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Diretor baiano se surpreende e emociona público ao arrebatar sete Candangos em Brasília com o longa 'Eu me lembro' Carlos Helí de Almeida BRASÍLIA - Lá pela segunda vez em que subiu ao palco do Teatro Nacional, durante a cerimônia de entrega dos prêmios do Festival de Brasília, anteontem à noite, o diretor baiano Edgar Navarro não resistiu e soltou o verbo. - Vocês querem me matar? Nós somos muito pobres! Nós somos muito pobres! - repetiu, aos berros, o diretor de 56 anos, autor do nostálgico e encantatório Eu me lembro, agarrado ao Candango de direção. De tão emocionado e surpreso, Navarro tropeçou nas escadas de acesso ao palco e foi ao chão, deixando a enorme platéia assustada. Mas o cineasta que se tornou figura emblemática do cinema pátrio com obras de menor duração, como o média-metragem SuperOutro (1989), voltaria mais vezes ao pódio para vingar 15 anos de seca produtiva, durante a qual realizou apenas alguns vídeos. O júri oficial reconheceu as qualidades de Eu me lembro e o consagrou como o grande vitorioso de 2005 (leia lista ao lado). O filme, que cruza as memórias afetivas da infância e adolescência do diretor com a história do país entre os anos 50 e 70, acabou levando sete troféus, incluindo os de melhor filme, roteiro, atriz (Arly Arnaud), atriz (Valderez Freitas Teixeira) e ator (Fernando Neves) coadjuvantes e o prêmio da crítica. Saiu de Brasília com cerca de R$ 130 mil em prêmios. O elenco do filme desbancou favoritos como Dira Paes (Incuráveis, de Gustavo Acioli) e Fábio Sabag (coadjuvante em O veneno da madrugada, de Ruy Guerra). A atriz Rita Santana, mulher do diretor e preparadora dos atores do filme, foi receber o Candango em nome de Arly e vibrou com a premiação dos atores baianos. - É uma vitória dos atores maravilhosos do nosso Nordeste abandonado! - saudou Rita. - Estou completando 50 anos de carreira este ano e nunca havia ganho um prêmio antes. Tinha esperança de entrar para o livro Guiness dos recordes, mas o júri oficial me tirou essa chance - brincou Fernando Neves. Navarro, que no debate que se seguiu à projeção do filme, na manhã de terça-feira, se descreveu como ''um louco, extremista, dramático, neurótico, fronteiriço'' e que encontrou no cinema a sua ''salvação e redenção'', elogiou o momento da produção brasileira, refletido na seleção do festival este ano. - Viva o cinema brasileiro, que tem conseguido mostrar tantos filmes bonitos, como estes que vimos aqui em Brasília ao longo dos últimos seis dias. Estou em estado de graça - disse o diretor. O segundo filme mais premiado da noite foi o documentário À margem do concreto, de Evaldo Mocarzel, sobre o movimento dos sem-teto de São Paulo. O filme, aplaudidíssimo pelo público brasiliense, ficou com o Prêmio Especial do Júri e os troféus de melhor som e melhor filme segundo o voto popular. - Quero agradecer aos líderes dos movimentos de moradia paulista por terem confiado em mim como pessoa. Sem eles este filme não seria possível - disse Mocarzel, que faturou prêmios nos principais festivais nacionais este ano com o documentário Do luto à luta. - Tenho que agradecer ao Evaldo porque a gente não precisou usar picareta para abrir as portas do cinema para poder mostrar este filme. A gente só queria ser mostrado como gente de bem, que luta pelos nossos direitos. Não somos invasores ou marginais, como a imprensa costuma se referir a nós - emendou Verônica Krol, uma das líderes do movimento paulista e personagem de À margem do concreto. O veneno da madrugada, de Ruy Guerra, e A concepção, de José Eduardo Belmonte, empataram com dois prêmios oficiais cada. A adaptação do romance de Gabriel García Márquez realizada pelo autor de Estorvo cravou os Candangos de melhor fotografia (Walter Carvalho) e direção de arte (Marcos Flaksman). A produção brasiliense, que fala sobre um grupo de jovens do Distrito Federal que pregam a morte ao ego, ficou com os de melhor montagem (Paulo Sacramento e Belmonte) e trilha sonora (José Pedro Gollo). Entre os curtas, Rapsódia para um homem comum, de Camilo Cavalcante, levou a melhor, ficando com os troféus de direção, ator e o prêmio da crítica. Mas foi Rap, o canto da Ceilândia, de Adirley Queiroz, sobre os rappers da cidade-satélite mais violenta da capital federal, que amealhou a estatueta de melhor curta. A festa, no entanto, era da equipe de Eu me lembro. Juntos, posando com os troféus para os fotógrafos no palco do Teatro Nacional, entoavam versos de uma canção popular usada no filme: ''Cadê meu lenço branco / lavadeira, / que eu te dei para lavar,/ lavadeira?''. Os premiados LONGAS Filme: Eu me lembro, de Edgar Navarro Prêmio Especial do Júri: À margem do concreto, de Evaldo Mocarzel Direção: Edgar Navarro (Eu me lembro) Ator: Fernando Eiras (Incuráveis) Atriz: Arly Arnaud (Eu me lembro) Ator coadjuvante: Fernando Neves (Eu me lembro) Atriz coadjuvante: Valderez Freitas Texeira (Eu me lembro) Roteiro: Edgar Navarro (Eu me lembro) Fotografia: Walter Carvalho (O veneno da madrugada) Direção de arte: Marcos Flaksman (O veneno da madrugada) Trilha sonora: Zé Pedro Gollo (A concepção) Som: Miriam Biderman, Ricardo Reis e Ana Chiarini (À margem do concreto) Montagem: Paulo Sacramenteo e José Eduardo Belmonte (A concepção) Júri popular: À margem do concreto Prêmio da crítica: Eu me lembro CURTAS Filme: Rap, o canto da Ceilândia, de Adirley Queiroz Direção: Camilo Cavalcante (Rapsódia para um homem comum) Ator: Cláudio Jaborandi (Rapsódia para um homem comum) Atriz: Iara Jamra (O caderno rosa de Lori Lamby) Roteiro: Sílvia Rocha Campos e João Carlos Rocha Campos (Quem você mais deseja) Fotografia: Roberto Iuri (O meio do mundo) Montagem: Erik Rocha (De Glauber para Jirges) Prêmio da crítica: Rapsódia para um... CINEMA EDUARDO SIMÕES "Alertem todos alarmas que o homem que eu era voltou." O verso da canção "O que Foi Feito Deverá", de Milton Nascimento, que acompanha os créditos finais de "Eu Me Lembro", parecia um prenúncio: o diretor baiano Edgard Navarro voltou, foi visto e venceu. O filme, estréia do cineasta na direção de um longa, foi o último a ser exibido na mostra competitiva e terminou favorito, ganhando um total de sete prêmios no Festival de Brasília, anteontem. Muito emocionado, Navarro chegou a cair do palco depois de receber os troféus de melhor roteiro e direção. Depois do susto, e de novo em pé, Navarro mal teve tempo de voltar à platéia e retornou ao palco para pegar o Candango de melhor filme, sob efusivos aplausos do público. "Vocês querem me matar? Eu estou em estado de graça, transbordando de alegria", disse o diretor, acompanhado de parte do elenco e equipe de "Eu Me Lembro", que também foi eleito o melhor filme pela crítica e ganhou os Candangos de melhor atriz (Arly Arnaud), ator e atriz coadjuvantes (Fernando Neves e Valderez Freitas Teixeira). No palco, Navarro saudou a beleza dos concorrentes e ressaltou uma conexão entre seu filme e "A Concepção", longa do brasiliense José Eduardo Belmonte, que levou três prêmios (montagem, trilha sonora e Câmara Legislativa; veja os principais vencedores no quadro ao lado). "Os dois filmes fazem o resgate de um tesouro perdido; no caso de "Eu Me Lembro", no passado, e de "A Concepção", voltado para o futuro. Fico feliz de estar vendo este cinema brasileiro do futuro", disse Navarro. Premiado em Brasília em 1985 e 1986 com os curtas "Porta de Fogo" e "Lyn e Katazan", e em 1989 em Gramado, com o média "SuperOutro", considerado um cult, Navarro amargou um longo hiato em sua carreira. Em "Eu Me Lembro", o diretor criou um diálogo entre sua vida e os anos de ditadura e de desbunde no Brasil, numa clave memorialista com algo de "Amarcord", de Fellini. No debate na manhã seguinte à exibição, Navarro salientou a "afetividade" de seu filme, criando um contraponto com o "racionalismo" de "O Veneno da Madrugada". Grande expectativa do festival, o matemático exercício de narrativa de
Guerra ganhou apenas os Candangos de melhor direção de arte para Marcos
Flaksman e fotografia para Walter Carvalho. "Foi uma imensa honra
trabalhar com um dos maiores diretores do cinema mundial", afirmou
Flaksman. "Fazer um filme com Ruy Guerra e receber um prêmio em Brasília
é ser duplamente premiado", disse Carvalho. "Queria também agradecer aos movimentos de moradia de São Paulo pela confiança que depositaram em mim, o que me deu muita liberdade para fazer o filme", disse Mocarzel, acompanhado de Verônica Kroll, líder do Fórum dos Cortiços. "O filme atingiu o público. Espero que ele agora atinja as portas dos governo que se fecham para nós", afirmou Kroll, reiterando a vocação política do festival. Cine nordestino domina noite de premiação ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA Entre os curtas, salvo os Candangos dos júris oficial e popular para o brasiliense "Rap, o Canto da Ceilândia", e de melhor atriz para Iara Jamra por "O Caderno Rose de Lori Lamby", a noite de premiação foi mesmo do cinema nordestino, aplaudido com veemência. O curta pernambucano "Rapsódia para um Homem Comum" foi adquirido pelo Canal Brasil e ainda levou os prêmios da crítica e os Candangos de melhor direção, para Camilo Cavalcante, e de melhor ator, para o cearense Cláudio Jaborandi. E "O Meio do Mundo", do paraibano Marcus Vilar, ficou com o Candango de melhor fotografia, para Roberto Iuri. Ao receber o prêmio de melhor diretor, Edgar Navarro, que receberá um prêmio de R$ 30 mil como melhor roteirista e diretor, gritou: "Nós somos muito pobres!". Da platéia, alguém prontamente respondeu: "Vocês são muito ricos!". Mas foi a mulher do diretor de "Eu Me Lembro", a atriz baiana Rita Santana, quem fez o discurso mais inflamado. Ao receber os troféus em nome das atrizes Arly Arnaud e Valderez Freitas Teixeira, Santana ressaltou que seu trabalho de preparação no elenco foi quase invisível. Mas fez uma ressalva: "Estes prêmios são nossos, atores e atrizes que estamos desprezados no Nordeste. Obrigado, júri, por ter visto a beleza dos atores nordestinos", disse Santana, chorando. (ES) SuperOutro voa alto
Rodrigo
Fonseca Primo terceiro-mundista do último filho de Kripton, o SuperOutro, personagem-título do filme que consagrou Edgard Navarro nos anos 80, deve estar voando pelos céus da Bahia com um sorriso de vitória. E também com uma dó no coração pela dor que ainda deve estar torturando seu criador, o diretor mais premiado do Festival de Brasília com seu “Eu me lembro”. — Vocês querem me matar! — berrou Navarro. E não foi à toa. Foi dos mais feios o tombo levado pelo cineasta baiano, um estreante em longas de 56 anos, ao pular de alegria nas escadas de acesso ao palco do Teatro Nacional Cláudio Santoro (sede de encerramento da mostra brasiliense, realizada anteontem), com o prêmio de direção nas mãos. Este foi só um dos sete que recebeu, numa noite em que a única questão política mencionada no palco foi referente à melhora do fomento para o pólo cinematográfico brasiliense. Mas, de alguma forma, o brado castro-alvista que reverbera pelo belíssimo filme de Navarro se reproduziu em seus discursos de agradecimento com uma saliência levemente política: — Já fomos chamados para mostrar o filme na Mostra de Tiradentes e em Tolouse, na França. Tô até pensando em tentar encaixá-lo em Cannes, se os caras de lá me quiserem. Se a aceitação popular for boa, ano que vem não vou estar mais aqui. Mas pelo mundo... Vou até comprar um jatinho — divertia-se o diretor, que, junto das estatuetas, pôs no bolso R$ 135 mil. — Tô rico!!! Não tô mais pobre! Há 16 anos, Navarro entrou para a história do cinema nacional graças a “SuperOutro”, que lhe rendeu os Kikitos de filme e direção em Gramado. Antes disso, era ele apenas um curta-metragista furioso (na ativa desde 1976) e talentoso, incorporado na pele de um engenheiro bem formado que, na pindaíba, chegou a participar de campanhas políticas. Após uma entressafra silenciosa, “Eu me lembro”, que ele planeja lançar em fevereiro, esculpe seu nome uma vez mais na pedra fundamental do cinema brasileiro, com um cinzel de tumulto. — Se esta foi a revanche do SuperOutro? Acho que não — diz o cineasta. — Ele nunca foi abatido. Tá voando até hoje. Esta foi a revanche do Edgard Navarro, que ficou no chão por anos e anos. Também brilharam no encerramento do Festival de Brasília o cineasta niteroiense Evaldo Mocarzel e a líder de movimentos de sem-teto Verônica Kroll, uma das principais entrevistadas pelo documentarista no nitroglicerinado “À margem do concreto”. Mocarzel contabilizou um total de dividendos de R$ 40 mil, advindos como ganho paralelo ao Candango de melhor som, o prêmio especial do júri e o prêmio de júri popular. — Esse filme deveria atingir e atingiu o público. Agora ele tem que atingir a porta dos palácios onde fica o poder no país — disse Verônica. Apesar de merecida, a decisão concentrada do júri formado pelo roteirista Di Moretti, os cineastas Érika Bauer, João Jardim e Sylvio Back, a atriz Simone Spoladore, e os jornalistas Inimá Simões e Luiz Carlos Merten em “Eu me lembro” desmereceu aquele que, por mais tempo, foi o favorito do festival: o bangue-bangue semiológico “O veneno da madrugada”, de Ruy Guerra. Título mais fascinante (e difícil) da competição, ele levou apenas os Candangos de direção de arte e fotografia, contemplando a perfeita sintonia entre os cliques de Walter Carvalho e a composição espacial de Marcos Flaksman. Mas a genial direção de Guerra foi subestimada. — Fazer um filme com Ruy e ser premiado aqui equivalem a ser premiado duas vezes — disse Carvalho, estendendo os méritos que lhe renderam a láurea a Flaksman, ao maquinista, o eletricista e a seus assistentes no filme, entre eles seu filho Lula Carvalho. Por acaso, Lula fotografou uma das mais injustiçadas produções do festival: “Incuráveis”, de Gustavo Acioli, que sai de Brasília com um Candango só: o de melhor ator para Fernando Eiras. Dado como certo pelo diretor e por boa parcela da crítica tamanha foi a visceralidade de sua interpretação, o prêmio de melhor atriz para Dira Paes acabou nas mãos da baiana Arly Arnaud de “Eu me lembro”. Mas a maior consagração de “Eu me lembro” foi a quebra de um recorde. Depois de 50 anos de carreira sem nunca ganhar sequer um premiozinho, Fernando Neves, que vive o pai do protagonista, levará para Salvador o Candango de coadjuvante. O festival cumpriu bem o seu papel Provocador (mas conservador), “A concepção”, do brasiliense José Eduardo Belmonte, também saiu apinhado de láureas. Dos jurados, abiscoitou os Candangos de trilha sonora e montagem, confirmando o talento de Belmonte e de Paulo Sacramento, montador de “Amarelo manga” e diretor de “O prisioneiro da grade de ferro”. Da equipe de críticos do jornal “Correio Brasiliense”, ganhou o cobiçado prêmio Saruê. E houve ainda o prêmio de R$ 50 mil em dinheiro (mais R$ 10 mil em equipamentos) concedido pela Câmera Legislativa do Distrito Federal aos longas nativos, o que rendeu uma reflexão de Belmonte. — É importante esse reconhecimento. Mas é estranho concorrer com ninguém — provocou o diretor, informando ser o único longa “da casa” apto a concorrer em 2005. “Depois daquele baile”, de Roberto Bomtempo, foi o único longa concorrente a deixar Brasília com nada mais do que experiência. No fim das contas, fica a sensação de que Brasília cumpriu a missão que a classe cinematográfica lhe atribuiu: dar continuidade à esfuziante fornada que, desde o Festival do Rio, em outubro, demonstra a maturidade estética da produção nacional. Aquela que alguns chamaram, pejorativamente, de “pulverizada”. E outros, com mais bom senso, de renovadora. Vitória de "Eu me Lembro" emociona platéia Luiz Zanin Oricchio O diretor Edgard Navarro, emocionado, até caiu no palco e torceu o pé, no momento de receber o prêmio de melhor filme
Brasília - Eu me Lembro teve uma das maiores vitórias de um filme no festival, ganhando os troféus Candango de melhor filme, diretor, roteiro, atriz protagonista, ator e atriz coadjuvantes. Isso entre os prêmios do júri oficial, porque faturou também o da crítica. Depois dessa avalanche, pouco sobrou para os outros. O documentário À Margem do Concreto ficou com o Prêmio Especial do Júri e som (Miriam Biderman, Ricardo Reis e Ana Chiarini), além do júri popular. Veneno da Madrugada, o badalado filme de Ruy Guerra, tido como um dos favoritos, teve de se contentar com dois prêmios técnicos, fotografia para Walter Carvalho, e direção de arte para Marcos Flaksman. Já o concorrente local, o polêmico A Concepção, levou apenas os Candangos de montagem (Paulo Sacramento e José Eduardo Belmonte) e trilha sonora (Zé Pedro Gollo), além do prêmio São Saruê, dado pelo jornal Correio Braziliense. O carioca Incuráveis ganhou o troféu de ator (Fernando Eiras) e Depois daquele Baile, de Roberto Bomtempo, apesar de funcionar à base de um elenco global (Lima Duarte, Marcos Caruso e Irene Ravache), saiu de mãos abanando. O brasiliense Rap, o Canto da Ceilândia, de Adirley Queiroz, foi o melhor curta em 35 mm e Macacos me Mordam, de Érico Cazarré, o escolhido em 16 mm.
A cerimônia de premiação, que aconteceu no Teatro Nacional, após a exibição do documentário O Senhor das Águas, de Leopoldo Nunes, seguia de forma serena. Quando, porém, os prêmios começaram a se concentrar sobre Eu me Lembro, Edgard Navarro foi perdendo o prumo. A tal ponto que, quando convocado a receber o troféu de diretor, urrou como animal ferido: "Vocês querem me matar?!". Não era uma pergunta, nem sequer um desabafo. Era uma afirmação, que todos temeram ver confirmada quando em seguida ele tropeçou e caiu do palco, bem em cima do fotógrafo do Estado, Dida Sampaio. Navarro não se levantava e houve quem receasse pelo pior. Mas era só emoção em excesso e, do incidente, sobrou um pé torcido, que não o deixou dormir durante a noite. Foi socorrido, noite alta, por sua conterrânea, Dona Lúcia, mãe de Glauber Rocha. Navarro seguiu rumo ao aeroporto em cadeira de rodas, para regressar a Salvador. Outro momento comovente para a platéia se deu quando o ator baiano Fernando Neves (que faz o pai do narrador em Eu me Lembro) subiu ao palco para receber seu troféu de coadjuvante. Com a voz embargada disse que aquele era o primeiro prêmio recebido em uma carreira de 50 anos. A platéia o aplaudiu de pé. Emocionado, ele temperou com muito humor: "Eu já estava quase entrando para o Guiness por essa falta de prêmios e vocês vieram me atrapalhar". Memorialístico, Eu Me Lembro refaz uma vida, mas também o percurso de toda uma geração que anda agora pela faixa dos 50 anos. Da infância, atormentada entre a repressão religiosa e os apelos da sexualidade nascente, à juventude cortada por um golpe militar, e que finalmente tentou encontrar nas drogas e no desbunde uma saída desesperada para o seu próprio sufoco. O filme traça retrato marcante da classe média branca e da presença dos negros no tecido orgânico da sociedade baiana. Confira a relação dos premiados LONGA EM 35MM PRÊMIO ESPECIAL DE JÚRI: À Margem do Concreto, de
Evaldo Mocarzel, pela visão crítica de um sistema cruel e injusto e pela
determinação em dar voz a pessoas que lutam pela afirmação de sua
cidadania. CURTA OU MÉDIA-METRAGEM EM 35MM |
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