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A versão baiana da Valsa n.º 6

02/12/2006

 

Chega à cidade InSônia, a elogiada adaptação da peça de Nelson Rodrigues

Beth Néspoli

Merece ser aproveitada a oportunidade de ver uma boa montagem teatral criada fora do eixo Rio-São Paulo. Melhor ainda se o ponto de partida não é o de quem busca a inserção no circuito comercial visando à criação de um produto capaz de agradar a um suposto gosto médio, mas o da investigação teatral. Esse é o caso de InSônia, espetáculo criado em Salvador, uma bonita e original concepção do monólogo Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, no Sesc da Avenida Paulista. O espetáculo tem adaptação e direção de Hebe Alves e, no elenco, Elaine Cardim, Tatiana Lima, Kalassa Lemos e Priscilla Alpha, da companhia baiana A4.

InSônia estreou em Salvador no ano 2000 e sua longevidade é prova do acerto dessa criação, a primeira do grupo A4, que acabou por conseguir realmente atingir um público amplo e diversificado, sem abrir mão da inteligência e da sugestão em cena. 'Mas a gente não consegue se livrar da maldição do primeiro trabalho', brincam as atrizes, sobre o fato de os convites recaírem sempre sobre esse espetáculo de estréia - visto pelo Estado no festival de Londrina -, que já participou de vários festivais nacionais, projetos de circulação e até do festival internacional de teatro de Bucareste, na Romênia.

No original, um solo de Sônia, o texto sugere ser ela uma menina assassinada aos 15 anos, que tenta entender o que lhe aconteceu no intervalo entre a punhalada e sua morte. 'Na adaptação de Hebe, essa morte é simbólica e ela vive uma passagem, da menina para a mulher', diz Kalassa. 'É como se ela tivesse sofrido uma espécie de trauma sexual, que provoca a fragmentação de sua mente', observa Tatiana. 'Mas a trajetória é positiva, ela junta os cacos e passa por um processo de reintegração', completa Elaine.

A dramaturgia incorpora, com surpreendente pertinência, frases de outras peças do autor, como Vestido de Noiva e Sete Gatinhos. 'Hebe é uma estudiosa da obra de Nelson Rodrigues e trabalhou sobre suas recorrências e obsessões', diz Kalassa sobre a diretora que, no momento, está na França, em temporada de estudos. Em sua dramaturgia, é realmente muito interessante a forma como as atrizes trazem para a cena diversas vozes, dos familiares às vizinhas, passando pelo médico da família. 'Como em Vestido de Noiva, há nesta peça os diversos planos, do delírio, da memória e da realidade, só que mais difusos', observa Elaine.

Embora trabalhe no campo da sugestão, o espetáculo tem um desenho bastante claro. De início, a fragmentação de sua mente é representada pela forma como cada uma das atrizes assume um aspecto de seu comportamento, por elas assim definido: Kalassa é a categoria; Priscilla, a fálica; Tatiana, a menina; Elaine, a obsessiva. Aos poucos, esses aspectos vão se integrando. O figurino de Rino Carvalho tem função dramática e é muito sugestivo: remete ora à infância, ora ao casamento, ora a rituais religiosos, e ainda à passagem da menina para a mulher, na aparição de uma fita vermelha quando as saias se soltam. Chama atenção a cenografia, de Eliézer Rolim, a iluminação, de Fábio Espírito Santo e ainda a movimentação em cena, dinâmica e bem coreografada.

SERVIÇO
InSônia. 14 anos. 45 min. Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista - Espaço Décimo Primeiro Andar (50 lug.). Av. Paulista, 119, telefone 3179-3700. 4.ª e 5.ª, 19 h. R$ 8. Até 14/12

(© Agência Estado)


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