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Cinema, aspirinas e bodes

11/06/2008

 

Cabaceiras, cidade da Paraíba onde bode é rei, assiste pela primeira vez a um filme na tela grande, justamente o que foi rodado ali e concorre a uma vaga no Oscar

Flávia Guerra A repórter viajou a convite da produção

'Esta era a cidade de O Auto da Compadecida. Agora é a cidade de Cinema, Aspirinas e Urubus. O Gomes desbancou a Globo. É o Brasil no Oscar!', dizia um entusiasmado poeta e pesquisador, Paulinho de Cabaceiras. O cidadão de Cabaceiras, no sertão da Paraíba, exagerava, mas tinha sua parcela de razão. Naquela noite de terça-feira, início de outubro, na cidade de cerca de 5 mil habitantes, era dia de ver Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Pela primeira vez desde que a equipe de filmagem saiu dali (há exatos três anos).

Já passava das dez quando subiram os créditos e a platéia de cerca de 1.200 pessoas se levantou. Em silêncio. Não houve quase aplausos. Alguns tímidos, que não causaram uma onda redentora. 'Era exatamente a reação que eu esperava. Era natural que as pessoas dali não se reconhecessem. Este não é um filme para público que cresceu vendo novela ', disse Gomes, pernambucano, que levou sete anos para filmar e finalizar Cinema, Aspirinas e Urubus, 'nosso filme no Oscar 2006', candidato a uma das cinco vagas de melhor filme estrangeiro.

Cabaceiras é coisa de cinema. 'Já fomos cenário de o Auto da Compadecida, de Guel Arraes. Já teve o São Jerônimo do Júlio Bressane; Os Desvalidos, do Francisco Ramalho; o Madame Satã do Karim Ainouz, o Tempo de Ira, que é curta-metragem. E vários documentários', conta Paulinho.

Mas cinematográfica mesmo é a festa do Bode Rei. Em Cabaceiras, 'estar de bode' é coisa boa. E quem manda ali é o bode. Onipresente. A festa tem Triatlo do Bode. Tem bodioca, estrogobode, MacBode, 'até a Ana Maria Braga já falou da nossa gastronomia bodística', diz dona Cecia Soares sobre a 'amiga da TV'. Ela, que trabalha na roça, adorou Cinema, Aspirinas e Urubus. Paulínia Soares não concorda e diz para uma amiga: 'Não visse o filme? Perdeu nada. Só vale pela hora em que o galego tira a roupa.' Fernando Lima, de 49, discorda: 'Oxe, valeu cada minuto. É o nosso torrão. Deste um tantão de filmes, só cinco vão pra final. É isso? Deus e padim Ciço queiram que seja esse.' Amém.

Como se vê, aquela não era uma noite qualquer sob o luar do sertão. Óxente, ó não. Era uma sessão de cinema em Cabaceiras, distante 185 quilômetros da capital João Pessoa, cenário de histórias reais. Cenário de cinema, de várias cenas do já consagrado longa-metragem, que conta a história de um alemão que viaja pelo Brasil em plena 2ª Guerra, para vender aspirinas no sertão, em cidades em que a dor-de-cabeça é a falta d'água. Como convencer o povo a ter cabeça para precisar das aspirinas na década de 40? Com cinema, claro.

E o cinema estava também pela primeira vez em Cabaceiras, na tela do projeto Cine Sesi Cultural, que viaja o Nordeste exibindo filmes em praça pública. 'Queria que a minha televisão fosse do tamanho desta tela enorme', dizia Lucas Oliveira, de 9 anos. 'Adorei. Gostei dos dois virarem amigos e da história do caminhão', dizia Romário Batista, de 11.

Os aplausos podem não ter vindo em ritmo de filme de ação, mas a rara história de amizade deste tal alemão, Johann (o ator alemão Peter Ketnath), com um nordestino que pega carona em seu caminhão, Ranulpho (João Miguel), reverberou nos corações e mentes da platéia de Cabaceiras. ' A gente é esquisito mesmo, né? Demora para acostumar a se ver na tela. Aqui ninguém nunca veio mostrar nada para a gente, não. Só o Auto da Compadecida, que vimos foi na TV', confidenciava dona Cecia, que não tira leite de pedra, mas faz um doce de xique-xique famoso na região. 'Fico emocionada de ver o xique-xique, o mandacaru. Ó, lá, espia. Eu, que comi xique-xique pra não morrer de fome, vendo ele no cinema. O mesmo que tá ali no mato. Bonito por demais.'

O caminho de Cinema, Aspirinas rumo ao Oscar ainda é longo, digno de ser percorrido num pau-de-arara. Mas para a população de Cabaceiras, com aplauso ou não, o clima é de já ganhou. A equipe do longa chegou de tardezinha, com o cenário já preparado para a festa. Na entrada da cidade, uma faixa: 'Concorrendo ao Oscar.' Marcelo Gomes se avexa diante da homenagem. ' Vou pôr a mão aqui para esconder a primeira sílaba e fica só 'correndo' do Oscar. Que tal?', brinca.

Correndo, mesmo, Gomes, a produtora Sara Silveira e o produtor João Vieira Jr. ainda não estão, mas a maratona já começou e o trio tem muito baião-de-dois para comer até aprender a lidar com publishers e lobbies necessários para chegar às finais da copa da Academia de Hollywood.

Antes da cerimônia do Oscar, tiveram à frente a cerimônia organizada pela prefeitura de Cabaceiras. O nome vem da cabaça, a planta, sabe? Pois pronto. Mas de cabaça, pouco se vê. A sessão dos urubus ao ar livre foi realizada no Parque do Bode, onde, sobre as cabeças pensantes, paira um imenso bode. No coquetel após a sessão, que tem como cenário a antiga cadeia, aparece, digna em seu trono, a rainha. Que rainha é você? 'Rainha do Bode, visse?'

Como todo bom coquetel, iguarias. Em meio a quiches progressistas, coxinhas com gosto de 'minha avó fazia', bolinho de carne, queijo, pastelzinho. Mas a iguaria da noite era mesmo a bodioca. Nunca provaste, não? Essa era a hora. Bodioca = tapioca de bode. 'Pois a carne de bode é levíssima. Nutritiva. Pense num meio termo entre a carne de vaca e a de carneiro', explicava o figurinista do filme, Beto Normal. 'O bode é o único bicho que resiste a esta secura daqui. Boi morre, galinha não agüenta o tranco do calor. Bode é bicho marrento, teimoso, mas resistente que só ele', acrescentava o jornalista Willis Leal, um dos criadores da Festa do Bode Rei. 'O bode nos dá tudo. Usamos o couro, carne, chifres, fora a simbologia que esse animal representa', acrescentava Paulinho, que ostentava um belo chapéu de cangaceiro feito, claro, de couro de bode.

Cabaceiras também ostenta várias estátuas de bode em suas praças. 'Que estão muito mais bem cuidadas, é verdade. Quando filmamos aqui, era tudo terra. Agora tem até pracinha', admirava-se Sara. Pracinha há, mas grama já é pedir demais. Cabaceiras já ostentou o título de menor índice pluviométrico do País. 'Tá aí uma das explicações por que o povo que mexe com cinema adora filmar aqui. Aqui não chove, a luz é maravilhosa, o luar é incrível. E o cenário está todo preservado', orgulha-se o prefeito Ricardo Aires. Cabaceiras de fato não padece de pragas como grades nas janelas, parabólicas e fios de eletricidade. A razão da preservação, que fez a cidade parar no tempo por décadas: a seca. 'Ficou isolada por muito tempo. Mas isso acabou mantendo suas características. Envelhecemos várias fachadas e fizemos ajustes. Mas há partes da cidade que são perfeitas para a época em que queria filmar', conta Gomes, que não foi o único a perceber o potencial do 'Projac do sertão', abençoado

(© Agência Estado)


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