Fica Comigo Esta Noite,
segunda produção de João Falcão no cinema, mostra de forma
divertida as trapalhadas de um espírito que deseja passar
mais uma noite ao lado da amadaPOR MARCIO ORSOLINI
Um jovem casal passa por uma crise no
relacionamento e antes que tudo se resolva, o marido morre
repentinamente. A história, no entanto, não acaba assim. Em
outro plano espiritual, ele pretende retornar ao mundo dos
vivos para se despedir da amada. Para isso, pede ajuda a um
fantasma amigável e um tanto misterioso. Essa é a trama
central de Fica Comigo Esta Noite, novo filme do
diretor João Falcão, que estreou na sexta-feira, dia 27, em
todo o país.
Baseado na peça homônima de Flávio de Souza, o filme traz
Vladimir Brichta e Alinne Moraes como o casal protagonista,
além de Laura Cardoso e Gustavo Falcão, sobrinho do diretor.
Depois de A Máquina (2005), esta é a segunda
produção para o cinema de João Falcão, conhecido por
trabalhos na televisão e no teatro - como o seriado Sexo
Frágil e a peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf,
com Marco Nanini e Marieta Severo.
"Faço meu trabalho pensando em surpreender o público",
diz o diretor sobre a narrativa fantástica do filme, que
aborda o mundo dos vivos e dos mortos de uma forma
engraçada. "O meu 'endereço' é o público, não são os
festivais nem os críticos." João tem como um de seus
diretores favoritos o americano Tim Burton, responsável por
sucessos como A Noiva Cadáver e o remake do
clássico A Fantástica Fábrica de Chocolate.
O diretor contou com um orçamento apertado para realizar
o filme: R$ 1,5 milhão. Para se ter uma idéia, a produção
Dois Filhos de Francisco teve R$ 5,9 milhões de
verba. Apesar das dificuldades, João é otimista: "O cinema
brasileiro ainda não tem um mercado desenvolvido, não
encontrou seu público, mas a gente chega lá".
Fica Comigo Esta Noite foi filmado em 4 semanas.
Os cenários da história revezavam entre os bairros cariocas
da Lapa e de Santa Teresa. Apenas uma cena foi gravado em
uma igreja de Tiradentes, cidade no interior de Minas
Gerais. Por causa do pouco tempo para as filmagens, a equipe
se preparou por dois meses antes de ir pisar no set. "A
gente ensaiava com os atores e, ao mesmo tempo, preparava
cenários, visitava locações, via estilos de fotografia,
tipos de lente, toda a logística de produção", diz o
diretor.
Em entrevista a ÉPOCA Online, João
Falcão conta como criou uma narrativa fantástica sem o uso
de efeitos especiais. Fala também da importância dos ensaios
antes de ligar às câmeras e diz que seu filme conta mais do
que uma história de amor.
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Vladimir Brichta e
Alinne Moraes vivem o casal Edu e Laura, que
passam por conflitos no relacionamento
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ÉPOCA Online:
Como foi a escolha dos atores
principais?
João Falcão:
O Vlad (Vladimir Brichta) foi o primeiro que pensei,
admiro muito seu talento. Pessoalmente, gosto de trabalhar
com ele. É um grande ator divertido. Já a Alinne, eu conheci
quando a convidei para participar de um especial do Sexo
Frágil, no final de 2004. Queria uma atriz forte e
bonita também (risos). Seis meses depois começamos a filmar.
E fiquei muito feliz. A Aline é uma menina que brilha no
cinema.
ÉPOCA Online: Este é
seu segundo trabalho como diretor de cinema. Já se acostumou
com a linguagem?
João Falcão: Já fiz
alguns roteiros de cinema, como O Auto da Compadecida
(2000) e A Dona da História (2004), então a
linguagem não é tão estranha para mim. E também sou cinéfilo
desde criança. O núcleo que eu trabalho na televisão, há
quase 15 anos, sempre foi alternativo dentro da TV Globo.
Fizemos muitos especiais baseados em literatura. Nunca
gravei com duas câmeras como geralmente acontece. Nosso
método era muito parecido com cinema: uma câmera apenas,
vários ensaios, presença do diretor de fotografia. É uma
experiência nova, claro, mas sempre tive proximidade com a
linguagem.
ÉPOCA Online: É
também uma segunda adaptação. Você pretende fazer algo mais
autoral, em que possa criar totalmente o roteiro?
João Falcão:
De certa maneira, considero uma obra quase original,
independente de ter me baseado na peça do Flávio de Souza.
Não tem nenhuma fala que seja igual a da peça. Essa
liberdade me atraiu. Considero uma obra autoral, mas
acredito que farei filmes que não sejam baseados em nada que
já tenha sido publicado. O [produtor] Diler
Trindade me ofereceu o projeto que já estava em andamento e
tinha até um roteiro em desenvolvimento. Aceitei participar
com a condição que eu pudesse reescrever do meu jeito.
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"Acho que todo mundo se questiona se
aproveita a vida da melhor maneira. Às vezes
desperdiçamos muitas oportunidades." |
ÉPOCA Online:
Quais são as dificuldades de fazer
adaptação? No que a trama se beneficia com isso?
João Falcão:
A história tinha bom argumento: um casal que se ama e o
homem morre repentinamente, deixando algumas questões mal
resolvidas com a esposa. O pensamento desse personagem, no
entanto, permanece em algum lugar, revoltado com sua morte.
Faz de tudo para voltar, nem que seja por uma noite, afim de
botar algumas coisas em ordem. Para isso, criei um mundo dos
mortos que não existia na peça original e me diverti
bastante com ele. Tentei ser coerente, mesmo que ninguém
saiba como é o outro mundo. A peça é uma história vista
pelos olhos dos vivos. e no filme criei o Fantasma do
Coração de Pedra e a D. Mariana que fazem parte do mundo dos
mortos.
ÉPOCA Online: Como
foi a criação desses dois novos personagens do filme: o
Fantasma do Coração de Pedra e a D. Mariana?
João Falcão: No
roteiro para o filme, o personagem Edu morava numa casa
grande e um pouco sombria. Ficava muito tempo sozinho porque
o pai era músico e viajava demais. Por isso mesmo, Edu
imaginava que tinha fantasmas na casa e desenhava quadrinhos
com essa história. Daí nasceu o Fantasma do Coração de
Pedra. Quando o personagem morre, descobre que tudo que
imaginava, era, na verdade, o Fantasma que soprava em seu
ouvido. É uma fantasia do Edu, mas tem um ligação com o
mundo dos vivos. Na verdade esse Fantasma tem uma vida
própria e é apaixonado por D. Mariana.
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Mesmo depois
de muitos ensaios, João
Falcão dá dicas para o casal
protagonista. É a estréia de
Alinne Moraes no cinema
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ÉPOCA
Online: O filme traz uma
narrativa fantástica sem utilizar
efeitos especiais. Não acha que com
alguns efeitos, o caráter mágico da
trama poderia ser intensificado?
João Falcão:
Quando começamos a pensar nesse filme,
queríamos fugir da solução fácil. Se
tivéssemos a nosso favor todos os
recursos de computação gráfica,
perderíamos a chance de fazer algo mais
artesanal e até mais criativo até. Sem
essa tecnologia, tivemos outras
dificuldades, mas é a partir delas que
encontramos melhores soluções. O filme
também teve um trabalho intenso de
edição, com truncagem de imagens.
Queríamos investir nossas energias na
qualidade da fotografia e na
pós-produção. A simplicidade com que
filmei foi intencional. Não tinha a
intenção de um malabarismo da câmera, só
os movimentos essenciais. Em A
Máquina a câmera é mais frenética.
O Fica Comigo Esta Noite tem
uma linguagem mais uniforme, com uma
câmera mais suave, mais como
observadora.
ÉPOCA
Online: A trama é mais do que uma
história de amor, ela passa a mensagem
de aproveitar mais a vida, não é?
João Falcão:
É verdade. Tive a intenção de passar
essa mensagem. É o sentimento mais
humano do filme, aquela coisa do "morri
e não aproveitei tudo que podia". O
personagem Edu fica perturbado por ter
deixado uma situação não resolvida e
quer voltar para o mundo dos vivos. Acho
que todo mundo se questiona se aproveita
a vida da melhor maneira. Às vezes
desperdiçamos muitas oportunidades.
ÉPOCA
Online: Você gosta de ensaiar
bastante antes de chegar ao set de
filmagem. Não acha que ensaiar demais
para realizar uma cena tira um pouco da
espontaneidade dos atores?
João Falcão:
Depende da cena. A gente ensaia bastante
para que os atores compreendam seus
personagens. Na hora, acontece muito
improviso e mudanças são feitas. É mais
fácil fazer mudanças quando o ator já
tem domínio sobre o personagem do que
deixar o improviso correr solto. Isso é
uma referência de teatro que me ajuda.
ÉPOCA
Online: Na trilha sonora há uma
canção escrita por você com o Zé
Ramalho. Como surgiu a parceria?
João Falcão:
É a canção "Você e seu amor". Eu já
conhecia o Zé Ramalho há algum tempo,
desde quando o convidei para gravar uma
faixa da trilha de Lisbela e o
Prisioneiro (2004). Era uma música
do Zé Ramalho em parceria com o
Sepultura. Ficou lindo. O Robertinho de
Recife, que já produziu discos do Zé,
participou dessa gravação e também da
trilha de A Máquina.
ÉPOCA
Online: Você levou alguma prática
da direção teatral ou da TV para o
cinema?
João Falcão:
Sempre levo alguma coisa da direção
teatral, mas há diferenças. Não quer
dizer que a linguagem teatral seja
exclusivamente fantasiosa e a do cinema
seja naturalista. [O cineasta
italiano Federico] Fellini fazia um
cinema mais naturalista, figurativo,
expressionista. E Glauber [Rocha]
era mais teatral. Eu faço um cinema
menos naturalista, distanciado dessa
linguagem característica da televisão.
Meu trabalho cinematográfico tem uma
linguagem bem distanciada do teatro,
pelo menos daquele teatro que eu sempre
fiz.
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Clarice
Falcão, filha do diretor, e
Laura Cardoso interpretam
D.Mariana, que é apaixonada
pelo Fantasma do Coração de
Pedra (Gustavo Falcão)
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(©
Época)
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filme
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