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O ator João Miguel desponta como a nova revelação baiana, depois de Lázaro Ramos e Wagner Moura Nelson Gobbi Os prêmios de melhor ator conquistados este ano com o longa Cinema, aspirinas e urubus, no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo, colocam o baiano João Miguel entre os melhores atores de sua geração. Mas seu talento dispensa tais comparações. Ele está impresso nos fotogramas do filme de estréia do diretor Marcelo Gomes, no qual ele interpreta Ranulpho, um sertanejo errante que vê sua vida mudar ao conhecer o vendedor alemão de aspirinas Johann, vivido pelo também talentoso ator germânico Peter Ketnath.A dupla segue viagem pelas empoeiradas estradas do sertão paraibano e pelos lugarejos onde Johann tenta conquistar fregueses organizando projeções improvisadas de cine-jornais da época e antigas propagandas farmacológicas. Numa dessas exibições, o olhar de Ranulpho, como o de seus contemporâneos - a trama se passa em 1942 - se embevece com as imagens do cinema, que enfim chegavam até o local para anunciar ''o fim de todos os males'' em forma de comprimido. (A cena, rodada na cidade de Picote, mostra de fato a primeira exibição pública de cinema do lugarejo, onde o encantamento por parte dos moradores foi captado com precisão por João Miguel.) Foi justamente a expressividade do olhar do ator de 35 anos que chamou a atenção do cineasta Marcelo Gomes, que buscava alguém capaz de construir o personagem inspirado em seu próprio avô a partir das sutilezas dos tipos humanos do sertão. Após seis meses de testes, o sertanejo Ranulpho ganhou em definitivo o olhar de João Miguel. - O Marcelo já estava fazendo os testes para o filme e soube da minha atuação na peça Bispo, que encenei pelo Brasil por quatro anos, desde 2001. Depois ele disse ter me escolhido porque havia imaginado o Ranulpho com olhos como os meus - recorda João Miguel. Ao assistir ao monólogo Bispo, sobre o artista plástico Arthur Bispo do Rosário - que era esquizofrênico e passou 50 anos internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio -, peça que circulou por todo o país e teve cerca de 90 mil espectadores, Marcelo Gomes também se impressionou com os detalhes usados por João na composição do personagem. - Não queria mostrar um nordestino ''bom selvagem'', extremamente humilde, e sim um tipo complexo como eu, ou como qualquer outra pessoa que vive numa região que está sempre te expulsando. Precisava daquela sutileza que o João deu ao personagem, com o olhar sendo mais importante que a fala e o andar mais importante que a ação - ressalta o cineasta pernambucano. Para criar seu Ranulpho sem recorrer ao estereótipo do sertanejo sofrido, tão caro à cinematografia brasileira, o ator observou atentamente os habitantes dos locais onde iriam filmar, chegando a circular com as roupas do personagem por ruas e mercados. Tal etnografia se juntou à técnica de atuação que João começou a aprender na Bahia aos 9 anos. Em Salvador, chegou a contracenar com outra revelação baiana, Lázaro Ramos, na peça Casa fechada, há cerca de dez anos. - Depois dessa peça voltamos a atuar juntos na série de TV Pastores da noite. O João é um dos atores que mais me intrigam. Ele evoluiu muito com o tempo e hoje é um artista excepcional. Tenho-o como um exemplo, pelo caminho que ele descobriu para desenvolver sua arte - elogia o colega Lázaro. A tradição do teatro baiano pode explicar a aparente coincidência que faz com que alguns dos atores mais expressivos surgidos recentemente no cenário nacional, entre eles Lázaro Ramos, Wagner Moura e João Miguel, venham da Bahia. A trinca - que está em cartaz em Cidade baixa, de Sérgio Machado, no qual João faz uma pequena mais fundamental participação - colocou em foco uma geração que continua fazendo teatro de alto nível longe das luzes dos palcos do Sudeste. - O teatro baiano ganhou muita força a partir dos anos 60. Tem bons atores por lá, que ainda não estão em evidência. Isso acontece em muitos lugares, existem excelentes atores espalhados pelo Brasil. O importante é deslocar o olhar. Há uma intensa produção cultural pelo país, mesmo que isso não apareça no Sudeste - ressalta João. Para Lázaro, essa exposição dos talentos baianos é positiva, mas ainda falta o fortalecimento da cena local: - O reconhecimento criou também um êxodo, já que faltam oportunidades para os atores de lá. Falta ainda que os patrocinadores e empreendedores culturais façam o caminho inverso e passem a incentivar a arte lá na Bahia. Como os outros dois amigos, João Miguel vai se tornando mais conhecido à medida que se envolve em novos projetos. O ator, que está em Três Marias, no interior de Minas, se preparando para participar do novo filme de Sandra Kogut, Miguilim, deve estrear até 2006 em outras duas produções: Eu me lembro, de Edgar Navarro e Rifa-me, título provisório do próximo filme de Karin Aïnouz (Madame Satã). - No meu filme o João faz um personagem muito apaixonado e dedicado à mulher, da qual foi o primeiro namorado. A imagem dele me fez pensar em alguém que tivesse essa doçura - elogia Karin. Para João, cuja formação incomum abrange desde o curso de atores da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio, à experiência como palhaço de circo, as múltiplas vivências que viveu entre teatro, cinema e televisão o ajudam a crescer enquanto artista. - Cada novo trabalho me instiga a aprender mais, a me arriscar. Criar é correr riscos. |
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