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JOSÉ TELES O maestro Moacir Santos, pernambucano e cidadão do mundo, 79 anos, há 38 morando em Los Angeles, é comparado a Pixinguinha pela inovação dos arranjos que criou e timbres que extraiu das orquestras e conjuntos que liderou. Desconhecido das novas gerações, Moacir Santos teve, este mês, sua obra lançada em três songbooks, além de um CD, Choros & alegria, produzido pelos músicos cariocas Mario Adnet e Zé Nogueira. O maestro é autor de um dos mais importantes discos da música brasileira, Coisas (1965), que influenciou várias gerações. Um songbook inteiro foi dedicado a este disco de pouco mais de 30 minutos de duração e importância atemporal. Os outros dois songbooks trazem os arranjos de Ouro negro, e do citado Choro & alegria. A obra revista do músico dos músicos Graças à dedicação de Mario Adnet e Zé Nogueira, Moacir Santos tem seu trabalho editado em songbookPoucos músicos exerceram uma influência tão marcante na música brasileira quanto o maestro Moacir Santos. Paradoxalmente, poucos músicos tão influentes são tão pouco conhecidos em seu próprio País quanto ele. Graças a dois admiradores, o violonista Mario Adnet, e o saxofonista Zé Nogueira, a obra de Moacir Santos, desde 2001, vem sendo difundida e tornando-se acessível para quem só conhecia dele as inúmeras versões de Nanã, e o elogios de Vinicius de Moraes em O samba da benção (“A benção maestro Moacir Santos. Não és um só, és tantos”). O maestro, compositor, instrumentista, Moacir Santos até 1967, quando se mudou para os Estados Unidos, era o músico dos músicos brasileiros. A turma da bossa nova foi aluna dele. Há muito de Moacir Santos nos arranjos de Tom Jobim. Os afro-sambas de Baden Powell provavelmente não existiriam não fosse os ensinamentos que o violonista recebeu do maestro. Coisas, o primeiro disco de Moacir Santos é um marco divisório na MPB (permaneceu inacreditáveis 39 anos fora de catálogo). A própria vida de Moacir Santos daria um romance. Nascido no Sertão pernambucano, em 1926, ele passou a primeira infância em Flores, achava que havia nascido em Serra Talhada, mas só recentemente descobriu que seu registro é de São José do Belmonte. Órfão aos três anos, foi viver com uma madrinha, que não demorou a morrer. Ele foi adotado por uma família amiga da madrinha. Músico ainda garoto, Moacir Santos aos 14 anos ganhava o mundo. Depois de uma trajetória digna de um romance de Mark Twain, Moacir Santos passou por dezenas de cidades do Nordeste, até chegar, nos anos 40 à Rádio Nacional, no Rio. Fez música para TV, rádio, cinema, teatro, foi professor de nomes como Carlinhos Lyra, Paulo Moura, Tom Jobim, culminando sua carreira no Brasil com a gravação do seminal Coisas. Modesto, quando apresentava alguma música nova, pedia para os amigos escutarem uma “coisa” que havia feito. Batizou o álbum de Coisas, com cada faixa intitulada de Coisa. O disco contém dez “coisas”, a mais conhecidas delas a Coisa nº5, que recebeu letra de Mario Telles, e foi rebatizada de Nanã (tem centenas de gravações aqui e no exterior). Em 1967, foi para o Estados Unidos para trabalhar inicialmente em trilhas sonoras. Foi assistente do compositor Henry Mancini (de onde surgiu o boato de que seria de Moacir Santos o tema de A pantera cor-de-rosa). Virou cult também entre músicos americanos de jazz. Tocou e gravou com alguns dos maiores nomes do jazz e lançou, com a participação de muitos deles, quatro discos nos EUA (todos continuam inéditos no Brasil). Aos 79 anos, Moacir Santos não toca nem rege mais (um derrame o deixou incapacitado). Mesmo assim, veio ao Brasil para acompanhar o trabalho de Mario Adnet e Zé Nogueira no, literalmente, resgate de sua pequena, mas fundamental, obra. SONGBOOKS – A presença de Moacir Santos durante no projeto de transcrição de sua música era indispensável. Pouco restava em partituras do que o maestro escreveu ao longo de anos de uma vida nômade. Aliado a isto, está o prodigioso descaso brasileiro com sua memória cultural. Todas as partituras originais dos arranjos do célebre Coisas desapareceram, quando a Forma, gravadora que o lançou, passou para a Phillips (hoje Universal). Felizmente, a fita com a gravação foi encontrada e os músicos, consultando o maestro por telefone, reescreveram os arranjos. Neste final de ano a tarefa de Adnet e Nogueira foi entregue ao público, inicialmente com mais um CD, Choros & alegria (Biscoito Fino), que reúne parte da primeira obra de Moacir Santos (valsas, boleros, marchas). Por fim, a música deste disco e dos dois outros lançamentos brasileiros do maestro, Coisas e Ouro negro, receberam cada qual um songbook (da Jobim Músic), com partituras, textos de músicos e especialistas, e fotos que contam em imagens a trajetória do maestro. “No cancioneiro Moacir Santos, não há a pretensão e nem a preocupação de oferecer um trabalho específico para piano ou outro instrumento. Escolhemos, Zé Nogueira e eu, este formato, com pauta de piano (acompanhamento) e instrumento melódico, por ser mais adequado à redução dos arranjos e para que as melodias e os contrapontos apareçam com a mesma intensidade e as composições possam ser compreendidas como um todo”, explica Mário Adnet, quando fala da concepção dos songbooks (aportuguesado para “cancioneiro”, embora no caso do maestro a maioria não seja canção, song, mas peças instrumentais). Preços sugeridos pela editora: Coisas, R$ 58, Ouro negro, R$ 61, e Choro & alegria, R$ 47 |
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