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"O prêmio representa um reconhecimento ao bom momento pelo que passa o cinema brasileiro" EFE Huelva, Espanha - O diretor Sergio Machado, ganhador do "Colón de Oro" do XXXI Festival de Cinema Ibero-americano de Huelva pelo filme Cidade Baixa, considera que o prêmio "representa um reconhecimento ao bom momento pelo que passa o cinema brasileiro". Ele disse que está "muito contente, porque é um grande prazer e um prêmio especial". O cineasta mencionou também que outro filme brasileiro, Quase dois irmãos, também foi reconhecida pelo júri do concurso. Machado lembrou também que no último festival de Cannes concorreram dois filmes brasileiros, "o que confirma o bom momento que temos no nosso cinema". O cineasta ressaltou também o prêmio de melhor ator concedido a Wagner Moura "porque sempre se falou de como são bons os atores protagonistas, mas é o primeiro (prêmio) que recebemos neste sentido". Sobre o filme, o diretor indicou que "fala do importante que é a amizade para continuar vivendo". O projeto surgiu, segundo explicou, com o objetivo de "conhecer um pouco mais os jovens do Brasil de classe baixa, que não têm muitas expectativas, mas que conseguem sair adiante". Sergio Machado começou a carreira como roteirista e diretor do premiado curta-metragem "Troca de Cabeças", protagonizado por Grande Otelo e Léa Garcia. Dirigu os documentários "Baguncaço"(1994), "Três Canções Indianas" (1995) e "Agora é Cinza", este último é um dos três episódios do longa-metragem "3 Histórias da Bahia". Machado trabalhou também como ajudante de direção e diretor de elenco dos filmes "Central do Brasil" (1998), "O primeiro dia" (1999), e "Abril despedaçado" (2001) dirigidos por Walter Salles. Em 2000 dirigiu o documentário "Onde a Terra acaba" resultado de dois anos de pesquisa sobre a vida e o trabalho do diretor brasileiro Mário Peixoto (1902-1992). O cineasta brasileiro foi também co-roteirista de "Madame Satã", premiado há três anos no mesmo concurso. "Cinema, Aspirinas e Urubus" une forma e geografia WALTER SALLES Quando nasceram os filmes de estrada? Em Homero, no desejo de Ulysses retornar à casa? Nos primeiros documentários de cineastas-viajantes como Robert Flaherty? Na influência dos fotógrafos humanistas que, como Cartier-Bresson, cruzaram fronteiras para entender como viviam os outros, aqueles que não faziam parte de sua própria cultura? Provavelmente, em todas essas origens. Filmes de estrada são a extensão de uma condição que é intrínseca ao homem, a do nomadismo. Mas nem todos os filmes de estrada são iguais. Há infinitas correntes. Dentre elas, há aquelas que revelam um desconforto com uma identidade nacional em mutação, como "No Decurso do Tempo" (1976), de Wim Wenders. Há aquelas que acompanham a crise existencial de um personagem, como em "Flores Partidas", de Jim Jarmusch. E há filmes em que essas duas tendências se mesclam, em que os personagens agem e derivam por causa de suas próprias indagações mas também porque a história se encarrega de alterar seus destinos. É o caso de "Cinema, Aspirinas e Urubus", o ótimo filme de estréia de Marcelo Gomes. Interior de Pernambuco, início dos anos 40. Johann (Peter Ketnath) é um comerciante alemão que foge da guerra em seu país. Vende aspirinas na estrada, apoiado numa novidade tecnológica: o cinema. Exibe filmes de graça para os povoados, precedidos de comerciais... de aspirina. Ranulfo (João Miguel) é um sertanejo que tenta escapar do sertão para sobreviver. Mas não é o personagem-arquétipo dos filmes sobre o Nordeste. Pode não ser um forte, mas sabe se virar. É cáustico, tem um humor desconstrutivo, sabe observar. Por alguns dias, as suas histórias vão se cruzar. "Cinema, Aspirinas e Urubus" se justifica nessa convergência, baseada em duas formas diferentes de descobrimento. Primeiro, o do outro, daquele que é diferente de você. Mas há também o descobrimento do cinema, da misteriosa relação entre sons e imagens. É um filme sobre uma pátria, a do cinema, mas também um filme sobre uma "fratria" possível, aquela em que a diferença é desejada e aceita. Tão importante quanto esse achado narrativo é a forma pela qual Marcelo Gomes optou para contar a sua história. Desde que Nelson Pereira dos Santos e Luiz Carlos Barreto, sob a influência de José Medeiros, reinterpretaram a luz brasileira em "Vidas Secas", não se via uma tradução tão orgânica do calor e da aridez do sertão no cinema. Sente-se na pele como é viver naquela geografia. Da mesma forma, os não-atores que contracenam com os dois personagens centrais adensam a trama e ajudam a torná-la específica. "Cinema, Aspirinas e Urubus" revela ao mesmo tempo um diretor cheio de talento (Marcelo Gomes), um ator luminoso (João Miguel), um fotógrafo de mão cheia (Mauro Pinheiro). Tudo certo, portanto? Não. Foram necessários sete anos para que o filme se tornasse realidade. Ora, uma cinematografia só se torna realmente representativa quando os mestres continuam a filmar com freqüência e quando os jovens cineastas chegam com constância para oxigenar a narrativa. No Brasil, isso não acontece com a regularidade possível ou desejada. "Cinema, Aspirinas e Urubus" é, nesse sentido, ao mesmo tempo a prova do talento que existe para cinema no Brasil e a evidência de que o nosso atual modelo de produção precisa urgentemente ser revisto. O cineasta Walter Salles é diretor de "Abril Despedaçado", "Central do Brasil" e "Água Negra", entre outros |
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