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Tom Zé lança CD no dia de seu aniversário de 70 anos

11/06/2008

Caio Guatelli/Folha Imagem

Tom Zé, que celebra seus 70 anos com apresentações no Sesc Pinheiros de 20 a 22/10


O disco "Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício" terá show de lançamento no Sesc Pinheiros, nos dias 20, 21 e 22

Jotabê Medeiros

SÃO PAULO - Quando tinha 7 anos, em Irará, Bahia, Tom Zé lembra que seu primeiro grande deslumbramento na vida foi ao escutar os cantos das lavadeiras na Fonte da Nação, onde se lavavam as roupas dos conterrâneos e de onde vinha a água potável para as cerca de "três mil almas de Irará". O canto era hipnótico, o burburinho dos aguadeiros, a voz agudíssima das velhas senhoras e o espetáculo colorido das roupas estendidas no gramado - o som e a imagem se espalharam pela cabeça do jovem Tom Zé.

Ele até invoca o poeta inglês John Keats (1795-1821) para definir aquele seu maravilhamento original. "A thing of beauty is a joy forever" (Uma coisa bela é uma felicidade para sempre).

"É como se eu quisesse repetir aquilo a minha vida inteira, e nunca consigo", lembra hoje o baiano Antônio José Santana Martins, o Tom Zé, nos seus 70 anos (que completa nesta quarta-feira, às 23 horas). "Minha vida toda foi uma descanção Nunca pude fazer uma canção."

Suas descanções, entretanto, o tornaram um dos mais originais artistas da música brasileira, e mais um lote delas desembarca nesta quarta-feira nas lojas: "Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício" (lançamento independente Irará Edições Musicais Ltda). O show de lançamento será no Sesc Pinheiros, nos dias 20, 21 e 22.

Um álbum com sete canções

Seu novo disco é feito de sete canções sem letra: sete "descanções" de Tom Zé que prescindem do verbo e da palavra. "Mas, paradoxalmente, nunca escrevi tanto e falei tanto de política e questões sociais como nesses tartamundeios", emenda o baiano.

A mudez das composições, todas baseadas nos três tempos que perpassam a herança musical das nações negras que se instalaram no Brasil - Viver, Sofrer, Revoltar - alude indiretamente à situação da política brasileira. "A política degrada o teor cívico da palavra. O político fala o que quer sobre o que quiser. Diz uma coisa dizendo outra, e implode o significado da palavra. É Hitler falando em democracia."

Um trabalho dedicado aos jovens

Tom Zé acostumou-se a ver, nos seus shows e na porta de sua casa, pessoas muito jovens buscando sua música e sua influência. Por isso, ficou entristecido quando, em 2005, a MTV divulgou uma pesquisa na qual se mostrava que o jovem brasileiro em sua maioria, tinha se tornado "hedonista, egoísta, descrente em projetos coletivos".

"Isso me virava a cabeça, me atormentava. Pensei: canto para os jovens, eles me procuram. Não posso abandonar essa parte da juventude que tomou um caminho inesperado." Por isso, o disco novo de Tom é, principalmente, um panfleto musical que tenta mostrar à juventude, com um discurso sonoro, como foi que se formou a música brasileira que eles ouvem hoje, a partir da saga dos negros e dos índios brasileiros, "cujo sangue depurou a arte e a religião de três Américas". Há ainda um tipo de comentário musical sobre declaração de Chico Buarque ("A canção acabou") e uma entrevista de Julio Medaglia lamentando que o avanço tecnológico não tenha sido vindo com uma revolução estética.

Outra motivação teórica expressa por Tom Zé no novo trabalho nasce de um ciclo de palestras chamado "O Silêncio dos Intelectuais", em 2005, o que veio reforçar ainda mais sua tese de mudez verbal. "Era um silêncio que não era mudo, expressava um grito de desespero do intelectual brasileiro, quando as palavras não conseguiam dizer mais nada."

Ritmos e sons da luta de negros e índios

Na "Dança dos Herdeiros do Sacrifício", Tom Zé explora temas como a Revolta Malê (negros escravos muçulmanos) na Bahia, em 1835; as rebeliões dos quetos, que vieram do Sudão para Olinda (PE); as lutas dos nagôs e dos oiós na Bahia, Maranhão, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul; a revolta dos índios paiás. "Mas eu não ia fazer um disco de folclore, um disco Pai Tomás." No disco, nenhuma palavra, só ritmo e sons do mundo nordestino, espasmos não verbais, gingas onomatopaicas ("Como na língua das crianças" diz ele). Súbito, Tom se lembra de um "deslize" deliberado, uma palavra que escapou: na canção Taka-Tá, surge uma brincadeira concretista com as palavras Cidade e Capacidade em inglês (Capacity, capa-city), na qual Tom Zé faz referência ao poeta Augusto de Campos e seu poema "cidade-city-cité", de 1963.

"Sem uma palavra e ainda assim cheio de discursos", diz o artista sobre seu disco. Um espirro vira "Atchim", cantiga rodeada por uma volante de sanfonas, e que se desmilingüe numa banda de coreto no final. Festa de percussão, de beatbox, de música nordestina de nobre procedência, como as canções praieiras de Dorival Caymmi. E Tomezé, tome invenção.

Documentário premiado traz turnê de Tom Zé na Europa

Para a revista "Rolling Stone", ele é o último herói do pop underground. Tom Zé é uma figura. Faz amanhã (11) 70 anos mas você é capaz de jurar que tem menos. Tom Zé ocupa o centro do documentário de Décio Matos Jr. que leva seu nome e foi exibido na Première Brasil do Festival do Rio 2006. "Fabricando Tom Zé" integrará também, este mês, a Mostra Brasil da Mostra Internacional de Cinema São Paulo. No Rio, ganhou o prêmio do público. Em São Paulo, concorrerá ao Prêmio Petrobras de Difusão Cultural, no valor de R$ 200 mil, destinado ao melhor documentário do evento.

"Fabricando Tom Zé" tem como fio condutor a turnê que ele fez pela Europa, em 2005, mas o diretor filma cenas do artista na escola em que estudou, em Irará. No Rio, o próprio Tom Zé disse que o documentário é ótimo, mas ironizou - são tantos, atualmente, os filmes sobre cantores e compositores que, no futuro, algum artista ainda vai se orgulhar de poder dizer que nenhum documentário foi feito sobre ele. "Fabricando Tom Zé" terá fortes concorrentes na Mostra, mas leva jeito de chegar entre os melhores documentários.

(© Agência Estado)


Nem parece: Tom Zé, 70 anos

 

Sem perder o gosto pela rebeldia, o cantor e compositor baiano aproveita aniversário para falar do novo disco. Ele se sente gratificado pelo carinho do público, mas está decepcionado com a política

BRUNO PORTO
Agência Globo

Alguns dos grandes nomes da MPB costumam comemorar seus aniversários em festas nas quais o número de celebridades só é menor que o de fotógrafos. Na contramão desde sempre, Tom Zé fez outros planos para os 70 anos que ele completa hoje. Um dos artistas mais inquietos do País, o baiano decidiu comemorar a data lançando mais um CD, o independente Danç-êh-sá — dança dos herdeiros do sacrifício. Tema de um dos documentários mais festejados do Festival do Rio, Fabricando Tom Zé, o músico completa sete décadas sem perder o gosto pela rebeldia. Apesar da decepção com Lula, ele vai votar no petista para fortalecer o novo governador da Bahia, Jaques Wagner. A seguir, alguns trechos da conversa com o músico aniversariante.

ÁLBUM NOVO –“Esse disco tem três ou quatro influências. Uma delas foi o silêncio dos intelectuais diante do abismo causado pela decepção com a esquerda política. Outra influência foi uma pesquisa feita pela MTV que mostrou que os jovens não gostam de músicas com letras longas. O dicionário faliu, e as palavras não falam nada. Em função disso, eu decidi fazer um disco cheio de tartamudeios. É uma maneira de tentar chegar até eles. É um jeito de dizer para eles que o mundo é uma coisa de nossa responsabilidade. Peço que eles abandonem essa posição de irresponsabilidade. Ele é ousado, mas dialoga com o passado. Tudo que faço faz referência ao folclore e à música brasileira. Usei nas faixas células e ambientes musicais dos anos 40”.

REBELDIA – “A minha produção principal é a rebeldia. E a rebeldia é uma proteína indispensável para as gerações. Sem ela, elas não vingam. As minhas canções são apenas um invólucro para essa rebeldia. Com essa rebeldia, as pessoas criam antíteses para a sua geração. Quero deixar claro que eu não faço palavras de ordem. Eu não sei de nada. Eu só faço sugestões de pensamento.”

70 ANOS – “É um momento muito comovente. Minhas dificuldades foram muito grandes, mas hoje tenho público e respeito. É uma grande coisa para um miserável do interior, para um analfabeto. Analfabeto no sentido de que a minha maneira de ver o mundo é a dos analfabetos, dos sertanejos do Guimarães Rosa. A cultura de lá não é romanizada, aristotelizada, não passou pela espinha dorsal da cultura ocidental, pelos tipos de Gutemberg.”

ELEIÇÕES – “Estou decepcionado, mas vou votar em Lula. Eu fiquei sabendo que, sem o Lula na presidência, o Jaques Wagner (recém-eleito governador da Bahia) não vai conseguir governar. A Bahia tem problemas graves. O Antônio Carlos Magalhães sufocou o governo do (ex-governador) Waldir Pires. E quem me disse isso foi um primo, não foi político. Pois com político eu não falo. Na verdade, o meu voto é pelo Gil. O Gil, eu apóio. Eu acho importante ele sair do conforto para fazer o que faz.”

(© JC Online)


Tom Zé, 70

Para celebrar o aniversário, parceiros como David Byrne fazem perguntas ao músico, que lança CD, faz shows e é tema de filme

RONALDO EVANGELISTA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Tropicalista, reinventor do samba, artista pop excêntrico, influenciador de inúmeros jovens artistas, pensador incansável, cantor cult esquecido, ícone da MPB. Tom Zé já fez muito e já foi muitos nos 70 anos que completa hoje. Mas uma coisa nunca mudou: a originalidade de sua obra. Lançando disco "sem palavras", "Danç-êh-Sá", para marcar o anunciado fim da canção, fazendo show comemorando o lançamento e o aniversário, estrelando documentário sobre sua vida e obra, Tom Zé não chegou aos 70 anos impunemente, nem a música brasileira mexida e remexida por ele.

Para marcar a data, a Folha convidou nove amigos, fãs e parceiros a dizer o que gostariam de perguntar a Tom Zé na data de seus 70 anos.

Feitas as perguntas, as respostas do compositor -nascido na pequena cidade de Irará, no interior da Bahia, e radicado em São Paulo- você lê na entrevista a seguir.

DAVID BYRNE - Por que muitas vezes são as pessoas do interior, de cidades pequenas, que fazem a revolução? Tem algo da sensação de um garoto do interior descobrindo o mundo que nunca vai embora? TOM ZÉ - Dizem que o Nordeste não tem terremoto. Mas tem uma força tão forte lá debaixo da terra que o Nordeste está eternamente trepidando a três graus da escala Richter, uma central atômica, que é o folclore. Eu, Caetano e Gil nascemos sob a égide dessa força, dessa enorme condensação cultural.
E não era nem literário -era no visual, no gesto, na dança, no canto e na palavra falada. Uma visão de mundo diferente. Talvez por isso seja mais fácil para os tropicalistas compreender a segunda revolução industrial.

ZÉ MIGUEL WISNIK - O que é São Paulo na sua vida?
TOM ZÉ -
Não tenho essa coisa filosófica de aceitar um lugar como uma coisa mítica, mas aqui em São Paulo eu passei a ter uma profissão, um casamento, um CPF, passei a contribuir com INSS. Tudo isso vai transformando a pessoa num cidadão, então São Paulo me deu uma cidadania.

JOHN ULHÔA - Canções construídas de uma maneira mais tradicional, delicadas, ainda têm espaço em seu trabalho, que se afirma em sua vertente mais experimental?
TOM ZÉ -
Tenho algumas músicas mais melódicas na minha carreira, mas não sou bom no contemplativo. Às vezes o contemplativo vem a mim, mas é de dez em dez anos. Eu só sou bom no cognitivo. Por isso que você tem que esperar dez anos para ouvir uma música minha que é quase melódica, quase contemplativa [risos].

MAX DE CASTRO - Por que você acha que o mesmo trabalho que o colocou no ostracismo nos anos 70 tenha sido aceito como clássico anos depois -e tenha sido o mesmo trabalho que o tirou do ostracismo?
TOM ZÉ -
Não me queixo de mercado, de público, de nada, eu aceito as regras. Então, tem uma coisa aí que tem que ser minha culpa, de não assumir e ser dono de minha obra. Eu estava fraco, depauperado, sem capacidade de assumir o que eu mesmo fazia. Não é o sistema nem a música que eu fiz. Foi eu ter me recolhido como se estivesse assombrado com o sucesso que eu tinha feito, como se eu sentisse culpa do sucesso.

ELIFAS ANDREATO - Para mim, a principal questão a ser feita a Tom Zé é: você se sente ressarcido do calote que lhe deram os tropicalistas?
TOM ZÉ -
No Oriente se diz que quando um amigo seu quer se afogar, você não pode tentar salvá-lo, caso contrário morrem os dois. Isso é algo importantíssimo, e os meninos sabiam disso por intuição. Era interessante se livrar de um complicador como eu, como Caetano disse agora no documentário feito sobre mim. Mas eu não tenho queixa de Gil nem de Caetano. Queixa de quê, meu Deus? Ninguém pode imaginar a felicidade que eu tive nascendo perto dessas pessoas. Caetano foi quem me trouxe para São Paulo, literalmente, dentro de um avião. Aqui em São Paulo ele me botou trancado dentro de um quarto e tocou o disco "Sgt. Pepper's" [Beatles] -ele sabe que eu não ouço música- e me traduziu música por música, palavra por palavra. E me levou para ver Zé Celso fazendo o "Rei da Vela". Ele realmente queria me botar dentro das coisas mais importantes que estavam acontecendo. Uma coisa extremamente carinhosa.

(© Folha de S. Paulo)


"Eu, quando setento, não me sento"

Compositor afirma se sentir com 60 anos e condena a prática do jabaculê por restringir o leque de escolha do ouvinte

Músico diz que recusaram pagamento para tocar disco seu por ser moderno demais e que compõe apenas para a "alegria da humanidade"


COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Leia abaixo a continuação da entrevista com Tom Zé.


WASHINGTON OLIVETTO - Cartola disse que as rosas não falam. Roberto Carlos não gravou essa canção porque tem certeza de que as rosas falam. Você, que é jardineiro, por favor, esclareça: afinal, as rosas falam ou não falam?
TOM ZÉ -
[risos] As rosas não dizem uma palavra, elas cantam. Dizem que as árvores são parentes próximas dos homens, só que elas estão na fase em que o homem só cantava!

ELTON MEDEIROS - Tom Zé, qual é a sua maior devoção?
TOM ZÉ -
Eu tenho um sonho maluco de infância. Um dia, eu tive uma intuição de que, quando a ciência se desenvolvesse muito, a humanidade toda seria beneficiada. Nesse dia eu fiz uma conta, a de que o ano 2000 seria a chegada da felicidade na Terra, e eu teria 63 anos. Hoje em dia a ciência realmente está estabelecida, só que, como ela tem dono, não fez a felicidade de todo mundo. Minha devoção agora é ficar fazendo música como se eu estivesse num paraíso terrestre, uma música que seria como a atitude dos donos da ciência, me preocupando com a alegria da humanidade.

LUCAS SANTTANA - Você acha que o jabá priva a população de ouvir novas produções musicais?
TOM ZÉ -
Sem dúvida que a população fica privada de um leque de escolha maior. No meu dentista sempre ouço essa rádio de música brasileira, e o repertório é fraquinho. O gozado é que foi oferecido um jabá pra tocar o meu disco e eles mandaram de volta dizendo que era muito moderno, não dava pra tocar, nem pagando [risos].

RITA LEE - Eu estou com 60 anos, então pergunto o seguinte: quando a gente 60 se tenta, quando a gente 70 se senta?
TOM ZÉ -
[risos] Olha, eu, pelo menos, quando setento, não me sento, mas me sinto 60.

TOM ZÉ
Quando:
dias 20 e 21/10, às 21h; dia 22, às 18h
Onde: Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, tel. 0/xx/11/3095-9400)
Quanto: R$ 10 a R$ 20

DANÇ-ÊH-SÁ
Gravadora:
Independente
Quanto: R$ 20, em média

(© Folha de S. Paulo)


COMPOSITOR COMEMORA DATA COM PROJETOS

Completando sete décadas mais ativo do que em qualquer outra época, Tom Zé lança de forma independente o disco "Danç-êh-Sá"; é estrela do documentário "Fabricando Tom Zé", de Décio Matos Jr., que passa sua vida a limpo, traz depoimentos de Caetano e Gil e levou o prêmio de melhor documentário segundo o júri popular no Festival do Rio e prepara-se para shows de lançamento do disco, nos dias 20, 21 e 22, no Sesc Pinheiros

(© Folha de S. Paulo)


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