o cineasta Edgard Navarro (de “O SuperOutro”).

   Aluno da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) durante a temporada em que trocou a Bahia para estudar teatro no Rio, Miguel apresentou “Bispo” no Rio em 2002, no Espaço Cultural Sérgio Porto, e arrancou aplausos mesmo dos resenhistas mais exigentes. Barbara Heliodora, crítica teatral do GLOBO, disse, à época, tratar-se de “um espetáculo paralelo de um universo paralelo, que tem consideráveis atrativos”.

   — “Bispo” não tem a ver com loucura, mas com lucidez — diz o ator que prepara para 2007 a peça “Cruz”, sobre a oralidade na região cearense do Cariri. (R.F.)

(© O Globo)

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