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11/06/2008
Livros inspirados na relação da capital pernambucana com o sobrenatural dão origem a projeto turístico sazonal Mulheres que lavam roupas no maior rio da cidade são atormentadas por um fantasma zombeteiro. Ao lado de uma coluna de alvenaria, foram enterrados negros pagãos mortos durante as viagens de navios a partir da África. Jovem grávida encontrada morta em pequeno buraco de um velho sobrado. Quer desvendar esses e outros mistérios? Vá para Recife. A capital pernambucana está entre as cidades com mais lugares mal-assombrados catalogados no Brasil. São inúmeras as histórias de fantasmas e almas penadas que ganharam o imaginário popular recifense. O Rio Capibaribe, o mais extenso da cidade, guarda alguns episódios horripilantes. Muitos dizem, por exemplo, que vultos das almas de suicidas podem ser vistos de madrugada por quem se aproxima de suas margens mais desertas. No livro Assombrações do Recife Velho, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900- 1987) relata o caso de um fantasma zombeteiro conhecido por Vira-Roupas. Ele aterrorizava as lavadeiras que trabalhavam no rio com o intuito de 'roubar às trouxas das pobres mulheres camisas finas de doutores, toalhas de casas de lordes, lenços caros de iaiazinhas', diz o texto da obra. Já o romance A Emparedada da Rua Nova, do escritor pernambucano Carneiro Vilela (1846-1913), narra o caso mais famoso de mulher emparedada viva. O livro, escrito em 1912, conta a história de um rico comerciante português que condenou a filha solteira a morrer num cubículo úmido e escuro de um velho casarão por estar grávida. É grande a procura dos turistas pelo antigo sobrado da Rua Nova, no centro da cidade, que teria abrigado o corpo da jovem enclausurada. Ponto obrigatório para qualquer viajante no Recife, o Teatro de Santa Isabel, de arquitetura neoclássica, foi construído entre 1841 e 1850. O local serviu como palco para discursos abolicionistas de Castro Alves (1847-1871) e Joaquim Nabuco (1849-1910), e está situado na frente da Praça da República, ao lado dos Palácios do Governo e da Justiça. O local, no entanto, também esconde mistérios assombrosos. A superstição popular dá conta de que, em noites silenciosas, ruídos, aplausos e gritos de uma multidão inexistente são escutados no recinto. E mais: nos corredores e nos camarotes, vultos podem ser vistos caminhando tranqüilamente. Outro local bastante visitado pelos turistas corajosos é a Cruz do Patrão, no bairro São José, na zona portuária. Trata-se de uma coluna de alvenaria, às margens do Rio Beberibe. Além de servir como baliza para barcos atracarem, o monumento se transformou em ponto de encontro de almas penadas. Conta-se que negros pagãos mortos dentro dos navios vindos da África eram lá enterrados. Até o século 19, no local também eram fuzilados os militares condenados à morte. Resistente ao tempo, a Cruz do Patrão pode ser vista por quem passa pela Ponte do Limoeiro. PROJETO ASSOMBROSO Após 469 anos de fundação, Recife ainda conserva mistérios. Da relação da cidade com o sobrenatural também surgiu o livro O Recife Assombrado, de Roberto Beltrão, editor do site www.orecifeassombrado.com.br. Faz parte das obras - ao lado do título de Gilberto Freyre - que inspiraram a Secretaria de Turismo local a promover, a cada três meses, o Projeto Lendas do Recife, um passeio por casarões, ruas, monumentos e bairros considerados mal-assombrados. Cerca de 3 mil destemidos conheceram o roteiro. Freqüentadora assídua do circuito, a estudante Cynthia Alves de Carvalho, de 26 anos, diz que adora o sobrenatural. 'O primeiro passeio foi maravilhoso, pois as encenações sobre os casos de assombro eram constantes', diz. Já para a comerciante Vanessa Soares, de 32 anos, é estimulante o mistério que ronda os locais. 'Conhecemos os bairros de uma forma diferente da que estamos acostumados.' Segundo a assessora da secretaria Ana Cristina Morais, a cidade tem uma longa tradição de histórias sobrenaturais. 'A população do Recife é mística. Há uma tradição oral voltada para as assombrações, desde a escravidão até o mito da perna cabeluda, na década de 70', afirma. A perna cabeluda, aliás, seria um ser com vida própria e pêlos asquerosos, que se movimenta pela cidade aos pulos e chuta a bunda dos pedestres. 'Há também histórias de holandeses que morreram em batalhas sangrentas da época da colonização e de botijas enterradas nos assoalhos das casas, onde os antigos donos guardavam os seus tesouros.' BRINDE E PERSONAGENS Quem vai aos passeios ganha um kit mal-assombrado, composto por um pergaminho com as lendas relatadas no tour e uma vela para acompanhar o roteiro. De quebra, atores encarnam personagens como o lobisomem, o Papa-Figo e a comadre Fulôzinha, a fim de assustar ainda mais os participantes. Para participar, basta levar um quilo de alimento não perecível. Informações: (0--81) 3232-8409.
(©
Agência Estado)
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