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Comédia do outro mundo

11/06/2008

O cinema brasileiro ainda não tem um mercado desenvolvido, não encontrou seu público, mas a gente chega lá", diz João


Fica Comigo Esta Noite, segunda produção de João Falcão no cinema, mostra de forma divertida as trapalhadas de um espírito que deseja passar mais uma noite ao lado da amada

POR MARCIO ORSOLINI

Um jovem casal passa por uma crise no relacionamento e antes que tudo se resolva, o marido morre repentinamente. A história, no entanto, não acaba assim. Em outro plano espiritual, ele pretende retornar ao mundo dos vivos para se despedir da amada. Para isso, pede ajuda a um fantasma amigável e um tanto misterioso. Essa é a trama central de Fica Comigo Esta Noite, novo filme do diretor João Falcão, que estreou na sexta-feira, dia 27, em todo o país.

Baseado na peça homônima de Flávio de Souza, o filme traz Vladimir Brichta e Alinne Moraes como o casal protagonista, além de Laura Cardoso e Gustavo Falcão, sobrinho do diretor. Depois de A Máquina (2005), esta é a segunda produção para o cinema de João Falcão, conhecido por trabalhos na televisão e no teatro - como o seriado Sexo Frágil e a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf, com Marco Nanini e Marieta Severo.

"Faço meu trabalho pensando em surpreender o público", diz o diretor sobre a narrativa fantástica do filme, que aborda o mundo dos vivos e dos mortos de uma forma engraçada. "O meu 'endereço' é o público, não são os festivais nem os críticos." João tem como um de seus diretores favoritos o americano Tim Burton, responsável por sucessos como A Noiva Cadáver e o remake do clássico A Fantástica Fábrica de Chocolate.

O diretor contou com um orçamento apertado para realizar o filme: R$ 1,5 milhão. Para se ter uma idéia, a produção Dois Filhos de Francisco teve R$ 5,9 milhões de verba. Apesar das dificuldades, João é otimista: "O cinema brasileiro ainda não tem um mercado desenvolvido, não encontrou seu público, mas a gente chega lá".

Fica Comigo Esta Noite foi filmado em 4 semanas. Os cenários da história revezavam entre os bairros cariocas da Lapa e de Santa Teresa. Apenas uma cena foi gravado em uma igreja de Tiradentes, cidade no interior de Minas Gerais. Por causa do pouco tempo para as filmagens, a equipe se preparou por dois meses antes de ir pisar no set. "A gente ensaiava com os atores e, ao mesmo tempo, preparava cenários, visitava locações, via estilos de fotografia, tipos de lente, toda a logística de produção", diz o diretor.

Em entrevista a ÉPOCA Online, João Falcão conta como criou uma narrativa fantástica sem o uso de efeitos especiais. Fala também da importância dos ensaios antes de ligar às câmeras e diz que seu filme conta mais do que uma história de amor.

Vladimir Brichta e Alinne Moraes vivem o casal Edu e Laura, que passam por conflitos no relacionamento
 

ÉPOCA Online: Como foi a escolha dos atores principais?
João Falcão:
O Vlad (Vladimir Brichta) foi o primeiro que pensei, admiro muito seu talento. Pessoalmente, gosto de trabalhar com ele. É um grande ator divertido. Já a Alinne, eu conheci quando a convidei para participar de um especial do Sexo Frágil, no final de 2004. Queria uma atriz forte e bonita também (risos). Seis meses depois começamos a filmar. E fiquei muito feliz. A Aline é uma menina que brilha no cinema.

ÉPOCA Online: Este é seu segundo trabalho como diretor de cinema. Já se acostumou com a linguagem?
João Falcão:
Já fiz alguns roteiros de cinema, como O Auto da Compadecida (2000) e A Dona da História (2004), então a linguagem não é tão estranha para mim. E também sou cinéfilo desde criança. O núcleo que eu trabalho na televisão, há quase 15 anos, sempre foi alternativo dentro da TV Globo. Fizemos muitos especiais baseados em literatura. Nunca gravei com duas câmeras como geralmente acontece. Nosso método era muito parecido com cinema: uma câmera apenas, vários ensaios, presença do diretor de fotografia. É uma experiência nova, claro, mas sempre tive proximidade com a linguagem.
 

ÉPOCA Online: É também uma segunda adaptação. Você pretende fazer algo mais autoral, em que possa criar totalmente o roteiro?
João Falcão:
De certa maneira, considero uma obra quase original, independente de ter me baseado na peça do Flávio de Souza. Não tem nenhuma fala que seja igual a da peça. Essa liberdade me atraiu. Considero uma obra autoral, mas acredito que farei filmes que não sejam baseados em nada que já tenha sido publicado. O [produtor] Diler Trindade me ofereceu o projeto que já estava em andamento e tinha até um roteiro em desenvolvimento. Aceitei participar com a condição que eu pudesse reescrever do meu jeito.
 

"Acho que todo mundo se questiona se aproveita a vida da melhor maneira. Às vezes desperdiçamos muitas oportunidades."
 

ÉPOCA Online: Quais são as dificuldades de fazer adaptação? No que a trama se beneficia com isso?
João Falcão:
A história tinha bom argumento: um casal que se ama e o homem morre repentinamente, deixando algumas questões mal resolvidas com a esposa. O pensamento desse personagem, no entanto, permanece em algum lugar, revoltado com sua morte. Faz de tudo para voltar, nem que seja por uma noite, afim de botar algumas coisas em ordem. Para isso, criei um mundo dos mortos que não existia na peça original e me diverti bastante com ele. Tentei ser coerente, mesmo que ninguém saiba como é o outro mundo. A peça é uma história vista pelos olhos dos vivos. e no filme criei o Fantasma do Coração de Pedra e a D. Mariana que fazem parte do mundo dos mortos.

ÉPOCA Online: Como foi a criação desses dois novos personagens do filme: o Fantasma do Coração de Pedra e a D. Mariana?
João Falcão:
No roteiro para o filme, o personagem Edu morava numa casa grande e um pouco sombria. Ficava muito tempo sozinho porque o pai era músico e viajava demais. Por isso mesmo, Edu imaginava que tinha fantasmas na casa e desenhava quadrinhos com essa história. Daí nasceu o Fantasma do Coração de Pedra. Quando o personagem morre, descobre que tudo que imaginava, era, na verdade, o Fantasma que soprava em seu ouvido. É uma fantasia do Edu, mas tem um ligação com o mundo dos vivos. Na verdade esse Fantasma tem uma vida própria e é apaixonado por D. Mariana.

 
Mesmo depois de muitos ensaios, João Falcão dá dicas para o casal protagonista. É a estréia de Alinne Moraes no cinema

ÉPOCA Online: O filme traz uma narrativa fantástica sem utilizar efeitos especiais. Não acha que com alguns efeitos, o caráter mágico da trama poderia ser intensificado?
João Falcão:
Quando começamos a pensar nesse filme, queríamos fugir da solução fácil. Se tivéssemos a nosso favor todos os recursos de computação gráfica, perderíamos a chance de fazer algo mais artesanal e até mais criativo até. Sem essa tecnologia, tivemos outras dificuldades, mas é a partir delas que encontramos melhores soluções. O filme também teve um trabalho intenso de edição, com truncagem de imagens. Queríamos investir nossas energias na qualidade da fotografia e na pós-produção. A simplicidade com que filmei foi intencional. Não tinha a intenção de um malabarismo da câmera, só os movimentos essenciais. Em A Máquina a câmera é mais frenética. O Fica Comigo Esta Noite tem uma linguagem mais uniforme, com uma câmera mais suave, mais como observadora.

ÉPOCA Online: A trama é mais do que uma história de amor, ela passa a mensagem de aproveitar mais a vida, não é?
João Falcão:
É verdade. Tive a intenção de passar essa mensagem. É o sentimento mais humano do filme, aquela coisa do "morri e não aproveitei tudo que podia". O personagem Edu fica perturbado por ter deixado uma situação não resolvida e quer voltar para o mundo dos vivos. Acho que todo mundo se questiona se aproveita a vida da melhor maneira. Às vezes desperdiçamos muitas oportunidades.

ÉPOCA Online: Você gosta de ensaiar bastante antes de chegar ao set de filmagem. Não acha que ensaiar demais para realizar uma cena tira um pouco da espontaneidade dos atores?
João Falcão:
Depende da cena. A gente ensaia bastante para que os atores compreendam seus personagens. Na hora, acontece muito improviso e mudanças são feitas. É mais fácil fazer mudanças quando o ator já tem domínio sobre o personagem do que deixar o improviso correr solto. Isso é uma referência de teatro que me ajuda.

ÉPOCA Online: Na trilha sonora há uma canção escrita por você com o Zé Ramalho. Como surgiu a parceria?
João Falcão:
É a canção "Você e seu amor". Eu já conhecia o Zé Ramalho há algum tempo, desde quando o convidei para gravar uma faixa da trilha de Lisbela e o Prisioneiro (2004). Era uma música do Zé Ramalho em parceria com o Sepultura. Ficou lindo. O Robertinho de Recife, que já produziu discos do Zé, participou dessa gravação e também da trilha de A Máquina.

ÉPOCA Online: Você levou alguma prática da direção teatral ou da TV para o cinema?
João Falcão:
Sempre levo alguma coisa da direção teatral, mas há diferenças. Não quer dizer que a linguagem teatral seja exclusivamente fantasiosa e a do cinema seja naturalista. [O cineasta italiano Federico] Fellini fazia um cinema mais naturalista, figurativo, expressionista. E Glauber [Rocha] era mais teatral. Eu faço um cinema menos naturalista, distanciado dessa linguagem característica da televisão. Meu trabalho cinematográfico tem uma linguagem bem distanciada do teatro, pelo menos daquele teatro que eu sempre fiz.
 

Clarice Falcão, filha do diretor, e Laura Cardoso interpretam D.Mariana, que é apaixonada pelo Fantasma do Coração de Pedra (Gustavo Falcão)

(© Época)

Saiba + Veja o site e o trailer do filme


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