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Mira implacável de Gil Vicente

Obra do artista Gil Vicente: "Auto-retrato matando Kofi Annan"
 

Pintor pernambucano aponta sua arma para os seus inimigos públicos em nova série que inaugura hoje na Galeria Mariana Moura

DIANA MOURA BARBOSA

   Na França, mais precisamente em Paris, jovens da periferia tomam as ruas contra o preconceito em relação aos migrantes e a favor da justiça social. Na Venezuela, a população vai às urnas em defesa de um governo calcado no discurso da distribuição de renda e erradicação da pobreza. No Recife, estudantes incendeiam ônibus para denunciar o aumento das passagens. Noutro ponto da cidade, um artista plástico inaugura uma exposição-protesto cortante contra políticos e personalidades públicas, brasileiros e internacionais que, segundo o artista, são responsáveis pela desilusão da sociedade em relação aos rumos da humanidade. Enquanto isso, em algum canto, alguém grita: a política morreu. Viva a política.

   Quando todo mundo pensava que ela era mais uma a engrossar as fileiras dos desapareciodos políticos, eis que ela ressurge, a arte de protesto, órfã de pai e mãe, rechaçada pela direita, desencantada com a esquerda, nascida pelas mãos de um dos artistas mais conceituados de Pernambuco. Gil Vicente inaugura hoje, na galeria Mariana Moura, nas Graças, a exposição Inimigos, na qual não apenas retrata seu desgosto com a política, como descarrega seu ódio em cenas de quase-assassinatos. A última década do século 20 e os primeiros anos deste 21, foram marcados pelo discurso da ressignificação da arte política. Trocando em miúdos, isso quer dizer que artistas, críticos e curadores faziam questão de contornar qualquer conotação política das obras e redirecionar o olhar do público para outras características, como a análise de aspectos formais, a discussão do suporte e o engrandecimento das chamadas novas linguagens. Balela. Em Gil Vicente, tudo isso é secundário.

   Isso porque, é impossível olhar os seus quadros e pensar que eles são “apenas” desenhos perfeitos, camadas e camadas de pigmentos bem aplicados sobre papel para criar luz, sombras, volumes e panejamentos. A técnica, aqui, só importa porque está a serviço da idéia do artista, é um meio. Ela interessa porque se torna quase transparente. Os olhos do público não esbarram em obras mal-feitas e sensasionalistas. Ao contrário. Os quadros são extremamente bem executados – provavelmente, outros artistas não se sairiam tão bem ao abordar a mesma temática –, criando uma sensação veracidade. Assim, já a primeira vista, os desenhos suscitam apenas política. Arte política da melhor qualidade para o século 21.

   E por falar em século 21, é bom que se diga que Inimigos, de Gil Vicente, está totalmente impregnada pelo espírito da contemporaneidade. Ela não carrega o ranço da arte de protesto dos anos 60 e 70, quando os artistas eram obrigados a camuflar suas idéias em mensagens cifradas, com doses de mistério ou esperteza. Gil é direto. Em todos os nove desenhos da exposição ele é visto em enormes auto-retratos assassinando políticos de primeira grandeza. Do governador do Estado ao presidente da República. Da Rainha da Inglaterra ao Papa. Estão todos mortos. Os desenhos, criados com requintes de realismo e crueldade, causam, inicialmente, medo e, estranhamente, conforto. Evocam a bárbarie. Expressam o desejo da justiça – seja lá qual for – pelas próprias mãos. De uma certa maneira, a exposição materializa o sentimento comum de que a lei de Talião foi banida apenas para os cidadãos de primeira categoria, mas continua aterrorizando as populações do mundo, naqueles subúrbios de uma Paris fora dos cartões-postais e nos ônibus que lotam os corredores urbanos do Grande Recife. Então, os desenhos do desiludido Gil Vicente parecem dizer que, se a barbárie voltou, pois que seja para todos.

Inimigos – exposição de Gil Vicente. Inauguração hoje, às 20h, na Galeria Mariana Moura – Avenida Rui Barbosa, 735, Graças. Fone: 3421.3725. Em cartaz até 30 de janeiro de 2006

(© JC Online)

Saiba mais sobre a exposição


Mostra revê evolução do Recife

Museu da Cidade do Recife vai rediscutir processo de crescimento da cidade a partir do seu acervo

   O Museu da Cidade do Recife abre, hoje, durante a entrega do Troféu Cultural 2005, pela Prefeitura do Recife (ver matéria abaixo), a exposição História de muitos – A evolução urbana do Recife, que vem, ao mesmo tempo, para contar a história da capital pernambucana e marcar a nova diretoria da instituição. Assim, a mostra inaugura o projeto da diretora Betânia Corrêa de Araújo para os próximos três anos do museu.

   O projeto pretende rediscutir a construção do Recife a partir do acervo da casa e contando com o apoio de historiadores, artistas, fotógrafos, paisagistas, arquitetos, urbanistas e profissionais de áreas afins. O programa conta com apoio do Iphan e tem consultoria da Fundação Nacional de Arte (Funarte) e da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

   A idéia do projeto surgiu quando, ao assumir a direção do Museu da Cidade do Recife, Betânia soube que um dos destaques do acervo era uma coleção de mais de 300 mil negativos, incluindo 1.100 em vidro, dos quais apenas 100 mil são catalogados. “Temos mais de 200 mil imagens totalmente desconhecidas. Esse material pode esconder cenas históricas de importância para a cidade, ou registros do passado urbano do Recife. Por isso, mandei um projeto ao Iphan para a identificação, catalogação e avaliação dos negativos. Além disso, o material será digitalizado, para se tornar mais acessível a visitantes e pesquisadores,” explica.

   A medida que as fotografias forem descobertas, Betânia vai selecionar alguns temas do acervo e propor atividades para cada um deles. “Nossa intenção é convidar pessoas ligadas a cada assunto tratado para debater e escrever sobre ele. Um paisagista pode observar o acervo sobre praças e discutir a evolução do paisagismo urbano na cidade, por exemplo.” Por fim, segundo Betânia, o museu vai editar cadernos sobre cada tema, contendo imagens e textos.

   História de muitos – Evolução urbana do Recife inicia essa proposta de diálogo entre o acervo do museu e a comunidade. Na exposição, serão apresentadas tanto imagens da urbanização do Recife do século 16 ao século 21, quanto fotografias feitas especialmente para a mostra, revelando os estágios contemporâneos das transformações urbanas. Os profissionais convidados para estrear o projeto foram os fotógrafos Fred Jordão e Roberta Guimarães.

   “Nossa intenção com essa primeira exposição foi oferecer um panorama da urbanização do Recife e do desejo de ocupação do solo. O trabalho é baseado num texto de Josué de Castro que pontua características desta urbanização e cita como uma parte da cidade foi erguida sobre um alagado. Para facilitar a compreensão dos visitantes, a mostra está estruturada de forma cronológica, uma vez que recebemos diariamente 200 estudantes de escolas públicas e privadas do Recife, além de muitos turistas. Por isso, optamos por uma montagem com um viés didático,” diz Betânia. (D.M.B.)

História de muitos – a evolução urbana do Recife, exposição reproduções de mapas, fotografias, plantas, textos e objetos que narram a evolução da cidade. Abertura hoje, às 19h. Visitação de terça a sexta das 9h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 17h. Até 2 de julho de 2006. Museu da Cidade do Recife – Forte das Cinco Pontas, São José

(© JC Online)


Troféu Cultural é entregue hoje

Desde 1989, o prêmio é dado pela PCR aos que contribuíram para o desenvolvimento da cultura local

   A Prefeitura do Recife entrega hoje o Troféu Cultural premiando pessoas físicas, personalidades (in memoriam) e instituições, em cerimônia no Museu da Cidade do Recife, Forte das Cinco Pontas, a partir das 19h. Além da premiação, haverá apresentação do Grupo da Quina – coral formado por funcionários e estudantes da UFPE, a exposição História de muitos - a evolução urbana do Recife, e o lançamento da revista Arrecifes.

   O Troféu Cultural foi instituído desde 1989, pela Prefeitura do Recife. O ex-prefeito e ex-governador Miguel Arraes de Alencar (criador do Movimento de Cultura Popular – MCP) e o fundador do Maracatu Leão Coroado, Luiz de França serão homenageados in memoriam. Também serão entregues troféus ao arquiteto Acácio Gil Borsoi, o médico, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras, Rostand Paraíso, o pintor e um dos fundadores da Brigada Portinari e da Oficina Guaianazes, Luciano Pinheiro, a artista popular circense, Índia Morena, a criadora do Projeto Arte Viva, Lourdes Rossister, além do jornalista e cineasta, Celso Marconi.

   As instituições agraciadas são Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), órgão responsável pela inclusão no mercado de trabalho de jovens, alunos universitários e de curso médio, e o Memorial Mãe Biu de Xambá, inaugurado em 12 de maio de 2002, sediado no bairro de São Benedito (Olinda).

   A Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura, entrega dez troféus, sendo dois in memoriam, seis a pessoas físicas e dois a instituições, escolhidos pelos 14 membros do Conselho Municipal de Cultura, considerando o grau de contribuição para o desenvolvimento da cultura local. O troféu foi confeccionado pelo artista plástico Joelson, em madeira e cerâmica.

   REVISTA – A revista Arrecifes traz na sua 10ª edição artigos enfocando artes plásticas, urbanismo, música, política cultural, teatro e poesia, em reportagens e artigos produzidos por renomados profissionais em cada área, a exemplo de Raul Córdula, que assina matéria sobre artes plásticas.

   Com tiragem de mil exemplares, atualmente editada pelo Conselho Municipal de Cultura, tem periodicidade anual e é lançada durante a entrega do Troféu Cultural. Parte será enviada às bibliotecas das escolas municipais e de instituições diversas. A edição foi coordenada pelo escritor Lucilo Varejão Neto.

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