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A polêmica do abadá com picape

20/11/2006

Bono, com Gilberto Gil, no carnaval da Bahia em 2006

Invasão estrangeira do carnaval baiano divide opiniões: para 2007, já está prevista a volta de Fatboy Slim, além dos DJs Layo & Bushwacka e até Ziggy Marley

Jotabê Medeiros

No começo, eles vinham só para a farra. Agora, estão vindo profissionalmente.

Em 2007, o carnaval da Bahia deve se firmar como um novo porto de entrada para o show biz internacional - para desespero de muita gente, para alegria de outras tantas.

O Bloco Skol D+ anuncia esta semana uma trinca de artistas internacionais para seu trio elétrico no circuito Barra-Ondina: os DJs e produtores Layo & Bushwacka e, de volta, um dos maiores sucessos de 2006: o produtor Norman Cook, o Fatboy Slim, que arrastou mais de um milhão este ano, acompanhado dos DJs Marky e Patife. E provavelmente o reggaeman Ziggy Marley, que estava para fechar na semana passada.

É uma legião estrangeira que promete pôr fogo na pipoca do carnaval baiano (com abadás a R$ 220). Para complicar a coisa, o funk carioca também vai voltar a subir no trio elétrico baiano com a trinca Buchecha, Marcinho e o DJ Samy Pitbull.

E o guitarrista Pepeu Gomes também já aderiu ao rock: ele anunciou um trio elétrico que só vai ter Janis Joplin, Jimi Hendrix e Rolling Stones na avenida. 'Nada de axé', alertou.

Fatboy Slim, ao ser informado na semana passada, em entrevista ao Estado por telefone, de Londres, que a invasão estrangeira não era vista com bons olhos por muita gente no País, ironizou: 'Um milhão de pessoas não podem estar erradas, já dizia Elvis.'

Entre 15 e 21 de fevereiro, Salvador espera receber 1,2 milhão de visitantes, dos quais cerca de 10% são estrangeiros. A taxa de ocupação hoteleira beira os 97%. A receita estimada é de cerca de US$ 95 milhões. O carnaval de Salvador é um portento econômico, um rolo compressor de diversão compulsória que recebe mais de 300 artistas em três circuitos de rua, e tem cobertura ostensiva de 2.530 jornalistas credenciados.

(© Agência Estado)


'Baianófilos' vêem prós e contras

Astros internacionais divulgam cultura nacional, mas presença maciça também indica desequilíbrio no mercado musical

Jotabê Medeiros

O antropólogo paulistano Luiz Mott, de 66 anos, mudou-se para Salvador em 1979 justamente por causa do carnaval da cidade. 'Agora, você pode escrever aí: Luiz Mott, 66 anos, antropólogo, fundador do Grupo Gay da Bahia: cada vez menos apaixonado pelo carnaval baiano', afirmou ele. 'Nos últimos anos, houve um exagero na trioeletrificação do carnaval que torna aquilo praticamente impossível, é extremamente dolorido para os tímpanos e ameaçador para a integridade física acompanhar os trios.'

Segundo Mott, há duas maneiras de se enxergar a nova invasão da Legião Estrangeira em Salvador. 'Acho que é interessante, para diversificar, quebrar com a hegemonia do axé e do pagode. E dá um pouco de gás, pacifica os ânimos. Ao mesmo tempo, como é um investimento muito grande, quem acaba se divertindo são os convidados dos patrocinadores, muito mais do que a grande massa', pondera.

O baiano Juca Ferreira, poderoso secretário-executivo do Ministério da Cultura, braço direito de Gilberto Gil, já foi vereador pelo Partido Verde e também secretário do Meio Ambiente de Salvador. A visão de Ferreira é de quem pede cautela.

'O show biz já está em Salvador há algum tempo. O carnaval virou uma vitrine da música, principalmente da música baiana, e a presença do trio elétrico facilita isso, porque é, em última análise, um palco em movimento. Mas corre-se o risco de inverter a visibilidade e passar a ser vitrine internacional apenas', ele adverte.

'A indústria cultural, quando ocupa, pode inverter as prioridades', ele diz. 'Por outro lado, vejo que há uma possibilidade de uma grande mudança nos próximos anos, de se começar a valorizar mais os blocos afros, os afoxés, que estiveram sendo engolidos pelos blocos de classe média. É um momento que pede a retomada da criatividade, e esses blocos tradicionais são riquíssimos', diz ele.

'A presença de DJs internacionais também pode ter um aspecto positivo, porque é uma forma de divulgação da diversidade da cultura brasileira no exterior', diz Paula Porta, coordenadora do Prodec (Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura), criado no Ministério do Planejamento, e que inicia o ano de 2007 com um orçamento de R$ 13 milhões para desenvolver uma agenda para o desenvolvimento da cultura como economia no País e fora dele.

Segundo Paula, é preciso ver que o carnaval baiano é um acontecimento que pressupõe várias estratégias, e uma delas é a do turismo, algo que vai além da promoção da música.

Mas, mesmo correndo o risco de serem taxados como xenófobos, os críticos da invasão estrangeira - que agitam o meio cultural baiano desde o ano passado - pedem uma reação. Para analistas do mercado de música, o 'desembarque' não é aliado e tem a ver com o próprio estreitamento das formas conhecidas de comercialização da música. Sem renda advinda da venda de discos, por conta da alta taxa de pirataria e das trocas clandestinas de música on line, os artistas internacionais buscam mercados.

A reação poderia requerer uma estratégia de estado para a difusão do produto cultural brasileiro, e essa tentativa já está em curso. De 7 a 11 de fevereiro, no Recife Antigo, será realizada a 1ª Feira Música Brasil, uma grande feira de música brasileira que ocupará armazéns e ruas do bairro, com 35 shows em 2 palcos ao ar livre. A iniciativa é do MinC, BNDES, Abmi, Sebrae, Governo de Pernambuco, Prefeitura do Recife e o Porto Musical.

No encontro, artistas, gravadoras, estúdios, fabricantes e comerciantes de equipamentos e instrumentos, editoras, agentes, produtores, novas mídias de difusão do audiovisual, compradores, imprensa especializada e empresas de tecnologia reúnem-se para fazer negócios, propor projetos a parceiros, apresentar artistas e produtos e buscar novas soluções e formatos para a cadeia produtiva da música.

Estudo da consultoria Price Waterhouse indica que o crescimento anual do mercado cultural no mundo é de 6,3%, ante 5,7% da média da economia em geral. 'O Brasil, no entanto, não dispõe de números sobre o seu mercado de shows, de propriedade intelectual, de comércio e produção de equipamentos e instrumentos', diz Paula Porta.


Entrevista
Fatboy Slim: DJ e produtor


'O pessoal gritava no segundo andar dos prédios'

O que você lembra do carnaval de Salvador em 2006?


Foi mágico. Fiz um show na praia, no Rio, mas aquilo em Salvador é incomparável, nunca experimentei nada parecido. Vi o pessoal no segundo andar daqueles prédios e eles gritavam e dançavam que era uma maravilha.

Você sabia que muita gente aqui critica a chegada de DJs internacionais ao carnaval como se fosse uma invasão?

Não sabia. Mas nós não machucamos ninguém. Bem, o que posso dizer? Um milhão de pessoas não podem estar erradas, já dizia Elvis Presley.

Você tocou Michael Jackson e Beyoncé em 2006. Planeja algo diferente para 2007?

Sim, tenho algumas surpresas guardadas. Vou fazer algo também com Daniela (Mercury). Da última vez no Brasil fiquei três semanas circulando. Agora vou ficar três semanas, mas com mais calma, dá tempo para ver mais coisas. Mesmo o carnaval só vi do alto do caminhão. Estou agora trabalhando num disco com David Byrne.

(© Agência Estado)


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