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Tributo a João do Vale

O maranhense João do Vale
 

   O documentário João do Vale - Muita gente desconhece, do cineasta Werinton Kermes, premiado este ano no Festival de Gramado (RS), será exibido hoje, a partir das 19h, no auditório do Clube de Engenharia (Av. Rio Branco, 124, 25º andar).

   No mesmo local, será apresentado um show do cantor e compositor Geraldo Azevedo, seguido de debate sobre a obra de João, com os escritores e jornalistas Sérgio Cabral e Marcio Paschoal (autor do livro Pisa na fulô mas não maltrata o carcará, biografia do autor de Pisa na fulô). Hoje faz nove anos que morreu o homenageado - considerado o mais carioca dos maranhenses. Em 2005 registram-se ainda os 40 anos do show Opinião, que revelou ao grande público os artistas Zé Kéti, Nara Leão e o próprio João do Vale.

(© JB Online)


Nas asas do carcará

Luís Pimentel

   João Batista do Vale (segundo dizia, ''todo maranhense nasce Batista ou Ribamar'') foi chamado de Poeta do Povo. Vivia no meio do povo, transpirando humanidade e emoção. Filho de camponeses, nasceu em 1933, na cidade de Pedreiras, a 300 quilômetros de São Luís. Ao morrer, no dia 6 de dezembro de 1996, deixou uma obra composta por quase 400 títulos.

   O carcará nordestino João do Vale passou por muitas dificuldades nos últimos anos de sua vida, equilibrando-se entre a saúde precária e a falta absoluta de recursos para se cuidar. Morreu em São Luís do Maranhão, depois de praticamente pedir esmolas pelos jornais na tentativa de ser transferido para o Rio, onde morou por muitos anos e sonhava ter um melhor atendimento. Não deu tempo e foi enterrado em Pedreiras. Descansa cada vez mais distante do reconhecimento que jamais alcançou em vida.

   Além de Carcará - sem dúvida seu maior sucesso - foi autor de preciosidades do nosso cancioneiro, como Estrela miúda, gravação de Marlene; Madalena, que estourou no Nordeste na voz de Zezé Gonzaga; Canto da ema, sucesso do repertório de Jackson do Pandeiro; Coroné Antônio Bento; e Nas asas do vento, ambas em parceria com Luiz Vieira.

   Até sofrer o primeiro derrame, em 1986, João do Vale morava em uma casa pequena no bairro Rosa dos Ventos, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Voltou para Pedreiras em cadeira de rodas. Pouco antes ainda fazia alguns shows em pequenas casas noturnas e espaços de música nordestina no Rio, como o extinto Forró Forrado, que ficava no bairro do Catete. Era empolgante ver aquele negro forte e carismático, sempre descalço no palco ou usando sandálias de couro, repisando o seu ''Pisa na fulô/ Pisa na fulô/ Pisa na fulô e não maltrata o meu amor'', repartindo o copinho de pinga com o santo do pé do balcão e repetindo, sorridente: ''Eita, santo véio beberrão''.

   Aos 6 anos vendia pirulito nas ruas de sua cidade (cantando essa musiquinha: ''Pirulito enrolado no papel/ Enfiado no palito/ Papai, eu choro/ Mamãe, eu grito/ Me dê um tostão pra comprar um pirulito''), além de ajudar os pais nos trabalhos da roça. Aos 13 já vendia laranja na feira de Praia Grande, em São Luís, onde tentou também a profissão de ajudante de circo. De lá pegou a estrada em 1950. Com 17 anos chegou ao Rio de Janeiro, como ajudante de caminhão. Nesse ofício, pôde viajar por todo o Nordeste. À essa época, como ele mesmo dizia, ''já metido a compositor''.

   Em 1994 foi lançado por aqui um disco muito bacana, iniciativa de Chico Buarque, com vários artistas cantando a obra do compositor, dois anos antes de João do Vale privar o público de sua estrela luminosa e de seu enorme talento.

(© JB Online)

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