Chega à cidade InSônia,
a elogiada adaptação da peça de Nelson Rodrigues
Beth
Néspoli
Merece ser aproveitada
a oportunidade de ver uma boa montagem teatral criada fora do eixo
Rio-São Paulo. Melhor ainda se o ponto de partida não é o de quem
busca a inserção no circuito comercial visando à criação de um
produto capaz de agradar a um suposto gosto médio, mas o da
investigação teatral. Esse é o caso de InSônia, espetáculo criado em
Salvador, uma bonita e original concepção do monólogo Valsa nº 6, de
Nelson Rodrigues, no Sesc da Avenida Paulista. O espetáculo tem
adaptação e direção de Hebe Alves e, no elenco, Elaine Cardim,
Tatiana Lima, Kalassa Lemos e Priscilla Alpha, da companhia baiana
A4.
InSônia estreou em Salvador no ano 2000 e sua longevidade é prova do
acerto dessa criação, a primeira do grupo A4, que acabou por
conseguir realmente atingir um público amplo e diversificado, sem
abrir mão da inteligência e da sugestão em cena. 'Mas a gente não
consegue se livrar da maldição do primeiro trabalho', brincam as
atrizes, sobre o fato de os convites recaírem sempre sobre esse
espetáculo de estréia - visto pelo Estado no festival de Londrina -,
que já participou de vários festivais nacionais, projetos de
circulação e até do festival internacional de teatro de Bucareste,
na Romênia.
No original, um solo de Sônia, o texto sugere ser ela uma menina
assassinada aos 15 anos, que tenta entender o que lhe aconteceu no
intervalo entre a punhalada e sua morte. 'Na adaptação de Hebe, essa
morte é simbólica e ela vive uma passagem, da menina para a mulher',
diz Kalassa. 'É como se ela tivesse sofrido uma espécie de trauma
sexual, que provoca a fragmentação de sua mente', observa Tatiana.
'Mas a trajetória é positiva, ela junta os cacos e passa por um
processo de reintegração', completa Elaine.
A dramaturgia incorpora, com surpreendente pertinência, frases de
outras peças do autor, como Vestido de Noiva e Sete Gatinhos. 'Hebe
é uma estudiosa da obra de Nelson Rodrigues e trabalhou sobre suas
recorrências e obsessões', diz Kalassa sobre a diretora que, no
momento, está na França, em temporada de estudos. Em sua
dramaturgia, é realmente muito interessante a forma como as atrizes
trazem para a cena diversas vozes, dos familiares às vizinhas,
passando pelo médico da família. 'Como em Vestido de Noiva, há nesta
peça os diversos planos, do delírio, da memória e da realidade, só
que mais difusos', observa Elaine.
Embora trabalhe no campo da sugestão, o espetáculo tem um desenho
bastante claro. De início, a fragmentação de sua mente é
representada pela forma como cada uma das atrizes assume um aspecto
de seu comportamento, por elas assim definido: Kalassa é a
categoria; Priscilla, a fálica; Tatiana, a menina; Elaine, a
obsessiva. Aos poucos, esses aspectos vão se integrando. O figurino
de Rino Carvalho tem função dramática e é muito sugestivo: remete
ora à infância, ora ao casamento, ora a rituais religiosos, e ainda
à passagem da menina para a mulher, na aparição de uma fita vermelha
quando as saias se soltam. Chama atenção a cenografia, de Eliézer
Rolim, a iluminação, de Fábio Espírito Santo e ainda a movimentação
em cena, dinâmica e bem coreografada.
SERVIÇO
InSônia. 14 anos. 45 min. Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista -
Espaço Décimo Primeiro Andar (50 lug.). Av. Paulista, 119, telefone
3179-3700. 4.ª e 5.ª, 19 h. R$ 8. Até 14/12