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20/11/2006
Cineasta cearense afirma querer provar com "O Céu de Suely" que "as
pessoas podem mudar suas condições de vida" SILVANA ARANTES Estudante de arquitetura na UnB, Aïnouz via na efervescência do movimento sindical daqueles 80 um indício de que "o mundo ia mudar, os paradigmas iam ser diferentes". Hoje, aos 40, lançando seu segundo longa, "O Céu de Suely", Aïnouz enxerga sua geração como "o último respiro desse tipo de desejo utópico". Foi aos que "buscam uma utopia" que o cineasta dedicou seu filme, na sessão competitiva do Festival do Rio, em setembro último, do qual saiu premiado melhor filme, diretor e atriz (Hermila Guedes). Nas pesquisas para a produção de "O Céu de Suely", entrevistando jovens, Aïnouz sentiu-se "apavorado" com a idéia de que restaram às novas gerações apenas dois tipos de utopia. "Existe o desejo de ter uma casa, um trabalho, essa utopia do dia seguinte", descreve, ou as de viés "sobrenatural". Com a trajetória da protagonista Hermila -os atores de "O Céu de Suely"
emprestam seus nomes aos personagens-, o diretor quis demonstrar que "é
possível ter uma utopia aqui e agora, que as pessoas podem mudar suas
condições de vida". Hermila (a personagem) tenta mudar a sua a partir do momento em que retorna de São Paulo, para onde migrara, a Iguatu, no sertão cearense. Ela tem um filho pequeno, um ideal de relação amorosa, que rapidamente se dissolve, e sobretudo o sonho de encontrar um lugar que lhe pertença. "O problema dela não é ser pobre. Ela tem um sonho e quer alcançá-lo de qualquer maneira. Eu quis falar de gente comum que tem problemas existenciais", diz o diretor. A escolha de enfocar "gente comum" afastou do elenco caras carimbadas da TV. "Como o que interessa nesse filme é a trajetória emocional de um ser humano, ele só funciona se o espectador encarar o personagem como um ser humano, e não como alguém que viu na capa da revista de celebridades." Ao abordar o sonho individual -a crença na utopia- de uma personagem comum, Aïnouz esbarra também em outros assuntos que lhe interessam tratar no cinema: "Queria falar do deslocamento, implodir a questão da migração como via de mão única e falar também de ética", afirma o diretor. Elogiado pela crítica brasileira e internacional desde sua estréia em
longas, com "Madame Satã" (2002), Aïnouz recusa o rótulo de autor de cinema
de arte e afirma ser "contra criar campos antagônicos", como os que opõem o
cinema de autor ao cinema comercial ou o cinema como um todo à TV. Embora evite o confronto, Aïnouz deixa claro que encara o cinema como "o lugar de invenção, da imaginação, da ponta de lança", num papel semelhante ao que "as artes plásticas têm" de oxigenar a produção das diversas esferas artísticas. Transposta para "O Céu de Suely", essa perspectiva significa o afastamento da "gramática comumente adotada pela TV, baseada no texto, no plano e contra-plano, na narrativa clássica, com começo, meio e fim", em favor de uma estrutura narrativa "não necessariamente dependente do texto, que aposta no silêncio, no não-dito, na sugestão mais do que na explicação, algo menos dependente da reincidência da trama". Com estréia prevista para diversas cidades no país, a partir de hoje, em etapas, "O Céu de Suely" deve chegar também a Iguatu e a Cabrobó (PE), cidade-natal de Hermila Guedes. Nesses lugares, Aïnouz quer que as projeções sejam antecedidas por shows dos Aviões do Forró, célebres no Nordeste. A intenção do diretor é "agregar ao filme certa alegria e agregar ao cinema outras expressões culturais, para torná-lo mais atraente". Cangaço está de volta às telas em Canta Maria Adaptação de Os desvalidos por Francisco Ramalho Jr. tem defeitos crônicos do cinema nacionalPEDRO BUTCHER Folhapress Canta Maria é mais um filme-fantasma, condenado a uma visibilidade minúscula. Canta Maria é mais um longa brasileiro cheio de boas intenções tragado pelo buraco negro do projeto do cinema de mercado, ainda tão pobremente formulado e executado por aqui. Canta Maria, enfim, gera uma pergunta, apenas: o que é capaz de dar existência a um filme realizado no Brasil hoje? Como projeto, Canta Maria parece não responder a nenhuma das questões fundamentais que podem dar corpo a uma obra, seja ela fruto de um desejo autoral ou de uma proposta industrial, de mercado. Francisco Ramalho Jr, veterano produtor que eventualmente se aventura pela direção, enxergou no livro Os desvalidos, de Francisco Dantas, um bom material dramático, com suas histórias de amor e aventura vividas por heróis e heroínas no contexto do cangaço dos anos 30. Tudo isso no espaço mítico do sertão nordestino. Basicamente, a história gira em torno de Maria (Vanessa Giácomo), uma mulher atrevida que paga um duro preço por sua vontade de liberdade e pelo fato de viver no fogo cruzado entre os bandidos de Lampião (José Wilker) e os soldados da tropa especial que o persegue. No tratamento desse material, porém, não há sombra de autoralidade nem de artesanato. Canta Maria pode ser visto como um desfile dessas deficiências típicas: um roteiro ainda não preparado para filmar, equívocos de escalação de elenco (com exceções nas surpreendentes atuações de Aloísio de Abreu e Rodrigo Penna), fotografia que alterna momentos cuidadosos a outros de extrema pobreza, montagem frouxa. Talvez um dos melhores momentos para se entender o filme esteja em uma seqüência, quando Lampião critica o trabalho do jovem artista do couro Coriolano (Edward Boggiss). Este retruca, dizendo que o couro que lhe foi dado não era bom. Quando o que está em jogo é o artesanato, é preciso uma matéria-prima de qualidade e um extremo cuidado do artesão, ou então o que se vai ter é um produto mal-ajambrado, um pouco como esse filme sem rosto e com pouca alma.
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