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Raimundo Carrero completa 30 anos de escrita e lança "O Delicado Abismo da Loucura", que reúne três obras iniciais JULIÁN FUKS Existe, nos recônditos do sertão,
um povo a cultivar amores e traições, a perpetrar dominações, a protagonizar
dramáticas tramas. Existe, nos recônditos do sertão, um povo mítico a viver
tragédias. Dele, chegam às livrarias as três primeiras novelas -"História de Bernarda Soledade", "As Sementes do Sol" e "A Dupla Face do Baralho"-, relançadas agora em volume único: "O Delicado Abismo da Loucura" (Iluminuras, R$ 37,40, 352 págs.). De tais histórias e do ato de escrever ficções, sobre o qual tem discorrido em 15 anos de oficinas literárias, o homem falou com a Folha.
Folha - "Não há nada que orgulhe mais um homem do que o poder, real
e absoluto, de reconhecer-se o dono do destino dos outros", diz um narrador
seu. Por isso escrever? Folha - O escritor deve ter o dom das cartomantes: saber vislumbrar
destinos verossímeis? Folha - A agonia, a solidão e a angústia são suas principais
fontes? Folha - A vida é brutal ou simplesmente essas são as situações que
mais se prestam à literatura? Folha - "A força da fantasia é que ela é real", diz seu narrador... Folha - O universo mítico que você retrata o torna o brasileiro que
mais flerta com o realismo mágico? Folha - A cultura sertaneja comporta bem a tragédia? Folha - Existe, então, uma literatura nordestina? Folha - Sua obra é onde estão "escondidos e intocáveis os seus
sonhos", como no quarto de seu personagem Félix Gurgel? Os primórdios de Carrero O delicado abismo da loucura, que reúne os três primeiros romances do autor sertanejo, tem lançamento hoje, na sede da UBE-PESCHNEIDER CARPEGGIANI Raimundo Carrero dividiu a crítica com o seu último romance inédito, Ao redor do escorpião...uma tarântula. O livro apresentava o estágio (talvez) máximo da técnica narrativa que o escritor vem desenvolvendo por toda sua carreira. A trama consistia no desenrolar obsessivo de uma só frase, de uma só cena – um casal enfurnado num quarto maquinando amor e ódio, como se os dois sentimentos fossem uma só coisa (e são?) por pouco mais de 200 páginas. Nem todo mundo abraçou a idéia do autor, e Ao redor do escorpião... é hoje o seu trabalho que melhor merece uma segunda leitura. Seria ele uma espécie de tese sobre as idéias do que a literatura hoje deve ser, pela visão de Carrero, disfarçada de romance? Fica a dúvida. Ao redor do escorpião... foi ainda uma jogada artística arriscada para um autor que vivia um novo boom de reconhecimento na sua carreira, sobretudo após a repercussão arrebatadora da coletânea de novelas Sombrias ruínas da alma – que lhe rendeu um Prêmio Jabuti. Quando a crítica e o publico passaram a redescobrir o autor de Somos pedras que se consomem, no lugar de vampirizar o seu próprio passado, ele preferiu os perigos de um livro arriscado. Agora, ao completar 30 anos de carreira literária, Carrero dá uma volta de 360 graus e revê os seus primórdios. O livro O delicado abismo da loucura, que tem noite de autógrafos hoje, às 19h, na UBE/PE (Rua de Sant’Anna, 202, Casa Forte), reúne três dos seus primeiros trabalhos: A história de Bernarda Soledade, As sementes do sol e A dupla face do baralho. O delicado abismo da loucura é mais um dos estágios do projeto Raimundo Carrero – 30 anos de literatura, coordenado por Marcelo Pereira, editor do Caderno C. Dele, fazem parte ainda o documentário O caçador de assombrações, dirigido por Clara Angélica, e uma fotobiografia, com entrevista, ensaio e fortuna crítica, prevista para o próximo ano. De acordo com Marcelo Pereira, a trilogia inicial de Carrero representa a sua fase sertaneja. “O cenário é áspero e agreste, no que tem de tosco rude, rústico e inclemente, como seus personagens, alguns de nomes bíblicos, como são bíblicas e universais as histórias de amor e traição, urdidas pelo autor, um homem profundamente religioso e temente a Deus”, aponta o organizador. O crítico e escritor José Castello aponta o tom de salvação que existe na escrita de Carrero – assim como via em Clarice Lispector – e se mostra perplexo como um autor iniciante já tinha tantos fantasmas a serem remexidos: “Não é comum que um escritor inicie seu percurso literário remexendo com tanto desassombro, em universos arcaicos e dúvidas primordiais. Na literatura – sobretudo hoje, quando ela passa a ser encarada de forma prática e profissional, e responde mais aos apelos externos que aos impulsos íntimos de quem escreve – se dá, em geral, ao contrário. É na maturidade que, numa da ordem do tempo, os aspectos mais embaraçosos, as inquietações mais agudas (...) emergem, enfim, libertos, nas páginas da ficção.” Em uma entrevista com à reportagem do Jornal do Commercio, Carrero comentou a relação que mantém com o passado (e seus devidos fantasmas) que ele precisou passar a limpo este ano. “Ao escrever, vou até onde não suporto mais” “Na verdade, passo grande parte do tempo sem reler meus livros. É um desgaste grande demais”, revelou Raimundo Carrero, que este ano precisou acertar as contas com o passado pela comemoração de 30 anos de sua carreira literária. Nesta entrevista, o autor lembrou como domou as lembranças, explicou sua fascinação pela personagem Bernarda Soledade e entregou a disciplina da sua escrita.JORNAL DO COMMERCIO – Você acha que, com o passar dos anos, tomando como exemplo a prosa experimental do seu último romance, Ao redor do escorpião...uma tarântula?, sua literatura passou a dar mais valor à técnica? RAIMUNDO CARRERO - Sempre fui um escritor que deu muita importância à técnica. Agora mesmo, estou publicando As sementes do sol - o semeador no volume O delicado abismo da loucura, escrito quando eu tinha pouco mais de 30 anos. Uma novela quase inédita, porque foi tirada, inicialmente, uma edição de apenas 300 exemplares. Ali pratiquei uma série de técnicas, embora a história possa ler lida por qualquer pessoa, sem esforço. Começa que é marcada por duas tríades: Ester, Davino e Lourenço, Mariana, Absalão e Agamenon. E são as tríades que possibilitam o círculo por onde passará toda a história. Entre eles corre uma narrativa que chamei de “silêncio circular”. Ou seja, através de elipses e lembranças, vão sendo revelados movimentos interiores que conduzem à trama. É como bordar um tecido, as imagens vão surgindo por revelação. E que, por isso mesmo, os pontos fazem parte do universo secreto de cada personagem. O leitor percebe que eles não são capazes de se comunicar. Bastaria uma palavra para que nada daquilo acontecesse. A história tem como modelo o episódio bíblico do Rei Davi e Batsabé, vista belamente nua enquanto tomava banho. Uma história de ódio e amor. E de sexo, é claro. Dos pais que assistem imponentes à decadência familiar. E de três irmãos que se amam. JC – Como surgiu a idéia de reunir suas três primeiras novelas em um só volume? Você percebe alguma unidade entre esses textos? RC - Quando surgiu a idéia de se comemorar os meus 30 anos de literatura, através de um projeto de Marcelo Pereira (editor do Caderno C), a primeira sugestão foi esta: publicar as três primeiras novelas para que o leitor pudesse, em conjunto, fazer uma análise completa do meu início. Para isso, seria preciso um estudo de um grande crítico nacional. No caso, José Castello, que fez um trabalho exemplar. E manter a introdução de Ariano Suassuna. Acrescido, tudo isso, de um exame de Marcelo. Samuel Leon, editor da Iluminuras, e meu editor, escreveu as orelhas. Há unidade, sim. Mas, mais do que a unidade, buscou-se um mapeamento seguro da minha capacidade criativa no começo da carreira. JC – Muitos escritores não gostam de olhar para trás e rever seus textos. Como é a sua relação com esses primeiros escritos? Você costuma reler seus livros? RC - Na verdade, passo grande parte do tempo sem reler meus livros. É um desgaste grande demais. E, por isso mesmo, à maneira que o tempo passa, vou sendo tomado por uma espécie de amnésia cruel, porque chego a esquecer cenas inteiras dos meus livros. Até porque, num sentido bem amplo, cada livro publicado é um episódio encerrado. Aquilo estava incomodando, matou, não volta mais. Há sempre o amadurecimento e o amadurecimento nos impele para a frente. No entanto, Bernarda Soledade é um romance que está sempre muito presente, porque os leitores falam muito nele. Tem várias edições, várias interpretações. É, por assim dizer, o romance símbolo da minha carreira. Em, seguida, As sementes do sol - o semeador permaneceu muito tempo como uma espécie de filho esquecido, até que me dei conta de que é um trabalho importante do ponto de vista técnico e estético. Tentei fazer algumas releituras e não consegui. Agora mesmo fiz algumas alterações, sobretudo no trabalhos de poda, porque havia muito excessos. Depois pensei: por que não deixar os excessos, já que a novela é excessiva? Há ainda a questão do estilo dos personagens, e o estilo do personagem Lourenço é de um mau gosto incrível. Como tirar o estilo de Lourenço? Daria unidade de escritor ou de personagem? É verdade: fiz alterações, mas acho que ficou de bom tom. JC – Na apreciação que José Castello faz de O delicado abismo da loucura, ele afirma que “não é comum que um escritor inicie seu percurso literário remexendo com tanto desassombro em universos arcaicos e dúvidas primordiais.” O que você achou dessa apreciação? RC - A princípio fiquei espantado. Porque nunca tive medo de escrever. Costumo visitar e revisitar as minhas dores mais secretas sem nenhum pavor. Talvez porque possa transformá-las em objeto estético. E isso me fascina. Aliás, costumo dizer aos meus alunos da Oficina de Criação Literária: “A gente escreve sobre aquilo que não confessaria nem aos nossos pensamentos.” Escritor medroso afunda. Fica superficial. Superficial e, não raro, antipático. Isso quando tudo aflora ao consciente. E, se é consciente, então vamos investigar até o limite da loucura. Não tenho medo nem da loucura nem da literatura. Vou até onde não suporto mais. Exijo de mim o que exigiria de qualquer escritor. Além do mais, a civilização moderna está cheia de escrúpulos. Materialista, tem medo de sua própria alma. Corre. Negaceia. Negocia. Não creio que deva ser assim. Por isso, mais do que eu, José Castello se assustou. No entanto, trabalho com imensa tranqüilidade. Com muita calma. JC – Pelos seus 30 anos de literatura, você foi levado a rever muita coisa de sua vida. Houve o relançamento dos livros, o documentário sobre sua vida. Como você lida com o passado? RC - As comemorações dos meus primeiros 30 anos de literatura têm me custado muito. Estou fazendo uma revisão não só da minha obra, mas, sobretudo, dos fantasmas que me perseguem desde a infância. Pela primeira vez posso dizer: estamos acertando as contas. Eu e meu passado. Eu e minha obra literária. Porque a minha obra, afinal de contas, sou eu. Não adianta correr nem pedir socorro. Assim, sou obrigado a repetir o verso de Pasternak: “Viver uma vida não é como atravessar um campo de neve.” Tenho uma obra e tenho uma família. Não sei se fiz bem com uma, não sei se fiz bem com outra. Para mim é um conjunto só. Meus filhos são o fundamento da minha vida. Mas posso consertar minha obra. Posso eliminar fantasmas e loucuras. Quero saber se fiz também aos meus filhos. Quero que eles estejam bem. Por dentro e por fora. E agora tenho também uma neta, cuja presença no mundo me alegra e me perturba. É uma menina, Mina Nina, e o que é que vamos fazer agora? Viver, minha filha, e que Deus tenha piedade de nós. JC – Quais foram os primeiros fantasmas que lhe levaram a escrever? RC - Tudo isso que estou lhe dizendo, tudo isso. No princípio - e ainda hoje é assim - me atormentava a fome. Fome de comida e fome de afeto. As pessoas me pareceriam todas elas combalidas, solitárias, e lutando para que, de alguma forma, pudesse pelo menos manter a dignidade. Esse o meu principal fantasma: poder amar a humanidade. Cada gesto de um autor é por amor à humanidade. Seja na literatura, na música, nas artes plásticas. Cada momento é um momento de comum. Mesmo quando não pareça. Surgiram assim as minhas primeiras palavras, as minhas primas cenas, os meus primeiros personagens. Acho que assim fica bem explicado a minha investida literária. JC – Escrever para você tem alguma rotina? RC - Acordo pela madrugada. Invariavelmente. Entre quatro e cinco horas e aí começo a escrever. Reservo essa parte do dia para a literatura, independentemente de trabalho, sacrifício, esforço. Tenho sempre o que escrever, porque leio os jornais e as histórias todas estão ali. Às vezes faço cruzamentos, enredo de um, enredo de outro. E primeiro procuro contar uma história. Todo narrador precisa, antes de mais nada, de uma boa história. Depois cuido das técnicas, das elaborações, da sofisticação. E se os jornais não me convencem, vou para a Bíblia. Trabalho, sinceramente, três a quatro horas por dia. Com o maior empenho. Não acredito em inspiração nem em talento. Acredito em trabalho. Tudo o mais é resultado. |
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