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O documentarista
Eduardo Coutinho |
Miguilim, Sorôco, Riobaldo ou qualquer outro exemplar da fauna literária de
Guimarães Rosa daria muxoxos de desdém se ouvissem o fraseado dos habitantes
de São João do Rio do Peixe — um extremo do sertão paraibano, a 500km de
João Pessoa — filmados por Eduardo Coutinho em “O fim e o princípio”.
Murchas pela erosão dos anos, bocas que viveram o suficiente para registrar
a travessia do tempo numa gradação avessa à informatização urbana falam de
vida, morte e toda a sorte de contrários que cabem em 110 minutos.
Alguns
beiram um existencialismo que deixaria o sartriano mais xiita de queixo na
mão. Lançado sexta-feira, com duas cópias no Rio, o novo longa do sumo
pontífice do documentário brasileiro, cujo tema foi mantido em sigilo até
sua exibição hors-concours no Festival do Rio, em outubro, só foi
possível graças à intervenção da professora primária Rosa. Nesta conversa,
ele explica por quê. E fala dos desdobramentos políticos de seu “Peões”
(2004) e de uma peculiaridade musical.
Rodrigo Fonseca
Quando “O fim e o princípio” começou a ser rodado, surgiu o boato de que
o filme seria uma ficção, um road movie paraibano. Como foi a gênese do
projeto?
EDUARDO COUTINHO: Em 2003, eu estava montando “Peões”, e o João
(Moreira Salles, o produtor do longa a partir da Videofilmes) me
perguntou: “Que filme você quer fazer agora?”. Eu pensei, em primeiro lugar,
que queria fazer um filme em ambiente rural, pois todos os filmes que eu
tenho feito desde “Santo forte” são filmes de metrópole, e eu estava de saco
cheio de filmar nelas. Segundo, queria fazer um filme sem nenhuma pesquisa
prévia. E por que o sertão da Paraíba? Poderia ter feito este filme em Minas
Gerais, onde esse rural rebuscado, com riqueza oral, também existe. Mas como
as primeiras filmagens do “Cabra...” foram na Paraíba, tenho simpatia por
lá. E há a visão mítica de que ali foi uma terra de grandes poetas
populares.
Se não houve pesquisa, como vocês chegaram a São João do Rio do Peixe?
COUTINHO: Em 2004, ao sair para filmar, a primeira coisa que fiz foi
comprar um “Guia Quatro Rodas” qualquer da vida. Só que ali há poucas
referências a cidades pequenas. Daí, comprei um mapa, onde tinha Cajazeiras,
uma cidade de 50 mil habitantes que está a cerca de 500km do Ceará. Mas, por
acaso, o hotel para onde fomos não ficava em Cajazeiras, mas na região, em
um local chamado São João do Rio do Peixe, a 30km da sede da cidade, o que
significaria duas horas para ir, três para voltar. Resolvemos ficar ali. Foi
quando encontramos a Rosa, na Pastoral da Criança, e a contratamos como se
fosse uma assistente de produção, uma guia. Tinha ilusões de que filmaria
sem mediador, que chegaria numa casa e filmaria de longe, com toda uma
técnica de aproximação. Mas essa idéia romântica acabou. E nos concentramos
na comunidade dela.
Rosa foi essencial, então?
COUTINHO: Foi extraordinária, porque ela vive entre dois mundos. Tem
toda uma relação com a família, é católica tradicional, tipo João Paulo II,
mas se interessa pelo mundo, pela política. Apesar de nunca ter visto
cinema. Ela escreveu, em um caderno, as 86 casas do sítio, com os nomes das
pessoas que lá moravam. Fez o roteiro do filme naquele papel. A confiança
que ela inspirava fez com que as pessoas falassem. Há um personagem que diz:
“Se a Rosa dissesse que é para ficar em casa hoje à noite, e fosse ter um
incêndio, eu ficava em casa”. Fomos em 30 e poucas casas. Ficaram umas 15. E
18 personagens.
O saldo da aventura foi positivo?
COUTINHO: Na minha idade, fazer um filme e montá-lo é um enorme
prazer. Isso é o que me basta.
A experiência de “O fim e o princípio pode ser repetida?
COUTINHO: Ela foi ótima. Tô com vontade de fazer uma outra
filmagem assim, sem pesquisa ou tema. E sobre a vida de pessoas... Mas não
sei como. O problema é encontrar um limite espacial. São João do Rio do
Peixe é um sítio. No Rio, fica complicado e tenho de filmar barato.
“O fim e o princípio” está em cartaz ao mesmo tempo que “Morro da
Conceição”, longa de estréia de sua assistente e braço-direito, Cristiana
Grumbach. Há muitas semelhanças entre os filmes: o dela também mostra velhos
moradores de um mundo perdido no tempo. Essas produções se complementam
esteticamente?
COUTINHO: No fundo, o dispositivo deles é semelhante. A gente não
entrevista, a gente conversa. A Cris vem, fala com as pessoas, sem pôr
cobertura, sem enfeitar a cena, filma no mesmo lugar e fica neste lugar. Só
que o uso que ela faz desse dispositivo é diferente do meu. Se os dois
filmes se complementam? De certa forma, sim. Mas é uma coincidência. Ela fez
seu filme muito antes. E eu suspeitava que iria fazer um filme com velhos,
em que a morte aparecesse direta e indiretamente. Gosto muito do filme dela.
Durante o Festival de Tiradentes (MG), de 2003, que o homenageou, o
senhor disse nutrir a vontade de fazer um filme em que pessoas cantassem
músicas de Roberto Carlos. Esse projeto existe?
COUTINHO: Nos meus filmes, adoro ter pessoas que têm uma relação com
a música, que cantam. Gostaria de fazer um filme só com pessoas que lembram
emocionalmente de fatos a partir das músicas de Roberto Carlos. Seria
extraordinário, independentemente da discussão de que Roberto é brega. Ele
atravessa a História do país.
Essa idéia sai do papel?
COUTINHO: Não. Seria muito complicado em função da autorização, dos
direitos autorais. Fora que esse filme não teria limite espacial, uma vez
que uma figura como ele percorre todo o Brasil. Quando eu fiz “ABC do amor”
(co-produção entre Brasil, Chile e Argentina, feita em 1966, em três
episódios, na qual Coutinho assina “O pacto” ) ... Bom, eu nem gosto de
falar das minhas ficções, mas... vai lá... Nesse filme, tem uma cena em que
se ouve “Que tudo mais vá pro inferno”. Naquele tempo podia. Além dessa, tem
a Wanderléa cantando uma música extraordinária, chamada “Ingratidão”, e há
aqueles... Como era o nome? Os Golden Boys. Os Golden Boys cantavam “Alguém
na multidão”. E não era algo brega.
O senhor gosta do Rei?
COUTINHO: Na época, gostava. Nos últimos anos, é mais complicado,
né ? Mas até 70 e poucos...
Em “Peões”, o senhor entrevistou operários que participaram dos comícios
de Luiz Inácio Lula da Silva no fim dos anos 70 e início da década de 80.
Procurou até ex-colegas do presidente. Hoje, após os escândalos de Roberto
Jefferson e cia. e as acusações de corrupção contra o governo, o que os
“peões” de seu filme têm a dizer sobre Lula?
COUTINHO: Também tenho curiosidade de saber. Ouvi dizer que o “Estado
de São Paulo” mandou um repórter para São Bernardo ouvir as pessoas que
falaram comigo. Se fizeram direito, não sei, mas acho que esse é um papel
para o jornalismo. Não gosto de voltar ao “local do crime”. Voltei no
“Cabra...” porque tinha de terminar o filme. Já voltar ao “Babilônia”, ao
“Master”... Isso, não. Para o jornalismo, isso faz sentido. Para o cinema
que faço, não. Eles não vão me dar depoimentos sobre o que viveram da mesma
forma. Vão me dar dados, dizer se se desiludiram. Acho que as pessoas mais
próximas ao sindicato devem continuar acreditando.
Por que não gosta de falar das ficções que fez?
COUTINHO: Porque elas passaram. Foi uma boa escola. Não me arrependo
de ter feito nenhuma delas. Fiz dois longas (“O homem que comprou o
mundo”, de 1969, e “Faustão”, de 1971) e um média (“O pacto”)
e foram todos mais ou menos obscuros. Escrevi roteiros pros outros
nos anos 70 (inclusive o de “Dona Flor e seus dois maridos”, o maior
sucesso de bilheteria nacional) . Mas foi bom como experiência.
Experiência de dramaturgia, de dirigir atores. O fato de lidar com a direção
de atores ajuda no documentário. Ajuda a evitar aquilo que se faz quando se
dirige um ator: os problemas de colocar a pessoa no lugar certo, ver a
posição dela em relação à luz, enfim, todas as vantagens e limitações da
ficção. Com personagens reais, a coisa é mais bruta. Se ele está sentado,
tenho de fazer a conversa ali, onde ele está sentado.
Em 2002, a Riofilme anunciou o lançamento em DVD de “Cabra marcado para
morrer” (1984). E até hoje, nada... O que aconteceu?
COUTINHO: O “Cabra...” é um filme de 21 anos. Certa hora, a Riofilme
quis lançá-lo em DVD, mas esqueceu-se da coisa principal: ver o estado do
filme. Ele está na Cinemateca Brasileira. Pedi um laudo de suas condições, e
ele estava em um estado lastimável. Tem, inclusive, 57 emendas. Emenda em
negativo é complicado. Você usa até esparadrapo. Tinha sujeira sobre a
película. Daí, fiz uma experiência de levar o pior rolo para (o
laboratório) Casablanca e pedimos o orçamento da recuperação
eletrônica, o mesmo processo que foi feito com “Terra em transe” (filme
emblemático de Glauber Rocha, lançado em 1967) . Só que no caso do
“Cabra...”, ele encareceria, por ser um filme colorido. “Terra em transe”,
não. O orçamento foi US$ 300 mil. Para que algo aconteça, eu tenho que parar
e pensar numa solução. Sei que isso é horrível de dizer, mas às vezes acho
que, se eu estivesse morto, seria mais fácil.
(©
O Globo)
O FIM E O PRINCÍPIO
SINOPSE:
Uma equipe de cinema chega ao sertão da Paraíba em busca de pessoas que
tenham histórias para contar. Acabam colhendo depoimentos filosóficos
sobre vida, morte, religião, amor e outros grandes temas. Do mesmo diretor
de "Edifício Master" e "Cabra Marcado para Morrer".
Título original:O Fim e o Princípio
Direção: Eduardo Coutinho
(©
UOL Cinema)
Documentarista na corda bambaEntrevista: Eduardo Coutinho
A entrevista começou como se fôra um documentário de Eduardo Coutinho.
Gravador acionado, ele – o entrevistado – é que foi conversando com as
pessoas, a fim de conhecê-las. Perguntei se ele documentava o mundo o
tempo todo e me respondeu: “Não, pois sem a câmera haveria coisas
extraordinárias que eu teria perdido”. Antonia então perguntou por que não
anota as idéias qur surgem. E ele revelou que odeia escrever: “Os
documentários para mim são maravilhosos porque conto histórias sem
precisar escrevê-los”. Foi curioso isto vindo de uma pessoa que escrevia
tão bem, roteirista de “Lição de Amor”, “Dona Flor e seus Dois Maridos”,
“A Falecida”, “Garota de Ipanema”. Depois entendi: seu fascínio pelas
palavras é tão imensa que lhe é doloroso escrever umas em detrimento de
outras. Aí filma a fala oral. Os personagens de seus documentários são
mais do que as pessoas, são o que elas falam – e a maneira pela qual se
expressam (e isto inclui o gestual). Quando desvendam a alma, falam com o
corpo.
Coutinho faz cinema mínimo invertendo a máxima: para ele uma
palavra vale por mil imagens. E conversando com Pimentel, Ricky, Antonia,
Zezé e Paula Sack (do Caderno B), com a cineasta Isa Albuquerque, a
jornalista Leila Sarnento (TVE) e o crítico Daniel Schenker
(críticos.com.br), acrescentou um motivo para fazer documentários: “A
ficção tem que ter tanta qualidade quanto a realidade de que ela fala, e
geralmente a realidade é muito mais rica”.
(Ricky Goodwin)
Ricky Goodwin - Você é um documentarista o tempo
todo? Vive a realidade como se fosse um documentário?
Eduardo Coutinho - Não, sem a câmera eu ficaria
perdido, haveria coisas extraordinárias que eu teria perdido.
Antonia Leite Barbosa - Você não anota idéias
que depois podem se transformar em filmagens?
Coutinho - Não, eu penso e escrevo o mínimo
possível. Aliás, como odeio escrever, os documentários para mim são
maravilhosos porque conto histórias sem precisar de escrevê-los.
Luís Pimentel - Você não escreve seus próprios
roteiros?
Coutinho - Escrevo falsos roteiros para angariar
interesse pelos filmes. Sinopses já são coisas chatíssimas.
Ricky - Você fez uns dois ou tres filmes nos
anos 60 e abandonou o cinema. Por que?
Coutinho - Tive filhos, ganhava mal, o cinema
estava uma droga, eu não estava satisfeito com o que eu fazia. Fui
trabalhar como copidésqui no Caderno B, com Alberto Dines. Depois de tres
anos me chamaram para o “Globo Repórter”, com Nilson Alves, Washington
Novaes e Paulo Gil Soares, e lá eu fiquei nove anos. Cada programa tinha
tres temas, mas cheguei a fazer seis programas inteiros, com reportagens
de 50 minutos. Havia ali uma grande liberdade, as reportagens se
aproximavam muito da linguagem do documentário. Foi uma grande escola. Eu
filmava, editava, escrevia textos para os programas de outros diretores,
via a cozinha dos programas. Aprendi a conversar com as pessoas e a filmar
com uma agilidade que o cinema brasileiro não tinha naquela época, com
isso de chegar com uma câmera e já começar filmando.
Pimentel - Você diz que não gosta de escrever
mas devia ter um texto ótimo, porque os copidesquis do B naquela época só
eram feras.
Ricky - E você foi também roteirista de filmes
como “A Falecida”, “Garota de Ipanema”, “Dona Flor e seus Dois Maridos”...
Coutinho - A neurose da escrita veio depois.
Ricky - Algum programa te marcou especialmente?
Coutinho - Viajei em 76 para uma cidade chamada
Cori-Cori para fazer uma reportagem de dez minutos sobr a seca. Eu estava
naquela miséria, não vinha comida da capital, as pessoas morriam de fome,
desesperados, a gente tinha medo de ser agredido... O material era tão
forte que passamos seis dias lá. Armando Nogueira, diretor de jornalismo,
quando viu passou esse segmernto para 37 minutos. Tem um plano de tres
minutos e 10 segundos onde um cara de uns 30 anos, com uma voz grave, fala
sobre as quatro raízes que eles são obrigados a comer na seca. “Essa aqui
eu comia na seca de 58... quem come isso é porco!” Imagina isso hoje! E o
plano era fixo!
Daniel Schenker - As reportagens hoje mostram
mais o repórter passando pela experiência do que o tema em si.
Coutinho - O jornalismo investigativo acabou.
Tudo é imediato.
Ricky - Você ficou na Globo de 75 a 84. Saiu
para poder fazer “Cabra Marcado para Morrer”?
Coutinho - Não, levei tres anos terminando o
“Cabra”, precisava de um salário, então trabalhava na TV enquanto filmava
e montava o filme. Em 81 tirei dois meses de férias para poder pesquisar,
ver se a Elizabeth ainda estava lá, e depois gravar as novas cenas. Passei
seis meses de 81 fazendo a pré-edição clandestinamente nas moviolas da
Globo durante os fins de semana. A edição final e a pós-produção ainda
levaram dois anos.
Ricky - Convém explicar que “Cabra Marcado para
Morrer” foi um filme que você começou a fazer em 62, sobre um líder
camponês assassinado. Elizabeth é a viúva dele. Aí veio o golpe, todo
mundo foi preso, e as filmagens ficaram por isso mesmo. Em 81, então, você
procurou essas pessoas para retomar a história, mostrando o que tinha
acontecido com elas.
Coutinho - Trabalhei com o CPC e viajei na UNE
volante cobrindo a miséria, um dia em Florianópolis, outro dia em
Salvador... Um dia, na Paraíba, o câmera ficou com frieira, teve que
voltar, e deixou o equipamento comigo. Eu nunca tinha mexido com isso, mas
saí e filmei dois rolos.
Isa Albuquerque - Você começou fazendo o filme
como ficção, né ?
Coutinho - Baseado na vida real. Elizabeth e
seus filhos faziam o papel deles mesmos e outros camponeses faziam
personagens. O filme tinha uma ordem material mas eu só havia filmado
cenas incompletas.
Isa - Num determinado momento você percebeu que
a vida era mais impactante.
Coutinho - Em 67, 68, eu já sabia que só poderia
voltar a fazer o filme como documentário. O que aconteceu com eles era
mais forte do que a história de ficção. O roteiro passou a ser procurar as
pessoas que tinham sido atores naquelas cenas e contar a história da
interrupção do filme e o que tinha acontecido com eles nesses 18 anos. No
caso da Elizabeth, quando ela me falava a vida de seu marido, usei cenas
de ficção próximos ao que ela contava. O filme então tem documentário
clássico, documentário não-tradicional, reportagem, ficção e não-ficção.
Daí saí da Globo e voltei a fazer cinema.
Daniel Schenker - Você diz que a relação entre o
documentarista e seus personagens é sempre um troca, mas parece que o caso
da Elizabeth Teixeira teria sido diferente
Coutinho - Dizem que quando alguém aparece num
documentário sua vida jamais será a mesma. Não é verdade. Para a maioria
dos meus personagens não mudou nada. Nnguem ficou famoso ou rico. Quando
há um personagem central – como no caso dela – é que pode mudar, inclusive
porque ela tinha uma atuação política que a levou a se esconder. O filme
serviu para me ressuscitar e a ela também. Tornou-se conhecida e viajou
para congressos de mulheres – inclusive em Genebra - e encontros do MST.
Hoje está com 78 anos e ninguém mais mata ela. A gente conseguiu dar uma
casa para ela em João Pessoa. Mas é falso que após filmar as pessoas você
continue amiga delas pelo resto da vida. Vou voltar ao Edifício Master
para que? A rotina é insuportável. O documentário é um condensado , é tão
verdadeiro quanto teatral. A reportagem em documentário se pretende
objetiva, mas eu coloco em questão essa neutralidade. Por que tenho que
ouvir os dois lados? Para fazer uma reportagem com Elizabeth eu teria que
ouvir os latifundiários que mandaram matá-la? Não estou interessado nisso.
Antonia - Você se blinda para não se envolver
com os personagens?
Coutinho - Pode haver um envolvimento que
continue depois do filme , é que comigo nunca aconteceu, tento evitar que
aconteça. Digo sempre: “Nunca volto ao local do crime”. Já não frequento
lugar nenhum, não tenho muitos amigos, por que eu voltaria ao Morro Santa
Marta? Por ter feito um filme lá?
Zezé Sack – Mas em “O Fim e o Princípio” você
prometeu voltar ao sertão para mostrar aos personagens o filme pronto.
Ricky - No próprio filme você visita as pessoas
em dois momentos diferentes.
Coutinho - Não foi para ter outra conversa.
Quando voltei foi para filmar as pessoas fazendo alguma ação. Fui também
para me despedir. Foi quando fiz a promessa: “Daqui a um ano vou passar o
filme pra vocês aqui”. Por sorte, vamos fazer isto agora no dia 25. Vai
ser estranho, porque os jovens dali nunca viram um cinema. Nem sei se vão
se interessar. Dona Teresa, por exemplo – personagem maior de “Santo
Forte” – viu o seu filme e achou um saco. Documentário era grego para ela.
O público popular não vai a documentário, vê aquelas pessoas falando e
diz: “Isso eu vejo em casa”.
Zezé – Ao final de “Edifício Master” você se
disse exausto de acompanhar o drama daquelas pessoas. Como é lidar com
essa carga de histórias?
Coutinho - Olha, foi uma semana de filmagem,
cinco personagens por dia, foi exaustivo do ponto de vista técnico. O
desgaste emocional não foi só por ser triste. Tem conversas chatíssimas
das quais você sabe que não vai aproveitar nada mas tem que ouvir com o
maior respeito e depois ainda fazer uma certa sala. . Fui na casa de uma
mulher que falava para mim como se estivesse na televisão, um horror,
vendendo a imagem de que conhecia gente famosa. É um sofrimento, você sai
dali destruído. Você nunca sabe o que vai acontecer, então fica tenso.
Teve um senhor que na pesquisa não mencionou nada sobre seus pais. Quando
chegamos com a câmera começou a chorar lembrando de sua mãe. Foram 15
minutos de emoção.
Pimentel - No filme das cantadoras cegas, uma
delas se revela apaixonada por Roberto Berliner, diretor do filme, e ele
aparece falando: “Não é nada disso, isso é um trabalho, sou casado, tenho
filhos...” É um risco que se corre?
Coutinho - Ele filmou seus personagens durante
vários anos, inclusive as ajudava economicamente. Claro que aí há um
envolvimento afetivo que pode chegar a isto ou a uma relação de
dependência. Eu filmo numa semana, num dia, é um negócio intenso mas acaba
em uma hora e meia. Nunca mais vou ver aquela pessoa. Às vezes volto a ver
e ela não sabe mais quem eu sou. Quem fica mais na afetividade das pessoas
são os pesquisadores, que fazem uma primeira conversa, mais íntima, com
uma camereta pequena, de maneira gentil e respeitosa. Quando vou para a
filmagem, é o pesquisador que eles conhecem. Eu sou um fantasma, um olho
que está olhando para eles. Em “O Fim e o Princípio” foi diferente porque
não teve pesquisa. Chegávamos na casa de Dona Mariquinha sem saber como
ela era. Ela surgia e era filmada fazendo o que estava fazendo. Isso é que
foi o prazer desse filme.
Antonia - A pesquisa prévia tira a
espontaniedade do entrevistado?
Coutinho - A palavra “espontaniedade” é um
perigo. Tudo é construído. Mas quando vou entrevistar uma pessoa, ela
nunca me viu, então a conversa é o daquele momento. O antropólogo
documentarista fica seis meses numa ilha convivendo com os personagens.
Não tenho tempo na vida para isso. Sou uma pessoa desconhecida, com muito
equipamento, cercado de gente, são coisas que deveriam inibir, mas
geralmente não inibe porque houve o ensaio anterior da pesquisa. Treino é
treino, jogo é jogo, tem gente que só se abre na filmagem para valer. Às
vezes quando eu chego as pessoas estão normais, mas teve uma mulher no
“Master” que se produziu num chiquê absoluto. Quando ela foi me contar o
assalto que eu já tinha ouvido na pesquisa, desta vez foi com muito mais
detalhes, muita mais emoção e completou pegando um envelope que ela guarda
há tres anos onde estava o dinheiro que o bandido recusou. Esta é a mesma
mulher que pensou em se matar e desistiu porque não tinha quitado sua
dívida no C&A. “Não queria morrer endividada”. A C&A, quando soube disso,
deu um cartão ouro para ela. Mas tem o contrário. por exemplo, as pessoas
que na pesquisa dizem que são gays e depois não querem que se fale nisso.
Ricky - Você levou bronca de alguém que se viu
nos seus filmes?
Coutinho - A única queixa que tive foi de uma
pessoa em “Santo Forte” a quem dei razão. È uma pessoa crente que é mãe de
um umbandista. No filme, ela reza numa igreja evangélica pelo filho, que
aceita porque qualquer reza é mágica. Depois de conversar comigo na
filmagem, me mandou uma carta bem escrita, dizendo que eu estava entrando
em terreno perigoso, que aquilo era coisa do diabo. Quando o filme ficou
pronto mandei um cassete para cada um mas ela não quis porque tinha imagem
de umbanda. Mas acabou vendo o filme no cinema e me disse depois: “Pena
que não apareço cantando”. Fiquei chateado porque ela tinha razão, mas não
tinha mais como mudar. Quando a filmei ela disse que queria ser cantora no
mercado evangélico e cantou dois hinos. Se o filho canta para Exu, ela
teria o direito de cantar a sua fé.
Pimentel - Você foi processado por algum
personagem?
Coutinho - O pai do menino que acha o gato, no
“Master”, processou a Videofilmes. Nem se vê direito esse menino, está de
costas num corredor, ele devolve o gato, foi filmado inclusive por meu
assistente, eu nem estava lá, não tinha como pedir a autorização. São as
ilusoes que um documentário cria: como ficou 13 semanas em cartaz esse pai
deve ter pensado que ficamos ricos, não sabe que mal pagamos o lançamento.
É uma coisa pervertida que a única boa ação praticada no filme inteiro,
feita por esse menino, tenha resultado num processo contra o diretor.
Paula Sack - E a questão do pagamento pela
participação no filme?
Coutinho - Na Europa isso é visto como um tabu.
Eu acho que depende. Quando posso, eu pago cachê, como em “Santo Forte”.
No meio popular existe uma taxa que é quanto se pagaria decentemente a uma
faxineira por dia. Mesmo no “Master”, onde são pessoas mais de classe
média, essa tese da faxineira funcionou. Explicamos antes que é uma coisa
simbólica, mas aí aquela professora de inglês falou: “Nada, eu dou aula
por várias horas para ganhar esse simbólico”. No “Peões” não paguei nada.
Em “O Fim e o Princípio” nem pensei nisso. No “Babilônia 2000” não paguei
mas tinha uma pessoa que deixou de viajar no ano novo, então garanti um
dinheiro para ela. Fico irritado porque isso é uma discussão que vem do
início dos documentários. Como é que Flaherty pagava aos esquimós? Dava
uma pele para cada um? Na verdade, todas as conversas são negociações de
desejos. Nesta entrevista estamos negociando: vocês perguntam sobre coisas
e às vezes quero falar de outras.
Paula - Existe a ética do documentário?
Coutinho - Não deve ser mostrado o material que
pode prejudicar aquele que foi filmado. Não tenho obrigação com os
camponeses brasileiros – isto é uma abstração – mas tenho com a pessoa que
filmei. Estigmatizar essa pessoa seria um problema. O documentarista está
sempre na corda bamba. Uma pessoa pode se comportar como excelente
personagem, mas penso no que pensariam seus vizinhos, ou seus pais, ou se
pode ser demitida. Na ficção, você contrata um ator para fazer um
estuprador ou um pedófilo. No documentário, os personagens existem. Um
filme pode destruí-los. Há coisas que se colocaria claramente numa ficção
e num documentário não.
Paula - A partir do momento em que você liga uma
câmera sobre o rosto de uma pessoa, ela vai ser ela mesma?
Coutinho - Não, pelo contrário, se ela é boa,
será ela e o personagem! Ela é o que gostaria de ser. Ou o que ela acha
que você gostaria que ela fosse. Ou de acôrdo com o que os outros podem
pensar. Há várias projeções teatrais. Mas o que ela revela de construção
de sua imagem é tão verdadeiro quanto qualquer outra coisa. Agora, se uma
pessoa fala: “Sou funcionário do Banco do Brasil e tenho oito filhos”, e
sei que não é verdade, não coloco no filme porque ela é um mitômano. Não é
factual. Mas quando uma pessoa diz: “Fui casada por 30 anos e fui feliz”.
Ali não tem verdade ou mentira, cada passado é algo diferente em cada
momento do presente. Tudo é uma interpretação. Aliás, um filme sobre os
mitômanos seria um tema interessante. Conheço um mitômano fascinante, que
um dia contou algo totalmente absurdo numa mesa de bar e foi muito
cobrado. Quando foram conferir, era verdade.
Ricky - Na maioria dos casos, o excesso de
histrionismo é inconsciente, mas nos casos caricatos você tem algum macete
para conter isso?
Coutinho – Há 600 livros no mundo sobre como
escrever roteiros. Há inúmeras teorias sobre documentários. Algum
americano já deve ter escrito um livro sobre como vender um documentário
para televisão. Mas não existe um manual sobre como lidar com o
exibicionista. Inclusive porque há o bom exibicionista.
Isa - Em “Cabra Marcado” você tem uma personagem
central que vai conduzindo o filme, além de personagens fortes que são
destruídos pela repressão. No “Master” você tem inúmeros personagens
comuns. O olho da câmera está voltado hoje para as pessoas comuns. O que
determina isso? O contexto social?
Coutinho - A grande mudança pode ser simbolizada
pelo Big Brother. A vantagem comercial de se mostrar revelada pelo Big
Brother nos criou um problema. Isto foi um dos motivos de eu ter ido
filmar agora no sertão da Paraíba. Mesmo antes do Big Brother, a exposição
da privacidade era um negócio espantoso. As pessoas fazem questão de falar
das coisas mais íntimas. Pesssoas sérias expõem pela imprensa episódios
que não interessam a ninguém. Eu não falo de coisas pessoais em
entrevistas. Eu estou nos meus filmes. Tem uma mulher no “Master” que
aparecia na pesquisa falando do seu casamento, tratando bem o marido,
passando a mão na sua careca... na hora da filmagem começou logo contando
sua tentativas de suicídio. Depois contou que ficou grávida 24 vezes e
abortou em 19. E que teve um filho que morreu de AIDS na cadeia. Adotou a
lógica do pior: “Para ser um grande personagem tenho que contar tudo de
horrível na minha vida”.
Leila Sarnento – Quais as outras diferenças que
você sentiu entre filmar no “Master”, um cenário urbano, e agora num
povoado do sertão?
Coutinho - É o extremo do extremo. A principal
diferença é que em “O Fim e o Princípio” tivemos uma mediadora do local e
não uma pesquisadora nossa. Rosa é uma católica tradicional, respeita
todas as regras da Igreja, e ao mesmo tempo é progressista, integra o
conselho do Fome Zero. Professora de alfabetização, gosta de ler, escreve,
é um elo entre a cidade e o campo. Lutou muito com o pai para estudar,
porque a tendência nesse meio é o homem ser necessário para a lavoura e a
mulher para os afazeres de casa. Ao mesmo tempo em que preserva as
tradições, usou seu dinheiro de professora para botar água encanada na
casa. Outra diferença é que as pessoas lá estão isoladas, ninguém
perguntou para mim: “Isso é televisão ou cinema”? Na favela a primeira
coisa que perguntam é isso.
Ricky - “ É para o Fantástico?”
Coutinho - Quando você diz que é cinema, 30% do
interesse vai embora. Nem digo que é documentário, falo que é reportagem.
Aí perguntam: “Quando fica pronto”? “Daqui a um ano.” Metade vai embora.
Mas se eu trabalhasse na Globo e fosse conhecido jamais conseguiria fazer
os filmes que faço. Sou um anônimo. Tanto que ninguem jamais me procurou
para saber quando vai passar o filme. As pessoas até esquecem que fizeram
aquele filme. No entanto, na hora, a relação foi intensa. Sinto que é bom
para as pessoas desabafarem. Mas a vida segue. Na sessão especial para os
participantes do “Master” foram só 18 pessoas.
Ricky - Por que você partiu para esse filme sem
nenhum roteiro ou ideia pré-concebida? É um tédio com a maneira normal de
fazer documentário?
Coutinho - “Peões” foi muito penoso. fiquei
preso a um gancho histórico. Aí enchi o saco de filmar em cidade grande.
Para filmar na Linha Vermelha às tres da manhã tem que ser um assunto que
te interesse muito. Então eu queria fazer um filme rural – se é que ainda
existisse a mente rural – e pensei no sertão onde a cultura é arcaica. Um
grande tema, filmado em São Paulo, pode não ser bem tratado, as pessoas
falam mal, as escolas são ruins, a TV padroniza. Na Amazônia, o caboclo é
lacônico. No Rio,na favela, há uma variação verbal grande, mas eu já tinha
feito dois filmes em favela. Procurei então um local onde as pessoas são
eloquentes e precisas. Qual é a arma do analfabeto para viver no mundo? A
palavra oral. Uma mulher no filme diz: “Fui feliz com meu marido, nós
nunca se porfiaram”. Uma palavra do século XVII! Quem no Rio ou SP sabe o
que é sobejo? As pedras lá são seixos. Não preciso dar tema para essa
gente. Outra coisa: o imaginário dos velhos... essa coisa extraordinária
do catolicismo popular... Vários falam no Dia do Julgamento como se fosse
algo presente. Espero que os evangélicos demorem para chegar lá porque vão
destruir tudo isso. Tem o homem que diz no filme: “O bem e o mal andam
juntos”. Leocádio, o filósofo popular, é Walter Benjamim puro: “Quando
Jesus criou o mundo, o nome janela era janela”. E bate na janela. O nome
era o objeto! Hoje a palavra é arbitrária.
Zezé – Por que aquele lugar específico?
Coutinho - A Paraíba foi porque filmei lá o
“Cabra”. Não tive saco de fazer pesquisa. Peguei um Guia Quatro Rodas,
abri em Cajazeiras, vi que tinha um hotel bom. Quando chegamos lá vimos
que o hotel ficava mesmo era em São João do Rio Peixe, deste tamaninho, e
resolvemos ficar por lá mesmo. Ali Raquel, minha produtora, conheceu a
Rosa, e das conversas com ela surgiu a idéia de entrevistarmos aquelas
pessoas.
Daniel - Outra característica de “O Fim e o
Princípio” é que você se expõe mais, particularmente quando assume o medo
da morte.
Coutinho - Nem sei o que é isso. Você fala como
se eu assumisse ser gay. O cara que conseguir assumir seu medo da morte
vai virar meu guru. Se eu tivesse feito o filme há vinte anos, acabaria
abordando a mesma questão. É claro que agora a minha comunicação com as
pessoas sobre isso fica mais fácil pelo fato de eu ser velho. A minha
exposição nesse filme veio do fato de não termos pesquisa. Forçosamente
desenvolvi uma relação mais íntima com os entrevistados e a aproximação
espacial foi maior. Cheguei a fazer filmagens colado joelho com joelho. O
câmera que se virasse. Quando voltei a relação era maior ainda, havia
laços anteriores e eu vinha para me despedir. É interessante como a
relação era hierárquica, me chamavam de major, porque se eu perguntava as
coisas devia ter algum poder.
Ricky - Você mencionou os joelhos se encostando.
Toda filmagem é uma relação erótica?
Coutinho - No sentido geral da palavra, sim,
pode ser com a garota de programa do Master ou com Mariquinha de 80 anos.
Todo filme é uma relação afetiva com o grupo humano, com o lugar, com o
universo que representa. Não sei até que ponto o meu prazer de ter feito
os filmes passa para o público mas é uma relação de prazer.
Leila – Como surgiu a idéia de incluir em “O
Fim” cenas de making-of, você chegando nas casas das pessoas, elas te
recebendo?
Coutinho - “Cabra” já tem isso. É uma
característica minha. Agora passou a ser um modismo, né, em vários
documentários a equipe aparece. Neste último filme tem uma razão de ser:
mostrar como uma pessoa recebe o assunto. Mas quando começa o diálogo não
tem mais equipe. Tem a minha voz, porque não é só saber escutar, a todo
momento você tem que intervir, errando e acertando. Você tem que estar
passivo – aceitando e não julgando – e ao mesmo tempo ativo, esclarecendo
palavras ou pronomes que não ficaram claros. No filme tem uma mulher muito
velha que diz um conceito que ninguém vai entender e agora não tem mais
jeito. Tres meninos seus morreram sem batizar. Então ela fez uma promessa
a São Francisco das Chagas para todos os meninos que nascessem se chamarem
Francisco. A promessa não foi para eles se criarem, foi para viverem o
suficiente que fossem batizados. Aí explica: “Dizem que quem morre pagão
fica no escuro pedindo para o mundo se acabar”. Que destino humano
terrível! Inclusive é um perigo para o mundo. Ela tinha que lutar contra
isso para que o mundo não se acabe.
Ricky - É interessante porque de certa forma o
mundo deles se acabou. O universo onde vivem não existe mais.
Coutinho - E era um mundo terrível mas com
coisas extraordinárias, como o fato de todo mundo ter o seu lugar. A
mulher que não casou criava a criança dos outros. O louco tinha o seu
espaço. Como na Idade Média.
Daniel - Tem um momento no filme em que você
fala para um dos entrevistados: “Você preparou a transição, parece um ator
de cinema”. Você achou que ele estava excessivamente consciente do que ia
falar?
Coutinho - Às vezes tenho que intervir e não sei
o que dizer, vem o que vem, naquela hora veio aquilo. Percebi que ele, que
nunca tinha sido filmado, que não conhece televisão, descobriu que tinha
posições em que ficava mais bonito. Quando o cara me perguntou quatro
vezes se acredito em Deus, chegou uma hora em que eu tinha que dizer
alguma coisa. Se eu dissesse que era ateu criaria um conflito com o
personagem. Não podia também dizer que aquilo é uma bobagem. Acabei sendo
mais ou menos sincero: “Não sei. Gostaria de saber”. Esse cara, Chico
Moisés, é antipático mas é o personagem mais fascinante do filme. É
provocador, me desafia para ver quem é o mais sabido. Uma hora fala: “Ah,
daqui a um ano não sei se tô vivo”. E faz um silêncio. Eu tinha que manter
a conversa, não podia parar a câmera, pensar e voltar a filmar. Disse: “O
senhor precisa ter fé”. Ele fala: “Fé? Se fé bastasse eu já tava a caminho
do Céu”. Pergunto para ele: “O senhor tem algum sonho”? Responde: “Que
significado é um sonho”? Ele fala: “O que é o mundo? Somos nós? Será que
sei”? Reverte o diálogo e ele é quem faz as perguntas. Isso é genial.
Isa – ronteira entre o documentário e a ficção
ainda é rígida?
Coutinho - Sempre foi complicada. É como
discutir se a verdade existe. Tem a frase de Godard: “Todo documentário é
ficcional e toda ficção tem um lado documental”. Hoje a televisão adotou a
moda americana do docudrama, da simulação, com atores fazendo uma
reconstituição, mas isto é usado de uma pobreza extrema. A ficção tem que
ter tanta qualidade quanto a realidade de que ela fala, e geralmente a
realidade é muito mais rica.
Antonia -Você sempre tem um material riquíssimo
que precisa transformar em um filme com menos de duas horas. Na edição,
cada segundo é sofrido?
Coutinho - Não, somente evito ao máximo os
planos curtos. Na televisão tinha um manual que dizia: “Desconfie de quem
fala mais de 21 segundos”. Mas o que me interessa na fala às vezes é mais
a forma. O pensamento de uma pessoa pode ser comum mas expresso com uma
tal riqueza vocabular e sintática, com pausas e inflexões, que fica
extraordinário. O verbal é paraverbal e gestual. A sofática da linguagem é
maravilhosa. A escrita é abstrata. Na fala, a pessoa busca prender a
atenção com pequenas expressões – sabe? entende? tá ouvindo? – existe a
necessidade de confirmar que o outro o está escutando. É um jogo de corpo.
A fala é corpo. Se a palavra da pessoa tem sangue, tem vísceras, ela fala
bem. A bailarina de “Santo Forte” quando joga os cabelos...
Daniel - O modo como se diz é mais revelador do
que se diz.
Coutinho - Quase sempre. Pessoas com vidas
extraordinárias saíram dos meus filmes porque contavam mal. E há pessoas
que contam coisas absolutamente comuns de maneira extraordinárias. Em
“Santo Forte” tem uma mulher cuja vida teve toda espécie de acidente, ela
recebia pomba-gira, foi casada com um homem que dava soco na sua cara,
quebrou vários ossos, enlouqueceu. A história dela não entrou no filme.
Preferi um homem cujo único fato interessante era ser casado com ela. Mas
ele contando como a pomba-gira baixava na mulher e dizia que ia matá-lo...
e que ele via a sua mãe longe no céu e tentava lhe dar a mão... não tem
ator brasileiro que conte isso melhor!
Paula - Você mostrou da solidão urbana às
condições de vida no sertão. Seus filmes tem uma preocupação social?
Coutinho - Fazer filmes sobre a esfera privada
ou a esfera da religião é um ato tão político quanto fazer “Cabra Marcado
para Morrer”, mas não estou preocupado em mudar o mundo. Não sou um
missionário. Faço filmes para tentar conhecer o mundo e nem é o mundo
real. Faço por prazer, pela vontade de fazer. Minha vida é muito chata e
fazer filmes é bom. E os filmes tem que ser abertos, tem gente que vêem
como sendo de direita, outros de esquerda, ainda outros com uma visão
poética. Odeio filmes militantes. Para que fazer um filme se antes você já
sabe como ele vai ser?
Isa - Existe um estilo Coutinho de fazer
documentários?
Coutinho - Uso o mínimo possível de imagens.
Geralmente os documentários são como os “Grandes Perfis” na GNT: mostram
os documentos dos arquivos das pessoas, depoimentos dos amigos, e quando a
pessoa está viva, imagens do presente. A imagem é usada para provar que é
verdade aquilo que está sendo dito. Quando uma pessoa em “Santo Forte” diz
que gosta de ir à igreja, não preciso mostrar ela na igreja. O que isso
acrescenta? A imagem que ilustra o que a pessoa está dizendo é outra
tolice. Quando uma pessoa diz que gosta de cachorros, posso mostrar ela
com os cachorros ou não, mas não é essencial. A palavra evoca um mundo
muito mais forte do que é mostrado.
Ricky - Você inverteu: uma palavra vale por mil
imagens.
Coutinho - O maravilhoso são as filigranas da
linguagem.
Reynaldo Jardim – O cinema digital mudou alguma
coisa?
Coutinho - Muito. Imagine isso numa país pobre
como o Brasil, com uma garotada querendo fazer coisas, que não vai ficar
esperando ter R$ 50 mil para fazer um curta. O digital, além de permitir o
exercício, traz a diversificação da técnica. Passa a ser também uma
ferramenta para os grupos sociais. Da internet também vão surgir formas
novas.
Reynaldo – Você gostaria de falar sobre a crise
da ética no Brasil?
Coutinho - Não quero me deter sobre o horror.
Não é extraordinário como as pessoas tem esse otimismo beato? Não há razão
para ser otimista. Os indicadores são os piores possíveis. É um absurdo
que a gente
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