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De ouvidos bem abertos

MARLOS NOBRE, em sua casa: "Componho mentalmente. O compositor tem que estar preparado até para a surdez"

Marlos Nobre ganha prêmio internacional e incorpora hip hop à música clássica

Eduardo Fradkin
 
   No aparelho de som do compositor pernambucano Marlos Nobre, de 66 anos, não giram apenas CDs clássicos. Atento a tudo o que acontece no mundo da música, ele ouve discos de hip hop da filha de 13 anos e permite que o estilo se infunda em sua própria obra. Prega a pluralidade. Não deixa, contudo, de criticar a indústria fonográfica, a mídia e o público brasileiros pela falta de interesse nas obras de compositores eruditos, de Beethoven a ele próprio.

   Do início da carreira, em 1959, até hoje, constituiu um catálogo de 243 obras, a maioria feita sob encomenda. Há pouco menos de duas semanas, em sua casa no bairro de Laranjeiras, Nobre recebeu a notícia de que venceu o VI Prêmio Tomás Luis de Victoria, na Espanha. Foi a primeira vez que o júri internacional do cobiçado prêmio chegou a uma decisão unânime, e ele foi o primeiro compositor lusófono a recebê-lo. A entrega será em março de 2006 numa cerimônia com a presença do rei da Espanha.

A agência de notícias espanhola EFE divulgou uma entrevista em que o senhor dizia não gozar de reconhecimento no Brasil, apesar de ser aclamado no exterior. O senhor se sente injustiçado no seu país?

MARLOS NOBRE: O repórter falou apressadamente comigo por telefone. Ele falava em espanhol, e eu respondia em português. Acho que ele me entendeu mal. Quis dizer que sou muito conhecido e respeitado aqui, mas a minha música não é tocada na mesma proporção. Há um interesse maior pela minha obra no exterior. Tenho uns 40 CDs, mas nenhum lançado aqui. Refiro-me a CDs comerciais, não aos institucionais. Quem quiser comprar um deles nos Estados Unidos ou na Europa vai achar um escaninho com meu nome em qualquer grande loja. Aqui, na (loja) Modern Sound, não tem.

Como o senhor explica essa exclusão do mercado?

NOBRE: É um problema social, o mesmo que levou Tom Jobim a dizer que a saída para o músico brasileiro era o aeroporto. De fato, se ele não tivesse ido para Nova York e gravado com Frank Sinatra, podia nunca ter tido sucesso no Brasil. Minha filha de 13 anos, Karina, é um exemplo de como funcionam as coisas. Ela não gosta de música clássica e diz que, se gostasse, ficaria fora do ambiente dos amigos. Eu digo para essa juventude: vocês têm um papel triste, são meros consumidores de uma indústria musical. Eu sou um produtor de cultura e vou contra a maré. Já o consumidor, ele é a maré.

O seu reconhecimento no Brasil, então, não é comercial.

NOBRE: Quando Glauber Rocha filmou "O dragão da maldade contra o santo guerreiro", no fim da década de 60, ele me ligou pedindo para eu fazer a música para o filme. Naquela época eu já era famoso no Brasil, no meio cultural. Mas não no meio do público. Nenhum compositor erudito é conhecido pelo grande público, nem Beethoven. O pessoal só conhece o pá-pá-pá-pá (cantarola o tema da 5ª Sinfonia de Beethoven). A repercussão de compositores populares na mídia é muito maior que a dos eruditos.

Mas isso não acontece em qualquer lugar do mundo?

NOBRE: Sei que não dá para comparar Copland (compositor americano do século XX) a Michael Jackson. A música de concerto não é para se cantar no banheiro, nem para se dançar. É para a reflexão e exige uma sensibilidade maior. Mas o mercado brasileiro de música erudita não existe. Digo isso com tranqüilidade. Quando vejo alguém fazer um CD, é com tiragem muito reduzida, sobretudo para distribuição promocional. Não é para a venda em lojas. O mercado americano é muito maior. Meus amigos de lá me dizem que sou privilegiado pois vêem muitos dos meus CDs nas prateleiras das lojas. Disputo espaço nos mercados americano e europeu, mas não no brasileiro.

O que fará com o prêmio de 60 mil euros?

NOBRE: Vou aplicar uma parte na minha obra, que está sendo digitalizada. Estou criando a minha própria editora e quero que ela funcione pela internet. Pretendo, eu mesmo, divulgar e licenciar minhas obras, sem intermediários. Com a internet, a função do editor passou a ser zero. Recentemente ganhei um processo na Alemanha que movi para reaver os direitos de 60 obras de um editor de lá que não era muito ativo. Ele assumidamente não gosta de música contemporânea e não fazia muito para promover meu trabalho.

É possível viver de direitos autorais?

NOBRE: Não. Ninguém vive de direitos autorais, mas de uma combinação deles com encomendas e prêmios.

O senhor se inscreve em muitos concursos?

NOBRE: Já fiz muito isso. Hoje não faço mais. Sou indicado. Foi assim com o Prêmio Tomás Luis de Victoria. Não sabia que estava concorrendo até dois dias antes de me anunciarem vencedor. Primeiro me ligaram para pedir fotos e uma relação de obras recentes. Dois dias depois, ligaram novamente para avisar que venci. Fiquei muito surpreso. Esta foi a quarta vez que concorri.

Quantos concursos já ganhou?

NOBRE: Se não me engano, 32. Quando tinha 20 anos e decidi ser compositor, meu pai ficou preocupado, achando que eu não conseguiria viver disso. Em 1960, ganhei o prêmio Música e Músicos do Brasil, que equivalia a um ano do salário dele. Com isso, consegui tranqüilizá-lo, mas ainda assim ele achava que era um prêmio isolado. Felizmente vieram outros. Em 1961, ganhei o concurso para estudantes BMI (Broadcasting Music Inc.), em Nova York. Ele me tornou conhecido e daí surgiram as primeiras encomendas de trabalho. Em 64 ou 65, já estava recebendo muitas delas do exterior e tudo que compus daí em diante foi por encomenda. O concurso está para o jovem assim como a encomenda para o veterano. Em início de carreira, eu me inscrevia em todos os concursos no Brasil e no exterior. Ficava sabendo deles por jornais e por amigos, já que não havia a internet.

Quanto tempo dedicava à música naquela época?

NOBRE: Eu trabalhava feito um louco, cerca de 14 ou 15 horas diárias. Trabalhava até de madrugada. Só deixei de fazer isso depois que minha filha nasceu. Hoje, reservo seis a oito horas diárias para a música. O fato é que, sem disciplina e técnica, não se constrói uma obra de qualidade. Fico atônito ao ver jovens compositores que me confessam não dominar sequer um instrumento. O compositor tem que ser, antes de tudo, um grande músico. Não adianta ter boas idéias e não saber realizá-las.

A educação musical nos conservatórios é falha?

NOBRE: O maior erro dos conservatórios é dar aulas abstratas. A música é viva, não existe no papel. O músico tem que ouvir o que escreve.

O senhor tem contato com jovens músicos?

NOBRE: Eu recebo muitos deles, de todo o país, em minha casa para reuniões no último sábado de cada mês. Eles me mostram suas criações, e eu lhes dou conselhos, faço correções. Também costumo dar masterclasses no site de música erudita Allegro (www.allegrobr.com) e converso com internautas lá.

Como é o seu processo de composição?

NOBRE: Passo horas improvisando no piano, é uma boa forma de obter idéias. Mas, na hora de compor, faço-o mentalmente. Notei que, quando compunha algo ao piano, os cacoetes dos meus dedos interferiam no processo, limitando a criação. Então passei a fazer tudo mentalmente. Além disso, o compositor precisa ter boa audição interna e estar preparado para tudo, até a surdez.

Qual o futuro da música clássica?

NOBRE: Eu acredito na pluralidade. Nos anos 50, (Pierre) Boulez dizia que quem não fazia música serial era uma besta, assim como Mário de Andrade disse que quem não era nacionalista era uma besta. Pois eu acho que atitudes exclusivistas como essas é que são uma burrice. Na época do serialismo, eu fazia anti-serialismo. Na do nacionalismo, escrevia obras antinacionalistas. Sempre remei contra a maré. Eu ensino a pluralidade. Acredito que a música clássica deve se aliar a manifestações contemporâneas como o rock, o rap, o hip hop. Quem ignorar as correntes atuais ficará isolado. Eu não faço distinção de gêneros. Compor, para mim, é moldar uma grande massa musical, que é múltipla. Sempre pergunto à minha filha o que ela está ouvindo. Ela tem me dado discos de hip hop, e eu ouço todos.

Isso já se refletiu na sua música?

NOBRE: Claro. Coloquei um ritmo de hip hop no centro da peça "Kabbalah". Ela foi estreada mundialmente e gravada na edição do ano passado do Festival de Inverno de Campos do Jordão. As reações foram ótimas.

O senhor já pensou em deixar o Brasil?

NOBRE: Não. Já fui convidado para uma cátedra na Universidade de Yale e recusei. Tenho necessidade de ficar no Brasil. Não consigo viver longe daqui. Quando morei dois anos em Paris, vim muito ao Brasil de visita.

(© O Globo)

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